Natal, Ruy Barbosa e eu...
Ontem foi comemorada a Noite de Natal no mundo inteiro, principalmente no Ocidente, e os shoppings ficaram lotados de pessoas que desejavam comprar presentes para os amigos e familiares. Limpei o apartamento e saí três vezes, para fazer compras caseiras e almocei fora. Levei presentes para duas amigas, comprei uma garrafa de vinho verde de Portugal e vim para o computador, onde havia 40 mensagens à espera de resposta. Fiz um assado para o jantar (não tomo ceia) e, de repente, já era noite. Meu dia havia terminado e, fora as goteiras que apareceram em meu quarto (em cima da cama), por causa do excesso de chuvas nos últimos dias, posso dizer que tive um Natal muito tranqüilo e a meu gosto. Dormi num colchonete no chão da sala. Louvado seja Deus!
(Como sei que o Natal é uma festa profana, com cara de religiosa, e que Jesus não nasceu em dezembro, mas provavelmente em abril, vou esquecer o lado religioso da questão).
Antigamente nossas noites de Natal eram gloriosas. Meu marido levava essa festa muito a sério e se vestia de Papai Noel, primeiro para a nossa filha mais velha, depois para a filha mais nova e os dois netos, que chegaram antes dele falecer. Ganhávamos tantos presentes que não havia lugar para os guardar. O Schultze era muito generoso e não economizava, atendendo todos os nossos pedidos. Minha irmã Rosa vinha de São Paulo, carregada de presentes, e ficava uns dias conosco. A família do meu genro, que adorava comidas especiais, chegava trazendo vários pratos natalinos e tomávamos vinho alemão (Liebfraumilch), moderadamente. Tudo era lindo demais e esse era único dia em que meu marido (um luterano liberal) lia a Bíblia com a maior circunspeção. Nosso Natal era maravilhoso. Ele perdurou de 1961 (quando nossa casa ficou pronta) até 1981, pois o Schultze faleceu em agosto de 1982.
Depois que ele partiu, meu genro se encarregou de representar o Papai Noel, mas ninguém poderia substituir o Schultze, que era um ator perfeito para esse papel. Esse Natal improvisado durou poucos anos, pois os pais do meu genro faleceram, ele e minha filha deixaram a Baixada Fluminense (onde tínhamos a empresa H. Schultze Ltda.) e vieram morar numa fazendinha em Teresópolis. Rosa foi morar no Ceará e depois faleceu, em conseqüência de uma lipoaspiração. A partir de então fiz um definitivo ponto final na comemoração natalina. Hoje passo o Natal sozinha, acompanhada das boas lembranças de antigamente e só não entro em depressão porque leio um bom livro, vejo um pouco de TV e “converso” com meus amigos virtuais.
A filha mais nova veio algumas vezes com o marido e fiz uma ceia para eles. Este ano ela fez outro programa e me abandonou, mas não fiquei triste porque gosto de ficar sozinha com minhas recordações dos bons tempos em que o Schultze transformava o nosso Natal na noite mais linda do ano. Fui convidada por umas pessoas da igreja, mas não aceitei o convite, pois são pessoas simples demais e uma delas até me acusa de “falar difícil”, portanto não quis incomodá-las com a minha presença, mesmo porque prefiro ficar sozinha. Agora me lembrei de uma história que se conta sobre Ruy Barbosa, o brasileiro que melhor sabia “falar difícil”. Esta estória me foi enviada, via e-mail, por um padre católico.
“Diz a lenda que Ruy Barbosa, ao chegar em casa, ouviu um barulho estranho vindo do seu quintal. Chegando lá, constatou haver um ladrão tentando levar seus patos de criação.
Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com seus amados patos, disse-lhe:
- Oh, bucéfalo anácrono! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndido da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa.
Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopéia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à qüinquagésima potência que o vulgo denomina nada.
Diante de tanto palavreado difícil, o ladrão, confuso, indagou: - Doutor, isso quer dizer que eu levo ou deixo os patos?”
Imaginem vocês se eu falasse como o Ruy... Já teria sido excluída da minha igreja! Ach Du, Mein Gott!
Mary Schultze, 25/12/04