Coreografia adornando Malaquias

 

        Hoje fui assistir ao culto matutino em nossa PIBT. O pastor precisava sair para um funeral em família e pregou rapidamente - o 6º. Sermão sobre neopentecostalismo, enfocando a Teologia da Ganância, isto é, da Prosperidade, e, como sempre, fez uma  excelente pregação.

        Como eu tinha a manhã disponível, pois o culto aconteceu de 8,30 às 10,45 hs, resolvi seguir diretamente para outra igreja batista no centro da cidade, cujo pastor é culto, inteligente e também Psicólogo. Visitei duas vezes essa igreja em dezembro passado e uma vez este ano. Então surgiu um boato que eu estava trocando a PIBT pela IBC, por ser amiga do pastor, tanto que o seu antecessor veio me perguntar se era verdade. Respondi que amo a PIBT, gosto das pregações do nosso pastor e da música clássica que ali escutamos, portanto nunca vou sair dali... a não ser para o céu...

        Quando li o boletim da IBC de hoje, fiquei meio decepcionada com a mensagem, pois estando acostumada às mensagens práticas e evangelísticas do Pr. Renato, notei que o assunto ali era dízimo ao quadrado! Isso é até compreensível, porque essa igreja sofreu duas divisões em poucos anos e deve ter-se reduzido a um terço da membresia, o que significa um enorme  déficit orçamentário. Se bem que, antes disso, nas poucas vezes em que lá estive, o assunto “dízimo” sempre foi ressaltado, com as sacolinhas vermelhas circulando entre os presentes.

        Também houve ali a profissão de fé de dois batizandos, quando duas coisas me deixaram perturbada. A primeira foi a quase exigência do pastor de que os futuros membros se comprometessem a entregar pontualmente o dízimo, explicando que este deve corresponder exatamente a 10% dos seus ganhos. Quando ele indagou a um dos batizandos se ele tinha algum vício, por exemplo, se ele bebia, o idoso senhor respondeu jocosamente que “sim”, acrescentando: somente café e água. Uma irmã sentada ao meu lado indagou inocentemente se o crente podia “beber refrigerante”. Olhei para ela, espantada, achando que estava brincando, mas o seu rosto expressava preocupação, em vez de brincadeira (Que falta faz a esses crentes a leitura da Bíblia!). Expliquei-lhe em voz baixa que o crente tanto pode beber refrigerante como até vinho... E quando ela me olhou escandalizada, expliquei: A Bíblia só proíbe que o crente se embriague, mas não proíbe tomar vinho. Ela fez uma careta e deve ter pensado: essa mulher é uma tremenda herege! Adoro ver o olhar escandalizado de quem me considera uma herege!

        O melhor do culto foi o pianista. Ele toca bem e,  antes de começar o serviço divino, nos brindou com uma peça clássica de rara beleza. Foram cantados poucos hinos do “Cantor”, três corinhos medíocres, um deles exaltando o “EU” e o poder da oração com gesticulação, como se esse poder fosse exatamente da oração e dos gestos, e não da Pessoa a quem a mesma é dirigida.

        Depois da leitura da Bíblia (do Velho Testamento, é claro!) de algumas orações e cânticos, chegamos ao final do culto, quando foi anunciada uma coreografia a três. Duas meninas gêmeas vestidas de saias longas (verde garrafa) e blusas brancas e um jovem vestido de branco (este parecendo que ia a uma seção de candomblé) começaram a cantar, a rodopiar e a balançar o corpo, enquanto a música dolente ia embalando as notas malaquianas entregues durante o culto. Comecei a sentir fome, pois havia tomado a última refeição às 7 hs da noite de ontem (dois caquis e uma maçã) e achei que o meu frango ao suco de laranja - acompanhado de legumes variados - ser-me-ia mais aproveitável do que aquela coreografia copiada das “igrejas fofinhas” (como as chama a sábia irmã Norma), que tanto têm-se afastado do verdadeiro evangelho do Senhor Jesus Cristo.

        Levantei-me e saí de mansinho, mesmo sabendo que alguns irmãos iriam ficar intrigados, visto como o pastor, durante o culto, havia se abalado do seu lugar para vir me dar um grande e caloroso abraço. Lamento muito! Mas entre um pastor que não gosta de mim, mas é “Brastemp” em todos os sentidos, e outro que me trata muito bem, mas está aderindo às velhas roupagens do velho Testamento, vou preferir - hoje, amanhã e sempre -  o da nossa PIBT.

 

Mary Schultze, março 2005

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Mary Schultze, março 2005