Os Deuses Hipocrateáceos

 

        A maioria dos médicos ocidentais é constituída de pessoas (homens e mulheres) que se julgam verdadeiros deuses, podendo dispor da vida e da saúde do próximo como bem entenderem, esquecendo diariamente o juramento feito em nome do seu patrono. Aqui em Terê a coisa parece bem pior do que em outras cidades que eu conheço, mesmo havendo uma porcentagem enorme de médicos (residindo em lindas mansões), talvez pela facilidade de estudarem na FESO, uma boa Faculdade de Medicina local.  Infelizmente, também na Alemanha (segundo minha filha que lá reside), os médicos são uns tremendos autólatras, além de incompetentes...

         Como diz o escritor João Ubaldo Ribeiro, referindo-se ao Brasil,  "vivemos num ambiente de lassitude moral, que se estende a todas as camadas da sociedade... Somos um povo ... de comportamento pouco recomendável".

         Nesta cidade, a grande maioria dos “doutores” tem demonstrado (pelo menos comigo) uma tremenda má vontade, quando procuro marcar uma consulta pela UNIMED. Eles parecem desprezar as pessoas da terceira idade! Não vou citar nomes porque esses pecadores hipocrateáceos adoram negar os seus pecados de omissão, jurando que tudo não passa de invenção do cliente frustrado, maledicente, etc. Morrer de enfarte aqui é moleza, pois os “doutores” nunca têm tempo de acudir os velhinhos! Aliás, conheço alguns médicos que até me tratam bem, talvez porque nunca fiquei realmente enferma e lhes dou pouco trabalho...

         Há mais de dois meses tentei marcar consulta com uma Dermatologista da cidade, a qual me foi recomendada por uma irmã da Igreja. Estive em seu consultório, pessoalmente, quando a recepcionista me recebeu com a maior antipatia, dizendo que não havia vaga para os próximos dias, mas que eu ligasse no último dia útil do mês para marcar uma hora para o mês seguinte. Quando liguei, ela informou que a agenda estava lotada e que eu ligasse no último dia útil do mês seguinte. Esperei mais 30 dias e achei que seria melhor ir lá pessoalmente e, no caso de outra negativa, poder desabafar minha impressão sobre a tal “esculápia”.

         Cheguei ali às 14,30 hs e esperei quase meia hora para ser atendida, pois a tal recepcionista estava lá dentro. Quando ela voltou, pedi para marcar uma consulta e ela me disse, com a empáfia de sempre, que a agenda de setembro já está lotada...  

         Perdi a calma e, quando um nordestino perde a calma, esquece tudo que aprendeu nas páginas do Evangelho. A primeira coisa que perguntei foi por que ela sempre me faz esperar 30 dias e nunca marca uma consulta... Será por que o meu plano é UNIMED? Expliquei que tenho tentado conseguir uma consulta por mais de dois meses e sempre recebo um “não” como resposta. Perguntei ainda: “Será que essa médica existe mesmo?” Ela respondeu: “Tanto existe que está aí atrás da Sra.”

         Olhei para trás e vi uma garota de uns 28 anos, linda e loura, uma bonequinha de luxo. Expus o meu caso, porém ela disse que lamentava, mas sua agenda está sempre lotada. Sugeriu, então,  que eu deixasse o telefone, pois se houvesse uma desistência, ela mandaria me avisar. Respondi que tinha certeza de que jamais seria avisada e, portanto, iria preferir arranjar outro médico menos ocupado. Mesmo assim, ela insistiu em que eu deixasse o número do telefone e deixei... sem a menor intenção de entregar a verruga do meu gracioso pescoço àquela garotinha, que parece ter a mesma idade de minha neta Luciana.

         Saí fumegando e quando ia chegando ao elevador, uma das clientes (que lá estava na sala de espera), falou alto para que eu pudesse ouvir: “Quanta pobreza de espírito!”. Voltei e contra ataquei: “Minha Sra., pobreza de espírito no contexto evangélico de Mateus é uma bem-aventurança. Mas como sei que a Sra. nunca leu a Bíblia, é provável que tenha usado essa palavra no contexto secular como sinônimo de ‘ignorante’. Ora, ‘pobreza de espírito’ não é falar a verdade, ser autêntico. É falar mal dos outros pelas costas, como a Sra. acabou de fazer”.

         Depois dessas palavras contundentes, entrei no elevador e nunca mais pretendo dar as caras por lá... Tentei 4 vezes e me dei mal. O que me deixou mais indignada ainda é que a tal recepcionista é membro da nossa PIBT e, no mínimo, deveria ser mais tratável!

         Graças a Deus já mandei fazer a minha “Escritura de Cremação”, pois, com esses médicos ocupadíssimos, provavelmente irei morrer bem mais cedo do que minha mãe, que passou dos 96 anos... lá em Fortaleza!

 

 

Mary Schultze, 31/08/2005