Dária e “O Holocausto do Vaticano”
Meus pais tinham nove filhos, seis mulheres e três homens. Dária era a quarta na ordem cronológica e quase oito anos mais nova do que eu. Quando foi batizada sob os cuidados de “Nossa Senhora da Penha” (padroeira do Crato, Ceará), servi de madrinha e tinha por ela um carinho todo especial. Ela até me chamava de “minha segunda mãe”.
Dária era uma jovem linda, meiga, fleumática e muito piedosa. Nunca namorou nem pensou em se casar, dizendo que iria cuidar de nossa mãe, quando todos os filhos fossem embora, pois havia nascido para isso. Trabalhou durante anos como secretária de um diretor da CHESF (Cia. Hidroelétrica do São Francisco) e se aposentou aos 55 anos de idade. Nessa época nossos pais já estavam separados.
Em 1997, nossa mãe teve um AVC, ficou paralítica e Dária, que já vinha cuidando dela há anos, assumiu toda a responsabilidade, tendo desempenhado essa obra meritória, até o dia de sua própria morte.
Em 1999, quando eu estava na Alemanha e visitava o Parlamento em Dresden, liguei para Dária, do gabinete do meu ex-genro alemão (então deputado pela Saxônia) e ela me disse que nossa mãe estava piorando e que eu voltasse depressa, pois ela se sentiria mais segura se eu estivesse no Brasil. Voltei e, poucos meses depois, Dária foi “arrebatada”.
No dia 28 de agosto de 1999, o telefone tocou e Odete, a irmã que vem logo depois de mim, avisou, com voz de choro, que Dária havia morrido de um enfarte fulminante (nossa mãe continua viva até hoje). Dária faleceu repentinamente, com um sorriso nos lábios, enquanto dormia. Suponho que os anjos de Deus vieram buscá-la e ela adormeceu sorrindo, de tanta felicidade! Na Bíblia de cabeceira havia duas passagens marcadas: Os Salmos 23 e 139, seus favoritos. Ela havia sido uma líder católica carismática e se convertera, ao Senhor Jesus Cristo (1997), lendo o livro "Por Amor aos Católicos Romanos", de Rick Jones, por mim traduzido para o Centro de Pesquisas Religiosas de Teresópolis.
Nossa mãe (que vai completar 96 anos em agosto), costumava brincar dizendo que iria enterrar as três filhas favoritas. Daí por que estou aguardando a minha vez, enquanto ela ainda vive, pois sou a última da lista dessa venerável “profetisa”, que também se tornou uma crente fiel no Senhor Jesus Cristo.
Dária era o oposto de mim. Muito calma e humilde, jamais disse uma palavra sequer para desagradar as pessoas e acho que ela morreu de tanto engolir suas mágoas, pois não costumava desabafar com pessoa alguma, a não ser com o travesseiro, o qual, muitas vezes, ensopou de lágrimas.
O último pedido que ela me fez, uma semana antes de falecer foi este: “Mary, continue ajudando financeiramente nossa mãe em sua invalidez e nunca a desampare. Mas, por favor, não venha a Fortaleza para visitar-nos, pois eu dou conta dessa obra, com a ajuda das outras irmãs. Você é a filha mais velha e deve continuar fazendo suas pesquisas e escrevendo, com boa saúde física e mental”. Minha irmã era corajosa demais e agora, lá no céu, deve estar muito feliz ao lado do seu AMADO, como costumava chamar o Senhor Jesus Cristo.
No dia em que Dária faleceu, eu sofri tanto que pensei que iria morrer, logo em seguida. Contudo, três versículos bíblicos me sustentaram naquela hora: 1. - João 13:7 “O que eu faço não o sabes tu agora, mas tu o saberás depois.” 2. -
Romanos 8:28 “E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito”. 3. - Filipenses 4:7 “E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus”.
Algumas horas depois de ter recebido a notícia, o interfone tocou e um rapaz de Niterói (pesquisador de Catolicismo Romano) perguntou se podia subir para me conhecer pessoalmente e entregar um livro. Apesar do meu estado deplorável, concordei. Ele chegou, expliquei o que havia acontecido, ele me entregou o presente e demorou pouco tempo. Quando saiu, dei uma olhada no livro, que era “The Vatican Holocaust”, de Avro Manhattan. Algumas horas depois, resolvi ler o mesmo, pois enquanto estou lendo, esqueço os problemas. Li todo o livro e no dia seguinte mandei copiar o dito em xerox (com letra 14) e decidi traduzi-lo. Durante dez dias fiquei ocupada na tradução manual, depois joguei tudo no computador e, um mês depois da morte de Dária, o livro estava pronto. Mesmo depois de morta, Dária continuou “falando” (como Abel), pois fiz esse trabalho para esquecer a dor de sua morte.
Em 1997, eu havia traduzido três livros para o CPR: - “O Próximo Passo”, (J. T. Chick), “Por Amor aos Católicos Romanos” (Rick Jones) e “Os Fatos Sobre a Vida Após a Morte” (John Anckerberg e John Weldon), além de vários folhetos evangélicos. Foi quando descobri que a melhor terapia para qualquer crise de depressão é ler e traduzir assuntos bíblicos e históricos. Avro Manhattan foi usado por Deus para me salvar da depressão que eu iria sofrer com morte de Dária. Depois disso, traduzi muitos outros livros (acho que uns 20 até agora), escrevi oito e estou viva, inteira e agüentando firme os embates da vida... Até que o Senhor me convoque para "trabalhar”, lá em cima, no céu!
Mary Schultze, julho 2004