"Conhecendo Deus"
Pr. Gary Gilley/ Mary Schultze
Em 1990, foi publicado um livro texto embasado nos ensinos de Henry Blackaby (com a co-autoria de Claude King), pastor da Convenção Batista do Sul e conferencista público, editado em 40 línguas, o qual já vendeu mais de 2 milhões de exemplares.
Esse livro - "Conhecendo Deus" - foi adotado em cursos de 13 semanas, por cerca de 1/6 dos Batistas do Sul. Conforme algumas estimativas, isto significa mais ou menos a metade de todos os membros ativos da Denominação Batista do Sul. Também, conforme um porta-voz da liderança da Escola Bíblica Dominical da denominação, igrejas de muitas outras denominações adotaram o livro, inclusive algumas igrejas católicas romanas. Além disso, existem atualmente edições do livro texto para jovens e adolescentes, além de vídeos e um importante guia de estudo.
A versão de "Conhecendo Deus" tem como substituta "Conhecendo Deus e Fazendo a Sua Vontade" (editada pela Library Press Nashville, Tenessee), que é uma forma ampliada e modificada do livro texto, publicada em 1994, a qual já vendeu mais de 250 mil exemplares. Além disso, milhares de pessoas têm freqüentado os "Experiencing God Weekends" (Fins de Semana Conhecendo Deus) e os "Experiencing God Weekends for Couples" (Fins de Semana Conhecendo Deus para Casais), patrocinados pela Convenção Batista do Sul, embora franqueados a todas as denominações. Esses "Fins de Semana" foram também adotados pelo Colégio Boston (jesuíta) em sua série de conferências intitulada "Experiencing God Conversation Series" (Série de Conversações Conhecendo Deus).
Tanto o livro de Blackaby como os seminários nele embasados são algo que deveria ser detestado pelos crentes evangélicos de hoje. Eles formam uma salada de pura significação mística para o viver cristão e, como conseqüência, minam e distorcem a Palavra de Deus. Este exame da obra de Blackaby tem como objetivo não apenas denunciá-la, mas também mostrar o estado do Evangelicalismo na América.
O ensino geral de "Conhecendo Deus" gira em torno do que Blackaby denomina "As Sete Realidades de Conhecer Deus":
1. - Deus está sempre agindo ao redor de você.
2. - Ele persegue uma contínua relação de amor com você, a qual é real e pessoal.
3. - Deus convida você a se envolver com Ele e com a Sua obra.
4. - Deus fala pelo Espírito Santo através da Bíblia, da oração, das circunstâncias e da igreja, a fim de revelar-Se e revelar os Seus desígnios e os Seus caminhos.
5. - O convite de Deus a você para trabalhar com Ele conduz você a uma "crise de crença", a qual exige fé e ação.
6. - Você deve fazer ajustes importantes em sua vida, a fim de juntar-se a Deus no que Ele está fazendo.
7. - Você chegará ao conhecimento de Deus através de experiências, à medida em que for obedecendo-Lhe e Ele complete a Sua obra em você.
Pensamentos Gerais
"Conhecendo Deus" é um livro repleto de erros. Ele é biblicamente insustentável em suas assertivas, nas declarações inacreditáveis e na teologia histórica (visões embasadas em narrativas interessantes em vez de nas Escrituras). Vejamos alguns exemplos:
1. - As últimas quatro das Sete Realidades contradizem a Escritura ou, na melhor das hipóteses, não podem ser por ela respaldadas.
2. - "Se você se preocupar quando ouvir Deus falando, estará com um problema no exato âmago de sua experiência cristã" (p. 87 do original Inglês). Mas o que significa isso? Será que Deus fala individualmente com o cristão? Se é assim, qual a Escritura usada para apoiar esta declaração? (Blackaby não usa sequer uma). [Isso não contraria sobremaneira a 2 Timóteo 3:16-17? - MS].
3. - Depois de orar a Deus, Blackaby aconselha; "Reflita sobre os seus sentimentos... Como você se sentiu, à medida em que andou e conversou com Deus?" (p. 62). Qual a passagem bíblica que nos ensina a refletir sobre os nossos sentimentos, a fim de avaliarmos nossa vida de oração?
4. "Conhecer Deus vem somente através da experiência, à medida em que Ele se revela, através de minhas experiências com Ele" (p. 5). Ora, por acaso a Bíblia não nos revela Deus? Será que nossas experiências são necessárias e, o que é mais importante, será que nossas experiências são confiáveis, quando tentamos conhecer Deus?
5. - "Com Deus agindo através do Seu servo, ele pode fazer qualquer coisa que Deus pode fazer. Ora viva! Potencial ilimitado!" (p. 26). Kenneth Copeland, Paul Crouch, Benny Hinn e toda a gangue da Palavra da Fé iriam gritar a mesma coisa! Será que os crentes podem criar? Será que eles podem convencer do pecado? Será que eles podem conduzir os homens a Deus? Esta declaração é uma grosseira perversão de Filipenses 4:13 (Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece). Ela é muito semelhante à declaração dos "Manifestos Filhos de Deus".
6. - "Quando Deus está pronto a realizar algo, Ele revela a uma pessoa ou ao Seu povo o que Ele vai fazer" (p. 31). Será mesmo? Realmente, este conceito é a ênfase principal do livro, devendo ao mesmo grande parte de sua popularidade. Mas qual a Escritura que respalda isso? Será que Deus revela à Sua igreja o que Ele VAI FAZER na próxima semana? Ou então, qual o próximo movimento de Deus neste mundo? Você pode dizer, num piscar de olhos, o que Deus tem feito e quem Ele tem usado, mas avançar no futuro é outra história.
7. - "Você precisa fazer ajustes importantes em sua vida para se juntar a Deus no que Ele está fazendo". (p. 38). Blackaby gostaria que "ajustássemos (nossas) vidas" com Deus (p. 73), em vez de nos arrependermos de nossos pecados. Qual o tipo de ajuste que ele está mencionando aqui? Ele costuma usar a palavra "ajuste" mas nunca dá uma explicação. É de admirar que ele seja tão relutante em usar boas e antigas palavras bíblicas como "arrepender-se" e "confessar". Parece que "ajustar-se" soa mais bonita e clara, enquanto a expressão "arrepender-se do pecado" pode soar suja e feia! Talvez seja esta a razão. A sabedoria moderna nos comanda a que evitemos escandalizar qualquer pessoa, mesmo que seja para falar a verdade.
O que é a Palavra de Deus?
No que se refere a algumas das declarações acima, feitas por Blackaby, o pior de tudo é a distorção da Palavra de Deus. Mesmo estando o livro recheado de inúmeras referências bíblicas e algumas das declarações de Blackaby até tenham respaldo na Escritura, inclusive quando ele faz altos elogios à Palavra, falando de sua importância, nós o denunciamos por distorção da Escritura e para isso usaremos três fontes:
1. - O mau uso das Escrituras
2 Timóteo 2:15 - "Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade". Ele faz mau uso da Escritura. Claro que se desejarmos ser obreiros aprovados por Deus, precisamos manejar corretamente a palavra da verdade. Os mestres da Palavra têm uma tremenda responsabilidade no entender e entregar a palavra da verdade em vez de suas próprias opiniões. Neste ponto Blackaby fracassa miseravelmente. Usar erroneamente a Bíblia como ele faz não é incomum. Seus erros não são únicos, mas isso não é desculpa para quem fala em o Nome de Deus. Tenham em mente que Blackaby tenta usar as passagens seguintes em apoio à suas visões.
João 14:26 - "Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito". Ele diz: "O Espírito de Deus será o seu Mestre pessoal... Ele estará agindo no sentido de revelar Deus, seus propósitos e Seus meios a você" (p. 3). O restante do verso já esclarece a sua significação. "E vos fará lembrar" ... Jesus não estava falando para nós, mas para os Seus discípulos. O Espírito Santo iria ensiná-los e lhes trazer à memória aquelas coisas que eles iriam revelar amplamente à igreja, através do Novo Testamento. Este verso não é uma promessa direta ao crente comum.
João 14:6 - "Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim". Blackaby usa este verso para ensinar o que Deus deseja que façamos com as nossas vidas. "Quem é que realmente sabe o caminho, no qual você cumpre o propósito de Deus em sua vida? Somente Deus... Se você pudesse fazer tudo que Jesus lhe diz um dia, em certo tempo, você na certa seria o centro de onde Deus quer que você seja. Será que você pode confiar em Deus para seguir esse caminho?" (p. 21). Esta passagem não trata do contexto do desejo individual de Deus para nossas vidas, mas do contexto da salvação e da vida eterna.
Hebreus 1:1 - "Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho". Blackaby utiliza este verso, junto com alguns outros, a fim de provar que Deus fala hoje ao seu povo, fora da Escritura:
"Se algo está claro a partir da leitura da Bíblia, este é o caso. Deus fala ao Seu povo... Deus fala ao Seu povo e você pode antecipar que Ele também está falando a você" (p. 83). Observem cuidadosamente que Blackaby não está se referindo somente à Palavra de Deus escrita. Ao usar Hebreus 1:1 como texto prova, Blackaby faz o mesmo que fez com o verso anterior: ele o retira do contexto. Quando lemos as linhas seguintes, "nestes últimos dias" (verso 2), vemos que Blackaby torce a Escritura. Em vez de um texto prova de Deus nos falando fora da Escritura, Hebreus 1:1-2 concorda com Hebreus 2:1-4, provando que a revelação de Deus foi feita ao "Seu Filho" e foi registrada pelos apóstolos na Palavra de Deus. Esta passagem comprova que não existe qualquer revelação adicional fora da Bíblia. Blackaby não poderia estar mais errado!
Lucas 4:24 - “E [Jesus] disse: Em verdade vos digo que nenhum profeta é bem recebido na sua pátria.” Aqui ele tenta mostrar como usar as Escrituras a fim de encontrar a direção do Senhor. Em vez de ensinar os seus leitores a estudar cuidadosamente a Palavra de Deus no contexto, usando os apropriados princípios da Hermenêutica, Blackaby ensina um método neo-ortodoxo. Conta-se a história de uma senhora que despertou certa noite com esta referência martelando-lhe a mente. Ela se levantou para ler a passagem e "na manhã seguinte, Deus falou a Gail, através da Bíblia. Ela constatou que até mesmo Jesus teve de se afastar do lar para pregar as boas novas do reino de Deus em outras cidades" (p. 24). Ela sentiu o Espírito Santo lhe dizendo que deveria abandonar o conforto e a segurança do lar e ir com o marido para servirem juntos ao Senhor. Mais tarde, no seminário "Conhecendo Deus", ela deu um testemunho do que Deus lhe havia falado". Na base do que Deus "falou" a Gail, ela e o marido venderam sua casa e se mudaram para outro estado". Ora, isso é puro ocultismo! É uma entre tantas perversões da Escritura!
João 11:4 - "Esta enfermidade não é para morte, mas para glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela". Esta passagem é usada [por Blackaby] da mesma maneira. Tomada como se fosse uma promessa pessoal à sua família, ele acreditava que Deus havia prometido que sua filha não morreria de câncer - e ela não morreu. Teria sido esta uma prova real de que Deus havia falado? Mas o que dizer dos milhares que, em todos estes anos, têm clamado este mesmo verso para depois verificarem um ente amado morrendo? Talvez por causa desse mau uso da Escritura muitos cristãos têm achado que Deus os decepcionou - e até os enganou. Contudo, João 11:4 nada tem a ver com a filha de Blackaby ou de qualquer outra pessoa. Ele tem a ver com Lázaro.
Romanos 8:26-27 - "E da mesma maneira também o Espírito ajuda as nossas fraquezas; porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que examina os corações sabe qual é a intenção do Espírito; e é ele que segundo Deus intercede pelos santos".
Blackaby cita estes versos para ensinar que o Espírito Santo "nos ajuda a conhecer a vontade de Deus, quando oramos... Sua tarefa é levar você a perguntar [a vontade de Deus]" (ps. 110-111). Claro que estas passagens não nos ensinam tal coisa. Em vez disso, elas nos dizem que "o mesmo Espírito intercede por nós". O Espírito Santo não é um carregador místico de bagagens de Deus, apressando-nos a pedir pelas coisas certas, antes que lhas consigamos (conforme Blackaby afirma). Em vez disso, reconhecendo a nossa fraqueza, Ele intercede por nós, conforme a vontade de Deus.
2. - Neo-Ortodoxia
Outra fonte na qual Blackaby deve ser desafiado é nas suas tendências neo-ortodoxas. Ele certamente iria negar o manuseio neo-ortodoxo, porém sua teologia tem sido influenciada pela Neo-Ortodoxia.
A Neo-Ortodoxia é uma teologia "cristã" com raízes nos ensinos existenciais de Soren Kierkegaard e Karl Barth. Barth foi um teólogo alemão que tentou fugir do Liberalismo nos passados anos 1900 [mestre do teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer - MS]. Infelizmente, quando Barth reconheceu o erro do Liberalismo e começou a andar na direção da Ortodoxia Conservadora, logo parou. Foi quando ele firmou suas próprias visões, as quais, eventualmente, receberam o nome de Neo-Ortodoxia ou "Barthianismo". Blackaby não chegou a se tornar um verdadeiro "barthiano", porém suas visões da Escritura foram influenciadas pelo seu movimento. Barth reagiu à subjetividade do Liberalismo. Os liberais não tinham qualquer autoridade, nem a Palavra de Deus. Barth acreditava que o homem precisava de uma Palavra de Deus com autoridade e a Bíblia era apenas o registro dessa palavra. Então o ensino de Barth foi que a Bíblia não era a Palavra de Deus, mas que ela se torna a Palavra de Deus, se e quando Deus nos fala através dela. Mas, e isso é importante, outras coisas, tais como um sermão, um jornal, uma novela, etc., podem também se tornar a Palavra de Deus, quando Deus nos fala através delas.
Em outras palavras, uma das contribuições da Neo-Ortodoxia aos cristãos evangélicos é a visão de que a revelação que Deus faz ao homem pode tomar várias formas. A Bíblia deixa de ser a única fonte de autoridade divina em nossa época, sendo apenas uma delas. Deus não somente pode, como deveríamos esperar que Ele nos fale através de visões, sonhos circunstâncias, sentimentos, poemas, novelas, música, etc.
A visão neo-ortodoxa é amplamente aceita entre os cristãos professos, graças à influência do Movimento Carismático. Desse modo, muitos leitores do livro "Conhecendo Deus" não se chocam ao ler: "Deus fala pelo Seu Espírito Santo através da Bíblia, da oração, das circunstâncias e da igreja, para revelar-Se ou revelar os seus propósitos e os Seus caminhos. Quando Deus lhe fala, você pode saber que é Ele quem está falando e sabe claramente o que Ele vai lhe dizer" (p. 87).
Conforme a Neo-Ortodoxia, existe revelação em fontes fora da Bíblia e até mesmo que a Bíblia não é a Palavra de Deus, a não ser que Ele resolva que ela o seja. Blackaby diz isso em resposta à pergunta: "Posso obter uma palavra de Deus na Bíblia?" (Observe que até mesmo Blackaby admite que o seu sistema confunde as pessoas sobre o que a Palavra de Deus é). Sua resposta é: "Sim, você pode. Mas somente o Espírito Santo pode revelar-lhe qual verdade da Escritura é a Palavra de Deus numa circunstância especial" (p. 88) (Ênfase acrescentada).
Você pode ver o que tem acontecido? Blackaby não está dizendo simplesmente que somente o Espírito Santo pode abrir nossos olhos à verdade bíblica (doutrina do Iluminismo), mas algo totalmente diferente. Para ele, a Bíblia já não é a "Palavra de Deus", mas ela se torna a Palavra de Deus, quando Deus dela faz uso para falar com você através de suas experiências ou circunstâncias. Deus pode também nos falar através de um poema, do Wall Street Journal, de nossa igreja, de nossa sogra, de nossos impulsos, bem como de sonhos e visões. Blackaby torna a Palavra de Deus completamente relativa e experimental, em vez de bíblica.
Isso é pura Neo-Ortodoxia, quase idêntica aos ensinos doutrinários dos movimentos - Carismático e Vineyard. Jack Deere, um eminente teólogo do Vineyard, escreveu: "Deus pode e entrega palavras pessoais de direção aos crentes, hoje em dia, as quais não se encontram na Bíblia" (Vineyard Position Paper, p. 15). Desafio qualquer pessoa a mostrar a diferença entre a visão de Deere (um professor público do Vineyard) sobre revelação e a de Blackaby. Nenhuma, daí a nossa preocupação!
No programa de Blackaby, a visão da revelação torna-se intensamente prática. Ele escreve o seguinte: "Sua tarefa é aguardar, até que o Mestre lhe dê instruções. Se você começar a `agir´ antes de receber a direção de Deus, mais que na certa você cometerá erro". (p. 89). Isso parece muito espiritual, mas como funciona? Devemos esperar que Deus nos fale diretamente, antes de tomarmos uma decisão. Se não escutarmos a voz de Deus, nada devemos fazer. Mas logo vem a pergunta: "Uma vez que tenhamos aceitado a visão ortodoxa da revelação, como saber se é a voz de Deus, e não do Diabo ou de nossas emoções, que está nos falando?"
Wayne Grundem, outro teólogo do Vineyard, o qual é um crente por atacado nas revelações extra-bíblicas de todos os tipos, tenta responder essa pergunta, ao declarar: "A revelação pareceu algo do Espírito Santo, ela pareceu semelhante às nossas experiências com o Espírito Santo, as quais Ele havia conhecido previamente na adoração? Fora disso, existe uma dificuldade em se esclarecer mais, exceto dizer que com o tempo uma congregação possivelmente iria tornar-se mais abalizada para fazer avaliações... e mais abalizada em reconhecer uma genuína revelação do Espírito Santo, distinguindo-a de nossos próprios pensamentos" ("The Gift of Prophecy in the New Testament Today", ps. 120-121) [Isso parece uma boa lorota! - MS].
Grundem é razoavelmente o mais cuidadoso e respeitado teólogo carismático do país. Ele ensina Teologia Bíblica e Sistemática na Trinity International University, em Deerfield, Illinois (afiliada à Evangelical Free Church of America). [Diante de tanta ignorância da verdade bíblica desse Doutor em Teologia, vou acabar me considerando uma "teóloga" bem melhor do que ele! - MS] Mesmo assim, o máximo que ele pode alcançar em sua resposta à nossa preocupação é: "Parece ser o Espírito Santo?" Será que "uma congregação provavelmente" será capaz de conseguir discernimento com o passar do tempo? Enquanto ficamos vacilando, tentando descobrir se algo procede ou não do Espírito Santo (nada na Bíblia nos ajuda aqui) e esperando ficar melhores no estofo do discernimento, Blackaby nos diz que não devemos sequer nos atrever a fazer qualquer movimento, até que possamos ouvir a voz de Deus. Infelizes dos pobres cristãos que acreditam nesse lixo - os quais estão desesperadamente imersos num oceano de subjetividade e misticismo!
Neste ponto, Blackaby, Deere e Grundem não passam de tolos. Eles clamam que, conquanto acreditem que Deus fala ao Seu povo, hoje em dia, fora da Bíblia, essas revelações podem não estar de acordo com a Escritura. Ou seja: Deus fala hoje, mas não com a mesma autoridade como o faz em Sua Palavra. [Agora poderíamos indagar como Paulo: Quem nos livrará do corpo dessa morte "teológica"? - MS].
Nesse caso, não nos acusem de acrescentar algo à Escritura, diriam eles. Contudo, o mais interessante é que isso nos leva a outro item. Encontramos na Bíblia que Deus falou, quer oralmente (aos Seus profetas) ou através da palavra escrita. Mesmo assim, Sua Palavra sempre teve absoluta autoridade. Ela foi nada menos que a Palavra vinda de Deus - a qual deve ser obedecida e observada. Agora Blackaby (e outros) vêm nos dizer que Deus está falando hoje de um modo jamais encontrado, descrito ou mesmo relanceado na Bíblia. Ora, Deus está falando hoje, porém Sua Palavra já não tem autoridade. Ela pode ser pesada e avaliada. Não podemos sequer ter certeza de quando Ele está nos falando. E quando alguém tem certeza de que Ele está falando, ainda pode acreditar que essa revelação possa estar particularmente errada.
É assim que Wayne Grundem o explica: "Existe um testemunho quase uniforme de todos os segmentos do Movimento Carismático que a profecia é imperfeita e impura, podendo conter certos elementos que não devem ser obedecidos nem merecer confiança". Os líderes carismáticos anglicanos, Dennis e Rita Bennet, escrevem: "Não esperamos aceitar cada palavra falada através dos dons de pronunciamento... Devemos aceitar apenas o que nos é dirigido pelo Espírito Santo e esteja de acordo com a Bíblia... Uma manifestação pode ser 75% de Deus, mais 25% de pensamentos da própria pessoa. Devemos discernir entre ambos" (Ibid, p. 110). Como? A Escritura não no-lo diz...
Continua sendo um mistério o fato das pessoas serem atraídas por essa visão neo-ortodoxa da Palavra de Deus. Certamente não se trata de um melhoramento do "Assim diz o Senhor". Claro que a incerteza desse sistema o torna falido, em comparação à certeza das Escrituras (2 Pedro 1:19-21). São bem expressadas as conclusões de R. Fawle White, o qual escreveu em "The Coming Evangelical Crisis", um capítulo intitulado "Será que Deus fala hoje fora da Bíblia?"
"A Bíblia não oferece razão alguma para se esperar que Deus fale hoje aos Seus filhos, fora das Escrituras. Os que ensinam o contrário devem explicar aos filhos de Deus como essas palavras `recentemente faladas do céu´ possam ser tão necessárias e estratégicas aos mais altos desígnios de Deus para suas vidas, quando o Seu Pai nada fez para garantir que eles sempre irão receber essas palavras... Além do mais, a promessa de tal condução inevitavelmente desvia a atenção das Escrituras, particularmente nos problemas práticos, que lhes pressionam a vida. Jamais subestimemos quão grave esse desvio pode realmente ser" (p. 87).
3. - Misticismo
"Misticismo é a idéia de que a realidade espiritual é encontrada quando se olha o interior (através de meditação profunda ou contemplação). O misticismo é perfeitamente adaptável ao existencialismo religioso; de fato, ele é a sua conseqüência inevitável.
O místico despreza a compreensão racional e busca a verdade através de sensações, imaginação e visões pessoais, vozes interiores, iluminação particular e outros meios puramente subjetivos. A verdade objetiva se torna praticamente supérflua. As experiências místicas são, desse modo, auto-autenticadas, isto é, não estão sujeitas a qualquer forma de verificação objetiva" (Cópia adaptada da obra "The Vanishing Conscience", apenas para se usar a definição de misticismo e não significa endosso algum ao autor do livro, o que, de fato não damos).
A partir desta definição de misticismo, verificamos que o Evangelicalismo em geral, e particularmente o livro "Conhecendo Deus", estão completamente infiltrados de misticismo. A seguir, damos alguns exemplos de misticismo no livro supra citado:
O co-autor do livro de Blackaby, Claude King, quando escreve o prefácio, estabelece o tempo do livro com uma experiência pessoal: "Dois anos atrás, Deus me falou através de Sua Palavra que iria chegar o tempo em que eu precisaria me livrar daquelas responsabilidades trabalhistas e ficar disponível para Ele. Comecei então a orar e a perguntar-Lhe se já havia chegado o tempo para eu deixar o emprego e andar por fé... No feriado do Dia do Trabalho, Deus me convenceu a abandonar o emprego e andar com Ele pela fé, quando completei este novo projeto (ps. 12-13) [Comentário do autor: King faz uma mudança de trabalho baseado no que Deus lhe falou e o convenceu. Como foi que Deus fez isso? Principalmente através de impressões e sensações interiores, e, mesmo assim, ele diz que Deus lhe falou através da Palavra e de conselhos das pessoas. Isso é misticismo e não um princípio bíblico de se tomar uma decisão]. [Comentário da tradutora: Mas que "Deus" inteligente e carismático, hem? Ele sabia que o livro iria "bombar" no mercado livreiro, pois os superficiais evangélicos modernos adoram novidades com tendência mística, e depressa convenceu King a deixar o emprego - MS].
Em seguida, na introdução, Blackaby garante que o Espírito Santo nos convence misticamente de que os ensinos do seu livro procedem de Deus: "Sempre que eu apresentar o que vejo como um princípio bíblico, você vai depender do Espírito Santo para confirmar se esse ensino procede ou não de Deus" [Comentário do autor: Não quero desiludi-lo, Mr. Blackaby, mas o Espírito Santo está me garantindo que o que Blackaby fala é mera tolice. Como foi que o Espírito Santo me falou isso? Não foi através de um cálido nevoeiro nem de uma sensação de paz, mas através de um cuidadoso exame da infalível Palavra de Deus, inspirada de uma vez por todas pelo Espírito Santo! Ele confirma a verdade, não através de sensações, mas das Escrituras].
Blackaby sempre faz esse tipo de declaração: "Quando Deus revela a Sua obra, é tempo de você começar a responder-Lhe" (p. 35. cp ps. 81 e 99). "A verdade não se descobre; ela é revelada. Somente Deus pode lhe dizer o que Ele está fazendo ou deseja fazer através de sua vida" (p. 46). "Quando Deus começa a fazer alguma coisa no mundo, Ele toma a iniciativa de vir e falar com alguém" (p. 66 cp p. 73). "Quando Deus vem a uma pessoa, Ele sempre se revela e revela a Sua atividade" (p. 69) "O que Deus fala Ele garante que vai acontecer" (p. 82). "Quando Ele revela a verdade a você, por qualquer que seja o meio, isso é um encontro com Deus" (p. 85 cp p. 86). (Esse tipo de misticismo também é Neo-Ortodoxia) "Quando Deus lhe falar, você será capaz de saber o que Ele está falando, saberá claramente o que Ele está lhe dizendo" (p. 87 cp p. 100). "O que você faz em resposta à revelação de Deus (convite) revela o que você crê sobre Ele" (p 135). Observem o uso constante da palavra "revelação". "Esquecemos que quando Deus fala, Ele sempre revela o que vai fazer - não o que Ele deseja que façamos para Ele" (p. 137). [Comentário do autor: Observe que Blackaby não está falando a respeito de Deus nos falando através da Bíblia. Ele está ensinando claramente que Deus fala, revela, conversa ou convida o crente através de meios extra-bíblicos e místicos].
Como então podemos supor que estamos ouvindo a voz de Deus? Blackaby nos manda fazer a seguinte oração: "Deus, oro para que eu chegue a tal relacionamento contigo, a ponto de quando Tu falares, eu poder escutar e responder" (p. 90). Que tal fazer esta mística proposta a Deus? Agora, você vai ter um problema espiritual! "Ó, não permita que pessoa alguma o intimide sobre a sua escuta de Deus. Um ponto crítico para conhecer Deus é saber claramente quando Ele está falando. Se o cristão não sabe isso, ele tem um problema no âmago de sua vida cristã" (ps. 83 e 94). E não seria apenas um problema espiritual, conforme Blackaby, mas estaria em completa desobediência à Palavra de Deus. "Quando Deus lhe dá uma direção, você deve não apenas observá-la, discuti-la ou debatê-la, você precisa obedecer" (p. 158).
Esse completo paradigma vem ainda acompanhado da própria bênção especial: "Se você andar em constante relação com a provisão divina para você - o Espírito Santo e a Sua própria presença em sua vida - então jamais chegará o tempo em que você deixará de conhecer a vontade de Deus" (p. 170). Este insustentável conceito é talvez a maior atração em todo o sistema Blackaby.
Com respeito ao misticismo encontrado nos ensinos de Blackaby, certo comentarista declarou com aptidão: "... Essas pessoas que se ocupam na busca do perfeito (segredo) de Deus vão desejar e já estão desejando usar métodos ocultistas, místicos, não segundo as Escrituras, para fazê-lo. Quando se tornam tão místicas e tão em contato com Deus (isto é, sua percepção), elas ultrapassam a linha entre o Teísmo e o Panteísmo. Por essa razão, elas tendem a equiparar-se aos novaerenses (ou melhor, aos gnósticos). Um completo místico (para o qual cada impulso procede de Deus) é, por definição, um panteísta!".
Conclusão:
Os ensinos encontrados no livro "Conhecendo Deus" são perigosos, uma mistura de verdade bíblica e misticismo, de Neo-Ortodoxia e do velho uso distorcido da Escritura. Blackaby segue e perpetua uma tendência que tem encontrado grande aceitação em muitos campos evangélicos, hoje em dia. É a tendência de um relacionamento pessoal com Cristo, mesmo à custa da verdade. Parece que não interessa se o ensino concorda com a Escritura; tudo que importa é que as pessoas se sintam melhor e pareçam estar perto de Deus. Nesse processo, as ovelhas são conduzidas a ficar cada vez mais distantes do verdadeiro Deus e a Palavra de Deus é desprezada.
(Este registro foi resumido e/ou adaptado de uma leitura de três partes (1, 2 e 3), pelo Pr. Gary Gilley, da Southern View Chapel, 3253 South, 4th Street, Springfield, IL, 62703, e usado com permissão).
Traduzido por Mary Schultze para o CPR em 19/02/2007.
Revisado pelo pastor Paulo C Pimentel