Ser velha

 

         Hoje comecei a me lembrar de coisas do passado, senti-me triste e pensei que é por causa da saudade que os velhos não têm apego à vida e, muitas vezes, até desejam a morte. Tendo perdido todas as pessoas de sua geração, os velhos se sentem abandonados e desejam muito ir para junto daquelas pessoas que formaram o quadro familiar e sentimental de sua existência.

De repente, comecei a me indagar: quem sou eu? E a resposta que dei a mim mesma foi esta:

Nasci no final de 1929. Meu pai tinha uma pequena fazenda e minha mãe era uma perfeita esposa e dona de casa. Tive uma infância feliz, correndo no sítio da família, comendo laranjas, mangas e goiabas, enquanto nossa ama  - Rosa do Belo - cuidava de tudo. Fui alfabetizada por meu pai, aos sete anos de idade. Tinha muita vontade de aprender a ler e, em menos de um ano, lia fluentemente. Meu pai me trazia livros de histórias e folhetos de cordel, toda semana, quando ia ao centro da  cidade, para vender os produtos do sítio, e por isso desenvolvi o hábito da leitura, desde os oito anos de idade. Meu pai era repentista e dele herdei esse dom, fazendo  trovas com a maior facilidade, no que fui muito auxiliada pela leitura dos folhetos que ganhei de presente e por dois livros que iriam me abrir o mundo da fantasia: "Histórias das Mil e Uma Noites" e "Aventuras de Hans Staden". Quando terminei a leitura deste, fiquei tão fascinada pelo autor e personagem principal que disse: "papai, quando eu crescer, quero me casar com um homem chamado Hans Staden". Meu pai sorriu e prometeu que eu me casaria com um homem chamado Hans. Então, continuei lendo muito e sonhando com o futuro.

Quando tinha dez anos, nossa família mudou-se para o centro da cidade e fui matriculada no segundo ano primário. Tirei o primeiro lugar e nunca mais perdi essa classificação, até concluir todos os cursos que fiz. Gostava de estudar, lia muito  e ajudava minha mãe a cuidar dos irmãos menores. Nesse tempo, ficava até altas horas da noite lendo Machado de Assis, José de Alencar e até os poemas de Shakespeare (no original), depois de preparar as lições do colégio. Sentia um indiscernível prazer em ler bons autores. Quando terminei o primeiro grau fui estudar na capital do Estado, onde fiz o segundo grau, sempre com as melhores  notas, e fui eleita oradora da turma. Fiz um curso de Inglês no IBEU. Entre 1952 e 1954, morei no Recife, tendo trabalhado como secretária bilíngüe em duas firmas estrangeiras. Em setembro de 1954, decidi viajar para o Rio de Janeiro e nunca mais regressei ao lar paterno. Queria conhecer o mundo e ter mais liberdade...

Antes dos anos 70, as mulheres ainda não tinham os mesmos direitos de hoje. O movimento feminista brasileiro havia começado no início do século, através de mulheres como Leolinda Daltro, que em 1917 lutou incansavelmente pelo voto feminino.  Contudo,  ele veio a se tornar uma realidade somente nos anos 80.  As principais estrelas do movimento feminino em nosso país, nas primeiras décadas do Século 20,  foram Bertha Lutz (a cientista eleita deputada), Mirtes Campos (a primeira advogada a ser aceita na OAB), e Maria José de C. Rabelo Mendes (a primeira mulher a exercer a carreira diplomática).

Cheguei aos 20 anos, já na década de 50, quando as coisas estavam quase totalmente definidas em relação aos direitos da mulher na sociedade brasileira. A antropóloga americana Helen Fisher foi uma das maiores lutadoras em prol dos direitos femininos, a partir de 1985. No Brasil, a obra da Sra. Fisher foi deveras importante. Sempre gostei do Movimento Feminista, embora nunca me tenha engajado em qualquer setor do mesmo. Converti-me ao Evangelho de Cristo em 1978 e passei a me dedicar somente à família, ao trabalho em nosso laboratório de cosméticos e à leitura da Bíblia. Sentia-me feliz e realizada.

Tendo herdado a veia poética repentista de meu pai, sempre usei a trova para enfrentar qualquer problema. Aos 22 anos fui trabalhar  numa firma americana, cujo chefe era temido por todos. Certo dia, quando lhe entregava uma carta em Inglês, muito bem datilografada, ele me encarou solenemente e indagou: "A Srta. não tem medo de mim?" Respondi, sem hesitar: "O Sr. é bem ranzinza./ Mas tem natureza boa. /Tem suas "quartas de cinza",/ porém não é má pessoa".

Quando encontrei o poeta Manuel Bandeira, na Praia do Flamengo, numa tarde de verão, nos anos 50, compus para ele o seguinte poema: "Quisera ter uma casa / bem branquinha e sossegada, / na zona sul de Passárgada./ Quisera ter muitos livros, / uma vaquinha leiteira / e uma rede bem macia./ Quisera ter ao meu lado / o “Colombo do lugar” /... com trinta anos a menos." Ele deu um sorriso e indagou: "Você me acha assim tão velho?"

Um dia, quando almoçava com José Lins do Rego, nos anos 50, este me pediu uma trova, ao que respondi: "A quem, com simplicidade,/ escreve sobre o sertão, / minha crescente amizade, / plena de admiração./ Pois das terras nordestinas/ foi quem melhor descreveu/ cangaço, engenho e salinas,/ num estilo todo seu".

Quando me casei, estava loucamente apaixonada pelo meu marido. Anos depois, compus umas trovas, encantada com uma covinha que ele tinha no queixo: "De minha vida enrolada / não tinha encontrado o eixo,/ até que fui enquadrada / na covinha do teu queixo./ Quem for livre de pecado / que atire o primeiro seixo, / que eu vou cair de bom grado / na covinha do teu queixo./ Se de amor não te falar, / de todo o meu coração, /as pedras não vão calar/ e por amor clamarão. Devo ser crucificada, / mas de te amar eu não deixo./ Morro, pra ser enterrada /na covinha do teu queixo."

Quando visitei Berlim pela primeira vez, em 1967, fiquei admirada com o luxo dos cachorros e compus umas trovas, na Avenida Kurfstendam: “O povo aqui de Berlim / pelos cães tem tal xodó / que a gente, em todo jardim, / só vê cocô de totó./ Cachorro, aqui nesta terra, / tem capa de pele e cama / e em tempo de paz ou guerra / de "Lieber Hund" se chama. / Com sobrenome do dono / tem na coleira uma ficha / e sonha, durante o sono, / com frango assado e salsicha./ Na próxima encarnação, / Eu, coitadinha de mim, / vou fazer minha opção: / nascer cachorro em Berlim".

Muitos anos depois, quando ali voltei, escrevi aos amigos no Brasil: "Desembarquei em Berlim, / qual formiga em formigueiro. / O clima aqui está ruim/ e faz frio o tempo inteiro. / No Metrô aqui da terra, / que de U-Bahn é chamado,/ parece haver uma guerra / de povo acotovelado. / Cada cachorro que vejo / (e aqui é o que mais se vê), / faz aumentar meu desejo/ de regressar a Terê./ Pois cão, aqui nesta terra, / tem capa de pele e cama, /com ele o dono não berra / e de "Lieber Hund" o chama. / Meu alemão tão fraquinho / de melhorar eu desisto./ Vou-me mandar, ligeirinho, / desta terra do Anticristo./ É boa, aqui, a comida, / nela o povo tem prazer. / Mas não vou ser iludida, / pois não gosto de comer./ A Deus sempre peço auxílio, / pois meu coração deseja / acabar com este exílio / e ver meus irmãos, na Igreja".

Quando a filha me censurou a paixão pelo computador, escrevi umas trovas de amor para aquele que chamo, carinhosamente, "MEU MARIDO":

"D. Mary e os dois maridos / as amigas sempre falam./ São brincadeiras, sonidos, / que em meus ouvidos propalam. / O meu primeiro marido/ era Hans - um alemão./ Pena que tenha morrido/ de ataque do coração./ Fiquei 13 anos sozinha, / na mais triste solidão, / até que uma vizinha / levou-me à convicção:/ - ‘Você não pode ficar/ nesta vida sem amor./ Então, vá logo comprar./ um microcomputador’ . / Vi-o, amei-o e conduzido / ele foi, pro meu Apê./ Meu Deus, que belo marido / ganhei aqui em Terê!/ Ele faz tudo que eu quero:/ trabalha e me dá prazer./ Nunca por ele eu espero, / pois sempre adora me ter./ Seu serviço e seu carinho/ eu tenho à disposição./ Este meu bom maridinho/ já ganhou meu coração!"

Em 1956,  havia me casado com um alemão de Berlim chamado Hans (conforme havia sonhado na infância) e fiz várias viagens à Europa e aos Estados Unidos.  Fiquei viúva aos 52 anos e hoje, diante de tantos acontecimentos trágicos no mundo, prefiro ficar em casa, lendo, traduzindo assuntos bíblicos e acessando a Internet para receber e responder mensagens do mundo inteiro.  

Ontem me senti deprimida e comecei  a tentar decifrar o significado da expressão "ser velha", neste  Século 21.

Ser velha, até os anos 50 do Século 20,  era ficar sentada numa cadeira de balanço, ouvindo rádio, ninando os netos, mastigando a dentadura postiça, resmungando, o tempo inteiro, e ensinando a filha ou a nora a depenar corretamente as galinhas para o almoço do domingo. Nas décadas de 50 e 60, as senhoras viúvas tinham  a obrigação de se adaptar aos costumes da geração mais nova e fazer tudo que os filhos e netos determinassem. Isto significava não fazer coisa alguma, a não ser aguardar a morte. Ser velha, nesse tempo, era tremendamente chato.

         Ser velha (aposentada), dos anos 60 até os anos 70, era ver televisão, bordar o enxoval das netas que iam se casar, plantar roseiras no quintal da casa, fazer compras leves no mercado mais próximo, ensinar as lições dos netos (cujos pais estavam no trabalho e não tinham tempo de fazê-lo), lavar as garrafas vazias de refrigerante (para não atrair baratas), conservar as garrafas de água sanitária fora do alcance das crianças, dar-lhes o xarope contra tosse, e cuidar para que não tomassem muita friagem no jardim e não falassem palavrões... Enfim, ser velha era supervisionar o trabalho do lar e fazer o que lhe fosse possível, dentro dos limites físicos impostos pelo reumatismo e pela labirintite (Graças a Deus fui uma exceção, porque exercia um cargo em nossa firma, desde 1965).

Nesse tempo, nas festinhas de aniversário dos netos, a vovó tomava os últimos goles de refrigerante e comia uma fatia de bolo, depois de ter lavado uma pilha de pratinhos e copos, e de ter sugado com a "feiticeira"  todas as migalhas que o pessoal da festa havia deixado cair no tapete. Mais tarde, sentava diante da TV para assistir a novela das oito, que agora sempre começa às nove. 

Ser velha nos anos 70 e 80, era muito cansativo. Também era terminantemente proibido falar de política!

Ser velha, a partir de 1985, já não era tão chato nem cansativo assim. Tive o privilégio de começar a envelhecer (55 anos), já nessa década. As senhoras da "melhor idade", como passaram a nos chamar,  começaram a viajar para a Europa e Israel. Já podíamos comprar roupas joviais,  ir ao cabeleireiro e à manicura, assistir aos shows do SENAC e comparecer aos demais encontros da “Terceira Idade”. Agora já se podia falar de política, pois estávamos em plena democracia, embora, desgraçadamente, numa inflação corrosiva. Podíamos fazer uma plástica,  cursar uma faculdade livre, aprender a falar idiomas nos cursos particulares, fazer um tratamento dermatológico para evitar as manchas de senilidade, escolher um creme rejuvenescedor, à base de colágeno e elastina, um  perfume francês, e um batom bem vermelho.

Ser velha, então, significava ser gente e fazer as coisas que antes não nos eram permitidas.

As coisas mudaram muito para a mulher brasileira, nas últimas décadas. Em 1996,  quase 12% do Parlamento Brasileiro ficaram sendo constituídos de mulheres. Em 2004 haverá cerca de 30% de mulheres no Parlamento  e, brevemente, teremos uma mulher na presidência da república.... Quem sabe, depois do LULA, pois ele tem valorizado muito as mulheres...

         Infelizmente, ser velha, a partir do Ano 2000, é continuar a ter os mesmos direitos e privilégios das duas últimas décadas do Século 20, PORÉM com um terrível sentimento de insegurança. Agora os acidentes de avião e de carro são tantos que é melhor ficar em casa. Ir à Europa é perigoso, pois o avião pode ser seqüestrado, explodir e cair no Atlântico. Ir a Israel, nem pensar! Os homens-bomba aparecem em qualquer parte e a gente pode ir pelos ares, virando picadinho oriental. Fazer compras ou viajar pelo país? Deus nos livre! Os assaltos e seqüestros são tantos que é melhor ficar em casa, diante do aparelho de TV,  ou navegar na Internet, observando os horrores que acontecem pelo mundo. E assim mesmo com a porta de casa bem trancada com duas  fechaduras de segurança. É perigoso até ir ao cinema! Saí de casa apenas para assistir ao (horroroso) filme do Mel Gibson, e ainda porque foi exibido numa igreja.

Ser velha, agora, é temer que o nosso corpo seja negociado no leito do hospital por um enfermeiro assassino. É temer que os filhos e netos tenham relações sexuais sem as devidas precauções e sejam contaminados com o vírus HIV. É temer que os netos sejam molestados por um terapeuta, um professor do colégio, ou o padre da paróquia, depois que ele transformar a hóstia em "Deus", sentindo-se, portanto, como um “deus”.  É temer que os netos sejam assassinados na escola. É temer que as meninas sejam seqüestradas ou estupradas, na volta do colégio. É temer que o nosso cartão de crédito seja clonado e tenhamos um prejuízo financeiro exorbitante, perdendo mais do que recebemos mensalmente de INSS, depois de 35 anos de trabalho e contribuição. É temer que os 10 salários que recebíamos em 1999 (os quais baixaram para 8, em apenas três anos), sejam reduzidos ao salário mínimo, quando não mais poderemos pagar o (mafioso)  plano de saúde.

Quando chega uma carta para nós, ou alguém da família, já pensamos em usar uma pequena máscara embebida em álcool, porque a correspondência pode vir contaminada com o bacilo do antraz ou do ebola. Depois dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos,  a terra ficou enlutada e já não oferece qualquer sossego para os seus habitantes. A iniqüidade humana predomina em todos os setores globais. Na União Européia já se fala num governo mundial para conter a violência  causada pela incredulidade,  pelas drogas e pela pornografia desenfreada. O mundo  agora virou um enorme hospício pela falta de segurança em todos os quadrantes!

 Ser velha não é nada interessante, no contexto atual. Hoje comecei a comparar o mundo dos anos 50 com os dias de hoje e fiquei assustada. Será que não valeria a pena trocar os avanços tecnológicos e os direitos atuais pela tranqüilidade daquele tempo? As décadas de 50, 60 e 70 foram as melhores do Século 20, mesmo com os direitos femininos ainda não completamente definidos, o assassinato de Kennedy (1963)  o "hoax" da Guerra Fria e... a inexistência do fax e do computador...

Ainda bem que sou uma velhinha esbelta e tagarela,  cheia de fé em Deus, tentando amar ao próximo como a mim mesma. Acredito piamente que "todas as coisas contribuem juntamente para o bem dos que amam a Deus". Todas as noites, antes de dormir e depois de escutar uma hora de Bíblia na voz do Cid Moreira, ajoelho-me  e agradeço ao Criador pelo dia que se foi, implorando que Ele proteja minhas filhas e netos, no dia seguinte. Porque “eu sei em quem tenho crido” e também sei que  "As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim. Novas são cada manhã; grande é a tua fidelidade” (LM 3:22-23).

 

Mary Schultze, julho 2004.