O defunto perfumado
No final dos anos 1970, meu marido e eu trabalhávamos arduamente na H. Schultze Ltda., nossa micro-empresa de anilinas e cosméticos, cuja linha levava o meu nome e era vendida em todo o Brasil para salões de beleza.
Um dos produtos que mais vendíamos era a Loção Colônia West Berlin, criação do Schultze, com o meu toque feminino. Esse produto era composto de nove ingredientes, inclusive, essências importadas de lavanda, rosa e flor de laranja. Era mentol canforada e dava uma sensação de bem estar, servindo como desodorante e loção após banho e após barba. Era uma delícia de colônia.
Na fabricação de anilinas tínhamos um funcionário, ex-massagista aposentado do Vasco, mulato forte e simpático, que sempre se lavava, no final do expediente, do pó verde que lhe impregnava a pele, durante o processamento da anilina Fluoresceína, pedindo permissão para se perfumar com a colônia supra citada.
Certo dia, quando meu marido saía do hospital, após um leve acidente de carro, a esposa do homem, que se chamava Mauro, veio nos procurar para dizer que o dito havia falecido, repentinamente, de um enfarte fulminante e o cadáver ainda estava no hospital. Tentei acalmá-la dizendo que a firma iria arcar com todas as despesas de hospital e funerária e prometi ir até o hospital para prestar-lhe ajuda.
Botei o marido e a filha pequena para dormir e fui até o hospital, onde o corpo seria velado. Levei um frasco de West Berlin e fiquei a noite inteira velando o defunto, junto com os conhecidos que ali se encontravam. Lá pela madrugada, antes de fecharem o caixão, pedi permissão à viúva e falei com o morto: “Mauro, sei que você adorava a nossa colônia, por isso quero que vá para a sepultura encharcado da mesma”. Derramei um frasco inteiro de 120 ml sobre o cadáver, perfumando-o da cabeça aos pés. As pessoas que velavam o defunto deram uma salva de palmas, que até hoje não sei se foi para mim ou para o falecido.
Mary Schultze, outubro 2003