Afinidade

 

      Existem pessoas neste mundo com quem temos uma afinidade tão grande, a ponto de muitas vezes haver entre nós uma perfeita harmonia e transmissão de pensamento, por mais longe que estejamos umas das outras.

        Tenho grande afinidade com 7 pessoas: PP, Humberto, Eduardo, Antônio, Mario Sergio, Cleusinha e Cristina. Todos são meus filhos espirituais, ou seja, filhos do coração, com quem me sinto à vontade, sem qualquer desejo de me apresentar melhor do que eu sou. Correspondemo-nos quase diariamente e, cada dia, mais nos amamos, com um tipo de afinidade que o Espírito de Deus coloca em nossos corações.

        Contudo, mesmo que eu somasse a afinidade que tenho com estas sete maravilhas do meu amor, ainda não conseguiria chegar ao grau de afinidade que mantive com minha irmã Rosa, cinco anos mais nova do que eu, a pessoa que mais amei e mais me impressionou neste mundo...

No dia em que ROSA se batizou, meu pai deu uma festa inesquecível, com a casa cheia de convidados. Mandou armar uma enorme barraca de folhas de palmeira, com um altar católico improvisado num canto, o qual estava cheio de “santos”, com uma imagem de Jesus-Maria-José, que ainda hoje continua na família, se não mais como objeto de veneração, pelo menos como relíquia antiga.

        Vieram amigos e parentes de muitos lugares. Havia uma panela com 10 kg. de “baião de dois”, muita carne seca com abóbora, carne de porco fritada num tacho de cobre,  carne de sol vinda da feira de Juazeiro do Padre Cícero, alguns quilos de requeijão fabricados em casa,   doce de laranja da terra, doce de coco com abóbora, doce de leite, bolo de aipim, etc., sem falar da cachaça caririense, muito famosa em todo o Ceará.  Nunca vi e jamais iria ver, em toda a minha  vida, tantas iguarias nordestinas...       

O vigário chegou, fumando um bom charuto cubano, e conversou alegremente com uma porção de fiéis. Depois ele fez uma seção de confissões e logo celebrou missa, dando a comunhão para muitos católicos que ali se encontravam. Era muito cedo ainda e várias mulheres acabaram desmaiando, como Tia Milu, a “fobiófila” da família. Até a metade do culto católico, os fiéis haviam ficado em jejum absoluto, aguardando a celebração daquela missa especial. Naquele tempo, o jejum era obrigatório para quem fosse receber a  Eucaristia.

        O final da festa, naquela noite domingueira,  foi trágico, depois que o vigário voltou à cidade,  porque alguns homens abusaram da cachaça (não meu pai, que nunca foi amigo do fumo nem do álcool). No dia seguinte, a casa estava toda suja, cheirando a ácido butírico, com minha mãe e a empregada se matando para colocar tudo em ordem. Isso prova que aquela não fora uma festa cristã, mas católica...

        ROSA cresceu normalmente, mas quando chegou aos 13 anos, começou a ficar cheia de acne, achando-se feia e dizendo que era burra em relação ao resto dos irmãos, todos eles considerados inteligentes pelos professores. Resolveu se refugiar num convento e lá ficou por quase 20 anos, até que largou o hábito e cursou uma Faculdade de Enfermagem em S. Paulo, onde muito se destacou.  Para isso eu contribuí bastante, mostrando-lhe como era bela, inteligente, com um futuro dourado, à sua frente. Outra pessoa que muito a ajudou foi um amigo padre, hoje arcebispo católico, formado em Psicologia. Ele e ROSA sempre se deram muito bem.

ROSA recebeu o diploma, trabalhou como enfermeira de alto padrão em hospitais particulares no interior paulista, depois fez um concurso e foi trabalhar como chefe no Departamento Sanitário de Osasco. Ali se revelou pela honestidade, inteligência, cultura científica e também pela sua elegância, pois era linda de corpo, tinha um rosto agradável e era dona de uma personalidade forte, embora controlada pelo Espírito Santo.

        ROSA sempre levou uma vida honesta e pura diante de Deus e dos homens. Ela amava Jesus Cristo com um amor tão sublime que me deixava edificada e nunca tentei levá-la para a Igreja Evangélica. Ela também tratava as pessoas humildes com muito amor, cumprindo maravilhosamente o mandamento de Paulo em Gálatas 5:14.

         Quando se aposentou, ROSA voltou ao Ceará e se dedicou inteiramente à nossa mãe,  que estava completando 80 anos. Em vez de ir morar no belíssimo apartamento que adquiriu com o fruto de 35 anos de trabalho público, ROSA preferiu ficar num pequeno quarto, cuidando dia e noite de nossa mãe. Foi então que aconteceu a maior tragédia de nossa vida. ROSA havia feito em São Paulo uma lipoaspiração e começou a sentir algumas dores abdominais.  Foi fazer um exame de rotina, para ver se estava com algum problema no pâncreas, pois gostava de prevenir-se contra coisas piores. O médico injetou excesso de líquido no pâncreas de minha irmã e 3 dias depois, com muito sofrimento, ROSA estava morta.

         Perder ROSA foi a maior tragédia de minha vida, da vida de nossa mãe e de Dária, nossa irmã favorita; porque nós a amávamos de verdade, sem falar nos outros irmãos, que também a amavam. Ela era minha sócia na firma,  era madrinha de minhas duas filhas, minha confidente, minha melhor amiga; enfim, depois de Deus, ROSA era a pessoa mais importante de minha vida, uma estrela que se apagou e me deixou órfã de sua maravilhosa presença.

 

Mary Schultze, 09/04/2008.

 

Uma rosa é uma rosa, é sempre uma rosa!

 

Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça. (1 João 1:9)
...o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado. (1 João 1:7)