Memórias...
Vou começar este artigo com o poema “Depois”, de Giuseppe Ghiaroni, o qual recebi do Prof. Ângelo Moreira da Rocha, meu irmão presbiteriano.
Depois de ter
tentado e conseguido, depois de ter obtido e abandonado;
Depois de ter
seguido e ter chegado; depois de ter chegado e prosseguido!
Depois de ter querido e
ter amado; depois de ter amado e ter perdido;
Depois de ter lutado e
ter vencido; depois de ter vencido e fracassado!
Depois que o sonho
comandou: ''Avança!"
Depois que a vida
ironizou:"Criança!"
Depois que idade
sentenciou: ''Jamais!"...
Depois de tudo que
escarnece e exalta, depois de tudo, quando nada falta,
depois de tudo...,
falta muito mais...!
Acordei às 4 horas da manhã, pensei em vir para o computador, a fim de digitar um trabalho do Dr. Paisley, que traduzi ontem, à mão. Pensei no frio que estava fazendo (fora dos cobertores), desisti do computador e liguei o som para escutar quatro cartas de Paulo: Gálatas, Efésios, Filipenses e Colossenses. Quando Paulo silenciou, fiquei sozinha e senti uma saudade enorme dos entes mais amados, que já se foram: minha mãe, meu marido, Rosa e Dária. A saudade foi me envolvendo, mas logo me consolei com a idéia de que tenho sempre pedido a Deus para me levar em 2007... e faltam poucos meses...
Não tenho doença alguma, faço um trabalho gratificante na obra do Senhor, tenho bons amigos nesta cidade, alguns amigos na Internet, e me sinto amada e respeitada pela família. Contudo, o peso dos anos está ficando cada dia mais difícil de ser carregado e, por isso, eu gostaria de partir para encontrar os meus amados... lá no céu!
Para me consolar da saudade, comecei a relembrar alguns momentos dos anos dourados de minha vida, que foram tantos! Sempre fui agraciada com uma boa aparência física, uma inteligência média e muito gosto pela leitura. Por isso consegui uma certa cultura, primeiro no campo secular, depois (quando me converti a Cristo) no campo teológico.
Quando cheguei ao Rio de Janeiro, em 1954, com 24 anos de idade, fui trabalhar na firma inglesa Mappin e Webb, como secretária do diretor - Basil Scarless. Fiz amizades importantes no campo literário, como Malba Tahan (que foi meu padrinho de casamento, em 1956); Dr. Plínio Travassos (Fundador e Diretor do Museu do Café, em SP); José Lins do Rego, Manuel Bandeira, Seleneh de Medeiros e Elsie Lessa (respectivamente: um escritor, dois poetas e uma cronista do jornal O Globo, todos eles muitos famosos, naquela época).
Certa noite fui convidada para a festa de aniversário de Elsie Lessa. Lá estavam os grandes nomes da intelectualidade do RJ, a festa foi linda e me sobressaí, quando fiz uma saudação em versos à aniversariante. Por ser uma nordestina repentista, eu costumava atrair a atenção dos intelectuais daquele tempo.
Sempre gostei de freqüentar os serões literários. Em casa de Seleneh de Medeiros, conheci o Dr. Plínio, um senhor que tinha idade de ser meu avô e se tornou um grande amigo. Em São Paulo, na companhia do Dr. Plínio, fui a uma reunião literária, onde conheci o poeta Paulo Bomfim, que mais tarde iria se tornar membro da Academia Paulista de Letras. Lembro-me que, quando fui apresentado a Paulo Bomfim, fiquei tão extasiada com a sua beleza física, que lhe disse: “Conhecer um vate assim/ é glória que não mereço. / Em vez de Paulo Bomfim, / Você é um bom começo!” Ficamos amigos e mais tarde ele me presenteou com toda a sua coleção de poemas. Escrevi-lhe uma carta em versos, agradecendo e comentando o seu livro “Transfiguração”. A carta começava assim:
“Li quinze vezes contadas, / em plena meditação, / as estâncias bem rimadas/ desta Transfiguração”. E assim terminava a carta de 16 trovas: ”Você já nasceu poeta, /de carne, sangue e emoção, / por isso atingiu a meta / desta Transfiguração!”
A convite do Dr. Plínio fui passar um fim de semana em Jardim Primavera, na casa de uns judeus alemães, e lá conheci o Dr. Schultze, o qual me pediu em casamento, no mesmo dia.
Quando encontrei Manuel Bandeira e ele me pediu uns versos, fiz estes:
”Quisera ter uma casa / bem branquinha e sossegada, / na zona sul de Passárgada. / Quisera ter muitos livros, / uma vaquinha leiteira / e uma rede bem macia. / Quisera ter a meu lado / o ‘Colombo’ do lugar... / com trinta anos a menos!”
Outra recordação interessante foi de quando nasceu minha filha Rosa Margarete. Era linda demais! Na hora em que a vi, ainda sobre a mesa de parto, falei: “Flor duas vezes mimosa, / beleza de minha vida, / meu lindo botão de rosa , / minha doce margarida”.
Quando embalava ao colo minha primeira neta, eu falei: “Sempre chorando ou dormindo, / boneca de porcelana. / Tem um chorinho tão lindo / minha neta Luciana! // Essa coisinha adorada, / tão frágil e tão mimosa, / veio do céu embrulhada / numa pétala de rosa!”
Memórias do passado; alegria de viver com Cristo no coração e a família que me resta, no presente; e ansiedade por um futuro, lá no céu, quando poderei ver o meu Senhor, como Ele é... E encontrar meus entes amados, que já estão com Ele!
Mary Schultze, 24/05/06