Reminiscências

 

1. - “Sabicholinha Ledeira”

 

Minha avó Quitéria sempre me censurava dizendo que eu era muito saliente, ao contrário de minhas primas, que morriam de medo dela, enquanto eu costumava enfrentá-la com uma forte personalidade.

Quando eu tinha dez anos, certo dia meu tio Quinco estava tentando convencer-me que a Amazônia ficava no exterior, enquanto eu, de mapa na mão, tentava provar-lhe que essa terra fazia parte do Brasil. Vó Quitéria, que presenciava a discussão, puxou-me pelo braço e falou: “Minha neta, você é muito “sabicholinha”, mas dessa vez você perdeu!

Quando eu tinha quinze anos, certo dia ela estava nos visitando, quando me ouviu declamando o poema “Julius Caesar”, de William  Shakespeare,  no original. Quando terminei a declamação, ela olhou para minha mãe e perguntou; “Rosa, você não acha que essa menina tá ficando ‘ledeira’ demais?”’ A partir desse dia, meu apelido em família passou a ser “sabicholinha ledeira”.

 

2. - O “Cônsul Alemão”

 

Em maio de 1967, meu marido e eu estávamos cuidando da papelada para viajarmos à Alemanha. Na Avenida Brasil, ele se descuidou e avançou um sinal, parando logo em seguida. Veio um guarda de trânsito e começou a injuriá-lo, chamando-o “barbeiro” e ameaçando tomar-lhe a carteira, etc. Perdi a paciência e falei: “Seu guarda, o Sr. está ofendendo o ‘cônsul alemão’ e isso pode resultar num incidente diplomático.” O guarda calou-se e mandou que meu marido seguisse em paz. Mais tarde, o Schultze, que jamais havia dito uma mentira, pois era um luterano muito correto, indagou: “Por que você ‘mentirou’ para aquele guarda?” (Convém notar que eu só vim a me converter em 1978!)

Poucos meses depois, quando já havíamos voltado da viagem à Europa, o Schultze parou de repente, para não avançar um sinal, quando um carro, que vinha logo atrás, bateu na traseira do nosso carro. Ele saiu, calmamente,  para ver o estrago e o dono do carro que nos havia batido, veio gritando na maior fúria: “Seu barbeiro, por que parou de repente e não avançou o sinal? Ainda dava tempo!”. Vi que se tratava de um militar graduado e falei: “O Sr. não se envergonha de aconselhar um estrangeiro a avançar o sinal, sendo um militar?” O homem ficou furioso e disse: “Tire sua mulher da minha frente, antes que eu bata nela! Sou um oficial da Marinha e não levo desaforo para casa!” Respondi na  mosca: “Grande coisa! O Sr. é um oficial da Marinha, mas  está ofendendo a esposa do cônsul alemão!

 

3. -  O Prefeito de Caxias

 

         Quando foi a Brasília, pela primeira vez, na época do Jânio Quadros, meu marido ia entrando calmamente no Palácio da Alvorada, quando um guarda apareceu e indagou: “Quem é o Sr. para entrar assim no Palácio, sem pedir licença?”  O Schultze deu um sorriso e respondeu: “Eu sou João, prefeito de Caxias”.

         Quando me contou o incidente, comentei: “Você não tem vergonha de dizer uma mentira desse tamanho?” Ele respondeu: “Ora, minha querida, eu sou ‘Hans’, que em alemão significa ‘João’. Sou ‘Schultze’, que em alemão significa ‘prefeito’. Além disso, moro em Caxias. Como você pode ver, eu só ‘mentirei’ na vírgula!”

 

4. - Os porres de aniversário

 

         Na véspera do meu aniversário de 33 anos, o Schultze, uma amiga e eu íamos saindo da “Casa do Alemão” no Km. 15 da Rodovia Washington Luiz, onde havíamos ido apanhar o meu bolo de aniversário, o qual, felizmente, não estava pronto. Veio um caminhão, bateu em nosso jipe Candango e nada sobrou da capota do carro. Calmamente, sem parar para ver o estrago, meu marido dirigiu até o portão de nossa casa. Quando paramos dentro da garagem, ele nos olhou calmamente e perguntou: “Por favor, alguém se machucou?” Era a sua maneira tranqüila de encarar qualquer incidente desagradável. No dia seguinte foi a Petrópolis, para ver enquanto ficaria o conserto do jipe. Quando voltou, já na hora da festa, notei que ele havia bebido muito e esperei que se sentisse melhor, depois de uma xícara de café. Fui preparar a rubiácea  e, quando voltei à sala, ele estava tranqüilamente adormecido no colo da esposa do Gerente da Bayer, que viera comemorar meu aniversário.

         No dia em que completei 50 anos ele fez pior. Animado com a inauguração do galpão de 350 metros quadrados, que iria servir de estoque às matérias primas do nosso laboratório, ele tomou um porre daqueles. Quando a festa começou, com a presença do prefeito de Caxias (um coronel do exército, pois ainda estávamos no tempo da ditadura), do pastor da Igreja Presbiteriana e de uns 50 convidados, ele perdeu o equilíbrio e caiu no meio do salão, onde estávamos servindo o bolo. Foi a maior vergonha que passei na vida e jurei que jamais iria festejar meu aniversário. Infelizmente, menos de 4 anos depois ele faleceu. Quando completei 60 anos, a festa aconteceu em casa de meus  pais, em Fortaleza, organizada por minha irmã favorita,  Rosa, que veio a falecer poucos meses depois, em conseqüência de uma lipoaspiração. Depois dessa, jamais festejei qualquer data de aniversário, nem mesmo a dos 70 anos.

 

5. O Químico da Brahma

 

        Estávamos passeando em Buenos Aires, quando resolvemos entrar num café para o Schultze tomar uma cerveja, a filha de 9 anos e eu, uma coca cola.

         O garçom nos serviu uma coca cola meio quente. E ao Schultze, uma cerveja estragada. Sendo um excelente Químico (diplomado pela Universidade de Tübingen, Alemanha) especializado am alimentos, tanto que criou as essências da Kibon, Brahma e até criou uma laranjada que ele mesmo batizou de “Sukita”, o Schultze logo percebeu que a cerveja estava ruim e chamou o garçom para reclamar. Este contestou, sarcasticamente,  dizendo que o cliente estava reclamando sem razão, pois a cerveja estava muito boa.

         Meu marido era pacífico demais, porém eu, uma espoleta. Olhei para o garçom com a cara mais feia que pude apresentar (pois nesse tempo eu ainda muito bonita) e usei todo o meu Espanhol do segundo grau, para dizer o seguinte: “Garçom, esta cerveja está estragada. E quanto ao cliente estar reclamando sem razão, fique sabendo que ele é o Dr. Schultze, Químico da Brahma no Brasil.

         O garçom tomou o maior susto, quase se ajoelhou aos pés do Schultze, se desculpando, e logo trouxe uma cerveja perfeita (bem gelada), até o ponto em que se poderia chamar de “perfeita” uma cerveja Argentina!

 

Mary Schultze, 2004.