Paulo de Tarso e Lídia de Tiatira

(Trabalho de ficção inspirado em Atos 16: 14,15 e 40)

 

Depois da Carta aos Filipenses, que tanto alegrou o coração de Lídia, Paulo teve tanto trabalho em Roma, onde se encontrava preso numa casa alugada, sob a guarda de um soldado romano, que não pôde mais escrever aos irmãos de Filipos.

Acontece que Lídia não sabia lidar apenas com púrpuras e corantes, mas dedilhava maravilhosamente a lira, belo instrumento musical que os gregos tanto apreciavam. Foi então que, sentindo muita falta de Paulo, começou a compor estes versos:

De Paulo me despedi,/ há treze dias, somente,/ e estes dias não vivi, /mas vegetei, simplesmente. /Viver sem cartas paulinas/ me alegrando coração/ faz-me esquecer as doutrinas/ que falam de salvação./ Vou pegar os pergaminhos/ e lê-los de uma só vez,/memorizando todinhos,/ do começo ao fim do mês. / Pra César Paulo apelando/ mostrou-se demais afoito./ E o verso 10 vou lembrando/ de Atos capítulo 18.

E ia Lídia assim, dedilhando a sua lira, pensando no apóstolo amado do seu coração, por quem vivia em constante oração a Deus, o Pai. E relembrando as horas de alegre empolgação que havia gozado na última campanha de Paulo, em Éfeso, sentiu enorme saudade daquele homem pequeno de estatura, mas tão grande em sabedoria divina. E chorou amargamente por não ter podido acompanhá-lo em mais viagens missionárias, como gostaria de ter feito. Se ele fosse libertado por Nero, talvez Lídia ainda tivesse a chance de dizer-lhe o quanto gostaria de trabalhar com ele na obra do Senhor. Porque ele, com o tremendo entusiasmo  com que pregava, tornava interessantes todas as suas campanhas, principalmente porque não media as palavras e dizia tudo  que lhe era ditado pelo coração. Homem de coragem, aquele Paulo. Ninguém poderia deixar de amá-lo, de admirá-lo, porque ele era, realmente, o maior apóstolo de Cristo.

E Lídia prosseguiu cantando em versos:

A solidão sempre inspira/ por minuto uma trovinha/ e eu de trovas fiz a lira,/ por estar sempre sozinha.

Quem poderia entender os sentimentos de Lídia em relação a Paulo? Ele era um santo homem, inteiramente dedicado ao serviço de Cristo. Ela era uma senhora de meia idade, viúva e dona de uma pequena empresa comercial. Jesus Cristo era o elo divino entre aqueles dois, que se amavam gentilmente, amando Cristo acima de tudo. Paulo amava Lídia por conhecê-la bem e por ser esta sua filha na fé. Fora ela a primeira pessoa na Macedônia a ingressar nas fileiras de Cristo. Era mulher dinâmica, entendida em vários assuntos e com excelente capacidade de comunicação com as pessoas, daí o sucesso do seu negócio, fato que também a tornava amada aos olhos de Paulo. Além disso, Lídia tinha mania de perfeição, tendo encontrado em Paulo todas as virtudes que tanto havia buscado no marido, um rico comerciante grego com quem fora casada por mais de vinte e cinco anos. Infelizmente, embora tendo sido um marido gentil e amoroso, ele não podera compartilhar de suas necessidades espirituais e isso a deixara incompleta.

Lídia tinha viajado recentemente até Éfeso e, regressando a Filipos, encontrara tudo na mais perfeita ordem. Contou ao sócio no negócio de púrpuras e corantes  a verdadeira razão de sua ida a Éfeso, que não fora propriamente fazer negócios, mas assistir as pregações de Paulo. Os negócios, contudo, foram tão bons, e Lídia trouxe tantos pedidos, que o sócio até lhe sugeriu que deveria fazer mais viagens desse tipo, o que agradou sobremodo o coração da purpureira. Quanto ao líder da igreja de Éfeso, sabendo o que se passava no coração de Lídia, falou: "Quando o coração nos pede algo que não vai de encontro à sã doutrina, podemos obedecer-lhe, a fim de nos alegrarmos um pouco. Ao contrário de Paulo, que teima em se gloriar somente na cruz de Cristo" (Gálatas 6:14).

Sendo Lídia mulher ativa, de forte personalidade, deu graças a Deus pela compreensão dos dois anciãos, a quem costumava dar contas de seus atos e que, por sinal, eram sempre severos com relação àquela viúva convertida ao evangelho da graça. Ela temia que não entendessem o seu amor por Paulo, esse amor-ágape de que ele fala  na primeira carta aos irmãos de Corinto, capítulo 13.  Que riqueza de carta. Como Paulo soube exprimir a beleza e grandeza do AMOR, o único sentimento que resistirá à eternidade. Lídia cantava assim:

Eu faço versos apenas/ por achar nisto prazer./ E as rimas brotam serenas,/ mesmo até sem eu querer. / E quando na lira pego,/ desabafa o coração/ da tristeza que eu carrego/ por Paulo estar na prisão.

Dizia ela que poderia sobreviver sem Paulo, pois tinha Jesus no coração e Ele preenchia suas horas de solidão e angústia. E justamente o fazia, dando-lhe através do CONSOLADOR, que é o Espírito Santo, inspiração para compor trovas e poemas para o seu amado Salvador, o Senhor Jesus, e também para o apóstolo amado do seu coração. Como sentia saudades de Paulo, daqueles olhos cansados e gastos no trabalho noturno da confecção de tendas de pêlo de camelo, a fim de não se tornar pesado aos irmãos em Cristo!

Lídia morria de saudades e ia cantando:

Saudade do homem magrinho / que fala de salvação/ e está guardado inteirinho / dentro do seu coração. / Saudade daquele ardor/ com ele prega Jesus, / que morreu por nosso amor / pendurado numa cruz. Saudade do gênio forte,/ que a todos fá-lo enfrentar. / Diz não ter medo da morte, / pois vai Jesus encontrar.

Como foi que Lídia conheceu Paulo? Certo dia, após ter concluído suas tarefas diárias, ela foi até o lugar de oração e lá se juntou às mulheres judias que louvavam e glorificavam o Deus de Israel. Lídia se sentia inclinada ao Judaísmo, pois sempre havia detestado a idolatria dos povos pagãos. Lídia fora predestinada, antes da fundação do mundo, para ser uma  santa em Cristo, separada para o seu trabalho. Paulo havia chegado recentemente à Macedônia, tendo sido em Filipos que fez sua primeira pregação evangélica. Ali ele começou a falar que Jesus era o Messias prometido a Israel, há milhares de anos, no Velho Testamento, principalmente no Livro de Isaías, o qual faz um relato completo dos terríveis sofrimentos pelos quais iria passar o Messias, por amor do seu povo e de toda a humanidade. Lídia havia escutado atentamente, caíra em prantos, entregara sua vida a Jesus e logo começara a amá-lo intensamente. Convidou em seguida os missionários para se hospedarem em sua confortável residência. Paulo e os companheiros aceitaram a hospitalidade da nova convertida, o que aconteceria, sempre que voltassem a Filipos. Daí em diante Lídia passaria a amar Paulo de todo o seu coração e cantava:

Eu amo alguém que nasceu / num claro dia de março./ O meu pensamento é seu./ Seu nome é Paulo de Tarso.

De fato, ela nem tinha certeza de que Paulo houvesse nascido em março. Só que "março" rima com "Tarso". (Naquele tempo Manuel Bandeira e Drummond não haviam ainda levado a poesia a jorrar como a pororoca amazônica, sem rima e, às vezes, até sem métrica).

Às vezes Lídia se indagava por que amava Paulo com tanto ardor? E ela mesma respondia:

AMO Paulo porque ele ama Jesus e deseja ardentemente morrer por Ele. Também quero morrer por Jesus, e assim poderemos nos encontrar um dia, lá no céu...

AMO aquela paixão que ele tem pelo Evangelho da Graça, pela pressa que ele tem de pregar o mesmo, pela paixão que sente pelas almas perdidas. Essas almas não leram ainda o que Paulo escreveu em Gálatas 5:1:  "ESTAI, pois, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou, e não torneis a colocar-vos debaixo do jugo da servidão".  Elas ainda não sabem que "Se confessarmos os nossos pecados, ele (Jesus) é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos  purificar de toda a injustiça", Tambérm não sabem que "o sangue de Jesus Cristo...nos purifica de todo o pecado". (1 João 1:9 e 1:7).

AMO a sua inteligência brilhante e a imena cultura, reconhecidas e artestadas até mesmo pelos seus piores inimigos.

AMO a coragem indômita  que o transforma no maior pregador do evangelho de Cristo, levando através de suas epístolas e pregações tantas pessoas às Sinagogas, onde ele, destemidamente, afirma que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus.

AMO o seu corpo castigado pelos sofrimentos e torturas físicas a ele infligidos pelos judeus, através das autoridades romanas.

AMO as marcas de dor e sofrimento nesse corpo, porque elas são as marcas de Jesus (Gálatas 6:17).

AMO o seu rosto macerado pelo cansaço físico das constantes viagens missionárias e pela escassez de alimentos. Quando Paulo escreve a sua Teologia, sempre o faz em jejum, dizendo que o Espirito Santo atua melhor num corpo mortificado e as idéias fluem mais naturalmente. Por isso ele vai ficando cada dia mais magro, dentro daquela túnica folgada.

AMO os seus olhos amortecidos pela cansaço físico das longas vigílias na oração e no estudo da Palavra de Deus.

AMO o amor-ágape que ele esconde em seu coração por minha ínfima pessoa, o qual nunca se permite demonstrar, temendo que isso venha atrapalhar a sua meta de santificação em Cristo. Mas sei que esse  amor existe. É como uma plantinha subnutrida que vai aos poucos se desenvolvendo, até chegar a ser árvore. Porque nas horas da verdade das frias madrugadas de inverno, depois de ter escrito a sua Teologia, Paulo às vezes descansa numa parcial entrega de carinho ao amor de sua Lídia. Então apanha uma folha de papel em branco e vai derramando sobre a brancura da mesma, palavras de afetuoso agradecimento àquela que sempre o chama de "bem-amado cigano do evangelho de Cristo".

Foi assim que Lídia entendeu porque tanto amava Paulo, aquela "peste e promotor de sedições", como o chamavam os seus inimigos.

É provável que Lídia e Paulo tenham sofrido o martírio. Ele, em Roma, sob as ordens de Nero. Ela, em Filipos, sob as ordens de algum governador romano implacável. Lídia se horrorizava ao pensar que Paulo seria martirizado por causa do evangelho, mas ele fazia questão de dizer que "a palavra de Deus não está algemada" (2 Timóteo 2:9).

Talvez nesse tempo haja começado a cruel perseguição aos santos de Cristo, a qual iria prosseguir por dois mil anos, primeiro sob os judeus e romanos e, mais tarde, no império romano, com o nome de "cristão", o qual iria perseguir e dizimar, implacavelmente, todos os judeus e verdadeiros cristãos, até o dia em que viesse um governante pior do que Nero, já no sétimo império romano, o qual seria o "homem do pecado" (ou Anticristo), mencionado por Paulo na 2 Tessalonicenses 2:1-12, e no Livro de   Apocalipse, capítulo 13, escrito pelo apóstolo João, o discípulo tão amado por Cristo...

 

Mary Schultze - 04/04/02

Adaptado do meu livro "Colar de Pérolas", 1981.