A gata surda

 

Alguns irmãos me consideram uma pessoa justa e santa (no sentido católico), porque escrevo artigos evangélicos e tenho comprovado ser uma pessoa honesta, sem qualquer ambição de fama, riqueza e poder, não aceitando dinheiro em meu ministério e sempre ajudando com meus conselhos bíblicos a quem mos pede.

Enganam-se esses bondosos irmãos, pois na verdade eu sou “carnal, vendida sob o pecado”, como Paulo se considerava (Romanos 7:14). Se não cometo grosseiros pecados carnais, se vivo em perfeita honestidade como cidadã, pagando pontualmente todos os impostos, sem dever um centavo sequer na praça, isso não quer dizer que eu seja melhor do que outras pessoas. O caso é que Deus tem sido melhor para mim do que para a maioria delas, pois sempre tive uma vida saudável e ajustada, em todos os sentidos.

        Ninguém é bom e Deus no-lo diz, através da Bíblia, deixando isso muito claro, em Romanos 3:10-13: Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só. A sua garganta é um sepulcro aberto; Com as suas línguas tratam enganosamente; Peçonha de áspides está debaixo de seus lábios”.

            Conforme escreve um dos meus filhos mais inteligentes:

Nós, seres humanos, temos uma tendência obsessiva e obviamente pecaminosa, a qual surge da vontade latente de desobedecer a um Deus Santo e Justo,  emaranhando-nos pelos becos e pântanos obscuros desta vida tenebrosa, como por exemplo, nas paixões amorosas, nos apetites sensuais desenfreados, no consumismo irracional, na vaidade carnal, na ganância e corrupção, desembocando, invariavelmente, na ruína moral, financeira, física, mental e, principalmente, espiritual”.

Pois agora, que já me apresentei devidamente, vou contar o caso da gata surda que existe aqui no prédio. Segundo me informaram, sua dona é uma jovem de 20 e poucos anos, que estuda Direito na UNIFESO. Enquanto ela está em casa, a gata se comporta dignamente, mas quando se ausenta, a bichana se sente solitária e começa a dar uns berros felinos, como se fosse uma onça faminta, tentando alcançar uma corça. A onça corre, mas a corça corre mais depressa ainda... Então a bichana solta os seus berros, de tanta raiva, por não poder alcançar a presa.

Essa gata surda, que não consegue escutar os próprios berros e nem de leve imagina o quanto eles são incômodos e até apavorantes, deveria ser levada para uma clínica de animais, onde pudesse ser tratada por um bom veterinário, recebendo a atenção que ela exige de sua dona, junto com alguns outros felinos que pudessem lhe dar o necessário calor animal que ela exige. Sei que essa jovem tem um coração melhor do que o meu, pois nunca dediquei atenção alguma aos animais. Tenho consciência de que Deus os criou para o serviço do homem e não o homem para o serviço dos animais. O exemplo mais claro de uma civilização em decadência é ver os animais domésticos serem tratados com tanto amor e carinho, enquanto os orfanatos estão repletos de crianças abandonadas por mães solteiras ou paupérrimas, sem que apareça alguém para adotá-las.

Em meu caso, preferi adotar um bebê de 3 dias, quando estava com 46 anos de idade. Hoje, esse bebê é uma jovem enfermeira, casada e mãe de duas meninas, que me chamam carinhosamente de vovó. Em vez de adotar qualquer cachorro ou gato, as pessoas deveriam adotar uma criança e dar-lhe todo o carinho que é desperdiçado com animais domésticos.

Uma das cenas mais chocantes que presenciei na Alemanha, em 1967, foi a de uma senhora jovem, elegante e perfumada, andando pela Avenida Kurfstendam em Berlim, segurando um cãozinho no colo, enquanto puxava uma linda garotinha de 3 anos pela coleira. No mesmo dia escrevi uma poesia sobre o assunto...

Até agora não me queixei da gata surda com o síndico do prédio, pois, acima do meu conforto auditivo, tenho me esforçado para ver o lado bom da moça, que tanto ama essa bichana. Mas não sei até quando minha paciência vai durar, porque os berros da gata me atrapalham a concentração no trabalho de tradução,  na redação de artigos, e quando esses berros acontecem à noite, deletam-me o sono. Nesse caso,  fico acordada no escuro, pensando na vida e, muitas vezes, canso de filosofar e venho para o computador, onde acesso a Internet, em busca de novidades. Certa noite,  até senti uma espécie de fobia por causa da gata e vim pesquisar sobre fobias. O resultado é que encontrei mais de 300 tipos de fobias, alguns deles relacionando-se aos gatos, e quase me convenci de que sofro desse tipo de fobia. Pode até ser que a dona dessa gata surda seja uma jovem  carente e por isso ama tanto o animalzinho, tentando dar ao mesmo um amor que ela não recebe.

A palavra fobia deriva de Phobos, a deusa do medo na mitologia grega. Se eu pudesse dizer que tenho alguma fobia, esta seria de gatos; portanto eu poderia sofrer de Ailerofobia, ou Ailurofobia, ou  Elurofobia, ou Felinofobia, ou Galeofobia, ou ainda de Gatofobia. Se isso acontecesse, eu já teria tomado uma providência no sentido de desalojar a inquilina do prédio com a sua gata surda. Contudo, prefiro optar pelo conselho do Apóstolo Paulo, em Gálatas 5:14: Porque toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”.

 

Mary Schultze, 01/03/2008

www.cpr.org.br/Mary.htm