Diálogo entre dois Cearenses

 

         O advogado José da Silva Ignaro encontrou o médico, Dr. Wisdom Alencar, na Praça do Ferreira, em Fortaleza, e começaram a conversar.

Ignaro - Olá, caro colega dos tempos do curso científico. Estou separado de minha mulher. Você sabia que ela me levantou a maior calúnia?

Wisdom - A calúnia é como o fogo, que destrói, em apenas cinco minutos, o que se levou 50 anos para construir.

Ignaro - É isso, meu amigo. Ela é meio burra e sempre teve inveja de mim.

Wisdom - A inveja é o fruto da árvore chamada incompetência.

Ignaro - O pior é que ela nem sempre andou na linha comigo.

Wisdom - A mulher que andou na linha foi morta pelo trem.

Ignaro - Tem razão. Depois da separação é que eu vim cair na realidade.

Wisdom - A realidade é o cemitério das ilusões.

Ignaro - Claro que minha sogra ficou do lado da filha.

Wisdom - Feliz foi Adão, que nunca teve sogra.

Ignaro - Pior é que eu gosto dela e sem o seu amor, prefiro morrer.

Wisdom - Morrer não dói. O que dói é viver sofrendo.

Ignaro - Viver sofrendo sem uma rosa florindo em meu jardim?

Wisdom - Na estrada da vida encontramos espinhos de metro e metro,  enquanto as rosas, só de dez em dez quilômetros.

Ignaro - Eu quis acompanhá-la, na semana passada, quando ela ia para a repartição e sabe o que ela me disse?

Wisdom - Claro que sei: "Não me acompanhe porque eu não sou novela".

Ignaro - O caso é que morro de medo da solidão.

Wisdom - Ninguém neste mundo é tão corajoso que nunca tenha sentido medo. E nem tão eremita que nunca tenha odiado a solidão.

Ignaro - Você não acha que minha vida está se transformando num inferno?

Wisdom - O inferno é uma colônia de diabos. A mulher é uma república de infernos.

Ignaro - Acho que vou acabar pedindo que ela volte pra mim. Que acha?

Wisdom - Para quem está perdido, qualquer atalho serve.

Ignaro - Ontem eu a vi com um colega de trabalho. Quase fui até lá e quebrei a cara do sujeito, mas tive receio das conseqüências.

Wisdom - É melhor ser covarde por cinco minutos do que ser defunto em apenas um minuto de coragem.

Ignaro - Acho que vou me tornar protestante e procurar uma igreja séria, dessas que não pedem dinheiro aos membros...

Wisdom - Boa idéia. Quem em Deus confia nunca se angustia.

Ignaro - Mas enquanto ainda sou católico, o que devo dizer para ela?

Wisdom - Diga o seguinte: Fulana, rezei 1/3, a fim de encontrar 1/2 de entrar no teu 1/4...

Ignaro - Ando tão cansado da vida...

Wisdom - Todos nós cansamos, pois na escola da vida nunca tiramos férias.

Ignaro - Ai que mundo cão. Ou você acha que ele é bom?

Wisdom - Se o mundo fosse bom, por que os bebês nasceriam chorando?

Ignaro - Toda semana, quando estou comendo uma boa feijoada, sinto-me culpado... Por que será ?

Wisdom - Tudo que é bom engorda, é pecado ou custa mais do que se pode pagar.

Ignaro - Você pratica alguma religião?

Wisdom - Claro. Sou crente bíblico. Quem vive com Deus nunca viaja sem rumo.

Ignaro - Você não quer me convidar para um copo de vinho em sua casa? Ou será que você pertence a uma dessas denominações em que tudo é pecado?

Wisdom - Amigo, minha religião está embasada em João 3:16, Romanos 8:28 e Gálatas 5:1. Leia a Bíblia e veja o que estes versos dizem. Vamos lá pra casa. Afinal de contas,  vinho,  amigo e ouro, quanto mais velho, melhor...

Ignaro - Acho que minha sogra vai morar conosco, se eu fizer as pazes com a minha ex-mulher.

Wisdom - Viver com a sogra dentro de casa é o mesmo que fazer vestibular para o céu...

Ignaro - É isso que você pensa a respeito das sogras?

Wisdom - Sogra é como vento encanado. Faz mal a todo mundo. E, como os tubérculos,  só traz esperança quando está debaixo do chão.

Ignaro - Finalmente, Wisdom, você acha que devo me acertar novamente com a minha ex-mulher?

Wisdom - Tropece em seu bom senso e caia direto nos braços dela, amigo... Mas depois, não venha chorar em meu ombro, pois não tenho ombreiras em minhas camisas, só mesmo nos paletós, e gosto de usar moda esporte...

 

Mary Schultze - 30/03/02.

Citações do livro "No Mundo das Excentricidades",

Do Dr. Itamar Espíndola, Fortaleza, 1977.