O homem que sabia Javanês

 

         Um dos artigos mais interessantes que li em toda a minha vida tem o título acima e foi publicado no jornal “Gazeta da Tarde”, RJ, em 28/04/1911, pelo escritor Lima Barreto. Recebi-o de um “neto” culto e inteligente, que vive descobrindo essas preciosidades na Internet.

         Castelo era um funcionário público mal remunerado, que devia a Deus e ao mundo e estava quase para ser despejado da pensão onde morava no RJ. Viera de Canavieiras, Bahia, para tentar a vida na capital do país e mal conseguia sobreviver com o minguado ordenado que recebia na repartição onde trabalhava.

         Certo dia leu num dos jornais da cidade um anúncio interessante publicado pelo Barão de Jacuecanga, procurando um professor de Javanês. Castelo jamais tinha ouvido falar dessa língua, mas teve uma brilhante idéia. Iria se tornar um professor de Javanês e aumentar os seus rendimentos. Consultou a Enciclopédia Britânica e outros livros de história e geografia, aprendeu tudo que pôde sobre a Ilha de Java e decorou algumas frases em Javanês. Logo que se sentiu capacitado para se tornar um professor de Javanês, compareceu diante do Barão e se ofereceu para o cargo, com aquelas poucas frases que havia aprendido na língua de Java. Foi bem recebido e depois de passar por um interrogatório minucioso, foi aceito como professor de Javanês e começou a falar da geografia de Java, da sua história e de tudo que havia aprendido na Enciclopédia e nos livros, esperando ganhar tempo. Assim continuou por algumas semanas, deixando o Barão encantado com a cultura javanesa do professor. Quando o repertório de conversa fiada já estava se esgotando, Castelo foi “agraciado” com a morte do Barão, que lhe deixou uma gorda fortuna. De repente ele se tornou tão famoso que foi enviado ao Exterior para representar o Brasil num Congresso de Cultura e ao regressar foi nomeado Cônsul em Havana, tendo, daí em diante, gozado do maior prestígio junto ao governo brasileiro.

         Não resta a menor dúvida de que Castelo foi um grande espertalhão, que se valeu de algumas frases em Javanês para garantir o seu futuro.

Nos últimos 25 anos têm aparecido muitos “Castelos” neste país em matéria de Evangelho. Um sujeito se torna membro de uma igreja evangélica neopentecostal e aprende uma dezena de versículos bíblicos. Deixa a igreja onde conseguiu aprender um pouco de Bíblia e funda uma igrejinha de fundo de quintal. Concentra-se em versos tipo “minas de ouro”, como Malaquias 3:7-12 e outros do Velho Testamento. Esquece o Novo Testamento por completo e fica exigindo dinheiro dos pobres semi-analfabetos bíblicos que freqüentam suas igrejas e vai ceifando esses coitados, que muitas vezes lhe entregam até o dinheiro da passagem, voltando a pé para casa. Esse pastor mentiroso prega uma falsa teologia conhecida como “Teologia da Fé/Prosperidade”, através da qual  quanto mais o membro de igreja entrega ao pastor mais enriquece na vida.

Realmente, essa “teologia” de araque funciona... Mas não para o membro da igreja, e sim para o pastor. Da igrejinha de fundo de quintal o homem já se transforma em dono de uma ou várias igrejas, dentro de poucos anos, pregando a mesma teologia falsa e enchendo os bolsos à custa dos pobres coitados que seguem literalmente os seus mandamentos, deixando de estudar a Bíblia, porque o Velho Testamento é muito complicado e o pastor nunca cita o Novo!

No Brasil temos centenas de “igrejas” desse tipo, fundadas por “Castelos”  espertalhões, que enriquecem rapidamente à custa dos desavisados. E o pior é que muitos levam vidas indignas, dando péssimos exemplos e por isso não conseguem levar os membros de suas igrejas a praticar uma vida reta e santa como deveria ser. Quem mente em o Nome de Jesus, a Verdade que liberta da mentira religiosa, é mentiroso duas vezes. Mentiroso porque usa o Nome Santo para pregar “outro evangelho” e “outro Jesus”, e mentiroso porque não está ali  para salvar almas, mas apenas para encher os seus bolsos e rechear a sua conta bancária. Enquanto isso, os crentes dessas igrejas são tão ou mais cegos do que o governo brasileiro foi com o Castelo, no início do século 20.

Imagino como esses “Castelos” da religião devem enfrentar a condenação divina, logo que deixam esta vida e comparecem diante do Senhor. Na certa escutam de Jesus aquelas palavras de condenação contidas em Mateus 7:21:23: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade”.

 

Mary Schultze, dezembro 2003