No princípio era o dízimo...

 

         Os pastores malaquianos, querendo impor a cobrança do dízimo e tentando respaldá-la na Escritura, costumam ler durante o culto  Gênesis 14:20, que diz: “E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos. E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo”.  E principalmente Malaquias 3:8-10: “Roubará o homem a Deus? Todavia vós me roubais, e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas. Com maldição sois amaldiçoados, porque a mim me roubais, sim, toda esta nação. Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim nisto, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal até que não haja lugar suficiente para a recolherdes”.

         Vamos analisar as passagens acima:

         Primeiro: Abrão deu o dízimo, sim, mas não dos seus bens. Ele o entregou a Melquisedeque retirando-o dos despojos de guerra. A partir daí, não temos registro algum de que Abraão tivesse continuado a entregar o dízimo. É o caso de indagar: algum crente bíblico, por acaso, tem despojos de guerra para entregar à igreja?

         Segundo: Israel era uma teocracia, na qual o dízimo era o imposto nacional cobrado dos judeus. Os levitas, a quem se destinavam os dízimos coletados, não tinham renda alguma e viviam da coleta dos dízimos, pois não podiam trabalhar no campo, como os outros judeus. Por acaso os pastores modernos são proibidos de exercer uma profissão fora da igreja? E se vivem exclusivamente do ofício pastoral, será que 10% da renda bruta de cada membro não é uma exorbitância que serve tão somente para aumentar o sentimento de cupidez dos ministros gananciosos?

         Os cristãos vivem em ditaduras ou democracias, onde muitos impostos são cobrados (aqui no Brasil chegamos a pagar quase 40% de impostos). Portanto, se ele ainda retirar 10% de sua renda bruta, para dar ao “Leão Eclesiástico”, vai empobrecer tanto que não poderá viver dignamente. E para onde vai esse dízimo coletado? Para oferecer uma vida nababesca aos pastores e sua família; para financiar viagens de férias ao exterior; para comprar aparelhos de som barulhentos, que nada edificam os crentes; para a construção de templos suntuosos, na vaidosa corrida entre as denominações - “quem tem o templo maior e mais bonito?”

         No afã de conseguirem encher suas igrejas, os pastores modernos apelam às falsas teologias, amaciando o evangelho de Cristo para agradar a gregos e troianos. Eles enchem de satisfação o próprio EGO e o dos crentes, que acabam se considerando deuses, deixando de adorar o legítimo SENHOR da igreja, para adorarem ao pastor e a si mesmos.

         Por acaso o dízimo foi praticado nas igrejas legítimas do Novo Testamento e entre os puritanos? Vamos dar a palavra ao professor Carlos Alberto Gonçalves Lopes, que fez uma pesquisa sobre o assunto e no-la enviou da Bahia:

         “Nos escritos dos pais apostólicos e dos apologistas, não aparecem as palavras comuns para o dízimo; mesmo assim a contribuição [não determinada em porcentagem] continuou na adoração cristã primitiva.

         Justino Mártir observa que em cada domingo “aqueles que prosperam e têm esta vontade, contribuam, cada um na quantidade que quiser. Aquilo que é coletado é depositado com o presidente e ele cuida dos órfãos, das viúvas e dos necessitados [Por acaso vemos o dízimo das igrejas de hoje ser usado para ajudar os órfãos, as viúvas e os pobres... ou tão somente para enriquecer a denominação e dar um alto status de vida aos seus ministros?] e aqueles que estão presos e dos forasteiros que habitam entre nós [Por acaso alguma igreja entrega uma parte do dízimo para ajudar os presos ou, por exemplo, os emigrantes que chegam do Norte e Nordeste do Brasil, em busca de uma vida melhor?] (1 Apol. 67, cf. Também Apost. Const. 2,27).

         Irineu considerou o dizimar como lei judaica que não se requer dos cristãos, porque os cristãos receberam a “liberdade” (Gálatas 5:1) e devem dar sem constrangimento (Haer. 4, 18, 2).

         Orígenes considerava o dízimo como algo ultrapassado, de longe, pelos cristãos nas suas distribuições (In Num.hom.11). Sendo assim, para os antigos pais da Igreja, bem como para os escritores do Novo Testamento, o dízimo era coisa do passado; agora, um novo princípio para as dádivas os guiava e os impulsionava a compartilhar - a bondade de Deus e a compulsão interna do Espírito Santo.

         Nota-se que nesse período primitivo da história da Igreja, a contribuição era voluntária [não sujeita a porcentagem alguma], relacionando-se diretamente como [no] caso da pessoa ter prosperado na mão de Deus, ou não,  e era principalmente para socorrer os pobres. Pouco ou nada se dizia quanto ao sustento dos clérigos e da igreja. Supõe-se que eram mantidos pelas ofertas voluntárias das pessoas às quais ministravam.

         Mais tarde, porém, o dízimo foi reintroduzido como meio de sustentar a igreja. Foi reintroduzido, de início, com a ajuda de passagens do Novo Testamento, tais como Mateus 10:10; Lucas 10:7; 1 Coríntios 9:3-4, etc. e numa base voluntária.

         Finalmente entrou em vigor a lei civil [nos países europeus de fé protestante] para impor aquilo que a instrução não conseguia levar a efeito. O famoso decreto de Carlos Magno (785 d.C) já não dava ao povo uma opção, o qual passou a ser tributado para o sustento da Igreja, quer gostassem ou não [o dízimo na Igreja de Roma chegava a 30%, fora um dízimo real no testamento dos católicos falecidos]. G.F. Hawthorne). (Informações colhidas no Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, Edições Vida Nova, 1981, p. 681).”

         Como se pode observar, no princípio era o dízimo, na Idade Média era o “tríntímo” e hoje, quando se somam os dízimos e ofertas em certas igrejas malaquianas, isso chega a muito mais do que a Igreja de Roma cobrava de suas vítimas.

         É o caso de  indagar: Por que esses ministros malaquianos não lêem o Evangelho de Paulo? Por que este não dá lucro? Por que esses espertinhos só lêem o Velho Testamento em suas pregações, tentando impor as leis judaicas a quem já foi liberto pelo sacrifício de Cristo na cruz?

 

Mary Schultze, 26/04/06

http://www.cpr.org.br/Mary.htm

http://www.cpr.org.br/dizimo.htm

http://www.cpr.org.br/No_principio_era_o_dizimo.htm