A Grande diferença

 

(Parábola)

 

         Escrevi esta crônica, adaptando a história enviada por uma amiga da Alemanha... Há alguns anos....

Erich Ribbentrop, gerente de uma grande loja de departamentos em Chemnitz, a cidade de Karl Max,  trouxe da Alemanha o filho de dez anos para conhecer o interior do Brasil, com o firme propósito de mostrar ao garoto como vivem as pessoas pobres do Terceiro Mundo, nos países onde somente os políticos, os grandes  empresários, os latifundiários e a hierarquia romana têm conforto, apossando-se da riqueza do país e deixando o povo na maior miséria.

 Depois de dois dias e duas noites passados no sítio de uma família pobre, no interior do Ceará, o pai quis saber a reação do filho, diante do que havia presenciado. Hospedaram-se num hotel cinco estrelas, em Fortaleza, onde o pai começou o diálogo:

- Filho, o que você achou da viagem?

- Muito boa Papi, respondeu o garoto.

- Você viu filho, como vivem por aqui as pessoas pobres? Não sei como é que existe gente assim no mundo,  não é filho?

- É verdade,  Papi, retrucou o filho, pensativamente.

- E o que você aprendeu, com tudo o que viu nesses dias, naquele lugar tão pobre?

O menino respondeu:

- Bem,  Papi, eu vi que nós temos apenas um "bulldog" de cara feia e eles têm quatro cachorrinhos lindos, que chamam de "vira-latas". Os nomes deles são BEABÁ, BEEBÉ, BIBI E BEOBÓ.

*Temos uma piscina, que alcança metade do jardim, e eles têm um riacho que não tem fim. Temos uma varanda coberta e iluminada com luzes fluorescentes e eles têm milhares de estrelas e a lua brilhando no céu.  Nosso quintal vai até o portão de entrada e eles têm uma floresta inteira. Temos alguns canários que, ainda por cima, vivem presos numa gaiola, e eles têm, em liberdade,  todas as aves da natureza. Nós sempre acordávamos como cantar dos pássaros, notou?

*Nossa comida é toda industrializada e,  na maioria das vezes, congelada. A deles é pescada no riacho, colhida na horta, ou colhida no quintal da casa, enfim papai, a alimentação deles é saudável, enquanto a nossa é quase toda artificial e gordurosa demais, com tantos queijos diferentes, salsicha, presunto, "rollmops"...

*Além do mais, Papi, observei que eles sempre oram antes de qualquer
refeição, enquanto nós, lá em casa, sentamos à mesa, cada vez mais preocupados com a União Européia, a cotação do Dólar/Euro, as etiquetas do vestuário, os negócios,  os eventos sociais, e por aí a fora.  Comemos, mecanicamente, e depois empurramos o prato,  num gesto de enfado! Nossa maior preocupação é que a empregada não gaste água demais e que ela separe corretamente o lixo, nos seis depósitos diferentes, para não se pagar multa ao governo.

*No quarto onde fui dormir com o Tonho, passei vergonha, pois não sabia orar. Nunca vamos à Igreja Luterana, aos domingos. Durante a semana ela está sempre fechada e, por isso, esqueci as orações que minha avó me ensinou, quando eu era menorzinho, ainda acreditava que Jesus é Deus, e ela era viva. Enquanto isso, o Tonho se ajoelhou e orou, nas duas noites,  agradecendo a Deus, tudo que a família tem, inclusive nossa visita à casa deles. Ele me contou que a família freqüenta uma igrejinha batista, que funciona nos fundos da casa do pastor.

* Lá em casa, vamos para o quarto, nos deitamos, assistimos televisão, até o controle remoto escorregar da mão, e dormimos, sem jamais pensar na existência de um Deus Criador, que nos dá todo esse conforto, através do seu trabalho, Papi. Nós deveríamos agradecer a Ele, por você ter um emprego excelente, ganhando cinco mil Euros por mês (mesmo com os 40% que o governo desconta). Enquanto isso, existem tantos desempregados no país, vivendo do auxílio desemprego, hem Papi?

*Outra coisa, Liber Papi, dormi na rede do Tonho, enquanto ele dormia no chão, pois não havia rede para nós dois. Lá em casa, colocamos nossa empregada tcheca para dormir naquele quartinho apertado,  cheio de tralhas, sem conforto algum, ao passo que temos duas camas macias e cheirosas sobrando, com lençóis e travesseiros de pena de ganso... Camas reservadas somente para aqueles hóspedes obesos e tagarelas, que sempre vêm nos visitar, trazendo garrafas de vinho e cerveja, e exalando aquele cheiro enjoativo de "schinkenwurst".

À medida em que o garoto ia falando, o pai ficava estupefato e envergonhado. Pela primeira vez ele pôde observar como a tecnologia tem afastado e isolado, egoisticamente, as pessoas, cada  uma se esforçando para ter sempre o melhor e esquecendo os que nada possuem e vivem na pobreza.

Foi então que o menino, em sua sábia ingenuidade, depois daquele brilhante desabafo, levantou-se, abraçou o pai e acrescentou comovido:
- Obrigado Papi, por me ter mostrado quão "pobres e mesquinhos" nós somos, comparados àquelas pessoas do nordeste brasileiro, ricas de amor e altruísmo.

*Ach Du, Mein Gott, esqueci de lhe contar, Lieber Papi,  que no último dia de aula, por acaso,  ouvi uma conversa entre o Diretor do Colégio e o Professor Schmidt. O Diretor dizia que uma parte do desconto na folha de pagamento do trabalhador alemão vai para o fundo de rearmamento. E quando Herr Schmidt perguntou: "Para que tanto rearmamento, se todos os governantes dos Estados Europeus garantem que nunca mais haverá guerra?" O Diretor respondeu que era para "rechaçar um ataque de possíveis invasores à União Européia". E quando Herr Schmidt perguntou quem seriam esses invasores, o Diretor respondeu: "Ora, os Estados Unidos, os judeus, os negros e... os índios da Amazônia!"

     - Filho, esqueça este assunto, que é de gente grande, muito grande mesmo, e não estou a fim de perder o meu bom emprego...

 

Adaptação de Mary Schultze, 2007.



 

Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça. (1 João 1:9)
...o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado. (1 João 1:7)