Benny Hinn em busca do dinheiro nigeriano
BBC Focus On Africa magazine (27 junho 2005)
By Sola Odunfa
Em abril passado, uma grande quantidade de cartazes e de gigantescos outdoors, espalhados por toda a [cidade de] Lagos, proclamava o primeiro dos três dias de curas e milagres divinos a, pelo menos, seis milhões de nigerianos. Porém, no final do terceiro dia, houve mais disputa por dinheiro do que louvor a Deus, pela misericórdia recebida.
O intermediário das maravilhas do Espírito Santo foi o evangelista Benny Hinn, residente nos Estados Unidos, o qual voara para a Nigéria em seu jato particular, um Gulfstream, com uma numerosa comitiva, inclusive com os seus seguranças particulares. Ele foi recebido em Lagos com uma procissão de jipes Hummer e de outros carros de luxo.
Os surdos iriam ouvir; os cegos iriam enxergar; os paralíticos iriam pular e andar, as mulheres estéreis iriam conceber, os desempregados iriam conseguir emprego e os inimigos - tanto os visíveis como os invisíveis - seriam vencidos. Que se mencionassem quaisquer problemas físicos, espirituais ou econômicos - porque Hinn havia chegado com a solução instantânea [dos mesmos].
Mas as coisas não correram bem.
Despesas
Cerca de 300 mil pessoas assistiram ao evento, em cada noite - uma assistência modesta para o normal das cruzadas nigerianas. Calcula-se que cerca de um milhão de adoradores costuma assistir ao culto mensal do Holy Ghost Congress, organizado pela Redeemed Christian Church God (RCCG), no mesmo local.
Mesmo decepcionado, na primeira e segunda noites, Hinn ficou quieto - mas extravasou sua raiva, no último dia.
“Quatro milhões de dólares escoados pelo ralo”, ele gritou ao microfone do imenso palco. Ele disse que havia recebido a garantia do comitê organizador local de que pelo menos seis milhões de pessoas iriam assistir à cruzada; contudo, a freqüência fora de apenas um milhão. No final, ele descobriu que todo aquela parafernália de propaganda, que ele havia deslanchado, nos Estados Unidos, não fora necessária. Ele também se queixou sobre algumas das despesas realizadas, das exigências impostas aos pastores que haviam assistido ao seu seminário diurno e aos jornalistas que haviam tentado cobrir a cruzada. Em seguida, ele anunciou, publicamente, que não iria arcar com todas aquelas despesas e que os organizadores locais arcassem com as mesmas, usando as coletas feitas nos dois primeiros dias.
As reclamações de Hinn logo obscureceram o contexto espiritual do evento. Algumas pessoas da assistência apareceram, declarando, publicamente, que haviam sido curadas e recebido outros milagres, depois das orações, porém ninguém lhes deu atenção.
O líder nigeriano do comitê organizador do evento, o Bispo Joseph Olanrewaju Obembe, acusou outros pregadores pentecostais nigerianos de sabotagem à cruzada, tendo promovido falsas informações sobre Hinn e os seus assistentes, para que estes fossem desacreditados.
Logo depois da cruzada, foi organizado um comitê pela liderança da Pentecostal Fellowship of Nigéria (PFN) - a organização protetora das igrejas pentecostais, em toda a nação - a fim de se investigar a razão da controvérsia.
Grandes mantenedores
A fé pentecostal na Nigéria é, de fato, uma mina de ouro, a julgar pela opulência em que vive a maioria dos pastores. Ela se torna ainda mais atraente porque os lucros das igrejas são isentos de impostos. Quase todas essas igrejas são de propriedade particular dos próprios pastores ou dos fundadores e de suas famílias mais próximas.
No sentido econômico, a maioria da população da Nigéria, estimada em 130 milhões de almas, tem sido empobrecida pelo desemprego, pela falta de estrutura básica social e pelo aumento da inflação; por isso a igreja tem se tornado o último refúgio para muitas pessoas.
As igrejas mais favorecidas são as da nova geração de assembléias pentecostais [neopentecostais], as quais são gerenciadas por pastores tagarelas e ambiciosos, imitadores dos americanos.
Os nigerianos ricos e poderosos seguem os pastores em busca de “proteção espiritual” contra os imaginários “inimigos” que os aguardam em cada esquina, a fim de prejudicá-los. Estes são os principais mantenedores das igrejas. A atração se embasa na injunção bíblica de que “jamais faltarão doadores” (???) e porque os pastores nunca indagam a procedência do dinheiro dos doadores.
Serviço prestado
Em março de 2003, o contador de um hotel cinco estrelas foi preso pelo suposto roubo de 40 milhões de nairas (nesse tempo o equivalente a 400 mil dólares) do seu empregador. Seus colegas ficaram chocados, porque nada existia que pudesse sugerir que ele estivesse levando uma vida acima de suas posses - pois ele não possuía carro, morava num pequeno apartamento alugado, num bairro proletário de Lagos. O homem logo confessou que havia entregue todo o dinheiro a uma igreja pentecostal, em espécie e equipamentos.
De outra feita, um funcionário de banco furtou 40 milhões de nairas do seu empregador, tendo entregue 10 milhões à sua igreja como “dinheiro de semente”, na crença de que a semente iria germinar e render muitas vezes, conforme a promessa do seu pastor.
A maioria dos nigerianos acredita que muitos dos pastores são honestos e devotados ao serviço de Deus e à humanidade. Mas, logo em seguida, eles chegam ao provérbio Yoruba, que diz: “Somente Deus sabe quem O serve honestamente”.
Mary Schultze, tradutora, em 15/06/2008.
Título do artigo em Inglês Pastor Hinn in Nigerian money row