Solly e eu

 

         Hoje Solly está completando 75 anos, gozando uma saúde invejável e vivendo de sua aposentadoria como funcionária do INCRA, para o qual trabalhou durante anos.

         Nossa amizade começou com uma antipatia mútua. Fui trabalhar como Secretária  do Superintendente americano da Singer, no Recife, em 1951, e ela que fora secretária da moça que eu estava substituindo, antipatizou comigo e passou a me hostilizar em todos os sentidos. Eu era jovem e bonita, Solly nunca foi bonita. Baixinha, com um defeito tipo lordose, só tinha de belos os cabelos macios e alourados de pernambucana descendente de algum holandês descendente da ocupação de Maurício de Nassau. Só tinha o primeiro grau e não falava Inglês, o que a colocava em posição de inferioridade com respeito a mim. Contudo, sempre foi muito melhor datilógrafa do que eu. Com o passar dos meses nós nos acomodamos (eu fechava os olhos às suas implicâncias, pois entendia o seu sentimento de revolta por não ter sido escolhida para substituir a secretária antiga) e trabalhávamos juntas com a maior eficiência.

         Até que um dia o chefe da Solly (um judeu subalterno ao superintendente) teve um problema com ela e demitiu-a do emprego.

Fiquei revoltada com a injustiça e tomei as dores de Solly e, desde esse tempo, nossa amizade se fortaleceu tanto que hoje, depois de 50 anos, continua firme.

         Desgostosa com a Singer, alguns meses depois Solly decidiu arriscar a vida na capital do país (nesse tempo, o Rio de Janeiro) e foi morar em um pensionato na Glória. Foi-lhe difícil conseguir um bom emprego e foi trocando de firma, até que fez um concurso no INCRA, foi aprovada e garantiu-se pelo resto da vida.

         Alguns meses depois de sua vinda para o RJ, eu também quis tentar a vida na capital do país. Nesse tempo já havia deixado a Singer e estava trabalhando no Consulado Real da Dinamarca, onde tinha um chefe muito arrogante. Só agüentei seis meses e pedi demissão. Aproveitei, então,  uma passagem que me foi oferecida pelo primo de uma grande amiga, com quem eu morava, o qual era oficial da marinha e tinha direito a duas passagens na Cruzeiro do Sul. No dia 02/09/1954, aterrissei no Aeroporto Santos Dumont, no RJ, onde me esperava uma amiga poetisa, que me levou para o mesmo pensionato onde Solly morava e ali me deixou. Nossa luta - minha e da Solly - para conseguir sobreviver na cidade grande está narrada em outro artigo - O Ano das Vacas Magras - mas vou tentar resumir.

         Ficamos alguns meses tentando conseguir um bom emprego. Eu era esteno-datilógrafa bilíngüe, diziam que era bonita e tinha muita fé em Deus. Meu primeiro emprego foi numa companhia de engenharia. Não gravei o nome da firma. Mas uma coisa me ficou gravada na memória. Naquele tempo não havia self-service, a comida no pensionato era péssima e eu tinha saudade de uma boa refeição. Na tal firma o almoço era fraqueado aos empregados. No primeiro dia o cardápio servido foi arroz, feijão manteiga, carne assada e salada de alface e tomate. Que delícia, meu Deus! Eu queria ficar naquele emprego só para saborear aquele tipo de refeição.

Infelizmente, porém, a  moça que eu iria substituir era uma chata, que fez questão de me ensinar tudo errado, pois segundo ela mesma declarou, “não gostou da minha cara”, talvez me achando bonita e confiante demais. Fui desclassificada e Continuei desempregada.

O segundo emprego foi na filial recém instalada do Bank of América (da Ordem Jesuíta), onde me tornei secretária interina, até que chegasse a americana que estava terminando o curso de Português nos USA. O gerente foi muito bom comigo, pois me deu um mês de salário de indenização, mesmo tendo eu trabalhado apenas dois meses no tal Banco.

O terceiro emprego foi na firma de um judeu alemão  e poderia ter ficado ali, pois corrigia as cartas que ele redigia em Inglês e o velhote me achou tão competente que foi logo me pedindo a carteira para assinar, antes de decorrido estipulado prazo de 30 dias. Saí porque o escritório era velho e sujo e eu sempre tive mania de limpeza. Além disso, fora chamada para trabalhar na firma inglesa Mappin & Webb como secretária do Diretor, onde fiquei até me casar, o que aconteceu exatamente na véspera de completar dois anos de chegada ao RJ. Foi assim que São Paulo, Nova Iorque e Tóquio deixaram de me conhecer! Essas seriam as cidades para onde eu deveria ir, caso não conseguisse logo um bom emprego no RJ.

Solly é espírita desde jovem. Fui católica e me converti ao Evangelho, aos 48 anos de idade. Ela casou com um americano e eu, com um alemão. Nossas filhas nasceram com uma diferença de apenas 35 dias (a minha veio antes) e eram tão parecidas que as más línguas ficavam sugerindo que talvez fossem irmãs por parte de pai... Meu casamento durou 26 anos, quando meu marido, não me suportando mais, teve um enfarte e faleceu. O casamento da Solly durou apenas um ano e meio, pois o marido era muito infiel.

Hoje Solly continua morando na zona sul do RJ. Eu morei durante 38 anos na Baixada Fluminense e há dez anos vim morar em Teresópolis, RJ. Ela sempre vinha me visitar, até que resolveu usar suas economias para comprar um apartamento em frente à Prefeitura, a uma quadra do meu. Agora aparece em fins de semana alternados e saímos juntas para as compras e o self-service.

Deus tem sido bom para nós ambas. Só que, para mim, Ele tem sido muito MELHOR, pois me deu a salvação eterna através da fé em Jesus Cristo, Seu Filho, enquanto Solly continua militando nas mesas kardecistas.

         Amados, vocês que estão lendo este relato, por favor orem pela conversão da Solly (que é dura na queda), pois estou orando por ela há 27 anos e, até agora, o Senhor não deu um sim e como Paulo diz que em Cristo sempre temos boa resposta: “Porque o Filho de Deus, Jesus Cristo... não foi sim e não; mas nele houve sim”. (2 Coríntios 1:20),  espero que esse milagre logo aconteça na vida da minha amiga. 02/02/05.