Eles Não O Conheceram

Dave Hunt

 

        Qualquer pessoa com inteligência normal, em qualquer lugar e em qualquer tempo, pode saber que Deus existe como Criador do universo (Salmos 19:1-6; Romanos 1:18-20). Essa pessoa possui também uma consciência, na qual Deus escreveu a Sua Lei Moral (Romanos 2:14-16), sabendo, ele ou ela, que tem quebrado a Sua Lei muitas vezes, pelo que sofrerá um castigo divino. Quando o Evangelho é pregado, o pecador fica sabendo, pelo convincente poder do espírito Santo, que este é a verdade, sendo o único meio de escapar da ira vindoura.

         Mesmo assim, existem muitas pessoas que resistem ao testemunho da criação e da consciência. Deveríamos estar preparados para arrazoar com elas. Deus convida todos: “Vinde então, e argüi-me, diz o SENHOR: ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã” (Isaías 1:18). Ele diz ainda: “Antes, santificai ao SENHOR Deus em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós” (1 Pedro 3:15).

         Damos aos cépticos razões válidas para aceitarmos pela fé, mas não por uma fé cega, o que a Bíblia - como a Palavra de Deus -  nos diz. Como Pedro ensina, existem razões para a nossa fé. São muitas as provas em favor da Bíblia, sem as quais não poderíamos demonstrar aos incrédulos que ela é infalível. Não que possamos entender tudo que a Bíblia diz: Que Deus é o EU SOU (Êxodo 3:14), por exemplo, sem princípio e sem fim (Salmos 90:2;103:17;106:48), que Ele criou o universo do nada (Hebreus 11:3) é mais do que nossas mentes finitas podem compreender - mas sabemos que é assim mesmo.

         Tudo que podemos verificar na Bíblia (histórica, científica e profeticamente) tem sido comprovado como verdadeiro. É, portanto, razoável crer em tudo o mais que a Bíblia diz e não podemos verificar. Declarações que estão além da nossa compreensão, não sendo, portanto, verificáveis, incluem que “Deus é Espírito” (João 4:24); que o homem foi feito à sua semelhança moral e espiritual (Gênesis 1:26,27), que ele é corpo, alma e espírito (1 Tessalonicenses 5:23), que Cristo vai nos arrebatar da terra para o céu, conforme prometeu (João 14:3; 1 Tessalonicenses 4:13-17) e que haverá um julgamento final e um lago de fogo - onde ficarão eternamente os condenados.

         Como já mostramos antes, a profecia é uma grande prova de que Deus existe, de que a Bíblia é a Sua Palavra e de que Cristo é o Seu Filho e único Salvador dos homens. As profecias foram entregues para identificar indisputavelmente o Messias.  Contudo, a prova não garante a fé. È necessário que haja um coração desejoso. Apesar das centenas de profecias provando que Jesus é o Messias, os judeus O rejeitaram e continuam na maior descrença, ainda hoje.

         Foram-nos dadas com freqüência muitas provas de que a Bíblia é verdadeira. Contudo, não enfatizamos que, com raras exceções, a Escritura revela honestamente os deslizes e pecados dos melhores santos - até mesmo quando esses fatos poderiam ser evitados. Essa honestidade é que dá respaldo à verdade da Escritura.

         Uma das narrativas mais estranhas refere-se à descrença dos discípulos diante da ressurreição de Cristo. De fato, o seu ceticismo e aparente má vontade em crer, até mesmo quando Cristo com eles se encontrou face a face, parece tão estranho que nenhum escritor de ficção ter-se-ia atrevido a relatar.

         Cristo acusou os seus discípulos de “dureza de coração” (Marcos 16:14). Eles não creram até mesmo quando Cristo lhes apareceu (Lucas 24:36-38). Contudo, um dos ladrões crucificados com Ele creu na Sua ressurreição, tanto que Lhe pediu: “Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino” (Lucas 23:42).

         As dúvidas dos discípulos eram inescusáveis, tendo em vista as muitas profecias messiânicas. Que eles pudessem ser tão cegos à Escritura, mesmo após terem sido discipulados pessoalmente por Cristo, durante alguns anos, deveria levar-nos a reexaminar a nós mesmos, a fim de não sermos culpados do mesmo erro.

         Existe uma rejeição à verdade, hoje em dia, até mesmo entre os que professam ser cristãos. Muitos dos que afirmam ter “nascido de novo” (inclusive professores de seminários e pastores) nem sequer são salvos. Uma pesquisa Barna feita em 2003 revelou que 35% dos que afirmam ter “nascido de novo” não acreditavam que Cristo ressuscitou dos mortos; 26% disseram que todas as religiões são iguais [Negando, portanto o que Jesus disse em João 14:6]; 5% disseram que as boas  obras podem nos levar ao céu.

         Todos os discípulos, bem como os rabinos - e até mesmo João Batista, que era “cheio do Espírito Santo já desde o ventre de sua mãe” (Lucas 1:15) duvidaram (Lucas 7:20), esperando que Ele fosse o Messias que iria estabelecer o Seu reino na primeira vinda a Israel. A crucificação de Cristo esmagou a sua fé. Como poderia ser Ele o Messias prometido?

         Contudo, inúmeras profecias haviam deixado claro que a primeira vinda do Messias seria como o Cordeiro de Deus para ser crucificado: “...traspassaram-me as mãos e os pés” (Salmos 22:16); “...olharão para mim, a quem traspassaram” (Zacarias 12:10); ”Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores, e experimentado nos trabalhos; e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum... Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados... Da opressão e do juízo foi tirado; e quem contará o tempo da sua vida? Porquanto foi cortado da terra dos viventes; pela transgressão do meu povo ele foi atingido... E puseram a sua sepultura com os ímpios, e com o rico na sua morte; ainda que nunca cometeu injustiça, nem houve engano na sua boca” (Isaías 53:3,5,8,9); e que Ele ressuscitaria no terceiro dia (Salmos 16:10; João 2:19; Mateus 12:39-40).

         Além disso, eles ainda ignoraram as muitas vezes em que o próprio Cristo lhe disse claramente que seria crucificado e ressuscitaria dos mortos ao terceiro dia.

         Após a Sua ressurreição, os anos no túmulo relembraram isso às mulheres: “Não está aqui, mas ressuscitou. Lembrai-vos como vos falou, estando ainda na Galiléia, dizendo: Convém que o Filho do homem seja entregue nas mãos de homens pecadores, e seja crucificado, e ao terceiro dia ressuscite. E lembraram-se das suas palavras” (Lucas 24:6-8).

         Não temos o registro de quantas vezes o Senhor declarou isso aos discípulos, mas devem ter sido muito mais vezes do que as que foram registradas. Pelo menos em sete ocasiões diferentes Ele deixou claras a Sua morte e ressurreição aos discípulos, conforme foram registradas nos evangelhos (Mateus 16:21;17:22-23;20:17-19; Marcos 8:31,32; Lucas 13:32,33; João 12:32-34). Vamos dar alguns exemplos de como os discípulos não O entendiam: “Porque ensinava os seus discípulos, e lhes dizia: O Filho do homem será entregue nas mãos dos homens, e matá-lo-ão; e, morto ele, ressuscitará ao terceiro dia. Mas eles não entendiam esta palavra, e receavam interrogá-lo” (Marcos 9:31-32). “E começou a ensinar-lhes que importava que o Filho do homem padecesse muito, e que fosse rejeitado pelos anciãos e príncipes dos sacerdotes, e pelos escribas, e que fosse morto, mas que depois de três dias ressuscitaria. E dizia abertamente estas palavras” (Marcos 8:31-32). “...É necessário que o Filho do homem padeça muitas coisas, e seja rejeitado dos anciãos e dos escribas, e seja morto, e ressuscite ao terceiro dia” (Lucas 9:22).

         Algumas vezes Ele falava veladamente: “Naquele mesmo dia chegaram uns fariseus, dizendo-lhe: Sai, e retira-te daqui, porque Herodes quer matar-te. E respondeu-lhes: Ide, e dizei àquela raposa: Eis que eu expulso demônios, e efetuo curas, hoje e amanhã, e no terceiro dia sou consumado” (Lucas 13:31-32).

         Quando, certa vez, os fariseus lhe indagaram: “Que sinal nos mostras para fazeres isto? Jesus respondeu, e disse-lhes: Derribai este templo, e em três dias o levantarei. Disseram, pois, os judeus: Em quarenta e seis anos foi edificado este templo, e tu o levantarás em três dias? Mas ele falava do templo do seu corpo. Quando, pois, ressuscitou dentre os mortos, os seus discípulos lembraram-se de que lhes dissera isto; e creram na Escritura, e na palavra que Jesus tinha dito” (João 2:18-22).

         Os rabinos sabiam o que Cristo queria dizer. Mesmo assim, eles conseguiram falsas testemunhas pa torcer as Suas palavras, durante o julgamento perante Caifás, no Sinédrio: “E não o achavam; apesar de se apresentarem muitas testemunhas falsas, não o achavam. Mas, por fim chegaram duas testemunhas falsas, e disseram: Este disse: Eu posso derrubar o templo de Deus, e reedificá-lo em três dias” (Mateus 26:60-61). Eles bem sabiam que Cristo se referia à Sua ressurreição: “E no dia seguinte, que é o dia depois da Preparação, reuniram-se os príncipes dos sacerdotes e os fariseus em casa de Pilatos, dizendo: Senhor, lembramo-nos de que aquele enganador, vivendo ainda, disse: Depois de três dias ressuscitarei. Manda, pois, que o sepulcro seja guardado com segurança até ao terceiro dia, não se dê o caso que os seus discípulos vão de noite, e o furtem, e digam ao povo: Ressuscitou dentre os mortos; e assim o último erro será pior do que o primeiro” (Mateus 27:62-64).

         A incredulidade dos discípulos é em si mesma inescusável.  Cristo explicou detalhadamente aos dois viajantes no caminho de Emaús  e, mesmo assim, eles não O reconheceram. Sim, dizem que Cristo lhes apareceu em outro corpo, mas isso não quer dizer que Ele se havia disfarçado. Era a descrença dos discípulos que os mantinha cegos. Lucas explica: “Mas os olhos deles estavam como que fechados, para que o não conhecessem” (Lucas 24:16). Que eles não O tenham reconhecido não quer dizer que Ele estivesse irreconhecível, mas que era a última pessoa que eles esperavam ver. Se conhecessem bem as Escrituras, eles teriam a certeza de Sua ressurreição. Por causa dessa ignorância Cristo os censurou: “Ó néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! Porventura não convinha que o Cristo padecesse estas coisas e entrasse na sua glória? E, começando por Moisés, e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras” (Lucas 24:25-27). Será que Ele também não iria nos repreender pela nossa ignorância do que “os profetas disseram”?

         Que estudo bíblico eles experimentaram, enquanto caminhavam com aquele adorável estranho! Pois, mesmo tendo aprendido com o próprio Senhor as profecias referentes ao Messias, eles ainda não O reconheceram. Precisamos pedir que o Senhor nos perscrute os corações para ficarmos certos de que também não estamos cegos,  em certas áreas, por causa de nossa descrença.

         Durante a ceia, “Abriram-se-lhes então os olhos, e o conheceram, e ele desapareceu-lhes. E disseram um para o outro: Porventura não ardia em nós o nosso coração quando, pelo caminho, nos falava, e quando nos abria as Escrituras?” (Lucas 24:31-32). A fé, mesmo com um indesculpável atraso, finalmente chegou, através da Escrituras que Cristo lhes havia revelado.

         Desconhecer o Senhor Jesus Cristo acarreta sérias conseqüências. Significa uma falsa visão do Salvador e, portanto, uma falsa esperança de salvação. Devemos crer no legítimo Cristo de Deus, se quisermos ganhar a vida eterna, indo morar nas mansões celestiais na Casa do Pai (João 14:3). Como Ele disse em Sua oração intercessória ao Pai: “E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (João 17:3).

         Aos rabinos Ele disse: “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam; e não quereis vir a mim para terdes vida” (João 5:39-40). A todos nós Ele estende esta oferta: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” (Mateus 11:28).

         Mesmo tendo ficado agradecida a Cristo por ter dela expulsado sete demônios Maria Madalena continuava ignorando a profecia e estava cega às muitas afirmações de Cristo que Ele iria ressuscitar dos mortos. Mesmo tendo Ele aparecido e com ela falado, depois de deixar o túmulo, ela não O reconheceu, cega como estava,  pelo desnecessário sofrimento causado pela sua descrença: “E, tendo dito isto, voltou-se para trás, e viu Jesus em pé, mas não sabia que era Jesus. Disse-lhe Jesus: Mulher, por que choras? Quem buscas? Ela, cuidando que era o hortelão, disse-lhe: Senhor, se tu o levaste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei. Disse-lhe Jesus: Maria! Ela, voltando-se, disse-lhe: Raboni (que quer dizer, Mestre).  Disse-lhe Jesus: Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai, mas vai para meus irmãos, e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (João 20:14-17).

         “E Jesus, tendo ressuscitado na manhã do primeiro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria Madalena, da qual tinha expulsado sete demônios. E, partindo ela, anunciou-o àqueles que tinham estado com ele, os quais estavam tristes, e chorando. E, ouvindo eles que vivia, e que tinha sido visto por ela, não o creram” (Marcos 16:9-11).

         Os dois discípulos com quem Ele havia caminhado em Emaús voltaram correndo a Jerusalém “E, indo estes, anunciaram-no aos outros, mas nem ainda estes creram” (Marcos 16:13).

         A chave de nossas vidas como cristãos hoje em dia é “vermos’ claramente pela fé o Cristo ressurreto. Aqueles que O viram fisicamente, durante o tempo de Sua estada na terra,  não tiveram qualquer vantagem sobre nós. Lembremo-nos de Suas palavras em João 29:29: “bem-aventurados os que não viram e creram”.

         É bem verdade que “agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido” (1 Coríntios 13:12). “Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos” (1 João 3:2). Mesmo assim, o nosso desejo agora deveria ser o de vê-Lo cada vez mais claramente com os olhos da fé. Quanto mais O contemplarmos mais semelhantes a Ele nos tornaremos.

         Davi, que possuía apenas uma porção das Escrituras que hoje temos, viu a Sua glória (Salmos 16:8). Também podemos vê-Lo conforme Atos 2:25; Salmos 27:5, e, certamente, “Todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor” (2  Coríntios 3:18).

         Como Davi, a paixão de Paulo era esta: “Conhecê-lo, e à virtude da sua ressurreição, e à comunicação de suas aflições, sendo feito conforme à sua morte; para ver se de alguma maneira posso chegar à ressurreição dentre os mortos. Não que já a tenha alcançado, ou que seja perfeito; mas prossigo para alcançar aquilo para o que fui também preso por Cristo Jesus. Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Filipenses 3:10-14).

         Que melhor paixão deveríamos abraçar neste ano de 2005 ou em qualquer tempo de vida que o Senhor ainda nos conceder?

 

The Berean Call Letter”, janeiro 2005 - Dave Hunt.

Tradução de Mary Schultze

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The Berean Call Letter”, janeiro 2005 - Dave Hunt.

Tradução de Mary Schultze