OS DOZE PROFETAS MENORES

 

Capítulo 1  

 

Oséias, o Profeta do Amor

 

I – Nome e personalidade – O nome de Oséias, como os de Josué e Jesus, provenientes da mesma raiz hebraica, significa “salvação”, “ajuda” e “libertação”. É provável que  o profeta fosse natural de Israel do Norte, segundo indicam suas freqüentes alusões ao Líbano, Samaria, Betel, Jezreel e Ramá. Diz Ewald que “Em cada declaração parece que Oséias não apenas havia visitado o reino de Efraim como o havia feito Amós, mas conhecia-o do mais profundo do seu coração, segundo todos os seus feitos, propósitos e sortes, com os profundos sentimentos edificados por uma simpatia tal, que é concebível somente no caso de um profeta nativo”. Como um filho do campo, como um rústico, Oseías sacou muitas de suas pequenas e encantadoras figuras do lar, do horto e do rancho, conforme os versos Oséias 4:16; 7:4-8; 8:7; 10:11; 11:4; 13:3,15; 14:7. Aqui se encontram os contrastes com Amós, o qual retrata as áridas montanhas de Judá e o Mar Morto.

         Oséias é o missionário nacional de Israel do Norte, assim como Jonas o foi do exterior. Ele era manso, pensativo, inclinado à melancolia, mas também franco, afetuoso e cheio de patriotismo.  Ele foi o Jeremias do reino setentrional e, como este, foi pouco menos que um mártir prefigurando a Pessoa de Cristo. Ambos foram ardentes patriotas, possuindo natureza religiosa e altamente sensível. Jeremias foi mais consciente de si mesmo em sua dor. Oséias foi mais delicado e controlado. Jeremias foi mais um teólogo, Oséias foi mais um poeta. Seu livro é uma profecia e ao mesmo tempo também, um dos mais evangélicos. Isso não se deve a nenhuma das predições especiais messiânicas nele contidas, mas ao fato de anunciar com séculos de antecipação “o novo mandamento” dos evangelhos, tendo sido ele o primeiro dos videntes a compreender a verdade de que Deus é amor e de que o pecado maior de Israel foi não ter reconhecido o amor de Deus. Por isso Oséias foi o evangelista João do Velho Testamento.

II – O seu tempo – O título do seu livro diz: “PALAVRA do SENHOR, que foi dirigida a Oséias, filho de Beeri, nos dias de Uzias, Jotão, Acaz, Ezequias, reis de Judá, e nos dias de Jeroboão, filho de Joás, rei de Israel (Oséias 1:1). Por isso Oséias, como Amós, começou a profetizar em tempo de grande prosperidade, tendo deixado de fazê-lo quando a nação lutava contra o poder da anarquia.

         Durante os seus primeiros anos, Jeroboão II era um grande monarca, uma espécie de Luiz XIV de Samaria. Ele encabeçava um despotismo militar arrogante, como um verdadeiro descendente de Jaú. Em seus dias, Israel esteve no ápice da prosperidade militar, mas, ao mesmo tempo, despencava com rapidez na corrupção moral. O II Livro de Reis nos informa que na morte de Jeroboão aconteceram dissensões internas, com políticos rivais sacrificando os interesses  da nação aos seus próprios interesses, com príncipes corruptos tornando-se reis ilegais, com o poder nacional declinando seriamente. “O rei de Samaria será desfeito como a espuma sobre a face da água” (Oséias 10:7). Jeroboão foi, realmente, o último homem forte de Israel. Dos seis reis que o sucederam, somente Menaém morreu de morte natural. “Conspiração” era a chave da história desse período, conforme  a II Reis 15. Zacarias reinou por seis meses, Salum, por um mês apenas. Em seu desespero, primeiro os reis se inclinavam numa direção, em seguida noutra, havendo logo um ou outro que se inclinava pela ajuda estrangeira, pagando tributo alternadamente à Assíria e ao Egito, até perderem definitivamente a independência e a autonomia nacional, esgotando os seus recursos e vendo-se forçados a se tornarem vassalos da Assíria. Quando acabou a sua independência, o declínio veio rápido. Para um patriota como Oséias, era terrível pedir ajuda aos governos estrangeiros (Oséias 8:9 e 10:6). Semelhante política não remediava a enfermidade moral da nação (Oséias 5:13). Inconscientemente, Efraim se tornou prematuramente velho, com “as cãs se espalhando sobre ele”, conforme Oséias 7:9. Todas as classes da sociedade se desmoralizavam. Além disso, os sacerdotes se tornaram bandidos, regozijando-se com os pecados do povo, pois estes lhes aumentavam os rendimentos.

         As coisas iam de mal a pior, até que o profeta exclamou: “OUVI a palavra do SENHOR, vós filhos de Israel, porque o SENHOR tem uma contenda com os habitantes da terra; porque na terra não há verdade, nem benignidade, nem conhecimento de Deus. Só permanecem o perjurar, o mentir, o matar, o furtar e o adulterar; fazem violência, um ato sanguinário segue imediatamente a outro” (Oséias 4:1-2). As condições eram terríveis. A religião havia se transformado na idolatria mais sensual. A vida familiar se fez dissoluta, razão pela qual o profeta a condenou mais que tudo. Para expressar o seu desespero, ele usou a palavra “fornicação” nada menos de 16 vezes. Como diz Davidson: “Oséias viveu, talvez, durante o tempo mais turbulento e inquieto jamais  experimentado por Israel no passado”. A fúria das distintas facções era como o calor ardente: “Todos eles são adúlteros; são semelhantes ao forno aceso pelo padeiro, que cessa de mexer nas brasas, depois que amassou a massa, até que seja levedada” (Oséias 7:4). Em toda parte havia oposição entre os homens, sendo desesperadora a perspectiva da nação. O sol de Israel ia se pondo e somente um profeta poderia discernir o trágico fim da nação. De fato, pouco tempo depois que Oséias deixou de profetizar, o povo foi levado cativo para a Assíria pelo rei Sargão (II Reis 17).

III - Duração do ministério de Oséias – Alguns crêem que o seu ministério ativo perdurou apenas dez anos. Essa opinião se apóia nas referências do profeta a Gileade, em Oséias 6:8 e 12:11, as quais parecem indicar que o profeta ignorava a guerra entre a Síria e Efraim (734 a.C). Contudo, mais recentemente, Alt declarou que Oséias 5:8 a 6:3 se referem claramente a essa guerra. Além disso, o papel representado  pelos egípcios em Oséias 7:11; 9:3,6;11:5 e 12:1, como contrapeso à Assíria, parece, conforme observa Sellin, levar-nos ao tempo de Oséias, o último rei do reino setentrional. Junte-se a isso a alusão do profeta, em Oséias 10:14, ao saque de Bete-Arbel por Salmã, o que nos leva a 725 a.C, visto como provavelmente foi nesse ano que Salmaneser IV (que pode ser identificado como Salmã) tomou Bete-Arbel. Conforme  II Reis 17:3,4, Salmaneser invadiu Canaã duas vezes: primeiro, quando tomou Bete-Arbel, impondo tributo a Israel setentrional, e depois, no tempo do rei Oséias, quando este quebrou o pacto combinado. Ao contrário de Wellhausen, Nowack e outros, que negam a genuinidade de Oséias 10:14, dizendo que se trata de Salmaneser IV, afirmam que se trata de uma adição posterior, visto que Oséias terminou o seu ministério antes do rei Oséias ter subido ao trono, achamos melhor acreditar que as profecias de Oséias se estenderam sobre um considerável período da história de Israel, o qual poderia ser colocado entre 750 e 725 a.C.

IV – A vocação de Oséias - (Capítulos 1-3). A história pessoal de Oséias pode ser interpretada como um símbolo pessoal da experiência de Javé com Israel e pode ser considerada como a chave do seu ensino. Com delicadeza e sem egoísmo, ele narra a trágica história de sua vida familiar. Esta infundiu como um fogo em sua alma duas idéias: o amor e a fidelidade de Javé por Israel e a infidelidade e ingratidão de Israel para com Javé. Vejamos o que dizem os versos 1:1,2 de Oséias: “PALAVRA do SENHOR, que foi dirigida a Oséias, filho de Beeri, nos dias de Uzias, Jotão, Acaz, Ezequias, reis de Judá, e nos dias de Jeroboão, filho de Joás, rei de Israel. O princípio da palavra do SENHOR por meio de Oséias. Disse, pois, o SENHOR a Oséias: Vai, toma uma mulher de prostituições, e filhos de prostituição; porque a terra certamente se prostitui, desviando-se do SENHOR”. A mulher escolhida foi Gomer, a qual lhe deu dois filhos e uma filha: Jizreel (vingança), Lo-Ruama (sem compaixão) e Lo-Ami (vós não sois meu povo), nomes que significavam o julgamento que, inevitavelmente, iria recair sobre a casa de Jeú. Gomer era infiel aos votos matrimoniais. Metendo-se em orgias desenfreadas a Baal e Asterote, ela caiu na escravidão sensual. Logo em seguida, Oséias a redimiu por 15 siclos de prata e 1,5 ômer de cevada (Oséias 3:2). Desse modo, pelas amarguras sofridas no próprio lar, o profeta aprendeu o amor inextinguível de Javé. Toda a sua história conduz à experiência da realidade. De fato, somente com uma história verdadeira as palavras do profeta poderiam surtir efeito. Sua própria experiência serviu  como um espelho vivo das relações infiéis de Israel para com Javé. É inútil objetar a interpretação literal de todos os capítulos de Oséias. Pois se forem tomados apenas com figurados ou alegóricos, tal interpretação seria uma censura à verdadeira esposa do profeta, se é que ele era casado. E também poderia ser contra o próprio profeta, caso ele não fosse casado.  Toda a história, inclusive o capítulo 3, é uma peça única, referindo-se os capítulos 1 e 3 à mesma mulher e ao mesmo mandato de Javé para que Oséias se casasse com uma rameira. Semelhante pensamento é tremendamente repulsivo às nossas concepções modernas e muito mais o era à mente dos antigos hebreus. Muitos supõem que Gomer havia sido uma mulher pura, até a época do seu casamento, apenas que ela possuía tendências latentes a uma vida imoral. Isso foi ensinado por Ambrósio, Teodoreto, Cirilo de Alexandria e Teodoro de Mopsuéstia. Não que Oséias, com os seus olhos bem abertos, tivesse casado com uma mulher que já possuía má fama, como afirmam outros, porque diz Davidson: “Supor que Javé havia mandado o seu profeta se unir com uma mulher já conhecida pela sua vida impura é absurdo e monstruoso”. Em todo caso, temos o exemplo de uma esposa má, que fez o profeta ser bom. Contudo, não poderia Gomer ter sido antes do casamento uma prostituta sagrada? “Uma mulher sagrada” (pois a palavra “rameira” significa “mulher  sagrada”) uma mulher que o profeta teria comprado do santuário ao qual ela pertencia? A fornicação sacramental era uma característica normal nas religiões politeístas, conforme a natureza dos cultos pagãos. Ainda hoje isso é normal na Índia. E assim foi na religião greco-romana influenciada pelos cultos asiáticos. Não é, portanto, impossível que uma “santidade religiosa” fosse atribuída a semelhante matrimônio e que esse ato de Oséias fosse olhado, de fato, como legítimo e meritório.

         Em todo o caso, a eleição que Oséias fez de Gomer apresenta um problema na Providência divina, o qual não tem paralelo, a não ser na eleição de Judas Iscariotes feita por Jesus. Certamente pode ter havido uma exceção de moralidade social, talvez encoberta ao povo, mas conhecida por Javé. Essa teoria ajuda a explicar a psicologia do desenrolar religioso de Oséias. Em toda a literatura mundial não existe uma história de amor que se compare à de Oséias. Sua paixão por Gomer não era simplesmente uma forte explosão de sentimento. Era, antes de tudo, um fogo consumidor encerrado em seus ossos, o qual nenhuma infidelidade de Gomer poderia abrandar e nem o sofrimento pessoal de Oséias poderia extinguir. O profeta descobriu, por causa da traição de Gomer, e do afeto e lealdade dele, que não existe amor sem sofrimento. Ao mesmo tempo em que não existe sofrimento sem amor. Por isso ele é chamado, apropriadamente, o “Menestrel dos Profetas”, isto é, “O Profeta do Amor”.

V - A mensagem de Oséias - (Capítulos 4-14) - A análise do livro de Oséias é quase impossível. Sem dúvida, em toda parte a sua personalidade é revelada, a maior parte, provavelmente, pelas muitas notas colecionadas com esmero, durante anos. Com muita propriedade esse livro tem sido descoberto como um “amplo monólogo apaixonado, interrompido por soluços”. Ou então, como dizem outros: “mais soluços do que palavras”, o que se torna claro: os capítulos 1-3 falam do mensageiro, enquanto os capítulos de 4-14 falam da mensagem. A primeira seção é uma espécie de autobiografia espiritual, meio narrativa, meio profética, com o confesso amante atormentado à causa de um coração, o qual, pela angústia do amor humano ultrajado, conquistou o segredo do amor divino. A segunda seção consiste numa série de homilias, meros fragmentos de admoestação e promessas, sem quaisquer divisões claramente indicadas. A razão desse tipo mesclado e desconexo de discurso profético se torna perfeitamente clara, especialmente quando reconhecemos que a teologia de Oséias é a do coração em vez da teologia da cabeça. Muitos esforços têm sido feitos  para traçar uma ordem cronológica nos extratos dos capítulos 4-14. Assim, Ewald opinava ter descoberto até mesmo um arranjo artístico e poético, conforme veremos a seguir: 1. Caps. 4:1 a 6:11a – a acusação. 2. Caps. 6:11-b a 9:9 – o castigo. 3. Caps. 9:10 a 14:9 – o passado e o futuro de Israel. Mesmo assim, é melhor considerar que as idéias da profecia de Oséias, por estarem limitadas em número, foram repetidas com freqüência e que o desenrolar e a ordem cronológica foram quase completamente desconsiderados. De fato, os ensinos principais de todo o livro podem ser resumidos em apenas três palavras: lamentação, condenação e consolação, não se podendo discernir qualquer  progresso, a não ser o andamento geral, desde: 1). A culpabilidade de Israel. 2). O castigo. 3). A restauração final. Existe uma monotonia de dor em cada parte do livro, do mesmo modo como existe em “Lamentações de Jeremias”, a qual se expressa em distintas variedades de frases e cadência, que comovem o coração. Apesar disso, é possível traçar, por propósitos homiléticos, os sucessivos passos na destruição nacional de Israel, como segue:

1º. - a falta de conhecimento, conforme o verso Os 4:6: “O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento; porque tu rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; e, visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos”.  Isto significa “falta de bom senso”, acusação fundamental de Oséias. A nação ignora a lei de Deus. O povo é sensivelmente estúpido, sem juízo, conforme diz o verso Oséias 4:11: “A luxúria, e o vinho, e o mosto tiram o coração”.

A palavra “coração” em Hebraico equivale à palavra “senso”. Desse modo, a repreensão fundamental do profeta é intelectual.

2º. - O orgulho - (verso 5:5) - “A soberba de Israel testificará no seu rosto; e Israel e Efraim cairão pela sua injustiça, e Judá cairá juntamente com eles”. Isso quer dizer que Israel tem um coração enfermo. O povo não somente era patriota como era também arrogante. Efraim tentou rivalizar com os pagãos como um poder mundano. A prosperidade de Jeroboão se tornou em tropeço para a nação. A honra nacional se tornou sinônimo de fornicação nacional. Ao lermos estas palavras recordamos o que disse o poeta James Russell Lowell (1819-1891) em Harvard, quando essa universidade completou 250 anos (1886):

         “Entristeço-me, quando vejo que o nosso êxito como nação é medido pelo número de acres cultivados e das grandes quantidades de trigo exportadas, pois o verdadeiro valor de um país deve ser pesado em balanças mais precisas do que a balança comercial. Os jardins da Sicília agora estão vazios, porém as abelhas de todos os climas ainda trazem mel do pequeno jardim de Teócrito. No mapa mundi pode se tapar a Judéia com o polegar, Atenas com a ponta do dedo, nenhuma das duas sendo mencionada no mundo comercial. Contudo, elas ainda perduram no pensamento e nas ações do homem civilizado. Dante não tapou com o seu gorro todos os que habitam a Itália nos últimos 600 anos? E se regressarmos um século, onde estava a Alemanha, senão em Weimar? O êxito material é bom, mas apenas como uma preliminar necessária a coisas melhores. A medida do verdadeiro sucesso de uma nação é a quantidade em que esta terá contribuído ao pensamento, à energia moral, à felicidade intelectual, à esperança e ao consolo espiritual da humanidade”.

3º. - Instabilidade - (Verso 6:6) – “Por isso os abati pelos profetas; pelas palavras da minha boca os matei; e os teus juízos sairão como a luz...”

4º. - Mundanismo - (Versos 7-8) - “Mas eles transgrediram a aliança, como Adão; eles se portaram aleivosamente contra mim. Gileade é a cidade dos que praticam iniqüidade, manchada de sangue”. Isso quer dizer que a política da nação era má. Por falta de entendimento, Efraim buscou alianças com o Egito e a Assíria, tratando Javé de modo leviano. A nação, sem dúvida, havia sido comandada estritamente pelo grande Legislador a ficar separada dos outros povos. Além disso, Efraim era uma torta, ao redor da qual não se havia dado volta, meio cozida de um lado e meio queimada do outro. Alguns eram demasiadamente ricos, outros pobres ao extremo, fervorosos na política, frios na religião, ficando demasiadamente separados nos extremos da sociedade.

5º. - A corrupção - (Versos 9:9-10) – “Muito profundamente se corromperam, como nos dias de Gibeá; ele lembrar-se-á das suas injustiças, visitará os pecados deles. Achei a Israel como uvas no deserto, vi a vossos pais como a fruta temporã da figueira no seu princípio; mas eles foram para Baal-Peor, e se consagraram a essa vergonha, e se tornaram abomináveis como aquilo que amaram”. A religião estava apodrecida. Era extrema a corrupção na política, como era imperdoável na religião. Israel praticava a fornicação espiritual, disfarçada sob a capa da religião, buscando a Baal-Peor.

6º. Apostasia - (Verso 11:7) - “Porque o meu povo é inclinado a desviar-se de mim; ainda que chamam ao Altíssimo, nenhum deles o exalta”. A apostasia já se transformara num hábito. Os homens pereciam por causa dos seus próprios conselhos perniciosos, conforme o verso 11:6: “E cairá a espada sobre as suas cidades, e consumirá os seus ramos, e os devorará, por causa dos seus próprios conselhos”. A vingança contra o mal era preparada pela própria nação e seus conselheiros. Mesmo assim, Javé deseja salvá-la, como vemos no verso 11:8: “Como te deixaria, ó Efraim? Como te entregaria, ó Israel? Como te faria como Admá? Te poria como Zeboim? Está comovido em mim o meu coração, as minhas compaixões à uma se acendem”.  (Ver Salmos 23:6).

7º. - A idolatria - (Verso 13:2) - “E agora multiplicaram pecados, e da sua prata fizeram uma imagem de fundição, ídolos segundo o seu entendimento, todos obra de artífices, dos quais dizem: Os homens que sacrificam beijem os bezerros”. Israel foi realmente culpado de completo abandono ao Senhor. Profeta algum jamais menosprezou os deuses fabricados como o fez Oséias. De fato, ele denunciou os pecados de Israel nesse tipo de infidelidade a Javé.

         Foram sete os passos principais dados por Israel rumo à sua destruição, conduzindo-a diretamente à ruína nacional. Contudo, o livro de Oséias não se encerra sem uma oferta de graça para a redenção do país, conforme o capítulo 14. Mesmo sendo culpada diante de Javé, sem dúvida alguma, através do arrependimento a sua restauração não é. Vejamos como Javé iria responder, nos versos 14:2, 4: “Tomai convosco palavras, e convertei-vos ao SENHOR; dizei-lhe: Tira toda a iniqüidade, e aceita o que é bom; e ofereceremos como novilhos os sacrifícios dos nossos lábios... Eu sararei a sua infidelidade, eu voluntariamente os amarei; porque a minha ira se apartou deles”. Aqui Javé dá uma nova oportunidade a Efraim. O Seu AMOR prevalece, pois o amor é maior do que a Lei. Quando Efraim peca contra a Lei ele é cortado, mas quando peca contra o amor é destruído. A misericórdia deve triunfar sobre o juízo. Assim Oséias tem em essência a mesma teologia de Amós, somente que a demonstra com mais profundidade. Embasado no amor de Deus, Oséias é o profeta da GRAÇA. Ele antecipou o Calvário e em sentido muito real se preparou para isso, conforme o verso 14:9: “Quem é sábio, para que entenda estas coisas? Quem é prudente, para que as saiba? Porque os caminhos do SENHOR são retos, e os justos andarão neles, mas os transgressores neles cairão”. Isso quer dizer que quem deseja ser sábio, que estude a Bíblia e com ela aprenda: 1. que os caminhos de Javé são retos. 2. que os destinos dos homens são determinados pela sua atitude em relação à vontade divina.

VI - A mensagem de Oséias para nós - Oséias nos ensina uma lição geral de valor permanente: que a corrupção interior de uma nação coloca a sua existência em maior perigo do que os seus inimigos. Outra lição semelhante, estreitamente relacionada com esta, é que o patriota mais fiel é aquele que, como Oséias, identifica-se com o seu povo, sentindo tristeza por suas calamidade como se fossem suas, arrependendo-se dos seus pecados, como se ele próprio os tivesse cometido. A mensagem de Oséias, portanto, jamais se tornará obsoleta. O Deus da história antiga é o mesmo Deus da história moderna. Todos os eventos nacionais continuam sob a superintendência divina. Contudo, o Deus de Israel escolheu os Seus agentes, tanto nacionais como individuais.

Esta é a lição permanente ensinada por Oséias. Outras lições específicas são as seguintes:

1ª. - A loucura de sacrificar os interesses nacionais para ganhar vantagens pessoais. (Os 5:10-11).

2ª. - Sentir pesar e não tolerar o vício (Os 4:13-19).

3ª. - Declínio rápido de uma nação, quando se corrompem os ministros da religião, pois o verso 4:9 diz: “Por isso, como é o povo, assim será o sacerdote; e castigá-lo-ei segundo os seus caminhos, e dar-lhe-ei a recompensa das suas obras”.

4ª. - O castigo quando se descuida a lei de Deus – Versos 4:6 e 8:1,12: “O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento; porque tu rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; e, visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos... PÕE a trombeta à tua boca. Ele virá como a águia contra a casa do SENHOR, porque transgrediram a minha aliança, e se rebelaram contra a minha lei... Escrevi-lhe as grandezas da minha lei, porém essas são estimadas como coisa estranha”.

5ª. - O desejo paternal de mostrar misericórdia - “hesed”. Esta palavra hebraica, tantas vezes encontrada o Livro de Salmos, tem uma significação muito parecida com a palavra “graça” no Novo Testamento. Ela é usada seis vezes por Oséias (Oséias 2:9; 4:1; 6:6; 10:12; e 12:6), devendo ser traduzida por compaixão, misericórdia e bondade. Por isso Oséias é considerado “O Profeta do Amor”. Amós jamais empregou esse termo. Para Oséias ele tinha a mesma significação da expressão escocesa “graça leal”, isto é, amor com lealdade, incluindo tanto o amor a Deus como aos semelhantes. Oséias foi o evangelista no novo evangelho. “Se o Salmo 22 é o Calvário do Velho Testamento, Oséias é o seu Getsêmani”.  Ecos do profeta são ouvidos no Novo Testamento, ou seja, Oséias 11:1, em Mateus 2:15; Oséias 10:8, em Lucas 23:30; Oséias 2:23, em 1 Pedro 2:10; Oséias 6:6, em Mateus 9:13 e 12:7.

VII – Grandes passagens de Oséias - Isto é, textos dignos de serem mastigados, digeridos e relembrados.

1. - Oséias 6:6: “Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos”.  Esta passagem exercia um fascínio especial sobre Jesus, conforme Mateus 9:13 e 12:7: “Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento... Mas, se vós soubésseis o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício, não condenaríeis os inocentes”.

 2. - Oséias 11:8 - “Como te deixaria, ó Efraim? Como te entregaria, ó Israel? Como te faria como Admá? Te poria como Zeboim? Está comovido em mim o meu coração, as minhas compaixões à uma se acendem”. Talvez seja esta a passagem mais significativa do livro de Oséias.

3. - Oséias 6:3 - “Então conheçamos, e prossigamos em conhecer ao SENHOR; a sua saída, como a alva, é certa; e ele a nós virá como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra”. Esta é uma exortação notável demais para ter-se originado no século 8 a.C.

4. - Oséias 4:17: “Efraim está entregue aos ídolos; deixa-o”, para que não sejas contagiado por ele.

5. - Oséias 7:9b - “... também as cãs se espalharam sobre ele, e não o sabe”. Este é um sugestivo epigrama.

6. - Oséias 8:7: “Porque semearam vento, e segarão tormenta, não haverá seara, a erva não dará farinha; se a der, tragá-la-ão os estrangeiros”. Uma antecipação de Paulo Apóstolo, em Gálatas 6:7.

7. - Oséias 8:12: “Escrevi-lhe as grandezas da minha lei, porém essas são estimadas como coisa estranha”. Donde se conclui que no tempo de Oséias já existia uma volumosa literatura religiosa.

8. - Oséias 9:14: “Dá-lhes, ó SENHOR; mas que lhes darás? Dá-lhes uma madre que aborte e seios secos”. Estranha imprecação a ser encontrada nos escritos do “Profeta do Amor”. (Comparar com Oséias 13:14-16).

9. - Oséias 10:8 - “E os altos de Áven, pecado de Israel, serão destruídos; espinhos e cardos crescerão sobre os seus altares; e dirão aos montes: Cobri-nos! E aos outeiros: Caí sobre nós!”. Esta profecia é repetida em Apocalipse 6:16: “E diziam aos montes e aos rochedos: Caí sobre nós, e escondei-nos do rosto daquele que está assentado sobre o trono, e da ira do Cordeiro” - pelo Apóstolo do Amor.

10. - Oséias 10:12 - “Semeai para vós em justiça, ceifai segundo a misericórdia; lavrai o campo de lavoura; porque é tempo de buscar ao SENHOR, até que venha e chova a justiça sobre vós”. Este verso se aplica a todas as gerações e em todos os tempos. Sem buscar o nosso Deus estaremos todos perdidos.

11. - Oséias 11:9 - “Não executarei o furor da minha ira; não voltarei para destruir a Efraim, porque eu sou Deus e não homem, o Santo no meio de ti; eu não entrarei na cidade”. Ele vai voltar, sim, mas para salvar o Seu povo.

12. - Oséias 13:4: “Todavia, eu sou o SENHOR teu Deus desde a terra do Egito; portanto não reconhecerás outro deus além de mim, porque não há Salvador senão eu”. Esta passagem é encontrada freqüentemente em Isaías 44-66.

13. - Oséias 14:9 - “Quem é sábio, para que entenda estas coisas? Quem é prudente, para que as saiba? Porque os caminhos do SENHOR são retos, e os justos andarão neles, mas os transgressores neles cairão”. Esta é uma indagação final, com as palavras de Ezequiel, Naum e Sofonias, respectivamente, resumindo o espírito de todo o ensino de Oséias.

14. - Aqui temos alguns epigramas notáveis, do tipo: “Como é o povo, assim será o sacerdote” (Oséias 4:9). “O rei de Samaria será desfeito como a espuma sobre a face da água” (Oséias 10:7). “Atraí-os com cordas humanas, com laços de amor... (Oséias 11:4). “Efraim se mistura com os povos; Efraim é um bolo que não foi virado” (Oséias 7:8).

 

 

 

 

 

 

Capítulo 2

 

Joel, o profeta do Pentecostes

 

I – A personalidade do profeta - Nada se sabe a respeito da naturalidade nem da biografia de Joel, estando sua carreira e personalidade envoltas em obscuridade. Apenas algumas deduções podem ser feitas com segurança através dos seus escritos. Idêntico silêncio sobre os agentes espirituais de Deus não é coisa rara no Velho Testamento, visto como outros têm sido apresentados dessa maneira fora do comum. Talvez o propósito para isso tenha sido a glória de Deus e não a dos profetas. Contudo, diz-se que o profeta é filho de Petuel, supondo-se que este nome signifique “Persuadido por Deus” (Joel 1:1).

         O próprio nome de Joel - em Hebraico “Yo-el” - significa “Javé é Deus” e por isso, como o nome “Miquéias”, parece conter uma breve confissão de fé, a qual, provavelmente, reflete a piedade de seus pais judeus. Esse nome aparece com freqüência no Velho Testamento, havendo pelo menos uma dúzia de outros homens com o mesmo nome, como por exemplo, Joel, filho de Samuel e pai de Hemã, o  cantor (1 Samuel 8:2; 1 Crônica 6:33). Joel é também o nome de um dos valentes de Davi, irmão de Natã (1 Crônicas 11:38).

         É provável que o profeta tenha nascido em Judá, talvez próximo de Jerusalém, visto como fala familiarmente de “Sião”, dos “filhos de Sião” (Joel 2:1,23), de “Judá e Jerusalém”. Pelo seu interesse no templo tem-se deduzido também que ele foi um sacerdote (Joel 1: 13-17). De todos os modos, pelas suas profecias torna-se muito evidente que não apenas foi um poeta e homem de oração, como um vidente e profeta no sentido mais amplo. Por ter pregado com ênfase divina o arrependimento e anunciado (o primeiro a fazer isso) a vinda do grande e terrível “Dia do Senhor” (Joel 2:11,31), ele pode até ter pertencido a um dos grêmios da história primitiva hebraica conhecidos como “os filhos dos profetas”.

II – Esboço e conteúdo - Existem apenas duas divisões principais no Livro de Joel: 1) Caps. 1:23 a 2:17 (37 versos), nos quais o profeta fala, descrevendo mui graficamente uma praga de gafanhotos, acompanhada de uma seca, terminando com uma fervorosa exortação ao arrependimento. 2) Joel 2:18 a 3:21, (36 versos), nos quais Javé fala, anunciando em linguagem solene a condenação final dos inimigos de Israel e terminando com uma descrição da gloriosa vitória do povo de Deus. A primeira metade do livro começa com trevas e termina com luz. A segunda metade começa com juízo e termina em vitória. Realmente apenas um grande pensamento constitui toda a mensagem do profeta. Poder-se-ia intitular “a parábola dos gafanhotos” ao que ela nos ensina. Porque o livro de Joel não consiste, como tantos do Velho Testamento, de notas esparsas de um amplo ministério profético, o qual se estende por vários anos, mas se ocupa da descrição de um único incidente com aplicação moral e espiritual.

III - A ocasião - É óbvio que Joel tomou como seu texto uma praga de gafanhotos comuns, a qual, por algum tempo, havia causado pânico nacional, descrevendo os seus destroços como não tendo paralelo na história da terra. Ele diz em Joel 1:4: “O que ficou da lagarta, o gafanhoto o comeu, e o que ficou do gafanhoto, a locusta o comeu, e o que ficou da locusta, o pulgão o comeu”. Desse modo, pelos quatro sinônimos empregados pelo profeta, tudo indica tratar-se de quatro enxames sucessivos, ou então, como prefere Credner, quatro divisões distintas do mesmo enxame. Por exemplo, primeiro as larvas e erugas, depois os gafanhotos que apenas saltam, e finalmente os grandes gafanhotos já plenamente desenvolvidos, os quais voam.

         Em Joel 2:25 todos são mencionados pela segunda vez, usando-se os mesmos nomes, porém não exatamente na mesma ordem. Desta última passagem pode-se deduzir que a praga perdurou por um considerável período de tempo: “E restituir-vos-ei os anos que comeu o gafanhoto, a locusta, e o pulgão e a lagarta, o meu grande exército que enviei contra vós”. (Comparar com Apocalipse 9:3-10).

         Aos antigos hebreus o nome “gafanhoto” parece ter sugerido tudo que significa  o termo “harpia”, isto é, tudo que é funesto (comparar com Deuteronômio 28:38-42). Seu nome científico é “acridium peregrinum”. As larvas recém incubadas são completamente negras e se assemelham a grandes formigas sem asas. Contudo, ao se desenvolverem, despojam-se da pele externa, que chega a ser-lhes pouca, e passam por três períodos claramente distintos, isto é: o período sem asas, que os árabes chamam “debby”, a erupção dos lábios, quando as asas começam a se desenvolver, a qual é chamada “gowga”, e o gafanhoto que voa com asas bem desenvolvidas, conhecido como “jared”. Os machos são mais charmosos do que as fêmeas e têm um corpo amarelo. As fêmeas são maiores e têm uma cor de café forte. Estas depositam seus ovos no solo, a uma profundidade de 4 polegadas, por mais duro que seja este. Quando os insetos se desenvolvem plenamente, chegam a 2,5 polegadas e suas cabeças parecem com as do cavalo, sendo que os alemães os chamam “Heupferde” (cavalos do feno), enquanto os italianos os chamam “caballeta” ou “caballitos”. Os árabes os chamam “djesh Alah” (exército de Deus). Conforme Joel 2:25. Eles de fato se assemelham a guerreiros voadores, trepam nos muros, penetram nas casas, e fazem estremecer com o barulho de suas asas (Joel 2:7-10). Calcula-se que os gafanhotos voem a uma velocidade de 29 km horários.

IV - A praga de gafanhotos de 1915 em Jerusalém - Uma descrição bem viva desta praga foi publicada por John D. Whiting, na revista National Geographic Magazine, em dezembro de 1915. Disse o Dr. Whiting que a praga começou em fevereiro daquele ano e se estendeu por toda a Palestina e pela Síria, desde as fronteiras do Egito até as montanhas do Tauro. Sabe-se que pragas semelhantes sobrevieram à Palestina nos anos 1845 e 1865 (ano este lembrado pelos árabes como “Sinet al jared” (o ano dos gafanhotos). O mesmo acontecera nos anos 1892, 1899 e 1904.  Os fenômenos seguintes acompanharam a invasão de 1915:

         Um forte barulho foi ouvido, antes dos gafanhotos aparecerem, barulho esse produzido pelos milhares de asas, semelhante a um distante ruído de ondas (Ver Apocalipse 9:9). De repente o sol escureceu. Uma chuva dos seus excrementos caiu, os quais se assemelhavam aos dos ratos. Sua elevação na terra era de centenas de pés. Às vezes eles voavam baixo e outras vezes pousavam sobre a terra. “Pelo menos em Jerusalém eles vieram invariavelmente do Noroeste, dirigindo-se para Sudoeste, estabelecendo a exatidão da narrativa de Joel no capítulo 2:20”, diz o Dr. Whiting. Arrobas deles foram capturadas e sepultadas vivas e muitas foram atiradas em cisternas  e no Mar Mediterrâneo. E quando as ondas as arrojaram na praia, as pessoas as apanhavam para secarem ao sol e em seguida as usavam como combustível nos banhos turcos. Em abril de 1915, o governo publicou uma ordem no sentido de que todo  homem que tivesse entre 16 e 60 anos de idade reunisse diariamente 5 kg de ovos de gafanhotos e os entregassem aos oficiais.

         As cegonhas, que os árabes chamam de “Abu Saad” (pai da boa sorte), das quais havia grande quantidade na Palestina em 1915, devoraram avidamente uma enorme quantidade de gafanhotos, enquanto as galinhas engordaram com esses petiscos.

         O Sr. Aaronsohn, outra testemunha da praga de 1915, testificou que menos de dois meses depois do primeiro aparecimento da praga, os gafanhotos não apenas haviam devorado toda a erva verde, mas ainda todas as árvores, que ficaram desnudas, sem vida, parecendo esqueletos. Os campos foram devastados até o chão. Até mesmo os rostos das crianças árabes, deixadas por suas mães à sombra das árvores, foram dilacerados, antes que as mães pudessem escutar os seus gritos. Os nativos acreditavam que essa praga havia acontecido como castigo divino por causa de sua maldade.

         Foi, portanto, uma calamidade assim que Joel descreveu, a fim de conduzir os lavradores, os viticultores, os sacerdotes e os bêbados ao arrependimento. Na descrição dos seus estragos as feras e animais inferiores pareciam ter sofrido também como os homens, tendo ficado em mudo apelo - sendo a terrível calamidade e seus padecimentos um presságio sobre o terrível “Dia do Senhor” que há de vir.

V - Interpretação dos gafanhotos - Uma questão é apresentada: Devemos interpretar literalmente a praga de gafanhotos de Joel como realmente tendo acontecido no tempo do profeta ou apenas tratá-la alegoricamente e como um acontecimento futuro, assinalando metaforicamente as quatro monarquias hostis ao reino de Deus, conforme o livro de Daniel, isto é, os babilônios, os persas, os gregos e os romanos? Os rabinos judeus e os Pais da Igreja Primitiva inclinaram-se a tratar essa profecia como alegórica, explicando, por exemplo, que o trigo, o mosto e o azeite mencionados em Joel 2:24 se cumprem na igreja, sendo o trigo representado pelo corpo de Cristo, o mosto pelo seu sangue e o azeite pelo Espírito Santo. Claro que tais interpretações não se justificam. Também não se justifica a interpretação dos que olham para os gafanhotos de Joel como realmente gafanhotos, mas não “orthopteras” do deserto, mas como os guerreiros do Livro de Apocalipse, provenientes da tecnologia do final dos tempos, os quais encherão a atmosfera no terrível “Dia do Senhor”. Gabaelein, por exemplo, interpreta os gafanhotos do capítulo 1 como uma cena típica da acontecida na época dos gentios, a partir de Nabucodonosor (Daniel 2:36). Enquanto as do capítulo 2, ele imagina, descrevem o que vai acontecer na segunda metade da 70ª. semana de Daniel, a qual vai preceder a gloriosa vinda do Senhor (Daniel 9:27). Semelhante precisão cronológica seria maravilhosa, se fosse autorizada. A teoria de Merx é o reavivamento da antiga interpretação alegórica e típica. Para Merx o livro de Joel é uma espécie de tipologia apocalíptica, a qual em hipótese alguma se refere ao tempo do profeta. Pois não tendo sido pregada oralmente, como ele supõe, jamais teve o objetivo de ser algo mais que uma obra apocalíptica e escatológica.

         Contudo, é bem melhor a interpretação histórica ou literal, segundo a qual estas profecias, bem como a maior parte das profecias dos livros proféticos, têm sua origem nas circunstâncias do tempo do profeta. Evitar o reconhecimento dos acontecimentos seria fazer da obra de Joel apenas um hábil ensaio, o “Midrash”, sobre a literatura profética anterior. Quão absurdo seria pensar que o profeta está se dirigindo a uma reunião imaginária, quando ele indaga solenemente aos anciãos: “Aconteceu algo assim em vossos dias?” (Joel 1:2) ou quando repreende os sacerdotes dizendo: “Cingi-vos e lamentai-vos, sacerdotes; gemei, ministros do altar; entrai e passai a noite vestidos de saco, ministros do meu Deus; porque a oferta de alimentos, e a libação, foram cortadas da casa de vosso Deus. Santificai um jejum, convocai uma assembléia solene, congregai os anciãos, e todos os moradores desta terra, na casa do SENHOR vosso Deus, e clamai ao SENHOR” (Joel 1:13-14). Ou quando em outra parte ele exorta solenemente o povo: “E rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao SENHOR vosso Deus; porque ele é misericordioso, e compassivo, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e se arrepende do mal. Quem sabe se não se voltará e se arrependerá, e deixará após si uma bênção, em oferta de alimentos e libação para o SENHOR vosso Deus? (Joel 2:13-14).  É bem mais razoável achar que o profeta falava aqui a pessoas de verdade (gente que imaginava tirar a má sorte do ar) do que a uma geração futura e distante.

         Além disso, é manifestamente improvável que o profeta descrevesse um exército de verdadeiros “soldados”, de “homens de guerra” ou que falasse de homens verdadeiros a cavalo “como cavalaria” (Joel 2:4-9). Por isso devemos deduzir que ele, forçosamente, está falando de guerreiros verdadeiros sob a figura de verdadeiros gafanhotos. A única objeção realmente válida a essa interpretação é a que se lê em Joel 2:20: “Mas removerei para longe de vós o exército do norte, e lança-lo-ei em uma terra seca e deserta; a sua frente para o mar oriental, e a sua retaguarda para o mar ocidental; e subirá o seu mau cheiro, e subirá a sua podridão; porque fez grandes coisas”. Entretanto, como já foi visto, os gafanhotos que visitaram Jerusalém em 1915 vieram daquela direção, conforme o testemunho de outras pessoas sobre o acontecimento.

VI - A originalidade de Joel – Em João 7:46 diz-se de Jesus: “...Nunca homem algum falou assim como este homem”. Contudo, Jesus não inventou o alfabeto nem criou o idioma aramaico. O certo é que existe pouca originalidade neste mundo, apenas que alguém pode ser o primeiro a dizer uma certa coisa. Pois Joel é exatamente original neste sentido, possuindo uma individualidade distinta. Elmslie disse: “Ou era uma original cantoria profética ou um derradeiro conglomerado”. Seja qual for o desfecho do profeta, todos temos de confessar que tanto os seus pensamentos como a sua linguagem, mesmo se tomados de empréstimo, passaram pela sua própria mente e dali saíram levando a impressão de sua própria individualidade.

Além disso, reconhecemos que muitos profetas devem ter lido a sua obra, porque ou ele cita quase tudo o que diz ou então foi citado por Amós, Isaías, Miquéias, Naum, Sofonias, Abdias, Ezequiel, Malaquias e também por alguns salmistas.

Riuss opina ser improvável que ele tivesse citado tantos. E, de fato, a impressão geral que se tem ao ler o Livro de Joel é de lisura e continuidade de pensamentos, em lugar de uma servil reprodução. Se Joel é anterior, então os seus pensamentos religiosos podem ser vistos como uma espécie de carta profética, a qual foi citada por escritores subseqüentes. As seguintes considerações favorecem a originalidade de Joel:

1. O Dia do Senhor -  Joel deve ter inventado esta expressão, visto como a deixou no ponto em que Amós e outros profetas posteriores a adotaram. Mesmo que seja uma expressão escatológica, podendo ter sido criada posteriormente, ela é usada nas profecias do Velho Testamento, desde os tempos mais remotos (Ver Amós 5:18 e Isaías 2:12). Provavelmente foi Joel quem inventou esse conceito. Porque o “grande Dia do Juízo”  saiu de sua mão tão profética que seria adotada pelos seus sucessores, os quais apenas puderam acrescentar-lhe um toque. A visão de uma praga de gafanhotos foi a primeira a ser sugerida à mente de Joel.

2. A independência literária -  Dois exemplos bastam para mostrar a pretensão: a) O pensamento em Joel 3:16: “E o SENHOR bramará de Sião, e de Jerusalém fará ouvir a sua voz; e os céus e a terra tremerão, mas o SENHOR será o refúgio do seu povo, e a fortaleza dos filhos de Israel”. Ele é claramente anterior ao que diz Amós 1:2: “... O SENHOR bramará de Sião, e de Jerusalém fará ouvir a sua voz; os prados dos pastores prantearão, e secar-se-á o cume do Carmelo”. Porque em Joel se encontra o clímax da revelação, tendo Amós com ele começado, tomando este como se fora o seu próprio texto. b) Em Joel 3:10 Javé exorta os pagãos: “Forjai espadas das vossas enxadas, e lanças das vossas foices; diga o fraco: Eu sou forte”. Porém em Isaías 2:4 e Miquéias 4:3, foi predito um tempo em que os homens de Judá “... converterão as suas espadas em enxadões [pás] e as suas lanças em foices...”, o que demonstra a precedência de Joel.

3) Derramamento do Espírito - Joel prediz mais explicitamente do que nenhum outro o derramamento do Espírito sobre toda a carne (Joel 2:28-29). Essa predição tem lhe valido o epíteto de “O Profeta do Pentecostes”, mesmo que Joel tivesse apenas uma vaga idéia da verdadeira significação destas palavras no grande programa divino. Para ele talvez não significasse outra coisa além de uma percepção mais clara da verdade por meio de sonhos e visões - um cumprimento do desejo de Moisés, conforme Números 11:29: “Porém, Moisés lhe disse: Tens tu ciúmes por mim? Quem dera que todo o povo do SENHOR fosse profeta, e que o SENHOR pusesse o seu espírito sobre ele!” Pelo visto Joel não era tão profundamente espiritual, pois não começa elevando-se às alturas da comparação com Javé, segundo fala Oséias, nem aos cumes altíssimos da santidade de Javé, conforme Isaías. Ao contrário, ele une aos dons do Espírito bênçãos materiais, tais como a chuva temporã e a serôdia, o mosto, o azeite, a abundância e a satisfação das necessidades humanas (Joel 2:23-26): “E vós, filhos de Sião, regozijai-vos e alegrai-vos no SENHOR vosso Deus, porque ele vos dará em justa medida a chuva temporã; fará descer a chuva no primeiro mês, a temporã e a serôdia. E as eiras se encherão de trigo, e os lagares transbordarão de mosto e de azeite. E restituir-vos-ei os anos que comeu o gafanhoto, a locusta, e o pulgão e a lagarta, o meu grande exército que enviei contra vós. E comereis abundantemente e vos fartareis, e louvareis o nome do SENHOR vosso Deus, que procedeu para convosco maravilhosamente; e o meu povo nunca mais será envergonhado”. Ele trata estas coisas como se relacionando umas às outras, quase como causa e efeito, colocando o material antes do espiritual. Há, portanto, uma originalidade primitiva nesta fase de suas profecias, o que significa escrever a palavra “espírito” em letra minúscula, conforme se vê na edição revisada da BKJ em Inglês. Além disso, a limitada oferta de salvação no verso 32 demonstra a originalidade primitiva do profeta.

VII - Conclusão - Franz Delitzsch declarou, confiantemente, há 40 anos, que a grande antiguidade do profeta Joel é uma “certeza”. Por outro lado, há 20 anos, Cornill afirmou com a mesma ousadia que “poucos resultados da crítica do Velho Testamento são estabelecida tão segura e firmemente como a que o Livro de Joel é datado do século de Esdras e Alexandre, o Grande”.  Calvino foi mais cauteloso, deixando o assunto sem solução. As opiniões da crítica colocam Joel na geração seguinte aos Macabeus. Porém o caráter apocalíptico do livro deve aconselhar o estudante a não ser dogmático demais. Porque ninguém pode adivinhar quando Deus vai revelar-se no Apocalipse.

         Há um fato, sem dúvida, o qual, mais do que nenhum outro, pode determinar a data do livro, que é a sua colocação entre os Doze. Tanto no cânon hebraico como na Septuaginta, Joel está agrupado entre os profetas primitivos que viveram antes do desterro. Desse modo, no cânon hebraico a ordem é a seguinte: Oséias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miquéias, etc., enquanto na Septuaginta é esta: Oséias, Amós, Miquéias, Joel, Abdias, Jonas, etc. Isso mostra que os rabinos da antiguidade consideravam Joel como um dos primeiros profetas. Esse fato cria, portanto, a forte suposição de ter sido ele um profeta anterior. Também, se o livro fora escrito depois, mais ou menos no tempo da canonização dos profetas, pareceria estranho que os encarregados do cânon o tivessem considerado anterior.

         A evidência interna, sem dúvida, merece exame e consideração. E sua preponderância favorece uma origem anterior, como veremos a seguir:

1. Joel não menciona rei algum, assim como também não o fazem Naum, Miquéias e Habacuque.

2. Ele não menciona ídolos nem faz alusão ao Reino do Norte de Israel. Ele pregava para Judá e Jerusalém, onde havia pelo menos um culto nominal a Javé.

3. Ele não menciona a Assíria, assim como também não o faz Amós.

4. Ele fala de “anciãos”, como se estes constituíssem a classe governante do século. Ao contrário do que seriam os “sheiks”  em tempos posteriores (Joel 1:2, 14), estes são apresentados como cidadãos experientes da comunidade e não como oficiais do estado em Joel 2:16, onde são postos em conjunto com as crianças e os bebês de peito.

5. O profeta exibe um grau de devoção aos sacrifícios e ao ritual, porém o verso 2:13 independe de todo o ritual. De fato, nenhum outro profeta apresenta a religião hebraica com menos ritual.

6. Não há denúncias proféticas, enquanto os profetas posteriores ao desterro não deixam de repreender os pecados especiais.

7. Os “gregos” são mencionados como agentes ativos no comércio de escravos em seus dias (Joel 3:6). Contudo, Amós também se queixa do comércio de escravos em seu tempo (Amós 1:6-9) e sabemos, pela arqueologia, que os gregos são mencionados por Sargão II nas taboas de Tel-el-Amarna, no século 14 a.C.

8. Os filisteus são mencionados (Joel 3:4), enquanto quase não  se ouve falar destes após o cativeiro.

9. Edom e Egito também são mencionados (Joel 3:9). Contudo, sabemos que Edom havia se rebelado sob o rei Jorão, no século 9 a.C (2 Reis 8:20-22) e que Sisaque do Egito invadiu Judá no tempo do rei Roboão (1 Reis 14:25-28).

10. Entende-se que Jerusalém fora invadida por estranhos (Joel 3:17), provavelmente por Sisaque, conforme 1 Reis 14:26.

11. O povo é descrito como espalhado, como opróbrio (Joel 3:2) entre as nações (Joel 2:19), porém essa linguagem não parece referir-se à queda de Jerusalém em 586 a.C.

12. Javé promete reverter o cativeiro de Judá e Jerusalém (Joel 3:1-4), enquanto Oséias e Amós, quando falam por si mesmos, prometem a mesma esperança a Israel e na mesma linguagem (Oséias 6:1,11 e Amós 9:14).

13. Joel fala do “remanescente” [ou sobreviventes] (Joel 2:32), palavra usada por Isaías 1:9. Além disso, este conceito expresso em sinônimos distintos é muitíssimo empregado pelos profetas, muito antes do cativeiro babilônico.

14. Finalmente, Joel tomou emprestado dos outros, a não ser que os outros dele tenham tomado emprestado. Calcula-se que 27 frases, clausulas e expressões dos 73 versos do Livro de Joel têm paralelo com outros escritos do Velho Testamento. Porém Joel 2:2 é claramente citado em Sofonias 1:15: “Aquele dia será um dia de indignação, dia de tribulação e de angústia, dia de alvoroço e de assolação, dia de trevas e de escuridão, dia de nuvens e de densas trevas”,  sendo comum às duas citações as frases “de tribulação e de angústia”, “de nuvens e de densas trevas”.  Em Joel elas são uma parte integrante da praga de gafanhotos, quando estes se aproximam, enquanto em Sofonias elas são mais um adorno retórico, reforçando a elaborada descrição do “Dia do Senhor”.

         Pois bem, em sua maior parte estes dados são indefinidos, quando se trata de grande valor para decidir a data da ação do profeta, visto com a história de nenhum período dá uma conta perfeita de todas as referências contidas no livro. Por isso é preciso que nos escoremos novamente na ordem dos Doze, bem como no fato de sua tão clara originalidade. Isso para que possamos crer que Joel floresceu bem cedo na história do reino dividido, talvez nos últimos anos do século 9 a.C. Pode não haver provas suficientes para estabelecer isso, porém é muito mais convincente do que o argumento puramente arbitrário de McFadyen, que diz: “A questão não é somente acadêmica, pois de sua solução vai depender todo o nosso conceito do desenrolar da profecia hebraica... É costume negar que os profetas que viveram antes do cativeiro tenham pronunciado qualquer promessa ou consolo ao seu povo”. Essa é uma questão que não pode ser facilmente resolvida. Credner, em 1831, afirmou que o livro de Joel teve sua origem no cativeiro. Vatke, no mesmo período, foi o primeiro a colocá-lo depois do cativeiro.

         Entrementes,  Haupt e Sellers, seguindo Michaellis (1782) e John (embora crendo que Joel escreveu o seu livro em 690 a.C, disseram que as profecias de Joel se referem à época dos Macabeus), as colocam entre 140 e 130 a.C.

VII - O estilo - “O estilo de Joel apresenta um notável contraste em relação ao estilo monótono - para não dizer pomposo - de Ageu e dos períodos semi-rabinos de Malaquias”, diz G. B. Gray. Bewer confirma esse juízo e declara que Joel é caracterizado pela clareza, fluidez e beleza, adicionando que “como poeta lírico, ele é um dos melhores do Velho Testamento, sendo gráfico, puro e muito efetivo”. Joel se assemelha a Amós, o qual, mesmo sendo um dos profetas mais primitivos, foi autor do Hebraico mais  puro e clássico da Bíblia. Ewald considerava a pureza do estilo de Joel como evidência de sua antiguidade.

         A literatura hebraica se caracteriza por um ritmo conforme é ostentado por Joel. Os destroços dos gafanhotos são descritos em linguagem poética, num movimento breve e rítmico muito adequado para descrever a rápida propagação da praga e do seu irresistível ataque à cidade.  Em geral, segundo observa Wunsche, “sua poesia se distingue por uma fantasia magnífica e pela originalidade, beleza e variedade de imagens e semelhanças”. Em todas essas coisas existem poucos que superam Joel. Até a nossa perícia no uso do paralelismo (Joel 1:10) e da hipérbole (Joel 2:30-31) condescende com o que Isaías emprega, num jogo de palavras, a fim de preparar as suas descrições mais gráficas e mais vivas. (Joel 1:12,15; 3:12). 

IX - Ensino religioso - 1). O ensino fundamental de valor religioso permanente no livro de Joel é o conceito claro, definido e até mesmo original do “Dia do Senhor”. Esta expressão aparece cinco vezes no livro (na BKJ, “The day of the Lord”), em Joel 1:15; 2:1, 11, 31;3:14) a fim de significar, conforme bem o expressou Davidson, “o momento em que Javé toma mais resolutamente as rédeas que parecia ter soltado, e quando as correntes do Seu governo moral, que antes corriam ao seu bel prazer, recebem um avivamento misterioso e a obra do Senhor sobre a terra é feita adequadamente”.

         Ou ainda como expressa Gabaelein, significando que “o Dia em que Javé se manifestará como Deus”, o último dia de Javé; um dia tanto de terror como de bênção; um dia de vingança e ano dos remidos. O dia em que os princípios eternos da justiça divina e do dever humano serão demonstrados, o Dia do Juízo Final. Joel anuncia esse dia a Judá, como Amós o anunciaria mais tarde a Israel (Amós 1,2; 6:3 e 9:11-15). Este é o ensino principal de Joel. 2). Desta primeira descrição iriam resultar grandes ensinos, outros de caráter prático, um dos quais era o arrependimento, prometendo o Senhor que por meio deste alguns poderiam livrar-se do dia do terror. Obedecendo a Sua exortação a praga de gafanhotos seria aniquilada e seguir-se-iam bênçãos materiais e espirituais (Joel 2:18-32).

         Essa urgente convocação do profeta ao arrependimento  foi adotada pela Igreja Anglicana para o primeiro dia da Quaresma. 3). Outro grande ensino do livro é o derramamento do Espírito sobre toda a carne (Joel 2:28-29). Essa profecia (Atos 2:16) seria o cumprimento de Números 11:29, a qual foi cumprida no Dia de Pentecostes, quem sabe, cumprida mas não esgotada. É uma promessa que havia sido destinada a se cumprir, conforme Pedro falou, citando a profecia de Joel, naquela ocasião memorável, quando não escondeu o seu terror. A graça e o juízo sempre caminham lado a lado. A queda de Jerusalém seguiu-se ao  Pentecostes [logo após os setenta anos de preparação para um evento tão tenebroso]. Todo o pensamento de Joel é eminentemente escatológico, tendo sido o seu principal objetivo exortar e consolar o povo do seu tempo. É semelhante à profecia de Jeremias sobre a aliança nova (Jeremias 31:31-34). Mesmo não havendo predição do Messias no livro de Joel, sem dúvida alguma o estudo desse livro deve conduzir-nos a Cristo e ao batismo no Espírito Santo. Assim Joel começa a abrir o caminho ao reino da graça.

 

 

 

 

Capítulo 3  

 

Amós, o profeta da justiça

 

I - O homem - Muitos supõem que Amós é o profeta mais antigo entre aqueles cujos escritos possuímos. Se é assim, então o seu livro é o mais antigo volume de “sermões”. Quer seja verdade ou não, Amós é um dos pregadores mais efetivos do arrependimento e do juízo dos escritos encontrados no Velho Testamento. Como bem observa Cornill, “Amós é um dos aparecimentos mais maravilhosos na história do espírito humano”. Sem dúvida o seu nome, que significa “carga” ou “carregador”, deve ser distinguido cuidadosamente de Amoz, o pai de Isaías, visto como são escritos de modo diferente no Hebraico. Como Elias, Lutero e outros reformadores religiosos, Amós foi tanto um produto como um representante do seu tempo. Severo, ousado, dono de si mesmo, um homem de granito, com uma mente poderosa e exata e uma viva imaginação, sendo uma das figuras que mais chamam a atenção em toda a história dos hebreus. Ele não só foi o primeiro dos profetas que escrevia o que pregava, como foi o primeiro de uma nova era.

II - Seu lugar e principal ocupação - Criado às margens do deserto, 19 Km ao sul de Jerusalém, Amós foi um dos pastores de Tecoa (Amós 1:1), um homem rústico como Miquéias. Como o nome de seu pai não é mencionado em parte alguma, conclui-se que ele provinha de família pobre e obscura. Era um pastor e, portanto, nasceu para ser um pregador. Ele cuidava de uma espécie peculiar de ovelhas pequenas, cuja lá era fina (conforme indica a palavra hebraica “noked” em Amós 1:1, auxiliado pelo cognome árabe), uma espécie de aparência feia, mas altamente estimada pela sua lã. Ele também se apresenta como um colhedor de figos selvagens (Amós 7:14) e tinha uma relação íntima com a natureza. Nos desolados distritos de Judá, que desciam bruscamente para o Mar Morto até o Oriente, onde as feras perambulavam com freqüência, sem dúvida Amós havia estudado pormenorizadamente as estrelas, observando as distintas fases da lua e olhando com admiração o sol, quando este despontava por trás das montanhas de Moabe. Respirando sempre o ar fresco e vigorante do deserto e escalando com freqüência os picos mais altos, Amós vivia diante de amplos horizontes, observando o panorama do deserto como sacramentos da presença divina. Naturalmente sua ocupação o levou aos mercados de lã, nas cidades setentrionais. Ali chegou ele a conhecer a vida e a religião do povo. Mesmo tendo pouca cultura, por ter vivido como um pastor nas regiões ilhadas do deserto de Tecoa, e sendo por natureza um camponês moralmente nobre, são e vigoroso (como João Batista, o qual, muitos anos depois, iria pisar o mesmo deserto), Amós foi se desenvolvendo como um reformador religioso e por fim chegou a interessar-se de modo supremo pelos direitos de Deus e pela justiça.

III - Seu chamado à pregação - Amós não teve qualquer preparação especial, profissional ou formal para pregar, tendo se educado, de preferência,  na escola da vigilância. Por descendência não era profeta, filho de profeta, isto é, não pertencia a qualquer grêmio estabelecido, tal como “os filhos dos profetas”. Ao contrário, Javé o tomou, conforme se diz, “quando ele seguia atrás do rebanho”, dizendo-lhe: “Vai e profetiza ao meu povo Israel” (Amós 7:14,15). Ali, na solidão do deserto, talvez “em meio ao terror de uma tempestade”   [como iria acontecer, séculos mais tarde com Lutero], caiu sobre a sua alma uma sombra que o fez reconhecer os juízos vindouros de Deus, sombra que o obrigou a levantar a voz em lamentação sobre o seu povo (Amós 5:1). Semelhantes rústicos, quando chamados da vida livre do campo para a calorosa atmosfera da cidade, com freqüência tornavam-se peritos na sociedade, trazendo com eles “realizações na política e na religião”. Sua missão era especialmente para Israel do Norte. Por isso ele seguiu para Betel, a 19 Km ao norte de Jerusalém, e ali, à própria sombra do palácio real, Amós ergueu a sua voz, clamando vigorosa e apaixonadamente por justiça.

IV - Seu período - O título de suas profecias descreve o seu período como “nos dias de Uzias, rei de Israel,... dois anos antes do terremoto” (Amós 1:1). Essas declarações são em geral confirmadas amplamente pelo conteúdo de sua profecia (Amós 6:13; 7:11). A data do terremoto sem dúvida é meio incerta. Contudo deve ter sido de uma gravidade inusitada, visto como dele faz alusão Zacarias, que iria pregar mais de 200 anos depois (Zacarias 14:5). Parece que o terremoto foi acompanhado de um eclipse total do sol (ao qual supostamente se refere Amós 8:9), eclipse que, segundo cálculos dos astrônomos, aconteceu em 15/06/763 a.C. Isso fixa a data do ministério do profeta em 760 a.C.

         Essa foi a época de ouro de Israel do Norte, com um apogeu de prosperidade nacional. Foi quando Jeroboão II ocupava o trono. Este era um rei forte, governando uma grande extensão territorial, como Jonas havia predito (2 Reis 14:25). Infelizmente, porém, mesmo possuindo grandes riquezas, a sabedoria da nação era pouca. Festas e banquetes substituíram o fervor religioso, com um espírito de avareza dominando a sociedade. A corrupção da justiça era um pecado comum abraçado pelos poderosos. Dia após dia, eles se apropriavam dos terrenos alheios. Os abastados se valiam de toda a máquina legal, a fim de oprimir os pobres. O fato é que os ricos ficavam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Com indiferença  e menosprezo viviam os homens “sossegados em Sião” (Amós 6:1). Prevalecia o amor ao luxo, como aconteceria antes da queda de Roma e no início da Revolução Francesa. A religião perdeu toda a vitalidade e a moral era completamente desprezada [Como acontece nos dias de hoje, no Ocidente]. A falta de sinceridade, a desonestidade, a corrupção, a injúria, o desperdício criminoso e a segurança cega de tal modo se apoderaram dos ricos, voluptuosos e arrogantes que estes se tornaram pagãos em todos os sentidos, exceto no nome. Não é de estranhar que  o profeta do deserto se tenha horrorizado completamente, tendo predito, indignado,  um castigo sobre a nação. O que surpreende é que ele não tenha condenado os bezerros de Betel e Dan, nem tenha anunciado o agente de sua destruição. Também estranho é que ele jamais tenha se referido à Assíria.

V - Seu estilo literário - Mesmo tendo sido um dos primeiros profetas e o primeiro a escrever suas profecias, nada existe de tosco e incompleto, nem de inculto em seu estilo. Pelo contrário, ele é o autor do mais puro e clássico Hebraico de todo o Velho Testamento. Jerônimo o descreve como “tosco no falar, porém não no saber”. Contudo, entre os hebreus, o melhor escrito é uma tradução não afetada da melhor maneira de expressar-se oralmente. E assim deve ser sempre em todo lugar. A tradição judaica o acusou de ter um problema na língua, mas essa tradição não é justificada pelo discurso do profeta. Amós foi um orador. Seu estilo é grave, comedido e retórico. Ele usa orações breves e concisas, valendo-se, com freqüência, de perguntas, apóstrofes e exclamações. Ele entende o poder da repetição e enriquece a sua mensagem com variadas imagens e figuras bucólicas derivadas da natureza, da qual, obviamente, foi um ardente e constante estudioso. Por exemplo, ele exorta Israel a buscar “ao que faz o Sete- estrelo e o Órion”, admoestando-o a se salvar do inimigo “como o pastor livra da boca do leão as duas pernas, ou um pedaço da orelha”.

         A nação está madura para o juízo e prestes a recebê-lo. Amós foi o primeiro entre os profetas a declarar a sentença do Reino do Norte. No dia em que uma grande festa foi iniciada em Betel, ele clamou com lamentações: “A virgem de Israel caiu, e não mais tornará a levantar-se; desamparada está na sua terra, não há quem a levante” (Amós 5:2).  Foi esse o canto fúnebre da nação. Realmente, a situação era grave demais. Havia chegado o dia do castigo de Israel - o Dia do Senhor. Amós pregou essa idéia do ponto em que Joel havia parado, começando com “O Senhor bramará de Sião, e de Jerusalém fará ouvir a sua voz; os prados dos pastores prantearão, e secar-se-á o cume do Carmelo” (Amós 1:2). Foi um dia de revelação nacional. Com uma audácia sem paralelo, Amós anunciou ao povo adormecido e embrutecido pela prosperidade os resultados que inevitavelmente irão chegar, sempre que a religião se desvia da moralidade. Pois, com a maior ênfase e com uma clareza sem precedentes ele anunciou a destruição... As causas do juízo eram patentes: as riquezas e o luxo; a frivolidade e a corrupção; a opulência e a opressão; os palácios de verão e inverno; as camas de marfim; os cantos das orgias e o vinho – isso era bastante para convencer o profeta, que não deixava de clamar à Providência. Além disso, havia crimes específicos ainda mais culpáveis e merecedores de censura, como a opressão aos pobres, o confisco de suas vestes em pagamento de dívidas; a injúria não refreada, ainda que sob a capa da religião; o ato hipócrita de dizimar, a observância fingida do sábado e até as peregrinações a santuários distantes [um retrato vivo do Catolicismo Romano em todos os tempos]. Esses e outros males faziam com que a alma sensível de Amós ardesse em indignação, de tal maneira que não seria possível ele deixar de erguer a sua voz em protesto. Amós descobriu em toda parte a enfermidade moral e convenceu-se clara e absolutamente de que Javé o havia escolhido como reformador moral daquela  época. Sua mensagem, portanto, era o evangelho da Lei e não da Graça.

VII - Análise e conteúdo do seu livro - Suas  profecias correspondem, naturalmente, a três divisões:

1. - Capítulos 1 e 2 - Uma série de oito juízos formais sobre Israel e seus vizinhos. Desse modo, repetidos oito vezes, por três transgressões e por quatro não retirarei o castigo de:

1. Damasco, por pisar Gileade (Amós 1:1-5).

2. Gaza, por entregar cativos a Edom (Amós 1:6-8).

3. Tiro, também por entregar cativos a Edom (Amós 1:9-10).

4. Edom, por perseguir sem piedade o seu irmão Amós 1:11-12).

5. Amom, por crueldade contra Gileade (Amós 1:13-15).

6. Moabe, por queimar os ossos do rei de Edom, até as cinzas (Amós 2:1-3).

7. Judá, por rechaçar a Lei de Javé (Amós 2:4-5).

8. Israel, por vender “o justo por dinheiro, e o necessitado por um par de sapatos” (Amós 2:6-16), ensinando toda a série de princípios fundamentais da sociologia bíblica, a saber: 1) A soberania universal de Deus. 2) O pecado da desumanidade. 3) A responsabilidade moral da humanidade. Amós foi o primeiro entre os profetas hebreus a pregar o universalismo, uma coisa tipo moralidade internacional.

2. - Capítulos 3-6 - Aqui temos três discursos de ameaças e condenação, começando com a exortação “Ouvi esta palavra...” (Amós 3:1; 4:1 e 5:1), todas fortemente ameaçadoras: 1. A eleição de Israel por Javé foi condicional (cap. 3, o mais extenso do livro). 2. Uma admoestação às mulheres de Samaria [por ele chamadas “vacas de Basã”], inescusavelmente consideradas egoístas e cruéis. (Cap. 4, comparar com Isaías 3:6 e seguintes). Porque, apesar das reiteradas admoestações, a) fome (v. 6); b) seca (vs. 7,8); c) queimadura e ferrugem (v. 9); d) peste e espada (v. 10); terremoto (v. 11), se não se voltarem a Javé. Por conseguinte, clama o profeta: “... prepara-te, ó Israel, para te encontrares com o teu Deus” (v. 12). Uma elegia sobre a nação, cuja restauração é impossível (caps. 5-6); porque a) menosprezam a  justiça (5:7); b) Abominam a repreensão (5:10); ousam desejar o dia do juízo (5:18); d) reduzem a religião ao ritualismo (5:21); e) menosprezam as exortações divinas, as quais dizem: “Buscai ao Senhor e vivei” (5:4,6,14). Por isso o profeta pronuncia uma condenação dupla sobre Israel e seus príncipes: “Irão em cativeiro...” Seus palácios serão destruídos         (6:7,8,11).

3. - Capítulos 7-9 - Uma série de cinco visões, interrompidas pelo sacerdote de Betel (7:10-17), terminando com um epílogo de esperança e consolo (9:7-15): 1. Visão de gafanhotos (7:1-3). 2. Visão de fogo consumidor. 3. Visão do prumo da retidão (7:7-9). Neste ponto, Amazias, o sacerdote de Betel, nega ao profeta o direito de fulminar assim tão veementemente a casa de Jeroboão. Em resposta, Amós repudia, ousadamente, a acusação do sacerdote de que o profeta profetiza para manter-se, garantindo que a sua inspiração independe de toda educação artificial nas escolas. Por isso ele desafia, corajosamente, tanto o sacerdote como o rei (7:10-17). Este incidente faz-nos lembrar John Knox e o lema que ele escreveu nas quatro paredes do seu “estúdio” na Rua Alta, Edimburgo, onde se lia: “Estou no lugar onde a consciência me manda falar a verdade, por isso digo a verdade e quem quiser que me condene”.

4. A visão de um cesto de frutos de verão (Kayitz), com Javé anunciando o fim” (Katz) (8:1-14). Aqui há um jogo de palavras que Amós põe na boca de Javé.

5. Visão de um santuário, representado por pessoas sepultadas sob os escombros da falsa religião.

         O livro termina com uma promessa de restauração - um parágrafo de notável beleza, expressando tanto a esperança como o  consolo e assegurando a Israel que a nação será completamente cirandada e que o remanescente será, finalmente, restaurado (9:7-15).

VIII - O valor permanente de sua mensagem para nós - Nestes breves sermões do profeta podemos colher certas grandes e fundamentais verdades de especial valor eterno, como por exemplo:

1. Amós vindica a personalidade moral de Deus, dando ênfase ao fato de que a essência da natureza divina é a justiça absoluta. Por muito tempo tem sido o costume considerar-se Amós o criador do monoteísmo ético. Ele foi apenas o arauto mais profundo, firme e eloqüente de uma verdade que há muito tempo já era conhecida.  A missão de Amós foi interpretar Javé como um Deus de justiça. Ele não procurou entregar um sistema de teologia nem um tratado de filosofia, mas procurou despertar a consciência de Israel, assinalando a perfeita justiça de Javé.  Porque o Deus de Amós não é apenas o Deus Todo Poderoso e internacional, mas é também o Deus ético e espiritual. As três apóstrofes do profeta dirigidas a Javé são notavelmente majestosas (Amós 4:13; 5:8 e 9:5,6).

2. Amós também ensinou que o culto elaborado, não sendo sincero, é apenas um insulto a Deus: “Odeio, desprezo as vossas festas, e as vossas assembléias solenes não me exalarão bom cheiro. E ainda que me ofereçais holocaustos, ofertas de alimentos, não me agradarei delas; nem atentarei para as ofertas pacíficas de vossos animais gordos. Afasta de mim o estrépito dos teus cânticos; porque não ouvirei as melodias das tuas violas”. (Amós 5:21-23).

         Estas palavras são mais eloqüentes para as gerações atuais do que para aquela geração à qual foram destinadas. Muitos cristãos modernos parecem incapazes de conceber a salvação sem os sacramentos e as cerimônias de sua própria igreja. Amós ensinou a Israel que a religião significa muito mais do que o mero culto e que não é o cheiro do holocausto que Deus aceita, mas o incenso de um coração sincero e leal.

3. Além disso, Amós ensinou que deve haver justiça social de homem para homem: “Corra, porém, o juízo como as águas, e a justiça como o ribeiro impetuoso” (Amós 5:24). Sua grande visão era essencialmente a de um reformador, cuja obra era evitar abusos, derrubar maus conceitos estabelecidos, preparando, assim, o caminho à reconstrução que, necessariamente, teria de ser passada adiante. É de profetas assim que o nosso mundo tanto carece, com a mesma paixão de Amós pela justiça social. Para ele era este o maior e mais fundamental postulado da sociedade. Por isso ele ensinou energicamente o caráter inexorável da lei moral (Amós 2:6-8). A moralidade era a maior necessidade de Israel. Os requisitos divinos são sempre morais. Os resultados morais determinam o curso da história. Por meio de idêntica pregação Amós acendeu uma tocha social em Israel, a qual jamais se extinguiu e nem se extinguirá jamais. Toda a sua mensagem serve de um prelúdio idôneo à definição de religião que Tiago 1:27 iria nos dar: “A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo”.

4. Outra grande verdade ensinada por Amós é o fato de que o privilégio envolve responsabilidade: “De todas as famílias da terra só a vós vos tenho conhecido; portanto eu vos punirei por todas as vossas iniqüidades” (Amós 3:2). Ser privilegiado significa cumprir, antes de tudo, o dever.

5. Outra é a significação e o propósito da calamidade: “Por isso também vos dei limpeza de dentes em todas as vossas cidades, e falta de pão em todos os vossos lugares; contudo não vos convertestes a mim, disse o SENHOR” (Amós 4:6 e seguintes). Todo o desastre era apenas um chamado ao arrependimento (Comparar com Lucas 13:1-5).

6. Outra coisa, a admoestação nunca é antiquada. Essa grande verdade é ensinada praticamente em todo o livro. Há um evangelho em Amós, porém “o evangelho do rugido do leão”.

7. Outra lição é a necessidade da convicção pessoal em um profeta (Amós 7:14,15). A religião é um assunto pessoal, assim como é, também, a convicção, e não pode ser herdada.

8. Finalmente, o livro de Amós tem um valor histórico especial, sendo o mais antigo dos escritos proféticos que não é disputado, tornando-se um teste importante das crenças religiosas correntes em Israel, durante o século 8 a.C. Amós não apenas reconhece os preceitos morais de Javé como obrigatórios para Israel (Amós 5:21-27), mas julga Israel conforme um amplo modelo moral que se torna obrigatório para todas as nações. Por causa desses ensinos ele influenciou os profetas que o seguiram, como Isaías, Jeremias, Ezequiel e  Miquéias.

IX - Passagens especiais de interesse particular 

1) Como Amós 3:3: “Porventura andarão dois juntos, se não estiverem de acordo?” Esta passagem é tipicamente oriental. É fato bem conhecido, ser perigoso viajar por vales profundos e caminhos ásperos, com acompanhantes desconhecidos, não testados e, possivelmente inimigos, nas montanhas do Oriente.

2) Sem dúvida alguma, Javé é o Senhor: “Certamente o Senhor DEUS não fará coisa alguma, sem ter revelado o seu segredo aos seus servos, os profetas” (Amós 3:7)... Deus revela os Seus segredos aos que desejam falar em Seu Nome.

3) O verso Amós 5:25: “Oferecestes-me vós sacrifícios e oblações no deserto por quarenta anos, ó casa de Israel? “ dá a entender que não o fizeram, porque, segundo o ponto de vista do profeta: “... o obedecer é melhor do que o sacrificar” (1 Samuel 15:22).

4) “Ai dos que vivem sossegados em Sião, e dos que estão confiados no monte de Samaria, que têm nome entre as primeiras das nações, e aos quais vem a casa de Israel!” (Amós 6:1). Ao que Carlyle observa: “Sócrates era terrivelmente descuidado”.

5)Para que possuam o restante de Edom, e todos os gentios que são chamados pelo meu nome, diz o SENHOR, que faz essas coisas” (Amós 9:12).

Por ligeiras mudanças, quase infinitesimais no Hebraico, os tradutores da Septuaginta [que o erudito bíblico americano Dr. Samuel Gipp garante que jamais existiu] assim traduziram essa passagem: “Para que o restante dos homens (adham) possa buscar (yidreshu) o Senhor”, conforme citado por Tiago no Concílio de Jerusalém, em 50 d.C. (Atos 15:17). Esta passagem é especialmente interessante, como um notável exemplo da crítica textual.

6)Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que o que lavra alcançará ao que sega, e o que pisa as uvas ao que lança a semente; e os montes destilarão mosto, e todos os outeiros se derreterão” (Amós 9:13). Nesta declaração está condensada toda a esperança do profeta no futuro de Israel. Embora a descrição seja de todos os séculos, ela é uma expressão clássica do reino messiânico, o qual envolverá Israel em toda a sua glória e grandeza exterior.

 

 

 

 

Capítulo 4  

 

Obadias, o crítico da Bíblia

 

I - O Livro - Obadias é o livro mais curto do Velho Testamento, tendo apenas 21 versículos. Não é citado no Novo Testamento e neste não há referência alguma a Obadias, a não ser que tomemos a idéia de que no verso 21 esteja refletida a idéia de Apocalipse 11:15, versos que apresentamos a seguir: “E subirão salvadores ao monte Sião, para julgarem o monte de Esaú; e o reino será do SENHOR”... “E o sétimo anjo tocou a sua trombeta, e houve no céu grandes vozes, que diziam: Os reinos do mundo vieram a ser de nosso SENHOR e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre”.

         O livro aparece na escala dos Doze, logo depois de Amós. Alguns se dão conta de sua posição aqui, supondo que os organizadores do Cânon devem ter visto Obadias como uma expansão da curta predição contra Edom, exposta em Amós 9:12. O título descreve o livro como uma visão:  Visão de Obadias: Assim diz o Senhor DEUS a respeito de Edom: Temos ouvido a pregação do SENHOR, e foi enviado aos gentios um emissário, dizendo: Levantai-vos, e levantemo-nos contra ela para a guerra”. Esta foi chamada de “uma oração indignada”. Mesmo sendo breve, Obadias é um livro difícil, com uma dificuldade nada proporcional ao seu tamanho.

II - O Autor - Obadias não tem uma história pessoal. Sem dúvida o seu nome, cujo significado é “Adorador de Javé”, é sugestivo. Esse era um nome muito comum entre os semitas, especialmente após o cativeiro. Compare-se com Abdiel “Servo de Javé” (1 Crônicas 5:15) e com Abdala (nome árabe), que significa “Servo de Deus”. Esforços têm sido feitos no sentido de identificar o profeta Obadias com alguns outros homônimos, em número de doze ou mais, no Velho Testamento, como por exemplo:

1. Obadias, o mordomo do palácio de Acabe, o qual escondeu os profetas de Javé em duas covas - cinqüenta em cada cova (1 Reis 18:3-6).

2. Obadias, o mestre da Lei enviado por Josafá entre as cidades de Judá (2 Crônicas 17:7).

3. O “homem de Deus” no tempo de Amazias, o qual aconselhou o rei a não permitir que o exército de Israel do Norte o acompanhasse na luta contra os edomitas (2 Crônicas 25:7).

4. Obadias, um dos superintendentes empregados no reparo do templo, sob o reinado de Josias (2 Crônicas 34:12).

         Para o nosso profeta,  sem dúvida, “sua obra era mais importante que o obreiro e por causa dessa obra ele permitiu que a sua personalidade fosse relegada ao fundo”.

III - A Mensagem - Toda a mensagem de Obadias pode ser resumida em duas frases: 1. A destruição de Edom (versos 1-16).  2.  A restauração de Israel (versos 17-21). Sem dúvida o profeta dirige suas palavras, não tanto como uma admoestação a Edom, mas como uma mensagem de consolo a Israel. O livro pode ser assim dividido:

1. A ruína de Edom, mesmo estando abrigada com segurança em meio às serras rochosas (Versos 1-9).

2. Os motivos, isto é, a sua crueldade com Israel e o seu regozijo pela adversidade de Judá (Versos 10-14).

3. A retribuição divina a Edom e a restauração de Israel.

         A interpretação e o arranjo cronológico de Bewer relativos a esta profecia ilustram a escola modernista. Ele considera o livro como o produto de 4 autores diferentes, os quais teriam vivido em tempos separados:

1. Primeiramente foram engastadas no livro profecias de um antigo vidente, o qual vivera antes do cativeiro e que, ao ouvir dizer que certas nações iriam se reunir para atacar Edom, estando certo de que tal movimento provinha de Javé, achou que essas seriam vitoriosas, predizendo, assim, a derrota de Edom (Versos 1-4).

2. As palavras desse vidente (o qual teria vivido em 450 a.C)  foram por Obadias adotadas, no devido tempo, quando sobreveio uma grande catástrofe a Edom, com a invasão dos nabateus e árabes primitivos. Vendo o seu cumprimento e recordando-se de como os edomitas haviam se regozijado com a  queda de Jerusalém em 586 a.C., o profeta deixou-se dominar pela emoção, tendo rompido em apaixonadas admoestações, dizendo: “Se viessem a ti ladrões, ou assaltantes de noite (como estás destruído!), não furtariam o que lhes bastasse? Se a ti viessem os vindimadores, não deixariam algumas uvas? ... Nem parar nas encruzilhadas, para exterminares os que escapassem; nem entregar os que lhe restassem, no dia da angústia. Porque o dia do SENHOR está perto, sobre todos os gentios; como tu fizeste, assim se fará contigo; a tua recompensa voltará sobre a tua cabeça” (Obadias 5, 14, 15).

3. Então, talvez cem anos depois, quando os edomitas foram expulsos para Neguebe e Judá do Sul, tendo desse modo chegado a se tornar os mais próximos vizinhos dos judeus,  continuando a se odiarem mutuamente, outro profeta desconhecido, cheio de patriotismo, levantou sua voz e declarou que algum dia Javé iria restaurar Israel ao seu antigo esplendor e glória (Versos 15,16,18).

4. Finalmente, quando se levantaram os Macabeus (168 a. C), outra pessoa fez a conclusão do livro, e assegurou aos judeus que o reino de Javé seria estabelecido e que somente Ele iria reinar (Versos 19-21).

         Alguns outros comentaristas apóiam a opinião de Bewer. Contudo, existem poucas razões para se pensar que o profeta, ao predizer o futuro, estivesse realmente descrevendo o passado, ou que falasse do que os edomitas haviam feito,  como de coisas que deveriam fazer.

IV - Data - Visto como o livro não é introduzido com uma data histórica ou cronológica, o que permitiria determinar a sua data, precisamos nos valer das evidências internas. Desse modo, muitas datas divergentes têm sido sugeridas, datas que se estendem desde o tempo de Jorão, rei de Judá (850 a.C),  em cujo reinado os filisteus e árabes atacaram Jerusalém, tendo levado os tesouros do palácio real (2 Crônicas 21:16-17), até 312 a.C, quando os nabateus tomaram Edom e Antígono ordenou que fosse enviada uma expedição contra eles. Vários fatores entram na decisão deste assunto:

1.  O lugar de Obadias entre os Doze - No Hebraico ele é o quarto, seguindo esta ordem: Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, etc. No Grego ele é o quinto: Oséias, Amós, Miquéias, Joel, Obadias, Jonas, etc. Isso mostra claramente que os organizadores do Cânon (200 a.C) consideravam Obadias como primitivo.

2. A unidade do livro - sacrificada pelos que o colocam depois. Contudo pode ser possível o caráter composto de um livro, mesmo tão curto, como é o caso deste.

3. O caráter vivo dos versos 10-14 – os quais parecem descrever como história a destruição de Jerusalém por Nabucodonosor, em 586 a.C. Elmslie diz: “Não é apenas um estado arruinado, ou uma capital parcialmente saqueada que aqui têm sido descritos, mas uma nação desmembrada, despojada e dispersa”. Claro que não se trata do juízo universal. Pusey, por exemplo, crê que estes versos são uma predição, em vez de uma descrição da ruína de Jerusalém. Entrementes, David acha um lugar apropriado para estes no reinado de Acaz (731 a.C), quando freqüentes calamidades sobrevieram a Judá:

1. - Rezim, rei da Síria, livrou Elate dos judeus, lançando-os para fora e permitindo que os edomitas ali residissem (2 Reis 16:6 - Septuaginta).

2. - Peca, rei de Israel, matou 120 mil judeus e levou 200 mil em cativeiro (2 Crônicas 28:6-8).

3. - Zicri, homem poderoso de Efraim, matou Maasias,  o filho do Rei (2 Crônicas 28:7).

4. - Os edomitas vieram a Judá e levaram presos em cativeiro (2 Crônicas 28:17).

5. - Os filisteus também invadiram várias cidades da campina e do sul de Judá (2 Crônicas 28:18).

6. Acaz tomou até os tesouros do templo, a fim de pagar tributo ao rei da Assíria (2 Reis 16:8).

         Sem dúvida, condições como estas podem muito bem explicar a descrição feita por Obadias  da calamidade de Jerusalém como “infortúnio”, “ruína” e “angústia” (Verso 12). É bem provável, portanto, que essa profecia tenha sido feita no século 8.

V - Edom - Como já foi dito, Obadias profetizou a respeito de Edom e mais particularmente contra a cidade rochosa de Edom, conforme o verso 3: “A soberba do teu coração te enganou, como o que habita nas fendas das rochas, na sua alta morada, que diz no seu coração: Quem me derrubará em terra?”

         As rochas a que ele aqui se refere são quase na certa as de Petra, a qual, desde os tempos mais remotos, era a fortaleza central da nação. Os árabes modernos a chamam de Wady Musa. Os antigos sírios, segundo Josefo, a chamavam de Requém, por causa de Requém, o príncipe midianita  que caiu numa batalha contra Israel, em Moabe, nos dias de Finéias, [quando também foi morto Balaão, o profeta filho de Beor] (Números 31:8). Pela sua situação e beleza natural, Petra é única entre todas as outras cidades da terra. É quase impossível descrevê-la adequadamente. Sua situação bem abaixo e em meio às montanhas de Seir, rodeada de todos os lados  por rochas coloridas, de uma beleza e grandeza inigualáveis, fizeram de Petra uma das maravilhas do deserto. Nela se entra por uma garganta estreita, com mais de um quilômetro de extensão, chamada Sik ou fenda. Esse desfiladeiro é uma das avenidas mais formosas e românticas do gênero em toda a natureza, com um pequeno arroio ao fundo, em quase  toda a sua extensão. A garganta é estreita e profunda, sendo por vezes tão reduzida que fica quase às escuras em pleno meio dia. As rochas que a limitam são formosas, ostentando quase todas as cores do arco-íris. Ao sair da mesma, em grande planície (com mais de um quilômetro de extensão por 2/3 de quilômetro de largura), o explorador se depara com moradias cortadas na rocha, sepulcros, templos e outras escavações, por todos os lados. Centenas destes em sua maior parte são, de fato, mausoléus originais, cortados literalmente na sólida rocha granítica. As ruínas de um castelo, de edifícios e dos arcos de uma ponte, além de colunas, são vistos espalhados ao fundo do sítio da cidade. As cores das rochas aumentam imensamente o atrativo do local. A natureza tem organizado em faixas alternadas as cores mais belas, tais como o roxo, púrpura, alaranjado, amarelo, branco, lilás e outras cores, as quais se matizam artisticamente entre si, fazendo ondulações com esplendorosas e fantásticas figuras causadas pela filtração dos óxidos e ferro, manganês e outras substâncias, as quais, com freqüência produzem nos granitos variedades de cores e uma formosura especial.  A cidade inteira e seus arredores formam um imenso labirinto de montanhas e rochas, escavações, gargantas e vales estreitos, planícies e mesas, pequenos vales sombreados e alegres promontórios, tudo muito grandioso e belo. Aqui se tem justamente um ideal de beleza e proteção que pode satisfazer qualquer nômade oriental, como uma fortaleza de tráfico e comércio.

         Infelizmente, reina agora uma desolação dentro e ao redor de Petra, e por todos os lados, o que tem atestado tristemente as admoestações de Obadias.

VI - Ensinos - Não seria de esperar que um livro tão curto pudesse ensinar tantas lições de enorme valor. Podemos mencionar três:

1. A admoestação do profeta contra o escárnio  (verso 12) - O escárnio se origina no orgulho. Quando zombamos dos outros, revelamos o espírito orgulhoso que existe em nós. O escárnio revela falta de amor fraternal e com freqüência pode evidenciar um verdadeiro ódio. Edom e Israel se menosprezavam e odiavam mutuamente em toda a sua história. Durante vários séculos a inimizade entre ambos foi implacável. Sempre se guerreavam por vingança. Na maior parte isso provinha de um patriotismo egoísta e de ciúmes tribais. Para muitos o patriotismo não passa de egoísmo nacional, o qual facilmente degenera em arrogância. Segundo Tolstoi, “O patriotismo é um vício e pertence ao período das tribos”.

2. Sua doutrina da estrita retribuição -  (Versos 10-15) - Obadias ensinou com ênfase especial o caráter indestrutível do juízo eterno. O “Dia do Senhor”, disse ele, virá sobre Edom: “Porventura não acontecerá naquele dia, diz o SENHOR, que farei perecer os sábios de Edom, e o entendimento do monte de Esaú? E os teus poderosos, ó Temã, estarão atemorizados, para que do monte de Esaú seja cada um exterminado pela matança” (Versos 8 e 9). E “Por causa da violência feita a teu irmão Jacó, cobrir-te-á a confusão, e serás exterminado para sempre ... Porque o dia do SENHOR está perto, sobre todos os gentios; como tu fizeste, assim se fará contigo; a tua recompensa voltará sobre a tua cabeça” (Versos 10,15).

3. Sua segura esperança de que há de chegar uma Era de Ouro para Israel: “Mas no monte Sião haverá livramento, e ele será santo; e os da casa de Jacó possuirão as suas herdades” (Verso 17).

Finalmente lemos no verso 21: “E subirão salvadores ao monte Sião, para julgarem o monte de Esaú; e o reino será do SENHOR”. Edom subjugada seria uma Edom incorporada. Essa promessa constitui o lado brilhante do “Dia do Senhor”, assinalando toda a consumação da história da humanidade. Aqui o profeta estende suas predições originais de catástrofe sobre Edom, incluindo escatologicamente “um juízo universal sobre todos os pagãos e a conseqüente restauração de Israel”. Esta é a palavra final, não só de Obadias, mas de toda a profecia bíblica. É realmente um vislumbre do reino messiânico, pelo qual ansiavam todos os profetas [E também todos os judeus ortodoxos e os cristãos verdadeiros], sendo também uma interpretação da consciência de Israel. Nos dias atuais as palavras do profeta estão tendo um cumprimento lento e silencioso e em breve, conforme Apocalipse 11:15: “E ... houve no céu grandes vozes, que diziam: Os reinos do mundo vieram a ser de nosso SENHOR e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre”. [Ora, vem Senhor Jesus!”]

 

 

Capítulo 5  

 

Jonas, o profeta universal

 

O livro de Jonas é quase totalmente biográfico, havendo, à parte de sua oração no capítulo 2, apenas uma declaração que se possa chamar de profecia (Jonas 3:4). As experiências pessoais dos outros profetas são, às vezes, narradas em seus livros (Comparar com Oséias 1:3; Amós 7:10-15 e Jeremias 1:25-29; 36-38).

I - O homem e sua história - Sabe-se que Jonas foi um personagem histórico. Ele é identificado por quase todos os eruditos como “Jonas, filho de Amitai”, o qual  profetizou a Jeroboão a restauração de Israel aos seus antigos limites (2 Reis 14:25). Sellin declara, sem hesitação nem modificação: “o herói da narrativa é um personagem histórico, que viveu no tempo de Jeroboão II, pouco antes de Amós”. Sua identificação parece estar assegurada, visto que, tanto o nome de Jonas como o de seu pai, não são mencionados em outra parte do Velho Testamento. Ele era natural de Gate-Hefer, na Galiléia, que distava 7 Km. de Nazaré, conhecida pelos árabes modernos como  el Meshed (2 Reis 14:25).

         Quando Jonas foi chamado por Javé para ir a Nínive, a fim de ali pregar, essa tarefa foi-lhe tão repugnante que ele fugiu “da presença do Senhor” (Jonas 1:3,10), indo para Tarsis, ao sudoeste da Espanha, abandonando sua obra profética. Pusey acredita que Jonas, nesse tempo, já era avançado em idade, tendo estado, provavelmente, “na presença do Senhor”, durante anos. (Gênesis 4:16). Jonas era um legítimo cainita.

         Mais adiante, na história, é dito francamente o motivo de Jonas para viajar até o Ocidente, aventurando-se no mar, o que era evitado pelos hebreus, em vez de ir para o Oriente: “E orou ao SENHOR, e disse: Ah! SENHOR! Não foi esta minha palavra, estando ainda na minha terra? Por isso é que me preveni, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus compassivo e misericordioso, longânimo e grande em benignidade, e que te arrependes do mal” (Jonas 4:2). Sem dúvida ele havia ido a Nínive para certificar-se  de que Deus iria realmente destruir aquela cidade. Mas, sendo um patriota mesquinho, ciumento e vingativo, Jonas não podia entender porque Deus desejava que ele pregasse a um povo que queria devorar Israel. O verdadeiro cristão, ao contrário, deseja o bem estar, até mesmo dos seus inimigos (Lucas 6:27-28).

         Indo a Jope, o principal porto de mar da Terra Santa, ali encontrou um vapor que se fazia ao mar, rumo ao Ocidente. Pagou a passagem e embarcou, descendo até o porão, onde foi dormir, exatamente como o fez Sisera, na tenda da traidora Jael (Juízes 4:21). Sua consciência também ficou adormecida porque Jonas se enganava, achando que logo estaria longe de Deus. Jesus também dormia calmamente durante uma tempestade, segundo Marcos 4:35-41: “E, naquele dia, sendo já tarde, disse-lhes: Passemos para o outro lado. E eles, deixando a multidão, o levaram consigo, assim como estava, no barco; e havia também com ele outros barquinhos. E levantou-se grande temporal de vento, e subiam as ondas por cima do barco, de maneira que já se enchia. E ele estava na popa, dormindo sobre uma almofada, e despertaram-no, dizendo-lhe: Mestre, não se te dá que pereçamos? E ele, despertando, repreendeu o vento, e disse ao mar: Cala-te, aquieta-te. E o vento se aquietou, e houve grande bonança. E disse-lhes: Por que sois tão tímidos? Ainda não tendes fé? E sentiram um grande temor, e diziam uns aos outros: Mas quem é este, que até o vento e o mar lhe obedecem?”. Sempre que alguém se propõe a frustrar os planos divinos, contra ele se levanta uma tempestade.

         O mar se enfureceu. Cada marinheiro orava ao seu próprio deus, mas a tempestade continuava. Concluíram, então, que algum deus devia estar ofendido. O piloto do navio foi até Jonas e ordenou-lhe que clamasse ao seu Deus. Jonas, realmente, não tinha Deus. Os marinheiros, convencidos da existência de algum culpado a bordo, lançaram sortes e esta recaiu sobre Jonas. Perguntaram-lhe ansiosamente de onde ele era natural, qual era a sua ocupação, qual era o seu povo e Jonas confessou francamente que estava fugindo “da presença do Senhor”. Naquele momento ele era apenas um pagão naquele navio. Contudo, redimiu-se ao dizer, voluntariamente, que deveriam lançá-lo ao mar, para conseguirem ser salvos. Os marinheiros não queriam oferecer Jonas como um sacrifício humano, até que houvessem consultado o Deus de Jonas: “Então clamaram ao SENHOR, e disseram: Ah, SENHOR! Nós te rogamos, que não pereçamos por causa da alma deste homem, e que não ponhas sobre nós o sangue inocente; porque tu, SENHOR, fizeste como te aprouve. E levantaram a Jonas, e o lançaram ao mar, e cessou o mar da sua fúria” (Jonas 1:14-15). Vendo isso, os marinheiros ficaram tão impressionados que “ofereceram sacrifício ao Senhor e fizeram votos” (v. 16).

         Dois pequenos versos resumem a história do resgate de Jonas (Jonas 1:17; 2:10). O Senhor preparou um grande peixe para engolir Jonas e nas entranhas deste ele ficou “três dias e três noites”. Duas colunas perto de Alexandria, ao norte de Antioquia, na costa Síria, assinalam o local onde, segundo a tradição, Jonas foi vomitado à terra seca. Contudo Josefo diz que isso aconteceu às margens do Mar Egeu.

         Por ter Jonas reconhecido o seu parentesco com os marinheiros pagãos, teve outra oportunidade para ir pregar aos pagãos de Nínive. Dessa vez ele obedeceu, tornando-se, então, o “primeiro