Sinecura, sinecurismo, sinecurista

 

         Acordei cedo e estas três palavras me afloraram à mente.  Meu Deus! De onde elas saíram, retalhos de memória, piscando como um letreiro de gás néon em meu pensamento?

         Já sei. Conheci duas pessoas que gostavam de usá-las e por isso guardei-as no recôndito do subconsciente, para um dia retornarem e serem usadas em um dos meus 1.200 artigos.

         O primeiro amigo desses “sine” foi o professor de Latim. Ele era magro, mal humorado e andava sempre correndo, como se estivesse fugindo da polícia. Recebia a hóstia, diariamente, e quase havia se ordenado padre, no seminário da cidade. Como sempre fui uma capetinha (essa época com 13 anos de idade) fiz uns versos para ele, dos quais vou tentar me lembrar:

O professor Aluísio

é um tipo espertalhão,

que, em vez de “nome do padre”,

sempre diz “nome do pão”.

Quando ele entra na classe,

Dá “bom dia”, sem sorrir,

da lição pede um repasse,

Pra ver a gente latir...

(E por aí a fora).

         O outro foi um grande apologista da Bíblia, o Dr. Aníbal Reis. Certa vez ele se hospedou em nossa casa (em jardim Primavera, RJ) e passamos quase a noite inteira pesquisando a 2 Coríntios 4, que eu, naquele tempo, sabia de cor. Éramos dois “dependentes” de Paulo. Aníbal já está na glória e eu... ainda lutando para cumprir a promessa que lhe fiz, um dia,  em São Paulo, num jantar em sua casa: continuar malhando o Vaticano, depois que ele fosse “arrebatado”.

         Vivemos num país de sinecurismo e sinecuristas. Os políticos se elegem à custa da boa fé do nosso povo, ficam anos recebendo salários nababescos e nada fazem... a não ser roubar quem os elegeu. Com honrosas exceções (como é o caso de um deputado cristão chamado Magno), esses sinecuristas entram em labirínticos esquemas de corrupção e o povo vai ficando cada dia mais apertado, consumido de dívidas, pois os  piramidais impostos que nos são cobrados levam em média 40% de nossa renda, sem que o governo  nos ofereça coisa alguma em troca dessa impiedosa tosquia.

         Os esquemas de corrupção são tantos que os parlamentares não têm tempo de trabalhar em assuntos sérios, como criar e aprovar leis em benefício do povo. São meses e meses de CPIs rolando no Congresso, as quais, como sempre acontece, terminam em “pizzas italianas” acondicionadas  numa cortina de fumaça do Vaticano, isto é, sem solução alguma.

         O pior é que esse sinecurismo atinge também as igrejas evangélicas, que deveriam ser um exemplo de trabalho e  honestidade, as quais, infelizmente,  com poucas exceções, são antros de sinecurismo e corrupção (“sinecurismo” rima com “sincretismo” e “corrupção” rima com “depravação”).

         Como já escrevi antes, um jovem que não gosta muito de estudar e não quer se arriscar  a um vestibular de Medicina, Odontologia, Arquitetura, Direito, etc., entra num seminário evangélico (e há muitos por aí), aprende um pouco de Bíblia (e quase nada de Português), decora alguns versículos bíblicos e... chegou a hora de abrir uma igrejinha no fundo do quintal, ou na garagem de sua casa (quando os pais têm carro). Logo em seguida, esse “pastor” começa a pregar o evangelho da prosperidade (que vai torná-lo próspero). Depois de cinco anos, ele já tem um belo carro, uma casa própria e viajou aos States, onde fez convênio com um desses líderes do falso evangelho, motivo de ter prosperado tão rapidamente. Agora ele já não se contenta com o título de “pastor”. Ele vira “profeta”, “bispo”, “apóstolo” ... depois se sente um “deus”, sacudindo os braços cheios de pulseiras de ouro, como aquele personagem de uma novela da TV Globo, magistralmente interpretado por Lima Duarte.

         Ontem uma pessoa do meu grupo enviou e-mail contando que o seu pastor está fazendo propagada e vendendo os livros de Rick Warren. Ela me pedia orientação sobre o assunto. Respondi o seguinte:

         “99 entre 100 pastores evangélicos estão caindo no engodo do já famoso Rick Warren, autor de dois ‘propositados’ bestsellers, um simpatizante de Roma e dos novaerenses e, mesmo assim, preletor no Congresso da Aliança Batista Mundial,  na Inglaterra, no ano passado. Uma das versões da Bíblia que ele usa é recheada de conceitos da Nova Era, versão que,  em breve, estará circulando no Brasil, pois “um abismo chama outro abismo”.

         Esses pastores brasileiros podem até ser bem intencionados... Só que não lêem autores de livros sérios, como Avro Manhattan, Dave Hunt, Norbert Lieth, Dr. Ian Paisley, Dr. Peter Ruckman, Dr. William Grady, Dr. Samuel Gipp e outros. Também não lêem os livros da "Chamada da Meia Noite" (uma editora realmente confiável) e por isso caem nesse tipo de engodo. Eles preferem ler os livros dos “pavões” do evangelho americano (e dos “lufts” brasileiros), que lucram montanhas de dólares, à custa dos pastores e membros das igrejas “avivadas”, etc...

         Um cristão que lê (diariamente) pelo menos um livro do Novo Testamento (principalmente as Cartas de Paulo)  com o sincero desejo de vivenciar a Palavra Santa, para crescer na graça e no conhecimento do Senhor, não precisa cair nas mãos desses pastores sinecuristas, os quais vivem como nababos à custa da ignorância bíblica dos membros de suas “sinagogas”.

         O barulho nessas congregações é ensurdecer, atraindo a antipatia dos incrédulos em relação ao evangelho de Cristo; o evangelho ali pregado é espúrio, embasado em passagens do Velho Testamento, adaptadas ao nosso contexto, com as quais eles possam convencer os incautos a dar sempre mais; o dízimo é exigido, como condição sine-qua-non de bênçãos divinas; as ofertas são exigidas para que “a obra do Senhor possa crescer”. Ora, não é a obra do Senhor que cresce, mas as contas desses sinecuristas... nos paraísos fiscais. Eles são mais reprováveis do que os políticos, pois estes usam o nome do povo, enquanto os pastores malaquianos usam e abusam do Santo Nome do Senhor Jesus Cristo.

         Quando tento pregar o evangelho a pessoas de classe média alta (Cristo me escolheu para isso, como o fez com o apóstolo Paulo), a primeira coisa que essas pessoas dizem é: “Nem pensar em ser evangélico; dar 10% de meus ganhos à igreja, escutar um barulho tremendo nos cultos, ter de conviver com gente de todo tipo, até com quem já foi assaltante, impossível!”

         Tento explicar que ser cristão é crer na Divindade do Senhor Jesus Cristo; é conscientizar-se de ser um pecador perdido, sem a mínima chance de salvação, a não ser através do Seu Sangue  derramado na cruz;  é ler a Bíblia diariamente e, sobretudo, ser honesto nas mínimas coisas. Freqüentar a igreja é um detalhe aconselhável, para ali se conhecerem irmãos na fé, seguindo o conselho dado em Hebreus 10:25: Não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns, antes admoestando-nos uns aos outros” (como estou tentando fazer agora... O grifo é meu.)

            Ser cristão, é obedecer aos mandamentos dos versos 15 e 16 do capítulo 13, que dizem: “Portanto, ofereçamos sempre por ele a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome. E não vos esqueçais da beneficência e comunicação, porque com tais sacrifícios Deus se agrada”.

            Notem que “sacrifícios de louvor” não significam corinhos estrondosos, repletos de heresias bíblicas e erros gramaticais, mas hinos clássicos cantados, solenemente, em louvor a Cristo, sem o egoístico emprego da primeira pessoa do singular. 

            Deixemos que os pastores sinecuristas aprendam a trabalhar, como o fazem os sofridos membros de suas congregações. Que eles deixem de ganhar dinheiro fácil, num ofício onde pouco se trabalha e muito se lucra (sinecurismo). Que eles aprendam a ganhar o pão com o suor do seu rosto e não com o suor dos rostos alheios. Basta de sinecurismo!

         Leiamos a Bíblia e oremos... O resto Deus garante... como já nos garantiu a salvação pela fé no perfeito sacrifício do Seu Filho Amado.

 

Mary Schultze, março 2006