Entre o barulho e a heresia

 

        Hoje não pude assistir ao culto na IP do Alto, por dois motivos: 1.- Pretendia ouvir a pregação de um missionário que serviu em Timor Leste, o qual estaria pregando numa igreja batista, no centro da cidade, a poucas quadras do meu apartamento.  2.- porque a temperatura anda muito baixa, aqui na serra,  e não quis me arriscar a pegar uma pneumonia. A filha Rose é tão desinteressada nas coisas de Deus que inventa qualquer desculpa para não ir à igreja, nem mesmo para me dar carona. Uma coisa é certa: no dia em que eu precisar de minhas duas filhas, acho que vou morrer à míngua, pois elas nunca se lembram de me dar qualquer atenção. Habituaram-se ao fato de que sou forte, saudável, com o essencial para viver confortavelmente e, portanto, não preciso delas... E haja omissão filial! Quando eu for arrebatada e as duas ficaram nas garras do Anticristo, provavelmente vão lamentar a falta da “mãinha”. Que Deus tenha piedade dessas duas incrédulas!

        Cheguei, antes da hora, à IB Central, onde o missionário deveria pregar. Quando o culto começou, o barulho irrompeu, retumbante; meus ouvidos começaram a reclamar do excesso de decibéis e meu corpo começou a tremer de frio. No meio de tanto barulho, e depois de escutar um péssimo coral, cantando em língua africana, minha defesa contra o frio (do corpo e da alma) foi baixando, à medida em que crescia o desejo de dar o fora dali. Pensei: “Orar em meu quarto, como o Senhor Jesus mandou, vai ser bem mais proveitoso”.

Com tantas palmas chacoalhando-me os ouvidos, ao ver o pastor (e o missionário) dançando, batendo palmas e repetindo a mesma frase (como um mantra hinduísta), junto com a congregação, minha paciência chegou ao limite. Levantei-me e saí, discretamente. Quando um irmão estranhou que eu estivesse saindo no início do culto, expliquei, sem precisar mentir: “estou sentindo muito frio.”

Mal havia andado uma quadra, quando passei em frente a uma “igreja” carismática, por sinal umas das piores desta cidade. Tive uma crise de masoquismo espiritual e subi as escadas, esperando ouvir algumas boas heresias, para completar o fiasco da noite. O pastor gritava, escandalosamente, alguns versos de Deuteronômio, concitando os crentes e receberem “o cálice da água do Jordão e um minúsculo pedaço de pão, representando a fartura por Deus prometida ao povo judeu, caso andassem nos Seus preceitos”. Logo vieram me servir o “banquete judaico”, mas recusei e, como sou uma peste, indaguei à “obreira” (uma das muitas jovens exploradas pelos milionários da  prosperidade) qual era o verdadeiro significado daquela oferta de pão e água, em vez de pão e vinho, como nas igrejas normais. A jovem disse que não sabia qual era o significado (Quanta ignorância vã-gélica, hem?). Segurei-a, discretamente, pelo braço e falei: “Amiga, eu não sou judia, não sigo o Velho Testamento e, portanto, não preciso seguir as leis nem as práticas de Deuteronômio. Leia Gálatas e veja como o apóstolo Paulo amaldiçoa os que seguem as leis judaicas, etc.”

O pastor estava de olho em mim, enquanto enrolava a língua, querendo mostrar que estava possuído do Espírito (que devia ser outro, mas não o Santo). Parou a demonstração de “espiritualidade” que havia adotado, depois da lengalenga judaica. Em seguida, veio à frente, de dedo em riste, me encarando, ameaçadoramente, e trovejou: “Deus vai repreender o espírito de rebelião que o diabo está colocando no coração de certa pessoa... Ele vai quebrar essa pessoa e mostrar a sua força contra esse tipo de gente que não respeita a sua igreja, etc.” . Os iludidos pentecas da congregação começaram a me olhar e pensei: “Vão me linchar, agora mesmo”. Abri a Bíblia e pedi, mentalmente, que o Senhor me desse uma palavra de conforto. Caí exatamente em Atos 8:18-23, no trecho que fala de Simão, o mágico.  Pensei: “Ora, se eu fosse o apóstolo Pedro, iria amaldiçoar esse cretino, agora mesmo. Mas não! Cristo mandou amar os inimigos; portanto, vou ficar quietinha e Deus vai me guardar das mãos desses fanáticos”. E guardou mesmo, pois o culto terminou e conseguir sair ilesa, embora com as pernas trôpegas e ainda assustada com aquela aventura, que poderia ter-se transformado numa desventura peStecostal.

Na hora da sacola verde (simbolizando os campos férteis da terra de Judá, conforme explicação do lobo eclesiástico), tive vontade de explicar que não ia colocar um centavo sequer, ali dentro, pois não estava disposta a enriquecer o já milionário homem dos RR; porém me contive e apenas fiz um sinal negativo, com a cabeça.

Se eu já estava dando “vassouradas” nessa ninhada de jacarés espirituais, agora consegui mais ânimo para mostrar as suas heresias bíblicas!

 

Mary Schultze, 13/07/2008 - 22:00h

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