Harpa Juliana

 

       Nossa professora de Redação Criativa pediu que escrevêssemos um trabalho embasado em doze palavras ou frases. No meu caso, as palavras seriam: Paulo, Austrália; Perfil; Defeito; Tempo; Namoro... E por aí a fora...

          Como não tenho paciência para esse tipo de “brincadeira”, logo descartei a idéia de atender tal incumbência, embora respeitando, sinceramente, a professora. E para não chegar de mãos vazias, à aula,   resolvi copiar algumas trovas do meu livro “D. Mariquinha em Prosa e Verso”,  para ler na classe.

 

Certa noite (1955) fui convidada para a festa de aniversário de Elsie Lessa, a famosa cronista do Globo, que assinava a coluna “Globetrotter”. Lá estavam os grandes nomes da intelectualidade do RJ. A festa foi linda e, embora mal vestida, em comparação com aquelas mulheres, elegantemente produzidas (inclusive a Condessa Pereira Carneiro, dona do Jornal do Brasil), consegui me destacar, quando fiz uma saudação em versos à aniversariante. Por ser uma nordestina repentista, eu costumava atrair a atenção dos intelectuais daquele tempo.

          Sempre gostei de freqüentar os serões literários. Em casa da poetisa Seleneh de Medeiros, conheci o Dr. Plínio Travassos, fundador e diretor do Museu do Café, em São Paulo. Ele tinha idade de ser meu avô e se tornou um grande amigo. Em São Paulo, na companhia do Dr. Plínio, estive numa reunião literária, onde conheci o poeta Paulo Bomfim, que mais tarde iria se tornar o presidente da Academia Paulista de Letras. Lembro-me que, ao ser apresentada a Paulo Bomfim, fiquei extasiada com a sua beleza física e lhe disse: “Conhecer um vate assim/ é glória que não mereço. / Em vez de Paulo Bomfim, / Você é um bom começo!”  Ficamos amigos e mais tarde ele me presenteou com toda a sua coleção de poemas. Escrevi-lhe uma carta em versos, agradecendo e comentando o seu livro “Transfiguração”. A carta começava assim:

          “Li quinze vezes contadas, / em plena meditação, / as estâncias bem rimadas/ desta Transfiguração”. E assim terminava a carta de 16 trovas: ”Você já nasceu poeta, /de carne, sangue e emoção, / por isso atingiu a meta / desta Transfiguração!

          A convite do Dr. Plínio fui passar um fim de semana em Jardim Primavera, na casa de uns judeus alemães, e lá conheci o Dr. Schultze, o qual me pediu em casamento, no mesmo dia.

          Quando encontrei Manuel Bandeira, passeando na Praia do Flamengo,  e ele me pediu uns versos, fiz estes:

          ”Quisera ter uma casa / bem branquinha e sossegada, / na zona sul de Passárgada. / Quisera ter muitos livros, / uma vaquinha leiteira / e uma rede bem macia. / Quisera ter a meu lado / o ‘Colombo’ do lugar... / com trinta anos a menos!”

Quando fui almoçar com José Lins do Rego (1955), na Travessa Ouvidor, ele me pediu umas trovas. Fiz estas, na mesma hora:

          “A quem com simplicidade / escreve sobre o sertão,/ minha crescente amizade,/ plena de admiração. // Pois das terras nordestinas/ ninguém melhor descreveu/ cangaço, engenho e salinas,/ num estilo todo seu!” Ele deu uma risada e falou uma heresia: “Menina, você é melhor do que a Rachel...”

          Outra recordação interessante foi de quando nasceu minha filha Rosa Margarete. Era linda demais! Na hora em que a vi, ainda sobre a mesa de parto, falei: “Flor duas vezes mimosa, / beleza de minha vida, / meu lindo botão de rosa , / minha doce margarida”.

          Quando embalava ao colo a primeira neta, fiz estas trovas: “Sempre chorando ou dormindo, / boneca de porcelana. / Tem um chorinho tão lindo / minha neta Luciana! // Essa coisinha adorada, / tão frágil e tão mimosa, / veio do céu embrulhada / numa pétala de rosa!”

 

Trovas Primaveris (que fiz para o meu marido, quando ele estava viajando)

 

Eu te esperava ansiosa, / desde há muito, meu amado.

E a vida é maravilhosa, / hoje, que estás ao meu lado.

Quando o teu telefonema / eu recebi, com presteza

compus um lindo poema / mandando embora a tristeza.

Tu chamas doce poema / o que acabei de compor?

Os lábios desta Iracema / são mais doces, meu amor!

Antes de te conhecer / minha vida era um “sheol”.

Hoje tenho a me aquecer / teus olhos, que são meu sol!

Tenho uma sala quentinha / cá na Serra, a te esperar,

a lua e a noite inteirinha / para a gente... conversar!

Muitas correntes de aço / e ferro vão perecer.

Mas os versos que te faço / sempre hão de sobreviver.

Outra coisa eu te garanto / e vou te dizer qual é:

Se dizem que um elefante / faz versos eu acredito,

mas que existe homem constante, / digo: “é mentira’”... E repito.

 

Trovas para um hippie (Para a neta Luciana e seus colegas, que sempre chegavam com os tênis sujos, deixando meu carpete cheio de areia).

 

Germes trazidos da rua / nunca se mostram pacatos.

Amigo, esta casa é sua, / mas vá tirando os sapatos.

Estou mui velha e cansada, / pois os anos são ingratos.

A casa é limpa e arrumada, / então retire os sapatos.

Uma exceção vou deixar / aos que são velhos e chatos,

que não podem se abaixar / pra retirar os sapatos!

Houve um hippie que aqui veio / trazendo dois carrapatos

e até me fez galanteio, / mas não tirou os sapatos.

Podem me achar uma chata / de galocha e tudo mais,

mas esta é a maneira exata /de me deixarem em paz!

 

 Trovas para os aposentados (Quando eu estava sem dinheiro para trocar meu apê de quarto e sala, por um de dois quartos, o que, mais tarde,  consegui, com venda de um terreno, na Baixada Fluminense.).

 

Ouvindo a voz do Senhor, / eu fiquei tão alarmada,

que senti tristeza e dor, / pra seguir minha jornada.

A tua misericórdia que é eterna, ó Deus Pai, 3

nos traga amor e concórdia, / neste século que se esvai.

E no novo, que aí vem, / torna demais conhecida

a todos homens de bem / Tua Palavra de Vida.

Grande é tua indignação / contra os pecados da terra:

violência, corrupção, / imoralidade e guerra.

Pelas nossas más ações / vais esmagar com teus pés,

completamente, as nações, / pelo Deus justo que és.

Mas teu povo salvarás, / por amor do Teu Ungido,

e nos arrebatarás / para um local escolhido.

A terra está poluída, / dos ares até  o chão.

Já não temos garantida / a nossa alimentação.

As flores, frutos e grãos,  / o peixe, a carne e o leite

vão sumir de nossas mãos,  / também o vinho e o azeite.

E mesmo que os governantes, (fumando em seus gabinetes),

cada vez mais arrogantes, / nos atirem mil confetes,

 só vão tirar mais e mais / de quem já tanto trabalha,

não resistindo, jamais, / à ganância que atrapalha.

E os pobres aposentados, / que a vida inteira suaram,

serão sempre rebaixados / naquilo que conquistaram.

Todavia eu me contento / no meu Deus de salvação,

pois Ele me traz alento / nos dias da provação.

Meus pés caminham depressa / nesta Cidade Florida.

Que eu de Ti jamais me esqueça / E ande de cabeça erguida!

 

(Poema inspirado em HABACUQUE 3:16-19).

 

Memórias do passado; alegria de viver com Cristo no coração e a família que me resta, no presente; ansiedade por um futuro, lá no céu, quando poderei contemplar nosso Senhor, como Ele é... Encontrar o meu teólogo favorito - Paulo de Tarso - e meus entes amados, que já estão com Cristo!

 

 

Mary Schultze, 23/07/2008.

www.cpr.org.br/Mary.htm