O Diabo era eu...

 

         No Seminário onde estudei Teologia, nos anos 1980, tive um professor que já está na glória e se chamava Valdomiro. Ele nos dava aulas de Novo Testamento e era bom demais no assunto. Com ele aprendi muitas coisas importantes e uma delas jamais irei esquecer em minha vida cristã: “Irmãos, nunca usem o Velho Testamento, a não ser para ilustração, pois estamos na Dispensação da Graça e temos o Novo Testamento para nos orientar em tudo. Especializem-se em Paulo e usem as doutrinas do VT apenas para comparação com o NT, e os profetas antigos, apenas para conhecer as profecias e aguardar o seu cumprimento, vivendo uma vida reta diante de Deus e dos homens”. Procurei seguir o conselho do meu professor e só tenho que me alegrar. Adoro os salmos... como poesia lírica e edificante!

         Após doze anos, seguindo literalmente essa regra, conheci outro pastor - Paul Pimentel - que estudou no mesmo seminário e é um mestre em Apologética. Com ele trabalhei 3 anos no CPR (Centro de Pesquisas Religiosas) e aprendi tanto ou mais do que aprendi de Bíblia no seminário. Lendo um livro por dia, traduzindo vários livros teológicos e apologéticos do Inglês e respondendo cartas dos associados do CPR, aprendi muita coisa importante e uma delas é que o Novo Testamento deve ser a nossa MAIOR regra de fé e prática na vida cristã.

         Infelizmente, a maioria dos pastores hoje em dia se apega fervorosamente ao Velho Testamento, por dois motivos: Primeiro, porque esses pastores medíocres podem usar e abusar das histórias antigas, fantasiando os seus enredos, a seu bel prazer. Segundo, porque podem impor muitas leis do VT aos pobres membros de suas igrejas, para os escravizar, como por exemplo, usando Malaquias para extorquir o dízimo dos que não conhecem bem a Palavra de Deus.

         Vamos dar um exemplo: Em certa igreja neopentecostal, que adora ceifar os bolsos dos seus membros, foram lidas há alguns domingos, num culto vespertino, as seguintes passagens bíblicas de Jeremias 35:1,2,8,10,16: “A PALAVRA que do SENHOR veio a Jeremias, nos dias de Jeoiaquim, filho de Josias, rei de Judá, dizendo:  Vai à casa dos recabitas, e fala com eles, e leva-os à casa do SENHOR, a uma das câmaras e dá-lhes vinho a beber. Obedecemos, pois, à voz de Jonadabe, filho de Recabe, nosso pai, em tudo quanto nos ordenou; de maneira que não bebemos vinho em todos os nossos dias, nem nós, nem nossas mulheres, nem nossos filhos, nem nossas filhas; mas habitamos em tendas, e assim obedecemos e fazemos conforme tudo quanto nos ordenou Jonadabe, nosso pai. Visto que os filhos de Jonadabe, filho de Recabe, guardaram o mandamento de seu pai que ele lhes ordenou, mas este povo não me obedeceu...”

         Ao contrário do pastor da PIBT, que usaria depois essas mesmas passagens apenas para aconselhar que os membros vivam conforme os ditames da Palavra Santa, esse pastor “ceifeiro” pregou mais ou menos o seguinte:

         “Meus irmãos: Recabitas eram homens de Israel que não bebiam vinho... nem cerveja, nem conhaque, é claro! Todo o dinheiro que eles ganhavam consertando objetos de metal era para entregar no templo, para sustentar a obra do Senhor. Não vou condenar quem dá um cheque sem cobertura, pois ninguém consegue mais ganhar o suficiente para pagar tantos impostos e comprar tudo que é preciso nos supermercados, que só sabem explorar o bolso da gente. Não vou condenar quem atrasa o pagamento do aluguel, da luz e do telefone, pois as companhias multinacionais exploram tanto que o dinheiro acaba depressa e não dá para a gente cumprir todos os compromissos do mês. Não vou condenar quem vive com uma mulher sem casar... Pois nem sempre é possível se casar, por vários motivos... O que eu condeno , sim, é crente que bebe vinho, mas se atrasa na entrega do dízimo e das ofertas, porque roubar o governo, tudo bem, mas ‘roubar a Deus’ é um caso muito mais sério e isso causa maldição de vida!”

         Depois de ter lido Malaquias 3:6-8,  tendo olhado para a terceira fila e me visto de cara amarrada, o pastor falou com voz trovejante: “Meus irmãos, o diabo odeia esses versículos de Malaquias e ele está aqui presente, podem crer...” (Pelo visto, o diabo era eu!)

         E foi por aí a fora o tal pastor malaquiano, pregando (os pobres analfabetos bíblicos na cruz de sua ambição), até ficar rouco e ver a uma fila enorme de ovelhas se dirigindo ao gazofilácio, enquanto “o diabo” permanecia quietinho em sua cadeira de plástico barato...

         Amados: Tenham cuidado com  os pastores que usam e abusam do Velho Testamento. Eles não são sérios. Quando não são embromadores de primeira, fantasiando as histórias do Velho Testamento para preencher o tempo e engabelar os crentes, são uns irresponsáveis e abusivos extorquidores dos membros de suas igrejas.

         Leiam e meditem o Novo Testamento. Procurem igrejas que preguem o NT. Vivemos na Dispensação da Graça. Não temos obrigação alguma, a não ser crer realmente na validade do sacrifício vicário do nosso Divino Salvador, procurando seguir os ensinamentos do Apóstolo  Paulo. Os recabitas não bebiam vinho? Tudo bem, eles viviam na era do VT! Eu bebo uma taça de vinho suave, sempre que recebo uma visita e ela aprecia vinho. Jesus tomava vinho com os fariseus... Serei melhor do que Ele? Paulo nos diz em Efésios 5:18: “E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda, mas enchei-vos do Espírito”. Ele não proíbe que se beba vinho, proíbe apenas que o crente se embriague. Quem toma uma taça, em ocasiões especiais, até pode estar cumprindo Efésios 5:17 : “Por isso não sejais insensatos, mas entendei qual seja a vontade do Senhor”.

         E qual é vontade do Senhor?

     Que eu seja uma cristã autêntica, pois a maioria dos crentes é hipócrita demais, sempre se comportando de um modo na igreja e de outro, no mundo. A maioria dos crentes quer parecer melhor do que realmente é... Crente que atrasa os seus pagamentos, que dá cheque sem fundo, que vive na imoralidade, que se esconde atrás de uma capa de santidade, esse merece a condenação de Paulo. Leiam Romanos 13:7-8: “Dai a cada um o que deveis: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra. A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei”.

         Leiam ainda: GERALMENTE se ouve que há entre vós fornicação, e fornicação tal, que nem ainda entre os gentios se nomeia... Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão...” (1 Coríntios 5:1, 11). Paulo fala de “beberrão”. Os pastores malaquianos proíbem que se tome uma taça de vinho em diais de festa, mas fecham os olhos  aos membros que atrasam suas contas, que viverem maritalmente, contanto que estes entreguem pontualmente  o dízimo e as ofertas.       Por que será?

         Resposta: Porque estão mais interessados em suas contas bancárias do que na edificação dos membros de suas “igrejas”.

 

Mary Schultze, junho 2005