Ser ou não ser... pacificadora

 

         Hoje o pastor de nossa PIBT focalizou Mateus 5:9: “Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus”, não esquecendo de dar umas boas alfinetadas nesta “cobrinha abençoada”, o que me estimulou bastante no sentido de ver o que houve de errado na pregação dele.

         Como diz o teólogo americano - Dr. Peter Ruckman - em seu livro “The Simplicity of Salvation” (A Simplicidade da Salvação), um dos sete livrinhos que traduzi para ele, o Evangelho de Mateus foi escrito por um judeu e para os judeus, pois Jesus deixou claro, muitas vezes, que viera exclusivamente para pregar aos judeus. Tanto que levantou Paulo, depois que lhe apareceu na Estrada de Damasco, para tomar conta dos gentios, pregando o Evangelho da Graça.

         Na época de Mateus capítulos 5 a 7, a regeneração do pecador através do sangue de Cristo ainda não tinha sido feita. De fato, nesse tempo o Novo Testamento ainda não havia sido instituído. Em Mateus 26:28, foi que o Senhor Jesus Cristo instituiu o Novo Testamento quando disse: “Porque isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados”.

         O Novo Testamento não entrou em efeito, senão depois de Mateus 27.  Então quando um pastor começa a pregar sobre “Pacificadores”, usando Mateus 5, em vez de Romanos 12 e 13 que ensinam: “Se for possível, quanto estiver em vós, tende paz com todos os homens” (Romanos 12:18).  “O amor não faz mal ao próximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor” (Romanos 13:10), fico logo preocupada, pois isso tem gerado muita depressão entre os crentes.

         Quando o pastor afirmou literalmente, no sermão de hoje,  que somente os pacificadores é que são “filhos de Deus”, seguindo Mateus 5:9 ao pé da letra, fiquei pensando como iria ele explicar João 1:12: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome”. Não sou e nunca fui pacificadora, pelo menos do ponto de vista do pastor, embora o seja do ponto de vista da família e dos vizinhos, no prédio onde moro, há oito anos.

         Certo dia, ia saindo para o almoço, quando a vizinha do lado quis me apresentar a uma nova moradora do mesmo andar (membro da IURD), tendo-o feito com estas palavras: “Míriam, esta é Mary, nossa vizinha do 303. Ela é muito gentil com os vizinhos, mas é tão quieta que a gente até esquece que ela mora ao lado, pois fica o tempo todo ‘estudando’ a Bíblia. A gente só se lembra dela,  quando tem um problema e precisa do seu apoio, etc.” Isso é não ser pacificadora?

         Na semana passada, quando ia saindo do Bradesco, fui chamada pelo gerente, que se ofereceu para dobrar o meu limite na conta especial, dizendo que sou uma cliente muito correta, nunca dei cheque sem fundos, nunca usei o limite (nem tenho cartão de crédito), quando, então, respondi: “Obrigada, mas não quero que dobrem o limite, porque nunca o usei e nem quero que os hackers da Internet roubem mais do que possuo na conta, que é pouco, mas ainda é meu”.  Ele deu um sorriso e disse que eu sou uma pessoa muito sábia. Isso não é ser pacificadora?  A igreja está cheia de crentes bonzinhos, que bajulam o pastor o tempo inteiro, enquanto lá fora agem de maneira nada ortodoxa! Para esses ele jamais usaria Mateus 5:9!

         Se viver pacificamente com os vizinhos, pagar as contas antes do vencimento e nunca dar um grito dentro de casa é não ser pacificadora, então o pastor tem toda razão. Se mostrar os erros da liderança da igreja, como a subliminar cobrança do dízimo (para agilizar a construção do novo templo), se criticar a mania dos pastores de convocar somente os seus prediletos para orações (inclusive um irmão que chama Jesus de “Pai” o tempo inteiro) é não ser pacificadora, mais uma vez dou-lhe inteira razão.

Agora vamos a um bom exemplo tirado do Sermão do Monte, em Mateus 7:13: “Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela”.  Admiro-me que o pastor não tenha ainda usado este verso para mostrar que o crente pode perder a salvação, já que é tão ligado em Mateus!

Também admiro-me que ele ainda não tivesse usado Mateus 5:22: “Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e qualquer que disser a seu irmão: Raca, será réu do sinédrio; e qualquer que lhe disser: Louco, será réu do fogo do inferno”, para dizer que se um crente chamar qualquer irmão de “raca”, isto é, “idiota”, irá a jato para o inferno! Se ele usa Mateus com tanta freqüência, qualquer dia vai me atirar no inferno, junto com o Pr. Paulo (outro pesquisador bíblico), que vê e aponta os defeitos da nossa Igreja, não sendo, portanto um pacificador!

Pacificador mesmo é o santo Pr. Rogério, um pobre pai de família, que recebe uma ninharia para evangelizar, diariamente, nas ruas da cidade e nem a passagem de ônibus tem recebido da igreja, enquanto outros, que não evangelizam, gozam de tanto prestígio, simplesmente porque entregam pontualmente um bom dízimo!

Não pacificadora e não dizimista é esta “cobrinha abençoada”, que gasta mais de 15% do que recebe de INSS em seu ministério de tradução de material bíblico (papel, tinta, xerox, manutenção do computador e da impressora, com 8 horas diárias de expediente), para evangelização dos incrédulos e edificação dos crentes, que não têm acesso ao Inglês e de muitos sem acesso à Internet.

         Em Mateus capítulos 5 a 7, não existe palavra alguma que fale de um crente verdadeiro deixar de ser pacificador por não seguir os ensinos do Sermão do Monte, pois de fato, ainda nem sequer existiam cristãos nesse contexto.

         Diante de um sermão tão repleto de judaísmo, lamento decepcionar alguns membros do meu grupo, que estão sempre me pedindo para comentar o sermão do pastor, lendo os elogios que tenho feito sobre ele. Também vou decepcionar a Neusinha, minha grande amiga do grupo, que está vindo morar em Terê (por seis meses, pelo menos), dizendo que deseja ser membro da nossa PIBT, porque eu sempre digo que é a melhor igreja da cidade porque o pastor prega bem e nunca fala em dízimo.

         Agora eu vejo como as igrejas evangélicas estão decadentes em todos os sentidos... Pois se a minha, que é a melhor da cidade, não é perfeita, o que dizer de outras, em que os pastores gritam o tempo inteiro que só é abençoado quem deposita o que tem e o que não tem... no gazofilácio, “para a maior glória de Deus”, como dizem os jesuítas...

 

Mary Schultze, 19/09/2005.