Barbie Versus Avó Desligada
Sou uma avó de quinta categoria; esqueço os aniversários dos netos (às vezes também das filhas), dos amigos, e só me lembro do meu porque nasci no Dia da Conceição e essa data ficou-me gravada na mente, pois à santa da concepção virginal fui “consagrada” na infância, tendo sido obrigada a usar somente azul e branco, até os 18 anos.
Sempre fui uma avó desligada, mas, como mãe, sempre fui justa; eduquei minhas filhas numa excelente base moral, dando-lhes os melhores exemplos de trabalho, honestidade e castidade. Meus netos maiores (Gustavo (25), Luciana (28) e Marion (14) moram na Alemanha e só lhes dou presentes quando a mãe deles vem ao Brasil, deixando os aniversários e os natais sem qualquer recordação. As netas menores (Luísa 11) e Maria (6) moram nesta cidade serrana do RJ e vêm passar as tardes de sábado comigo, trazidas pela mãe, que estuda e trabalha na UNIFESO e não tem muito tempo para me visitar.
Prefiro ser uma avó desligada em vez de ser uma avó objeto, pois vejo que a maioria dos netos trata os avós, hoje em dia, sem o menor respeito, e ouço muitas reclamações das pessoas da terceira idade (na igreja e no restaurante). Não tendo um trabalho gratificante como eu tenho, a maioria das vovós se preocupa muito com os netos, ao contrário desta avó insensível, que prefere traduzir 10 pp. ofício de assunto bíblico do que cuidar de um neto, por algumas horas. Certa vez, Rose me censurou por ser tão desligada (ela vai ser bem pior do que eu) e respondi, brincando: “Para mim, filho é desgraça e neto é acidente!” Ela ficou horrorizada, mas quando viu meu sorriso de galhofa, logo entendeu.
Tenho uma irmã quase 3 anos mais nova do que eu, que já é bisavó há anos. Ela e eu jamais nos entendemos, pois ela adora tirar vantagem das pessoas (mesmo sendo diaconisa numa igreja de pentecas). Quanto a mim, prefiro ser passada para trás a avançar nos direitos de alguém. Adoro dar presentes - mania herdada da avó paterna, que saía com 7 saias e voltava só com uma, pois distribuía seis com as camponesas pobres... Tive 3 irmãos que amei demais - Rosa, Dária e José - todos muito corretos, cultos e inteligentes. Eram tão sábios que já foram para o céu, deixando-me aqui na Terra, à espera de ser “arrebatada” para perto deles, onde juntos dobraremos nossos joelhos diante do grande Deus e Salvador Jesus Cristo.
Não sou uma pessoa boa. Sou rebelde, agressiva, tenho mania de ordem e limpeza, sou meio neurastênica. Se eu fosse salva pela minha bondade iria para o inferno via Sedex! Ainda bem que sou salva pela graça da fé em Cristo (Efésios 2:8-9) e o Pai celestial tem sido tão generoso, misericordioso e longânimo comigo, que realmente sinto remorso de ser tão feliz e ver tantas pessoas deprimidas e infelizes neste mundo, enquanto eu vivo esbanjando saúde, alegria e ainda sonhando, como se tivesse apenas 25 anos de idade. Nessa idade cheguei ao RJ, esperando encontrar meu príncipe encantado... E encontrei! Deus nunca me falhou em coisa alguma. Às vezes nem preciso orar e só penso: “Ó! Seria tão que isso acontecesse!” E tudo de bom me acontece. Sou milionária em matéria de bênção divina. Meu quinhão em Efésios 1:3 é enorme!
Só não digo que sou totalmente má e insensível porque sempre fui justa (e até generosa) com meus empregados, tanto que a filha mais velha costumava reclamar: “Mãe, por que a senhora é melhor para os empregados do que para mim e para o Papi?” Eu sempre respondia: “Porque os empregados podem ir embora e me deixar na mão, enquanto você e seu pai nunca vão sair de casa para ficar longe de mim, pois sou uma boa esposa, boa mãe e boa dona de casa. Sem falar que trabalho muito mais do que seu pai” (Vai ser prática assim... em Duque de Caxias!)
Sábado entreguei um presente à neta Luísa (11). Maria Eduarda (6) me flagrou no ato e falou aborrecida: “Vovó, isso é injustiça. Eu fiz aniversário agora e a senhora está dando o presente para a Luísa e não para mim?” Expliquei que o presente de Luísa já estava atrasado, pois ela fez aniversário em julho e eu me esqueci. Enquanto ela, Maria, tinha feito em setembro; portanto iria receber o seu presente, depois. Ela aproveitou e pediu uma boneca Barbie.
Comprei a Barbie hoje, nas Lojas Americanas... Não uma dessas bonecas de luxo (que custam entre 50 e 150 Reais), mas uma Barbie classe média baixa, de R$20 Reais. Ora, ela vai quebrar essa “filha” em dois tempos, conforme fui alertada pela mãe; portanto, esta avó insensível não quis jogar dinheiro fora, para agradar uma garotinha que ainda não tem a mínima noção de valores. Com esse valor posso comprar 12 CDs, para gravar meus trabalhos e enviar aos irmãos em Cristo! Meu ministério é mais importante do que essas datas especiais inventadas pelo comércio. E esse Dia da Criança anexado ao da “Cidinha” é dose!
Agora vocês (principalmente as avós do meu grupo) estão vendo que eu não sou boazinha. Sou uma avó mais para terrorista do que para objeto. Talvez por isso meus netos me adorem!!! Eles me telefonam, me beijam, me abraçam, me respeitam demais! Aprendi essa política com minha própria avó cearense, que nunca me deu um beijo na vida. Beijava e acariciava as netas de QI mais baixo que o meu, porém me deixava de lado, dizendo: “Dadita é muito danadinha!”. Por isso, resolvi mostrar-lhe que eu me tornaria mais importante do que minhas primas todas. E comprovei essa decisão. Um dia, ela chegou em nossa casa, no Crato (quando eu tinha 17 anos) e me ouviu declamando o “Julius Caesar” de William Shakespeare, no original. Ficou assombrada e perguntou à minha mãe: “Rosa, tu não achas que essa menina tá ficando ‘ledeira’ demais?”
Ela sempre foi uma tremenda germanófila. Pois não é que eu me com um alemão? Quando ela pegou a bisneta (Margarete) no colo, quase chorou de alegria e comentou: “Rosa, Dadita sempre foi danadinha, hem? Pois não é que fez essa menina com cabelo de milho?”
A partir desse dia, deixei de remoer as injustiças de minha avó e resolvi ser igual a ela, não dando muito cartaz para os netos. Quem sabe, eles irão crescer e mostrar o resultado desse meu desligamento?
Lu já está brilhando na Universidade de Leipzig e se diplomando em Química Industrial. É minha neta mais velha e a favorita; telefona toda semana e me chama carinhosamente de “vozinha”!
Mary Schultze, 10/10/2007.
Se
confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados,
e nos purificar de toda a injustiça. (1 João 1:9)
...o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado. (1 João
1:7)