Pode um adolescente, no auge dos seus quatorze anos,
com todos os hormônios à flor da pele, com todos os convites à exploração da
vida e de si mesmo, importar-se com as coisas de Deus, e ter um compromisso
sério com o Senhor?
Pode. Conheço um desses.
Dos oito aos onze anos serviu à Deus na fé que conhecia, como coroinha da
Igreja Católica. Ao fazer seu catecismo, apaixonou-se pela missa, e foi
convidado a ocupar o importante cargo de ajudante do padre, nas celebrações.
Ele e o seu colega de Piraju, que ficou poucos meses e desistiu. Ele fazia
capoeira e judô na Academia Melo e, após as aulas, colocava sua calça curta
azul marinho, sua camisa estampada e uma cruz tecida em veludo fixada com um
alfinete, e ia à missa. Todos os dias da semana. Todos os meses do ano, exceto
nas férias. E fazia isso com dedicação.
Mas um dia tudo acabou, pois um padre, muito nervoso, já falecido, ao mandar
que ele e outros coleguinhas distribuíssem o “Deus Conosco” especial da Semana
Santa (boletim da missa) contendo duas folhas, à porta da catedral,
ordenou-lhes que recolhessem o material ao final da celebração, para ser usado
no dia seguinte. Mas o povo entregou parte apenas, e muitas folhas estavam
riscadas, amassadas, sujas. Tentou remontar os boletins, mas quando o padre,
na sacristia (ante-sala da nave da igreja), viu aquilo, deu-lhe um bofetão, e
disse-lhe: “suma daqui!”.
Foi aos onze anos que, cabisbaixo, rosto vermelho com as marcas do tapa e
chorando, foi convidado pela Dna. Lourdes, uma senhora muito beata, que rezava
terços antes das missas, a ajudá-la nas rezas e nos cânticos. Ficou
entusiasmado, e aprendeu com ela a rezar os terços, tendo decorado os
“mistérios” que a cada conjunto de dez aves-marias e um pai-nosso, eram ditos.
Aprendeu os cânticos, trazidos em pastas cuidadosamente guardadas por anos
pela Dna. Lourdes, em folhas mimeografadas, que ele distribuía e ajudava a
cantar. Fez isso por um ano e meio.
Numa terça-feira, inesperadamente, Dna. Lourdes, ao vê-lo, expulsou-o de sua
presença. Ele, perplexo, perguntou o porquê. Ela disse-lhe: “disseram-me que
você dará muita dor de cabeça, e eu não quero problemas. Suma daqui!” E ele,
novamente, sumiu.
Ele tinha só doze anos! Decidiu conhecer a psicografia, que suas vizinhas
desenvolviam. Junto à Dna. Olga, uma senhora querida, que morava ao lado de
sua casa, decidiu fazer “concentrações”, após os “passes”. Nessas
concentrações, deixava a mão livre para "dar a liberdade aos espíritos", para
que se valessem de sua mão. E, de fato, a sua mão começou a escrever. Mas logo
nas primeiras vezes saiu correndo, dizendo: “Deus me livre!”.
Decidiu visitar um centro de quimbanda, a umbanda mais “pesada”. Era um porão,
embaixo da casa de uma senhora, com o teto bem alto. Umas cinqüenta imagens na
mesa, umas trinta velas em toda parte, dois incensários soltando fumaça, a
porta e as janelas fechadas, e o povo acotovelando-se no salão.
Começou-se a rezar. De repente, a senhora, que estava vestida com roupas de
capoeira, deu um salto, bateu os pés no teto, desceu, desenhou uma estrela de
cinco pontas com a pemba (giz branco, formato pedra) e disse: “é aqui que vô
trabaiá!”. Daí várias outras senhoras receberam “erês”, possessões com ares
infantis, e os trabalhos foram feitos. Ele queria sair, mas a porta estava
trancada. Ao final, aparece-lhe o marido da mulher, dizendo: “você é médium,
tem que vir fazer o santo e desenvolver”. Recebeu um "passe", saiu e nunca
mais voltou.
Aos treze anos, decidiu “aproveitar” a idade, e viver sua época de roqueiro e
de John Travolta. Decidiu ser um jovem alienado da religião. Ledo engano! O
vazio no peito lhe levava às coisas divinas, e folhetos evangelísticos
chegavam às suas mãos, falando sobre o fim do mundo. Aquilo lhe assustava,
pois ele queria “consertar” a sua infância, os seus sofrimentos e os seus
pecados na próxima encarnação, e se o mundo acabasse, ele estaria “frito”, sem
chance de acertos.
Foi então que, após um carnaval, ao voltar do trabalho, viu um distribuidor de
folhetos, que, ao chegar-se próximo da sua caixa de correio, deu-lhe um
folheto. Era um folheto conhecido, mas que ele havia perdido, “Previsão
Científica do Fim do Mundo”, do Pastor Timofei Diacov. Nessa época o
garoto era office-boy do BCN, e, junto com um espírita, decidiu que fariam
entrevistas com religiosos, para saber qual era a bíblia verdadeira. E
entrevistar o Pastor Timofei era uma oportunidade e tanto. Marcou um encontro
para o sábado.
E o garoto tinha apenas quatorze anos!
Naquele sábado chovia torrencialmente em São Paulo, mas ele foi à casa do
pastor mesmo assim. Chegou às quinze horas. Levou um gravador de cassetes.
Levou fita e microfone. E também uma porção de perguntas bíblicas. O pastor
respondeu cada uma, com carinho, paciência e muita consideração. Ele “perdeu”
cinco horas com o menino, na sala de estar. Gastou tempo com um adolescente de
quatorze anos. E que tempo importante para ele!
Saiu dali ávido por ler a bíblia, e o fez durante toda a madrugada. No dia
seguinte, para terminar a entrevista (conforme sugestão da esposa do pastor,
Tia Elzira, que já está com Jesus), foi à noite para a igreja. E, após ouvir
a pregação do pastor, a primeira pregação evangelística que ouviu em sua vida,
resolveu atender ao apelo e levantar a sua mão, decidindo confessar a Cristo
como seu único e suficiente Salvador.
E ele era apenas um adolescente. Um menino de quatorze anos, que vivia a fase
de mudanças, onde as decisões não parecem ser tão importantes e definitivas.
Para ele foram.
E foi no dia 23 de fevereiro de 1980.
Faz vinte e oito anos que um simples adolescente converteu-se.
E esse adolescente ... sou eu!!!