Criticando o que ele chama “escatologia da derrota”, David Chilton escreve, sarcasticamente, sobre a posição do Protestantismo histórico:
O mundo está ficando cada dia pior. O Anticristo está chegando. O Diabo está governando o mundo e se tornando cada vez mais poderoso. Sua obra para Deus não vai ter qualquer efeito duradouro, exceto para salvar alguns indivíduos do inferno. (David Chilton, “Paradise Restored”, Tyler, Texas, p. 4).
(Obs. Dizer que a obra de Deus não tem efeito, exceto para salvar algumas almas do inferno, é desonrar Cristo e o Seu precioso sangue derramado para salvar os pecadores de seus pecados e do inferno. Esta foi a razão pela qual Cristo veio: dar a Sua vida em resgate por muitos. A declaração de Chilton também implica em que é mais importante a renovação deste mundo do que a salvação eterna).
Este escrito é, no mínimo, pueril. Nenhum cristão verdadeiro acredita que o Diabo está governando o mundo, mas vê que as Escrituras predizem a vinda do “homem do pecado”, a ilegalidade que ele vai produzir, e que ele será destruído pela vinda de Cristo. A minha escatologia é a da vitória, mas a vitória sobre o homem do pecado, após ter ele sido revelado. Não a vitória que nega o seu aparecimento, a qual é contrária às Escrituras. Rushdoony escreve:
A Bíblia não nos dá um Anticristo pessoal exclusivo, o qual vai governar o mundo. Esse é um mito que exalta os poderes do homem contra Deus. (J. Rousas Rushdoony, “God´s Plan for Victory”, Thoburn Press, Fairfax, VA, 1977, p. 45).
Não é isso exatamente o que a Bíblia diz sobre o homem do pecado, o qual se exalta, não apenas contra Deus, mas acima de tudo, é chamado Deus, ou é adorado. (2 Tessalonicenses 2:4).
A verdade é que os reconstrucionistas não conseguem oferecer uma exegese válida sobre essa passagem de 2 Tessalonicenses, a qual trata odo homem do pecado. Todos os preteristas sustentam que o Anticristo foi destruído no primeiro século. Mas, segundo mostrou Henry Alfred, há mais de cem anos:
Todos esses intérpretes preteristas têm contra eles uma objeção fatal: é impossível conceber a destruição de Jerusalém em qualquer hipótese, correspondendo à Parusia de Paulo no sentido do termo. (Henry Alfred, “The Greek New Testament”, Vol. III, p. 63).
Obviamente, o homem do pecado não será destruído, até que Cristo apareça para destruí-lo com a glória de Sua vinda... a epifania de sua parusia. Nesse caso, a não ser que Cristo tivesse vindo no primeiro século, o homem do pecado ainda não foi destruído.
Charles Hodge também oferece uma luz sobre a posição preterista. Ele escreve:
A segunda classe (de intérpretes sobre o Apocalipse) inclui os modernos intérpretes alemães, os quais, ao negar qualquer predição sobre o futuro, confinam as visões de Daniel e de João à história contemporânea destes. A essa classe pertencem Ewaldo, De Wette, Lucke e outros. Claro que a posição preterista foi iniciada por um jesuíta, a fim de desviar a atenção da posição dos reformadores de que o papa era o Anticristo. Mais tarde, ela foi adotada pelos racionalistas alemães, os quais, não apenas negavam a predição, como também a inspiração. Então, qual é essa grande posição hoje sustentada pelos reconstrucionistas? Ela foi iniciada pelos racionalistas alemães, a ponto de negar a Escritura. Não é exatamente uma posição que os crentes bíblicos poderiam abraçar com entusiasmo. (Charles Hodge, “Sistematic Theology”, Vol. III, p. 826).
Rushdoony diz que:
Condenar os males do mundo e confiar o governo do mundo um governante, a fim esconder as conspirações satânicas, é tornar-se culpado de falso testemunho contra Deus. É comparável a ... mágica, bruxaria ou sacrifício humano.
É negar que Deus é a única fonte de predição e confiar o poder e a predição a Satanás, em vez de confiá-los a Deus (Rushdoony, “Institutes of Biblical Law”, p. 563).
Concordamos com a apreciação de Rushdoony sobre os livros que tratam da conspiração e do satanismo, como sendo imprestáveis. Porém eles não são os únicos que negam a predição. Quando os reconstrucionistas afirmam que o homem do pecado foi destruído no primeiro século, não são eles culpados de falso testemunho contra Deus?
Ora, nenhum crente bíblico ensina que o Anticristo vai governar o mundo. Ele tentará governá-lo, porém, segundo Apocalipse 17-18, ele cairá. Deus julgará o sistema da grande meretriz, a religião da Mistério... Babilônia e a destruirá, para tristeza dos financistas e negociantes que têm cometido adultério com ela.
O mundo está se encaminhando para dois eventos: a revelação do homem do pecado e logo em seguida, a revelação do Senhor Jesus Cristo. O Arcebispo Trench, em seu comentário sobre a parábola do trigo e joio, diz o seguinte:
O mal não está, como tantos sonham, se esvaindo e desaparecendo diante do bem. Ele vai se desenvolver mais profundamente, ao mesmo tempo em que, por outro lado, o bem irá também se revelando mais poderosamente. Isso vai continuar até que, finalmente, haja um confronto entre ambos, cada um deles na mais alta manifestação na Pessoa de Cristo e do Anticristo. (Samuel J. Andrews, “Christianity and Anticristianity”, p. VII.
As Escrituras declaram que o mistério da iniqüidade agirá, até atingir o seu ápice no homem do pecado. Não é mágica nem bruxaria ensinar o que as Escrituras revelam. É fácil exagerar a posição do oponente e em seguida abater o espantalho criado desse modo.
Fica aparente que a razão pela qual certos reconstrucionistas lutam claramente contra a posição dos reformadores sobre o Anticristo provém de sua visão de uma América reconstruída. Eles vêem a América sendo reconstruída e o seu símbolo para essa reconstrução é uma ferramenta de três pernas. Esse símbolo significa três grupos principais, os quais eles imaginam que irão conseguir a reconstrução da América:
1. A reconstrução teológica dos presbiterianos.
2. A popularidade atingida na mídia pelos pentecostais
3. O grande número de batistas presente na população.
(Kevin Reed, “The Antinomian Streak” p. 5).
Os Batistas do Sul saudaram oficialmente o papa, quando ele chegou aos USA.
Os presbiterianos em alguns casos se tornaram pentecostais.
Os pentecostais são conhecidos no mundo inteiro pela sua estreita relação com Roma.
Os carismáticos católicos formam um poderoso grupo na América do Norte e estão engajados na unidade ecumênica. Em seu encontro em Nova Orleans, onde milhares de católicos romanos estiveram presentes, eles proclamaram:
Já nocauteamos o gigante (Protestantismo) em 1977, em Notre Dâme. Agora vamos decapitá-lo em 1987, de modo que a desunião entre católicos romanos e as denominações nunca mais apareçam. (Alan Cairns, “Rome and Bible Believer”, 1987, p. 2).
Quanta diferença do grito que Lutero deu, quando mostrou que a doutrina papal era errada, podendo, assim, quebrar o pescoço do papa. Lutero escreveu:
Whycliffe e Huss denunciaram a conduta imoral dos padres, porém eu me oponho principalmente à sua doutrina. Afirmo clara e cabalmente que eles não pregam a verdade. Para isso fui convocado. Pego o ganso pelo pescoço e ponho a faca em sua garganta. Quando posso mostrar que a doutrina do papa é errada, conforme tenho mostrado, então posso provar facilmente que o seu modo de vida é maligno... Devemos levar esse ensinamento a todos, a fim de quebrar o pescoço do papa (Martinho Lutero, “Table Talks”, p. 186.
Chemlovski notou a esse respeito:
North e todos os seus seguidores têm aceitado a escatologia jesuíta. E ainda afirmam ser essa a única posição ortodoxa verdadeira. De fato, North parece menos preocupado com a “confissão positiva” dos pentecostais, porque eles são “premilenistas operacionais”, ainda que confusos, até mesmo sobre a humanidade e divindade de Cristo, do que está com os que rejeitam publicamente o seu tipo especial de premilenismo. (Chemlovski, “Where Have All Protestant Gone?”, p. 5.).
Até parece que esse sistema de pensamento é bem-vindo a todos os tipos de teologias e crenças, contanto que sejam “posmilenistas”. Que os antigos posmilenistas como Hodge e os reformadores Lutero e Calvino, os puritanos, os presbiterianos escoceses e homens como Bunyan e Spurgeon, todos eles concordam com os reconstrucionistas modernos no que se refere a trabalhar com os romanistas no sentido de estabelecer o Reino de Deus na terra. O seu reino proposto e a sua visão de estabelecê-lo se aproxima bastante mais da visão de Malachi Martin do que da visão dos reformadores protestantes.
Os reconstrucionistas falham em observar que Lutero, Zwinglio e Calvino, caso fossem reconstrucionistas e até mesmo preteristas em sua interpretação do Apocalipse, teriam colocado a Babilônia no primeiro século da Igreja e, portanto, NÃO TERIA ACONTECIDO REFORMA ALGUMA! Foi exatamente porque os reformadores viram a Roma papal como a religião da Mistério... Babilônia e o papa como o homem do pecado, que a separação da profana meretriz foi convocada e realizada.
Se os reformadores fossem preteristas em sua interpretação do Livro de Apocalipse, eles teriam acreditado na bizarra interpretação de que a Mistério... Babilônia caiu no primeiro século e que o Anticristo não passa de um mito. Jamais teriam eles convocado pessoa alguma a separar-se dela, porque ela não mais estaria existindo em 1517.
Desse modo, embora Duncan, Lee e outros possam dizer que estão seguindo os passos dos reformadores, eles não estão fazendo isso. Esses homens deveriam estar todos eles atualmente em Roma, se a Reforma dependesse deles e de sua interpretação da religião da Mistério... Babilônia. Eles estão mais próximos dos jesuítas e do papa de Roma do que de qualquer um dos reformadores.
A vitória da cultura dos reconstrucionistas parece um bocado com a que o papa tem em vista para a Europa. Falando em Estrasburgo, o papa frisou o fato de que a união administrativa e econômica da Europa exigiu maior atenção para os “valores cristãos comuns” e os direitos das regiões particularmente dos direitos CULTURAIS”.
Certamente, quando o papa usa o termo “valores culturais”, ele quer dizer “valores papais”, como a adoração às madonas, a promoção da Missa, e do culto às imagens, a defesa das obras religiosas, sua idéia de que Mercado Comum [hoje União Européia] funcione tão bem que os crentes bíblicos protestantes possam desejá-la.
A revista Newsweek registrou que o “desígnio internacional do papa é a visão utópica de uma cristandade unificada na Europa, desde o Oceano Atlântico até os Montes Urais” (“Newsweek Christian Beacon”,13/10/1988, p. 7). Essa idéia de “cristianizar” parece muito semelhante à que os reconstrucionistas ensinam e de sua visão utópica também paralela à idéia da vitória cultural. A triste verdade é que ela está também intimamente paralela ao que a Bíblia chama de Mistério... Babilônia, a grande meretriz de Apocalipse 17-18.
Especialmente quando lemos o livro de Malachi Martin (The Keys os This Blood), pois ele soa como um reconstrucionista. O cenário por ele apresentado é exatamente igual à visão dos reconstrucionistas. Ele vê o papa com aquele que vai estabelecer a Nova Ordem Mundial e jamais critica o Protestantismo ou qualquer outra religião, mas vê todas elas vindo para ficar sob a liderança do papa de Roma, na Nova Ordem Mundial de Deus.
O Ecumenismo conseguiu que toda a oposição legal desaparecesse. Todo mundo atualmente é uma pessoa de boa vontade e precisa apenas de uma pequena orientação para entrar no caminho certo, como um cordeiro que segue para o matadouro.
Quando um homem se torna companheiro do erro, ele perde a capacidade de refuta-lo e até mesmo de reconhecê-lo.
Quando um homem fica rodeado de hereges, ele perde a capacidade de discernir entre o que é falso e o que é verdadeiro e o seu ministério se transforma em ministério de confusão.
Capítulo 14 do livro “Antichrist and Optimism”,
Dr. Ronald Cooke,
Traduzido por Mary Schultze, 04/10/2002