Por que a poesia em tempos de indigência?
Fazer poesia é a maneira como os poetas costumam se expressar. Ela não depende de posição social, sexo, idade, raça, religião ou nacionalidade, porque é universal. É um dom que Deus concede a alguns dos seus filhos, a fim de que se expressem melhor através de rimas e imagens, em vez de simplesmente em prosa.
Ela floresce nos tempos mais áureos, mas principalmente em meio à indigência, pois o sofrimento é a sua matéria prima. Quando sofremos pela carência de afeto, do essencial para a vida e da ingratidão do nosso semelhante, muitas vezes buscamos refúgio na poesia, quer escrevendo-a, quer lendo-a, mas sempre buscando nela um refúgio secreto para amenizar nossas dores morais e até mesmo espirituais.
Nos anos 1970, eu estava numa reunião do Rotary Club, do qual meu marido era o presidente [naquele mandato]. Nós havíamos brigado por um motivo qualquer e eu estava muito deprimida. Foi então que um rotariano, metido a engraçadinho, e muito magro, me desafiou com estas palavras: “Mary, já que você é poetisa repentista, do tipo que faz literatura de cordel, faça uns versinhos para um esqueleto!”
Pensei alguns segundos e aceitei o desafio. Levantei-me, fui até a tribuna do Rotary e disse umas trovinhas, que guardei até hoje, pois são meio necrófilas.
Olhei para o rotariano, apontei-lhe o dedo e falei: Amigo, a primeira trovinha para um esqueleto eu dedico a você:
Esse, que é um dos nossos, /com seu porte de graveto, / tem duzentos e oito ossos / formando o seu esqueleto.
E prossegui fazendo trovas em nome de algumas pessoas famosas:
Pelé:
Atrás de bola em gramado, / toda a vida ele viveu. / Só não foi rei coroado,/ nem tricampeão, como eu!
Alziro Zarur:
A carne desse esqueleto /onde está eu não sei bem. / mas o espírito, de certo, / está vagando no além!
Regina Duarte:
Eu fico até me tremendo / com medo daquela ossada. /Imagine ele dizendo: / “Minha doce namorada!”
Roberto Carlos:
Olhando a tristeza dele, / de viver até desisto. / quando eu for igual a ele, / vou cantar só “Jesus Cristo!”.
Erasmo Carlos:
Foi um pobre mal amado/ que viveu sempre sozinho/ e, por fim, foi encontrado / bem à beira do caminho.
Delfim Neto:
O gordão disse o seguinte, / comendo a sua merenda: / “Foi um mau contribuinte / do nosso Imposto de Renda.
Sílvio Santos:
Esse sujeito simplório / até me quebrou um galho. / Foi, certa vez, no auditório, / meu colega de trabalho!
Lula:
Quando vivo e bem tratado, / ele era a minha cara / e foi muito procurado / pelo nome de Guevara.
Tônia Carrero:
Muito magro esse sujeito, / parece que está na lona. / E o seu maior defeito / é ser um grande cafona.
Ibrahim Sued:
Eu vou falar muito claro / pra você, rapaziada. /É um tipo muito raro / de boneca deslumbrada.
Denner:
Pra servir de manequim / tu tens o tipo ideal. /Mas disseram no Pasquim / que te vestes muito mal.
Vera Fischer:
Ficar nisso transformada, / eu, algum dia? Quem disse? / pra sair dessa jogada/ foi que eu deixei de ser Miss.
Faustão:
Amigo, que coisa chata! / Como estás feio, coitado! / Foi uma garota ingrata / que te deixou nesse estado?
E fui falando trovas para um esqueleto, até cansar. Todo mundo achava graça e tive a minha noite de Chico Anísio, que deixei sepultada no mais profundo do meu subconsciente, até dias atrás, quando, numa noite de insônia, comecei a me lembrar de outras poesias de cordel.
No tempo em que eu era criança, os nordestinos costumavam chamar velório de “sentinela”. Lembrei disso quando estava revisando o livro “A História de Antônio Dentão”, do meu amigo e irmão na fé, Jonas Morais, residente no interior da Bahia. À noite, tendo perdido o sono, comecei a me lembrar de uns versos de cordel que o romeiro Ezequiel, empregado de meu pai, costumava recitar para a garotada, tentando nos apavorar com a história de um velório. Vou tentar me lembrar desses versos:
Visagem não me assustava, / feitiços, bichos iguais, / pensei que o inferno era o mundo, /regido por satanás. /Mas como a vida nos logra, / na sentinela da sogra/ eu fiquei fraco demais.
Inda me lembro, era noite,/ a lua bem prateada, / a velha estava num banco,/ muito mal amortalhada, / a boca aberta no ar,/ como alguém que quer falar,/ mas não pode dizer nada.
Na casa de sua filha / não houve choro, nem vela. / Houve foi muita alegria/ da parte do genro dela, / que dizia a toda gente:/ “esta velha renitente/ hoje esticou a canela”.
A filha também dizia, / olhando pra filharada: “graças a Deus minha mãe/ parou a língua afiada. / Agora não há perigo/ de cair algum castigo/ dentro de nossa morada”.
Disse o marido: “mulher, / corra lá na Manuela,/ na volta compre aguardente/ na bodega do Quintela. / Chame o pifeiro Zé Duque,/ vamos fazer um batuque/ em lugar de sentinela.
Passe lá pela Maroca/ diga ao Mané para vir. / Diga a Chiquita que venha / beber, cantar e cuspir./ Traga o filho de mamar, / que é para ele chorar,/ quando quisermos dormir.
Traga o zabumba do Teco, / o violão da Pureza, / o reco-reco da Tonha/ e o pandeiro da Teresa./ Compre bolacha e biscoito, / pão traga somente uns oito, / pra não crescer a despesa”.
“Marido, eu chamo o ferreiro / e o sacristão, também? “ / Disse o marido: “mulher, não me chame mais ninguém./ O sacristão e o ferreiro / todos dois são cachaceiros, / deixa estar, que eles vêm.
Eu não gosto de beber. / Só bebo, caldo, café, / cerveja, aguardente e vinho/ para aumentar minha fé. Passe na venda do Jó, / compre um quilo de jiló, / pra ver o gosto que é.”
Mais tarde cheguei pra perto, / escorei-me na janela. / A velha tinha encolhido / um pedaço da canela. / Mas ó, que negócio feio, / eu vou contar como veio / o povo pra sentinela.
A Manuela chegou / com Pureza e Conceição. / Zé Duque chegou às oito, / com o seu pife na mão. / Logo depois chegou Teco, pegado no reco-reco/ da Tonha do Riachão.
Chiquita entrou e sentou-se / com o seu filho chorão. / Era um menino amarelo, / danado pra pedir pão. / Chorou logo com voz rouca, / mas a mãe tapou-lhe a boca / com um pedaço de sabão.
Beberam todos, comeram / e começou a função / com pandeiro, reco-reco, / cavaquinho e violão. Eu já ia me esquecendo, / quando foram aparecendo / o ferreiro e o sacristão.
E começou o batuque, / com um “bendito” rezado. / Muita cantiga do povo, / que se aprendia em reisado. / Parecia até guerreiro / dançando muito ligeiro, / em dia santificado.
A partir daqui, minha memória falhou. Só me lembro que a velha havia sofrido um ataque de catalepsia. De repente, levantou-se, todo mundo debandou apavorado, e mais um verso me veio à memória: “Do resto do pessoal / foi aquela debandada. / Pureza pulou a cerca, / porém ficou enganchada. / Gritou por São Nicolau, / saiu da ponta do pau, / mas foi pra casa rasgada”.
O Padim Ciço apareceu, jogou água benta em cima da velha, que remoçou, se “converteu” na hora e passou a ser conhecida como Beata Mocinha. Ficou tuberculosa e um dia, quando o Padim Ciço lhe ministrou a hóstia, ela teve uma hemoptise, vomitou sangue e ficou famosa como santa, porque diziam que “da hóstia tinha saído o sangue de Cristo”. Desse modo, aquele povo ignorante conseguiu dois santos de uma só vez: o Padim Ciço e a Beata Mocinha, os quais passaram a engrossar a fileira de Santo Antônio, São João e São Pedro, nas festas juninas.
A poesia floresce exatamente em tempos de indigência material ou espiritual. No Nordeste, ela floresce com mais viço no tempo da seca e nas festas juninas. É uma dádiva celeste, que nos é entregue para que possamos demonstrar a bondade do nosso Deus, mesmo quando escrevemos coisas banais!
Mary Schultze, junho 2004