Excentricidade, caninofilia e bibliofilia

 

        Na semana passada, em minhas andanças pela cidade, encontrei nada menos de seis mulheres muito interessantes: duas excêntricas, duas “caninófilas” e duas “bibliófilas”.

         Com as duas surrealistas dei de cara, pela segunda vez, no consultório do dentista. Eram mãe e filha, trajadas do mesmo modo excêntrico: calças jeans coladíssimas, manchadas e cheias de buracos; longos cabelos louros, de um platinado quase branco,  e blusas de seda (caríssimas) enfeitadas de miçanga coloridas, ambas parecendo duas vitrinas ambulantes,  sem falar nos sapatos de saltos altíssimos, com bicos tão finos que mais pareciam agulhas.

         Como sentaram ao meu lado, fiquei escutando a conversa entre as duas e difícil era distinguir a mãe da filha, a não ser que se observasse a espessa maquilagem usada pela mais velha. O assunto era: cartão de crédito, limite no cheque, butique, sapataria, sessão espírita, cristais varowsky e por aí a fora. Tentei falar de moda e beleza com as duas, para depois entrar no evangelho de Jesus Cristo... Fui barrada na segunda metade do assunto, quando elas me olharam assombradas, como se eu fosse uma ET. Graças a Deus foram chamadas pelo dentista e fiquei conversando com um jovem, o qual, tendo escutado o papo das duas e um pouco do que falei, começou a me fazer perguntas interessantes sobre os árabes e os judeus, visto como é casado com uma judia.

         Como eu era a última da fila, ele foi chamado antes de mim e, quando ia saindo, me surpreendeu com um “até logo, senhora, adorei sua conversa”. Quando entrei na sala, o dentista, que é meu amigo e síndico do prédio onde moro, falou: “Mary, esse cliente que saiu agora disse que adorou sua conversa. Ele achou você uma pessoa inteligente e muito culta.” Só não pedi o endereço  do moço para me comunicar e falar do Messias de Israel, porque tive medo de receber um “não” do dentista. Mas vou tentar, na próxima consulta... Ora, se vou... Romanos oito, vinte e oito!

         As duas “caninófilas” (que encontrei em dias separados no self-service do Oswaldo) me deixaram perplexa: uma (com o sonoro nome de Genebalda) falava do cachorro, como se este fosse o seu “deus”. Contou-me que viera à cidade, a fim de comprar um medicamento para o seu cão, que estava doente. Esse cão, dizia ela, havia salvado a vida de sua filha e era a sua “razão de viver”. Disse que se desmanchava em mimos com o seu "petty", como se fosse o neto mais amado. Como não fiz comentário algum, ela me perguntou: “Você não gosta de cachorros?” Respondi que Deus nos ensina em Sua Palavra que os animais foram feitos para o serviço do homem e não o homem para o serviço dos animais. Por isso eu prefiro ficar longe dos cachorros, pois não preciso deles e nem tenho jeito para cuidar de bicho nenhum. Acrescentei que fui liberada dessa tarefa, quando formei uma filha em Veterinária e ela vive cuidando de animais. Passei todo o tempo do almoço escutando louvores ao cachorro da Genebalda.

         A outra “caninófila” é uma professora de Inglês, que está muito preocupada com a maneira do seu cãozinho reagir ao fato dela se ausentar diariamente para dar aulas. Disse que vai procurar um psicanalista de cães, a fim de evitar que o bichinho entre em grave depressão e ela se sinta mais culpada ainda... Fiquei pensando que a única vez em que me senti solitária na vida (há quase 30 anos, quando a filha mais velha - que era única - saiu de casa para estudar numa universidade), adotei um bebê. A essa menina dei tudo que se pode dar a uma filha, embora ela tenha me retribuído com algumas lágrimas de sofrimento, por não ter aprendido todas as boas lições de vida cristã que lhe ensinei... Mesmo assim, em vez de adotar um cachorro é bem mais aconselhável adotar uma criança...

         As duas  irmãs “bibliófilas” são deveras interessantes e encontrei-as em dias diferentes. Gostei de encontrá-las por serem ambas fundamentalistas bíblicas, como eu, sendo uma congregacional e a outra, presbiteriana. Falamos muito sobre a Bíblia. Lamentamos a decadência dos cultos evangélicos, os corinhos de quinta categoria e os “sermões” repletos de mensagens antropocêntricas. Falamos do nosso amor pela literalidade da Palavra e do nosso empenho de nos embasarmos no Novo Testamento, pois, como disse Jesus: “A lei e os profetas duraram até João” e somente conhecendo o Deus do NT podemos crescer na graça e no conhecimento  (2 Pe 3:18), santificando a Cristo, como Senhor, em nosso coração (1 Pe 3:15).

         Foi tão bom conversar com essas duas “bibliófilas” que o tempo passou e não percebemos. A irmã congregacional dirige uma excelente pousada para idosos e a presbiteriana gerencia uma loja de modas. Quando falamos da Palavra Santa, nós, os crentes bíblicos,  esquecemos a hora e o lugar onde estamos, concentrando-nos somente no Filho de Deus, que se imolou por amor dos pecadores. 

         Toda honra e toda glória ao Senhor do Céu!!!

 

Mary Schultze, agosto 2005

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Mary Schultze, agosto 2005