Os dois jesuítas

 

         Dois padres jesuítas cruzaram o meu caminho e só espero que nenhum dos dois queira dar trabalho ao Pr. Paulo, o melhor amigo da família e encarregado do meu funeral, a quem mostrei, numa gaveta do móvel da sala,  a “Escritura de Cremação” que fiz, recentemente, no Cartório do 2º. Ofício desta cidade.

         (Antes que me esqueça, já recomendei ao Pr. Paulo, a minhas duas filhas e a duas amigas mais chegadas que não quero pessoa alguma me olhando dentro do caixão, nem quero ser exposta na igreja. Que eu vá diretamente do hospital - ou de casa - para o crematório, pois não nasci para ser espetáculo de hipocrisia).

         O primeiro se chama Edwin Bremm, é aposentado e reside na Santa Casa de Misericórdia em Porto Alegre (RS). Ele me enviou algumas cartas (cada qual mais recheada de “amor cristão”), no tempo em que eu escrevia na “Folha Universal”, tentando provar que eu estava errada, quando expunha os erros da “Santa Madre” e a malignidade da Ordem de Loyola. Uma das coisas que ele me disse foi que tínhamos muito em comum: pertencemos à Terceira Idade, usamos nome alemão e temos um vínculo muito forte  com a Imaculada Conceição, pois nasci nesse dia (08/12) e ele se ordenou nessa data.

         Ele me escrevia sempre numa velha máquina Remington e um dia perguntei por que uma Ordem arqui-bilionária em dólares, como a de Loyola, não lhe dava um computador. Ele respondeu que ‘não saberia usar essa máquina eletrônica’ e continuamos nossa correspondência, até que me cansei da eterna defesa que ele fazia dos dogmas de sua igreja e cortei o “namoro”.

         O segundo tem uma história mais recente. Certa noite, (01/01/03), o telefone tocou e, quando atendi, tratava-se de uma senhora desconhecida,  que me contou uma história interessante. Ela havia entrado numa loja da cidade para comprar um presente e lá observara que a vendedora estava lendo o meu livro “A Deusa do Terceiro Milênio”. Indagou se a moça me conhecia e em seguida pediu o número do telefone, dizendo que há muitos meses andava me procurando, pois lia os artigos na “Folha Universal” e que ela e o marido tinham interesse em me conhecer.

         Conversamos amigavelmente e convidei-a a vir até o meu apartamento, pois ela iria deixar a cidade no dia seguinte de manhã. Ficou feliz e chegou - uma hora mais tarde - com o marido (Stan)  e descobri:

         1. Que ela é minha parenta, filha de um senhor que nasceu na mesma cidade em que nasci, com o mesmo sobrenome “Macedo”. E como não me conhecia pelo nome de solteira, jamais imaginara que fôssemos parentas.

         2. Que o seu marido é um ex-padre jesuíta irlandês. Ele abandonou a Ordem de Loyola, há mais de 20 anos, quando residia nos USA. Ela estava fazendo um curso de Inglês naquele país, ambos se encontraram e se apaixonaram. Casaram e depois vieram para o Brasil, onde ele leciona Inglês.

         3. Ele me contou que tudo que havia lido, sobre o Vaticano e a Ordem Jesuíta - durante anos, em minha coluna da “Folha Universal” é a mais pura verdade. Advertiu-me do perigo que tenho corrido por falar contra essa Ordem mafiosa e me contou que nunca havia se atrevido a contar coisa alguma para não correr sério risco de vida.

         Nossa conversa durou de 8,30 hs da noite até 3 hs. da manhã e só foram embora porque iriam viajar bem cedo, no dia seguinte, e precisavam dormir algumas horas.

         Essa parenta está na faixa dos 60 anos,  é culta e bem informada. Tem o mesmo temperamento nordestino, extrovertido e otimista que eu tenho e, por incrível que pareça, consegue ser mais tagarela do que eu... Nunca vi alguém falar tanto!

         Mesmo assim, foi gratificante descobrir, no primeiro dia daquele Novo Ano, uma parenta que se interessa pela pesquisa religiosa sobre o Catolicismo Romano, casada com um europeu (como eu fui por 26 anos) culto, inteligente e interessado nos mesmos assuntos. Ele disse que conheceu pessoalmente o Dr. Ian Paisley (membro do Parlamento Europeu, de quem tenho traduzido muitos artigos),  há muitos anos, antes de deixar a Ordem, e que até eram inimigos políticos e religiosos, pois o Dr. Paisley é um pastor presbiteriano nascido na Irlanda do Norte, enquanto esse ex-padre jesuíta nasceu na Irlanda do Sul.

         O mais interessante é que o casal veio a Teresópolis com o objetivo de estudar a possibilidade de comprar uma casa e vir morar aqui, pois o RJ está cada dia mais violento e até já houve ali um seqüestro contra o casal. Terê é uma cidade linda e pacífica! Menos de um ano depois já estavam instalados aqui e abriram um curso de Inglês.

         Sempre gostei muito de conversar com esse ex-padre jesuíta, que também aniversaria no dia 08 de dezembro, sendo uns 15 anos mais novo do que eu. Infelizmente,  essa parenta tem o péssimo costume de entrar em meu apê com os pés encharcados de lama e já me destruiu dois tapetes. Faço de conta que não vejo a lama que ela sempre deixa, quando vai embora, e agora posso comprar, tranqüilamente, o terceiro tapete (não compensa mandar lavar, pois compro tapetes baratinhos, de 3 x 2 metros), pois ela brigou com o meu neto Mario Sergio e ficou de mal comigo, embora eu nunca tivesse feito coisa alguma contra ela... Quando encontro o ex-jesuíta na  cidade, trocamos apertados abraços, mas acho que ele morre de medo da esposa nordestina e por isso não me procura...

         Só lamento pela perda da amizade do Stan, de quem ela tem um ciúme doentio, pois ele adorava conversar comigo e tínhamos as mesmas idéias a respeito da malfadada Ordem de Loyola.

        

Mary Schultze, agosto 2005