Batalha Espiritual - 10 anos
Por volta dos anos noventa entrei em contato com o movimento de "batalha espiritual".
Na época e na minha cabeça, o movimento parecia estar no mundo inteiro.
De fato, mais tarde verifiquei que essas doutrinas conquistaram muitas fronteiras.
Com elas surgiu a polêmica: Quebrar maldições é bíblico ou não?
Enquanto se debatia, participei de conferências temáticas e entrei na onda.
Dessa fase restam diversas lembranças engraçadas.
Havia um tipo de paranóia em relação a azeite.
Houve casos de pessoas que passaram azeite até nas lâmpadas de sua residência.
Na própria igreja que eu freqüentava, eu escutei a história da diaconisa exorcista, que durante a madrugada, ela andava nas ruas com uma lata de azeite pingando, com o objetivo de "ungir" todas as ruas em um raio três quarteirões da igreja, sete vezes consecutivas.
E ela contou isso para pouquíssimas pessoas - Por que se esse pacto secreto fosse descoberto por algum macumbeiro, ele poderia fazer um despacho e neutralizar todo o trabalho dela... (?!?).
Já era a segunda vez que ela realizava todo o empreendimento, por que os filhos do pastor davam mau exemplo se envolvendo em divórcios e adultérios, e ela estava intrigada por que o Diabo estava agindo na igreja, até que ela recebeu a resposta em uma profecia dada por uma irmã, de que um vereador do partido de oposição ao pastor, havia descoberto a consagração da igreja e havia feito uma macumba, neutralizando a proteção sobre a igreja, permitindo a ação do Diabo lá, e portanto, seria necessário ela refazer toda a consagração da igreja, andando de madrugada com uma lata de óleo de soja sujando as ruas.
Recordo também o pé gigante de certa pessoa, que recortou um pé em um pedaço de papelão, e levando-o para a igreja, ele colocava o pezão de papelão no chão, e nos momentos que a banda cantava: "Satanás está de baixo dos meus pés", ele pisava no pezão!!! Pisa! Pisa! Pisa!
Atos proféticos voluntários - Toda a inutilidade e insanidade de uma religião medíocre.
A febre era tanta, que houve até grupo de axé lançando música gospel "Na casa do Senhor não existe Satanás, xô Satanás, xô Satanás, xô Satanás!!"
Após ser salvo lendo a Bíblia, aprendi a temer a Deus ao invés de temer o capeta, e não debochar ou insultar seres espirituais, pois nem mesmo arcanjo Miguel fez isso.
Jd 1:9 Mas o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo, e disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele; mas disse: O Senhor te repreenda.
Anos mais tarde, com certa distância, pude fazer uma análise mais sóbria disso tudo. Vamos propor uma reflexão prática sobre os efeitos de tanta batalha espiritual.
Um dos argumentos do movimento, é que não conseguimos evangelizar e ministrar às pessoas porque o mundo, países, estados e cidades estão sob a autoridade do Diabo.
Segundo essa teoria, Satanás tem autoridade para operar por causa de pactos feitos no passado, estátuas, centros de macumba, nomes de rios ou montanhas que foram consagrados a ele.
É preciso que todas essas urucubacas sejam "quebradas" para que o Espírito Santo possa agir livremente.
Crendo nisso, muitos se afundaram no ocultismo, e passaram a tentar desvendar os segredos demoníacos:
Quais eram os pactos satânicos e lugares consagrados?
Como quebrar essas maldições?
Várias teorias foram formadas, muitas delas com direito a entrevista com demônios, e os nomes de demônios foram retirados da Bíblia, das mitologias, da macumba, e até mesmo inventados.
Ouvi de gente que deu sete voltas em São Paulo tocando corneta, passou azeite nos primeiros sete quilômetros da entrada das cidades, de bíblias sendo enterradas em praças, outros que urinaram ao redor de Curitiba para marcar o território do Leão de Judá, pastores que lavaram a igreja com vinho e fulana que fez um "mapa espiritual" contendo os mais diversos templos religiosos do Brasil, disk-exorcismo, pessoas que lavaram a casa com óleo de soja acreditando que isso afastaria o demônio, a pastora que destruiu um caixão no púlpito com uma baioneta, e loucuras ad nauseum.
Nesta sede de ocultismo e espiritualismo, então muitos começaram a dar ouvidos a ex-satanistas, e a idolatrá-los a tal ponto, que qualquer bobagem que eles dissessem, por mais ridícula, estúpida e anti-bíblica que fosse, era tido como uma verdade absoluta, e ai de qualquer mortal que ousar contrariá-lo, por que é um enviado do capeta.
Outros chegaram ao ponto de vender "defumadores de guerra" e "espadas consagradas", e todo o tipo de bugigangas, tralhas e porcarias, segundo princípios os bíblicos mais subjetivos, no melhor estilo da IURD, mas certamente os mais lucrativos foram os livros, CDs e DVDs de mensagem e seminários de batalha espiritual, que eram tidos pelos fiéis como materiais e escrituras quase-sagradas, tão importantes quanto à própria Bíblia.
Isso sem contar as tantas orações, e aquela gritaria toda.
Foi uma quebradeira e amarração pra ninguém botar defeito.
Porém, não se viu resultado substancial desse esforço.
Nunca os demônios foram tão expulsos, amarrados, surrados, interrogados, torturados, queimados em igrejas "cristãs".
Igualmente, nunca se viu tantos cristãos dando mal-exemplo.
Até hoje, assistindo a TV, é difícil ver algum pastor que durante a oração não tente praticar alguma forma de exorcismo com o tele-espectador.
O Diabo continua operando de forma bem similar de como atuava antes do movimento.
Basta assistirmos televisão para testemunharmos guerras, nudez, injustiça, pizzas, fome, patuás, pregadores falando bobagens, etc.
Infelizmente a esperada explosão do cristianismo no mundo não seguiu todas as quebras de maldições feitas.
Parece que nunca o Evangelho foi tão rejeitado, embora tenha inúmeros simpatizantes que freqüentam igrejas diversas.
Houve um erro estratégico.
Porque as armas da nossa milícia não são carnais, mas sim poderosas em Deus para destruição das fortalezas;
Destruindo os conselhos, e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo; (2Co 10:4-5)
Parece que se esqueceram de ler o quinto versículo.
A batalha espiritual não é contra rios, montanhas, estátuas, prédios ou coisas que defuntos fizeram.
Não é dessas coisas que vem o poder do Diabo, mas são de idéias falsas, orgulho e pensamentos humanos, ou seja, Satanás opera porque deixamos suas artimanhas minarem a nossa cabeça e nosso coração. É por esse território que devemos lutar!
Eu bem que gostaria que o problema do coração humano, da depravação, do pecado, pudesse ser resolvido em uma tarde de libertação com um pouquinho de óleo de Israel e um shofar.
Isso tornaria a guerra bem mais fácil.
Mas para ganharmos almas é preciso sacrifício, dedicação e amor.
É preciso estar com as pessoas, e anunciar a pura verdade das boas novas de Cristo.
Exorcismo e banho de azeite não salva ninguém.
Há dois caminhos para escolher:
1) A redenção espiritual provida pelo sacrifício de Jesus Cristo é perfeito
Portanto:
Sou salvo, devo ser luz do mundo, exemplo de muitos.
2) A redenção espiritual provida pelo sacrifício de Jesus Cristo não é perfeita, e ainda falta se redimir de muitas maldições hereditárias e pactos do passado
Portanto:
Devo procurar a igreja exorcista mais próxima da minha casa e consultar um bom exorcista libertador, para eu me descarregar, exorcizar, quebrar todo o mal, para ele e eu completarmos a redenção espiritual imperfeita de Jesus Cristo, e assim, finalmente estarei redimido e livre, do mal e do capeta.
A escolha dois trás algumas conseqüências
A) Quem tem a Obra de Cristo como imperfeita, não é salvo.
B) Quem não confia unicamente em Cristo, não é salvo.
C) Não-salvos podem ficar endemoniados, gerando as "experiências" que muitos têm como "prova de que sua religião é verdadeira, e que ele está fazendo tudo certo", nada mais é que puro demonismo, não muito diferente de um centro espírita.
Olhando tudo, percebemos que boa parte das doutrinas inventadas por homens serve justamente para tornar necessária a existência de sacerdotes, eles querem se promover, e se colocarem em pé de igualdade com Deus.
Segundo as doutrinas dos homens, o povo (leigos) não tem acesso direto a Deus, mas necessitam de sacerdotes (clero) como intermediários entre Deus e eles (leigos), não muito diferente da necessidade e exclusividade de um padre para rezar uma missa, ou dos rituais de diversas religiões.
O pobre fiel necessita de um bom exorcista e de seu próprio esforço pessoal, para completar a sua redenção espiritual, que o sacrifício de Cristo não conseguiu completar.
Coitado desse "cristo", que não consegue dar para as pessoas uma coisa que qualquer exorcista consegue, deixando as pessoas à mercê dos demônios e da boa vontade dos exorcistas.
Afirmo abertamente, que esse "cristo", não é o Cristo da Bíblia.
Pergunto-me então: E se eu me mudar para uma cidade que não tem igreja alguma, nenhum sacerdote para eu recorrer, nenhum exorcista, então eu (salvo) ficarei sem Deus???
Ora, convém que as igrejas esqueçam os erros do passado, e se libertem desse "clero" de exorcistas, que ensina mentiras e demonismo só para se promover.
Marcelo Gross
Enviado por Humberto Ribeiro Fontes em 22/01/08