Aventura numa sexta-feira magra.

 

         Hoje acordei com o desejo insopitável de fazer uma travessura qualquer. Depois de tomar um banho quente e lavar os cabelos, vesti uma roupa linda e coloquei adereços combinando. Então, fiquei pensando onde poderia dar um passeio, deixando de lado a tradução do artigo do T. A. McMahon (que já copiei) para traduzir neste final de semana. São apenas seis pp. e isto eu traço em duas horas, à mão, vendo alguma novela da Globo, ou escutando um CD com algum concerto clássico do André Rieu. Depois jogo tudo no computador e pronto! Resolvi deixar tudo para amanhã e hoje tirei férias do computador, do fogão e da faxina, pois amanhã vem a “secretária” fazer a limpeza do apê.

         De repente, me lembrei que era o último dia para se conseguir um cartão de gratuidade para andar de ônibus na grande Terê. Raramente uso ônibus, pois moro no centro da cidade e tenho tudo à mão. Contudo, sempre é bom ter um cartão desse tipo. Fui até a Prefeitura (a uma quadra de onde moro) e pedi informação. Mandaram-me para um departamento no final da avenida (12 quadras) e fui andando até lá, para desenferrujar as pernas, usando esse método saudável para quem já está entrando “quarta idade”. Lá me deram uma senha e me enviaram para outro departamento - num bairro distante do centro. Tomei um táxi e fui procurar esse departamento, onde poderia conseguir o tal cartão.

         Quando entrei no enorme galpão, vi que estava repleto de pessoas, que deixam tudo para o último dia. Calculei que havia umas 200 pessoas esperando ali, sentadas, conversando animadamente. Consegui um lugar na frente e olhei o número da minha senha, que era 92. Fiquei aliviada, pois não precisaria esperar por 200 atendimentos (que seria o número de pessoas ali presentes), quando constatei que o número 60 estava sendo chamado por um dos quatro atendentes. Desse modo, eu deveria esperar que (apenas) 32 pessoas fossem atendidas. Agradeci a Deus e fiquei quietinha, observando as pessoas que ali eram chamadas e prestimosamente atendidas. (Bons funcionários!)

Meu coração ficou franzido, ao ver tanta pobreza, tanta gente mal vestida, tantas mulheres gordas (principalmente as da minha idade), por causa do excesso de arroz, feijão e farofa ingerido ao longo dos anos. O que mais me entristeceu foi ver algumas mães de filhos deficientes, tentando conseguir um cartão para eles. De repente, fiquei indescritivelmente agradecida, porque Deus tem me protegido demais, nesta vida, e ainda vai me dar o céu, porque amo o Seu Filho JESUS CRISTO!!!

Nunca fui pobre, embora também nunca tenha sido rica. Nasci na classe média, estudei em colégio particular e tive os melhores pais do mundo. Fui criada numa casa de fartura, com muitas frutas e legumes, carne de frango e muito leite à disposição. Meus pais não compravam pão durante a semana. Comíamos queijo puro e no final de semana tínhamos pão de milho com coco ralado, à vontade. Assim ninguém engordou, pois nos alimentávamos mais de frutas e legumes verdes do que de carboidratos e gorduras animais.

Quando chegou a minha vez de ser atendida, um rapaz, muito gentil, me olhou e falou: “A senhora nasceu em 1929? É verdade? Quando a senhora sentou, eu pensei que não tinha mais de 65 anos!” Agradeci e quando ele me pediu uma foto para o cartão, confessei que não havia pensado nisso. Ele, gentilmente, me levou para uma cabina e bateu uma foto 3 X 4 colorida, na mesma hora, ainda com um sorriso nos lábios. Agradeci a gentileza e brinquei com ele: “Se eu ficar jovem e bonita, você ganha um CD que tenho na bolsa. Mas, se eu ficar velha e feia, negativo!”. Ele deu uma risadinha e falou: “Claro que vou ganhar o CD”. Falei um pouco do evangelho para ele, dei-lhe o CD e vim para casa com o cartão de gratuidade conseguido em apenas cinco minutos, depois que me sentei diante do anjo do dia, que se chama Eduardo.

Por causa dessa aventura, perdi a hora do almoço no Oswaldo e acabei comendo (em casa) um sanduíche de pão integral, com peito de peru defumado e pimentão vermelho, tudo bem magrinho, sem gordura alguma!

Agora estou munida de cartão de gratuidade, como todas as outras senhoras idosas, que dele precisam. Mesmo porque não sou melhor do que elas e paguei tanto dinheiro em impostos ao governo, durante 36 anos trabalhando como microempresária, que este é um ínfimo retorno de tudo quanto o governo tem me abocanhado, durante quase oito décadas de existência.

 

Mary Schultze, 05/12/2008.

www.cpr.org.br/Mary.htm