Pessoas organizadas

 

Minhas amigas costumam dizer que sou uma pessoa muito organizada. Meus  panos de chão são alvos e passados a ferro pelos dois lados. Os panos de prato são alvos, ficam velhos e rasgam, sem jamais apresentarem uma nódoa sequer (odeio cloro). Minha louça é guardada, logo após ser lavada, enxugada e arrumada pelo tamanho dos pratos. As panelas e os talheres brilham, as gavetas são arrumadas e as contas todas pagas com antecedência de pelo menos três dias.

Mas sou muito desorganizada com papéis. Meu escritório tem tantos papéis pendentes e tantas caixas de artigos de jornal, cartas, e-mails e outros itens, que quando me disponho a organizá-los preciso de uns três dias. Isso sem falar nas estantes de livros, que me tomam dois dias para limpar cada volume e os colocar nos devidos lugares. Detesto mexer em papéis e por isso vou guardando numa pasta cada documento que devo usar na declaração do IR, pois se deixar para a hora de entregar ao meu contador, entro em pânico.

Para ser franca, não me acho organizada. Organizada, sim, era minha irmã Rosa, de quem vou falar agora. Ela e Dária (a outra irmã querida), já foram para o céu e formam o meu endereço eletrônico.

Rosa foi freira católica durante 10 anos, depois se desligou da
Congregação, formou-se em Enfermagem de alto padrão, em S. Paulo, trabalhou para o governo do Estado (sempre detestou o Maluf), aposentou-se em 1988 e voltou ao Ceará, a fim de cuidar de nossa mãe idosa. Com menos de dois anos de aposentadoria, faleceu de pancreatite  aguda, causada por uma lipoaspiração mal feita (por mim desaconselhada, pois tinha o mesmo manequim 42 que eu tenho e não precisava disso). Tinha menos de 55 anos, quando morreu. Ainda hoje choro a morte dessa tão amada Rosa, com quem estive sempre em contato, quer indo a S. Paulo, cada dois meses, quer vindo esta ao Rio. Rosa foi "arrebatada"  em maio de 1990. Fui vê-la, quando estava agonizando, mas cheguei tarde demais. Desde que Rosa deixou São Paulo passei a sofrer de "paulofobia" e nunca mais voltei àquela megalópole.

Rosa era tão organizada, que antes de ir para o hospital, onde deveria fazer uma cirurgia de pâncreas, deixou todas as suas roupas e jóias separadas em sacolas (pequeninas, médias e grandes) com os nomes de todas as irmãs e sobrinhos a quem deveriam ser entregues, em caso de sua morte. Eu lhe havia presenteado com uma meia aliança de ouro branco e brilhantes, quando ela completou 50 anos de idade. Pois ela deixou essa jóia e outras mais,  num saquinho de veludo, com o meu nome na etiqueta.

O Pr. Timofei Diacov, da Igreja Batista de Osasco, SP,  nos fala de um irmão da Igreja Presbiteriana, que faleceu em 1988, naquela cidade, elogiando ao seu senso de organização. Ele conta a respeito do irmão Antônio Ferreira de Morais:

Ele escolhera os textos bíblicos para serem usados durante o culto no velório. Recomendara que não houvesse flores e nem véu. Que a pregação para os presentes ao seu sepultamento, fosse bastante objetiva, sem fazer rodeios. Que o caixão fosse o mais simples possível. E que houvesse muitos cânticos durante o culto. Quanto aos seus bens, todos já tinham sido distribuídos entre os filhos. E outras providências mais, relativas ao seu sepultamento. Tudo em ordem e tudo preparado para enfrentar o momento derradeiro. Que outra pessoa faz isso, senão o cristão verdadeiro?”

Minha irmã era uma cristã verdadeira. Quando fui arrumar o quarto dela, encontrei a Bíblia marcada no Salmo 51 e na 1 Coríntios 13, seus trechos bíblicos favoritos.

Muitas vezes sinto uma saudade imensa, quando acordo de madrugada, choro muito e peço que Deus me leve bem depressa para junto dessa irmã tão amada, que foi minha melhor amiga, minha confidente e minha sócia na firma. Por mais que eu ame minhas filhas e netos, nenhum deles jamais poderia substituir essa Rosa, que era linda, elegante, perfumada, e tinha um caráter muito reto!

Até mais ver, minha irmã querida. Logo estaremos juntas dobrando os joelhos diante do nosso Redentor amado!

 

Mary Schultze, julho 2004