As Hordas Cristãs?
(Comentando o livro “The Barbarian Way”, de Erwin Raphael McManus)
Existe um livrinho interessante no mercado cristão, o qual, embora ainda não muito conhecido, poderá impactar a Igreja com um sopro de misticismo para o qual muitos podem não estar preparados. Escrito por Erwin Raphael McManus sob o título “The Barbarian Way” (A Maneira Bárbara), este livro tem muito refugo dentro de suas 148 páginas. Seu compacto volume possibilita o leitor a ler o seu conteúdo de uma “sentada” e como o autor é um Consultor Internacional, tendo sido muito focalizado por grupos de mega-igrejas, como a Associação Willow Creek, isso torna a sua distribuição quase definitiva. A Willow Creek Association, [ou Associação Willow Creek] composta de mais de 11 mil igrejas, está negociando um vídeo intitulado “Leadership Summit 2003: The Barbarian Way Out of Civilization” (Ápice da Liderança 2003: A Moda Bárbara Fora da Civilização); então o impacto do livro de McManus será difundido em ampla escala dentro da igreja professa.
Convém dizer, a princípio, que existem alguns pontos favoráveis neste livro. Ele trata de uma indomável confiança em Deus; da coragem de seguir a Cristo e da posição não compromissada do verdadeiro cristão. Fala contra a complacência espiritual e a forma ritualística na esfera da igreja, encorajando um íntimo e pessoal andar com o Deus que nos salvou; fala muito corretamente sobre a necessidade de assumirmos o papel para o qual Deus nos criou e para não tentarmos nos encaixar em um molde preconcebido, o qual possa restringir nossa criatividade, nossos dons e o amor pela vida. Somos todos indivíduos e isso é maravilhoso. Expandir nossos horizontes, nossa parte espiritual e outras, faz parte do progresso e formação de nossa constituição humana. Quando mais longe chegarmos, melhor será.
Mesmo assim, precisamos dizer que tudo isso já está claramente dito na Bíblia. Tem sido um hábito constante do crente imaturo obter o máximo do seu conteúdo espiritual em livros “cristãos” populares e, nestes tempos trabalhosos, os autores famosos têm contribuído para facilitar e tornar mais tentador esse caminho.
O fato - nunca mencionado hoje em dia - é que nós, os cristãos, não precisamos de qualquer outro livro além da Bíblia, para a nossa vida espiritual. As Escrituras são completas em si mesmas; elas são a Palavra Viva e de uma Pessoa Viva: “Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra” (2 Timóteo 3:16-17).
Não existe outro livro - além deste - que tenha o poder de transformar a vida de qualquer pessoa que leve o seu conteúdo a sério. Somente a Bíblia é inspirada, é viva e eficaz: “Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração” (Hebreus 4:12). Ela contém tudo que é necessário para quem deposita sua confiança em Cristo, “O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” (Colossenses 1:13). Nenhum livro escrito até hoje pode fazer isso. Conquanto alguns outros livros possam ser bons no conteúdo, ajudando a esclarecer corretamente determinados aspectos da fé, o Deus da Bíblia não aceita qualquer acréscimo às suas páginas. Infelizmente, esses acréscimos são feitos por muitos livros sobre a Bíblia, cuja tendência e resultado final é fazer com que a maioria dos seus leitores se torne biblicamente iletrada.
Emergindo de um pano de fundo hiper-carismático de muitos anos, posso bem atestar que consegui grande parte do meu alimento espiritual de autores questionáveis e até mesmo hereges. Era a forma geral - e de fato ainda é hoje, dentro do campo hiper-carismático - rejeitar o legítimo estudo intensivo da Bíblia em favor das facilmente digeríveis conversas fiadas, suposições e rasantes vôos de fantasia dos populares “apóstolos”, “profetas” e “mestres” do nosso tempo. Quando, inconvenientemente, alguma dúvida sobre doutrina era levantada (durante os 12 anos que passei nesse grupo sectário), nossos supervisores nos mandavam ler um livro de determinado autor, tornando aquele homem o árbitro final da verdade. Isso atinge o âmago de tudo que Deus fala em Sua Palavra santa, sobre Ele mesmo e o Seu registro na Bíblia. Embora detestando martelar este ponto, preciso reiterar o que Mateus 4:4 diz: “Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”. E não se pode encontrar a Palavra Viva em lugar algum, exceto no Livro que Ele nos deu.
Fica evidente, a partir do conteúdo do livro “The Barbarian Way”, que McManus tem uma forte inclinação pelas lendas celtas. A maneira dos celtas batalharem, seu engajamento à causa e sua lealdade ao rei parecem ser o tema recorrente. Desde o princípio, o livro enfatiza a “maneira dos bárbaros” fazerem as coisas e andarem pela vida - daí o seu nome - declarando serem esses métodos muito superiores aos tradicionais métodos cristãos. Ele diz que os apóstolos, os cristãos primitivos e o Reformador Martinho Lutero eram todos da mesma estirpe, bárbaros na fé e nas práticas contundentes, sem essa capa de Cristianismo civilizado. Qualquer pessoa ao ler este livro iria pensar que a Igreja tem de fato trabalhado mal em sua civilizada influência, nos últimos 2.000 anos, tendo estado a produzir rotineira e mecanicamente nada menos que homens de fácil complacência, frangotes que de fato nada sabem sobre a verdadeira espiritualidade ou sobre a sua coragem de vivê-la.
A verdade é que precisamos aqui de uma definição de termos, visto como o barbarismo é o fundamento do livro de McManus. Precisamos examinar o que a idéia de “bárbaro” significa realmente, bem como a vida que era vivida por esse tipo de pessoas. A essência de barbarismo e de bárbaro no conteúdo deste livro é certamente espiritual, mas não a maneira pela qual ela é apresentada. Mesmo sendo bem intencionada, a apresentação de McManus fracassa desde o princípio. Ao conectar a idéia e estilo de vida dos bárbaros ao Cristianismo bíblico, ele redefine o que a “maneira bárbara” é realmente.
É essencial que se entenda que o barbarismo é um modo de vida enraizado no paganismo. Não se trata apenas da coragem, da força e da devoção à causa. Todo o fundamento da vida dos bárbaros tem uma visão espiritual totalmente pagã, visão de quem adora a criatura em lugar do Criador, amplamente embasada na falsa adoração, na violência e na superstição, o que não é, de modo algum, compatível com a visão do Cristianismo bíblico. As duas visões são totalmente diferentes.
Continuamente, as epístolas de Paulo abordam a expressão “naquele tempo... Mas agora...” [Efésios 2:12-13, por exemplo]. Paulo foi o apóstolo aos gentios. Ele mesmo se autodenominou deste modo. Ser gentio, no tempo de Paulo, era estar separado do povo escolhido de Deus. Em muitas passagens bíblicas, Paulo sempre contrasta como agiam os pagãos antes e depois de se tornarem cristãos. Quando McManus tenta assimilar de volta ao andar do cristão algumas das coisas que englobam a maneira pagã, [isso] é tentar purificar aquilo que Deus considerou imundo. Certamente alguns bárbaros eram corajosos, mas alguns eram covardes; alguns eram devotados ao seu país, mas muitos eram oportunistas que não se importavam com a integridade moral; alguns eram esforçados, vivendo suas vidas da melhor maneira que podiam, mas muitos outros levavam uma existência simplesmente miserável, sem cor, cheia de frustrações e preocupações, numa total inutilidade.
E quanto à afirmação de que uma igreja civilizada castrou a vida dos seguidores de Cristo, convém lembrar que foi a ampla influência civilizadora da igreja que protegeu o mundo de uma completa derrocada ao caos, nos primeiros séculos após a ressurreição de Cristo. Onde quer que os cristãos recebiam o Evangelho e aconteciam conversões, elas garantiam o fim dos maus tratos às mulheres e aos menos afortunados. Escravos eram libertados pelos senhores cristãos, a ajuda aos pobres era prioridade e o amor ao próximo era a pedra fundamental dos procedimentos. Por outro lado, a história nos conta que eram as hordas bárbaras que estupravam, pilhavam e destruíam as casas do povo temente a Deus, tornando-o escravo e desacatando o Deus verdadeiro e Seu Filho Jesus Cristo. Eles bebiam o sangue dos inimigos, resolviam seus assuntos pela força bruta e eram amplamente iletrados. Pelo visto, não há muita coisa boa para que eles sejam recomendados aos seguidores de Cristo.
McManus usa muitas palavras referindo-se à maneira bárbara: “primevo”, “imaturo”, “selvagem”, tudo isso como esclarecimento aos seus ensinos. Ele enaltece a cotação do filme “Brave Heart” (Coração Valente) (página 14), usando-o como exemplo em seu livro. Esse filme estrelado por Mel Gibson é um dos mais violentos que já foram feitos. Ele utiliza a violência e a profanação. Como pode alguém ter coragem de citar este filme com relação a um assunto espiritual, está além de minha compreensão. Muita coisa foi aproveitada desse filme, anos atrás, pela tal “Bênção de Toronto”, a qual fala do volume de discernimento espiritual e da compreensão de santidade desse grupo de “Chuva Serôdia”. Engraçado é que esse filme foi uma fraude. Sua falta de exatidão histórica capitalizou sobre a ignorância do freqüentador comum do cinema... E, tudo indica, também sobre a média dos cristãos carismáticos.
Quando crentes nascidos de novo se apresentam em trajes escoceses, falando em dialeto gaulês, pregando o Evangelho (na versão deles) e quando lhes entregam uma espada, dizendo “Agora, vocês são os corações valentes deste mundo" - Quando estas duas coisas realmente acontecem, é sinal de que existe algo muito errado...
Na página 32, McManus fala da versão civilizada do Evangelho pregado pela igreja contemporânea. Ele declara que esse Evangelho engloba apenas crer em Cristo para a salvação e a vida do crente ficará livre a partir desse momento. Bem, eu jamais dei ouvidos a esse Evangelho, pois ele não é verdadeiro. Qualquer pessoa que tenha lido os primeiros quatro livros do Novo Testamento vai chegar a essa conclusão. Ele também menciona o que alguns pregadores tradicionais falam sobre o perdão de pecados e a eterna felicidade no céu, mas, para os crentes verdadeiros, essas coisas não se assumem por complacência, mas com extraordinária gratidão. Quando recebi a Cristo, fiquei sabendo que meus pecados haviam sido totalmente perdoados. Que alívio! Queria servi-Lo de todo o meu coração... Antes eu estava a caminho do inferno e sabia disso. Foi então que Jesus entrou em meu coração e me tornei uma nova criatura. Ora, isso é algo para nos deixar realmente felizes!
Na página 34, McManus torna a mudar as definições, ao dizer que o amor e o serviço sacrifical de um para o outro é tudo sobre o que se relaciona a maneira bárbara. Errado! Novamente, vamos deixar claro que a maneira bárbara é violenta, auto-complacente e egoísta.
Na página 63, McManus observa que a medida da insanidade é inerente à maneira bárbara e, conquanto seja inteiramente correta, ela é que nos torna “apaixonadamente” instáveis no sentido espiritual.
Na página 65, ele diz que [o apóstolo] João agiu sob insanidade. Não, ele não o fez. Um ligeiro exame nos exemplos da fé na Bíblia, em Hebreus 11, mostra que verdadeiros servos de Deus “foram apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, desamparados, aflitos e maltratados (Dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, e montes, e pelas covas e cavernas da terra” (versos 37-38). Qualquer cristão familiarizado com escritos do Velho Testamento, no tempo de João, poderia se lembrar dos heróis da fé. Certamente eles não agiram sob insanidade. Até mesmo muitos dos seus inimigos reconheceram que eles haviam sido enviados por Deus. Eles não eram seguidores de qualquer maneira bárbara.
Na página 70, ele diz que a Escritura está repleta de pessoas que foram “privadas da mente” por Deus. Mesmo assim, ele confirma Gálatas 5:22, que diz que um dos gomos do fruto do Espírito é a “temperança”. Paulo reprova a Igreja de Corinto: “Se, pois, toda a igreja se congregar num lugar, e todos falarem em línguas, e entrarem indoutos ou infiéis, não dirão porventura que estais loucos?” (1 Coríntios 14:23). Paulo os aconselhou a se acalmarem, mantendo o autocontrole. Seria isso insanidade? Pode ser que o mundo nos considere loucos e imagino que é isso o que McManus quer dizer realmente, porém que fique bem claro que estamos em pleno gozo de nossas faculdades mentais, quando estamos em Cristo. Isso nos leva a outro ponto. Um autor, professor ou pastor deve falar com total clareza, tanto na linguagem como no seu significado. Quando ele não o faz, a confusão resultante entre as pessoas que ele influencia vai ser colocada sob os seus ombros: “MEUS irmãos, muitos de vós não sejam mestres, sabendo que receberemos mais duro juízo” (Tiago 3:1).
Embora com tantas referências de McManus ao bárbaro celta, ele nunca chega totalmente a dizer ao leitor a que se assemelha o bárbaro. Sou um puro descendente dos celtas. Minha mãe nasceu na Escócia, de pai irlandês e mãe escocesa. Do mesmo modo, meu pai era filho de escocês e irlandês. Minhas raízes retrocedem mais àqueles dois países celtas do que qualquer família pode computar. Não se pode ter mais de celta do que isso. Falo uma boa porção de Gaulês/Escocês e leio a língua relativamente bem, tendo estudado para aprender música “bagpipe” [de fole?] e assobio irlandês, além de algumas danças típicas escocesas. Sou um estudante da história e bom conhecedor do sistema de crenças dos meus antepassados irlandeses e escoceses. Creiam que se existisse alguma vida espiritual dos meus remotos antepassados sobre o que me gloriar, provavelmente eu a tornaria conhecida. Mas antes de Cristo, eles eram pagãos (bárbaros), inimigos de Deus por natureza. Decapitar os inimigos vencidos, fazer rituais com sacrifícios humanos e adorar uma porção de deuses florestais e outros, tudo isso fazia parte da vida de um bárbaro celta. Isso mesmo e nada de confeito açucarado. A verdade é que não se pode ter um coração bárbaro e o coração de Cristo ao mesmo tempo. Ambos são totalmente incompatíveis. Sempre o foram e nenhuma tentativa de mudar esse fato poderá ser bem sucedida.
McManus é um apaixonado pela palavra “místico” e a usa muito em seu livro. Novamente ele muda as definições. Apalavra “místico” no Grego se refere a alguém que se envolve com ritos secretos, isto é, um caminho para Deus somente para os iniciados. Entendo que McManus provavelmente não quer dizer isso, quando fala de andar mais perto de Deus e de ter uma comunhão íntima com Ele. Mas é importante que se use um termo que corresponda realmente à sua significação. É para isso que a língua existe. Chamar um legítimo seguidor de Jesus Cristo de “místico” é dar uma definição errada. Quem segue o Hinduísmo, o Budismo e muitas religiões mundiais pode ser místico, mas quem segue a Cristo, não!
Na página 100, McManus cita Joel 2:28-29: “E há de ser que, depois derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões. E também sobre os servos e sobre as servas naqueles dias derramarei o meu Espírito”. Em seguida, ele prossegue dizendo ao leitor que, à moda dos bárbaros, podemos sonhar alto e ter a coragem de viver esses sonhos que o Espírito Santo coloca em nossos corações, dando-nos o poder de transformá-los em realidade. Mas não é isso que a Escritura diz. Lembrem-se que esta Escritura se refere especificamente aos últimos dias e no Dia de Pentecoste, 40 dias após a ressurreição de Jesus, Pedro falou: “Mas isto é o que foi dito pelo profeta Joel” (Atos 2:16). Pedro se referia aos sonhos e visões sobrenaturais trazidos pelo Espírito. [Nota da Tradutora: Os Judeus pediam sinais (1 Coríntios 1:22), por isso Deus mandou o Pentecoste, a fim de convencê-los de que Jesus era o Messias. Quando Paulo assumiu definitivamente o seu apostolado aos gentios, os sinais acabaram]. Isso difere totalmente da interpretação de McManus. Em meu ex-grupo na igreja, muitas vezes falávamos nas “visões” que Deus nos havia dado a respeito de nossas vidas e aos “sonhos” que acalentávamos para as mesmas. Até falávamos (tão ridículo como possa parecer) de visões do próprio “Jesus”, como o Filho de Deus. Há uma grande diferença na maneira como são usados esses termos. Qualquer pessoa que deseje saber o que realmente significam biblicamente “sonho” e “visão”, simplesmente veja os profetas do Velho e do Novo Testamento: o encontro de José com o anjo (Mateus 1:20; 2:13-19); Paulo sendo arrebatado ao céu (2 Coríntios 12:24), o transe de Pedro (Atos 10:10) e, finalmente, as declarações de João sobre o céu e os eventos do final dos tempos, no Livro de Apocalipse, todos estes de fato sonhos e visões bíblicos.
Começando na página 117, com o subtítulo “Jump School” (Escola de Pulo), McManus narra um incidente com o seu filho. Este pulou de uma janela do segundo piso de sua casa, antes pedindo ardorosamente autorização ao pai para pular dali. Vejam bem, o garoto está a dois andares do chão, pedindo a permissão do pai para pular. Eu disse isso duas vezes para evitar qualquer mal-entendido. E qual foi a resposta de McManus? Por que teria ele dado cordialmente a permissão, mesmo observando (no livro) o orgulho que sentia pelo filho no momento de sua conquista no alto do telhado? A esposa de McMnaus, que estava ao seu lado, estava (compreensivelmente) alarmada, e (compreensivelmente) lançou sobre ele um olhar questionando sua sanidade mental. Não estando certo de que havia escutado corretamente, o filho lhe indagou novamente se poderia pular. Mais uma vez o pai concordou, sugerindo que o garoto pulasse de uma vez, pois, no caso dele quebrar as pernas, seria necessária uma viagem até o hospital. A única sugestão de McManus é que o garoto evitasse o asfalto, quando caísse, preferindo o gramado.
O garoto pula
Não consigo entender isso. Jamais ouvira falar de tal procedimento da parte de um pai. Dois andares é um trecho alto demais para se cair. Podem acontecer ruptura de discos vertebrais, concussões cranianas e outras conseqüências numa queda assim. Um pastor, meu conhecido, caiu de uma escada a oito pés, e fraturou o ombro, tendo precisado de uma cirurgia para consertá-lo. Mas McManus estava orgulhoso da ousadia do filho. E mais tarde, em outro capítulo, ele equipara essa atitude ao desejo de que seus filhos assumam a maneira bárbara. Sem querer ofender: “Cristianismo” civilizado para eles! Ele não há de querer criá-los na “aparência de uma fé domesticada”. Ele só deseja frisar aqui que a juventude precisa viver uma fé selvagem, vivida ao extremo.
Eu gostaria de saber se McManus teria sentido o mesmo, caso o filho tivesse se ferido gravemente. Mas esse não é o caso. O que importa é que McManus arriscou a segurança do próprio filho. Se coisa nenhuma neste livro precisar de uma revisão sobre a teologia bárbara de McManus, esse incidente com o filho já será suficiente.
Na página 131, com o subtítulo de “Primal Atire” (Traje Primevo), McManus conta ter sido convidado para um retiro nas montanhas chamado “Highlander”. Esse retiro foi também onde a masculinidade dos cristãos aconteceu num sentido mais literal. Antes de começar uma violenta luta, os homens foram divididos em dois grupos rivais. Foi então que McManus mencionou aos seus partidários que os antigos celtas costumavam lutar com os corpos pintados, em estado de nudez. Ele quis dizer que os homens deveriam despir-se de todas as dúvidas e receios, mas um homem do time contrário levou o assunto a sério, querendo que fosse demonstrada a competição com os homens desnudos. Foi assim que McManus recebeu o apelido de “Nature Boy”, após se ter desnudado. Como se tratava de um retiro cristão, ele foi admoestado a se vestir, o que o levou a vestir uma camiseta, deixando de fora o resto do corpo, da cintura para baixo. Todos do seu time aderiram e começaram a puxar a corda, exibindo ostensivamente sua masculinidade naquele esforço. A coisa ficou mais interessante. Vendo a ousadia dos homens do time de McManus, os do time contrário decidiram também se desnudar, tendo todos eles, portanto, escolhido “a maneira bárbara”.
Ora bolas, era um grupo de homens nus grunhindo, suando e puxando uma corda, sendo eventualmente puxados para uma poça de lama. Se pudermos concluir porque o jogo prosseguiu, após terem os homens retirado as roupas, é que tudo foi visto no bom humor. Uma coisa é certa - esse incidente de fato reflete a maneira bárbara. Nenhuma roupa, nenhuma inibição, nenhum recato. Esse incidente se caracteriza por tudo isso, mas, sobretudo, pela falta de fundamento bíblico. É possível imaginar os apóstolos e os primeiros discípulos de Cristo se engajando numa coisa desse tipo? A história registra que os cristãos primitivos em geral evitavam os jogos atléticos, porque nas lutas eles costumavam agir em estado de nudez. Os seguidores de Jesus Cristo sabiam que isso era indecente e vergonhoso, sendo uma completa violação aos mandamentos bíblicos de manter a pureza do corpo e do coração.
Porém McManus vai mais longe. Tentando aparentemente justificar o incidente, ele cita 2 Samuel 6:14, onde Davi “saltava com todas as suas forças diante do Senhor”. Conquanto Davi tivesse se despido da capa externa, a Bíblia diz que ele “dançou cingido de um efode de linho”, uma veste associada à adoração. O que Davi fez não pode, de modo algum, ser comparado ao espetáculo de nudez realizado no retiro de McManus.
Deixando isso de lado, tudo ali se adapta perfeitamente à mentalidade Toronto/Pensacola. Como membros, durante muito tempo, de uma igreja engajada na Bênção de Toronto, minha esposa e eu (bem como o resto da congregação) éramos sempre encorajados a pensar espiritualmente fora do “contexto” ou das supostas restrições que colocávamos em Deus, sobre a maneira como Ele poderia se manifestar em nosso meio. De fato, os limites, se é que existiam, eram abandonados. O “riso santo”, a embriaguez espiritual, as exibições indecentes, durante o “carpet time” (queda no carpete) eram todas marca registrada da nossa incapacidade e má vontade em distinguir entre as obras de Deus e as obras do homem, ou coisa pior. A carnalidade era realmente ali santificada. Porquanto, se o “poder” estava se manifestando, ele só podia ser de Deus, ou pelo menos acreditávamos nisso.
O fato a ser esclarecido é que o comportamento imoral durante o retiro de McManus demonstra uma deplorável falta de discernimento bíblico na igreja de hoje. Como temos resvalado! Quantos irão ler esse livro e colocar em prática o seu conteúdo - não somente a parte que trata da busca de Deus e de ficar em comunhão com Ele, mas as outras partes já mencionadas. Como pode uma mistura da carne e do espírito ser tão ostensivamente exposta e, mesmo assim, aceita?
O problema é que Jesus Cristo não deseja [crentes] bárbaros. O coração bárbaro é aquele do qual Ele nos libertou. A atitude “primeva” sensual do “consegui ser eu mesmo”, a qual libera as restrições, não tem espaço na congregação cristã. Tão romântica como a antiga era da vida de guerra e da vida selvagem possa parecer, não podemos voltar a ela e nem o desejamos. Nada mais existe para nós em matéria de retrocesso. [conforme disse Jesus em Lucas 9:62, “Ninguém, que lança mão do arado e olha para trás, é apto para o reino de Deus”]. Precisamos nos satisfazer unicamente em Cristo, conforme Ele se revelou nas Escrituras. Isso é suficiente e mais do que possivelmente podemos deixar neste curto espaço terreno. A verdadeira maneira bárbara - brutal, auto-serviente, violenta - deve permanecer no remoto passado ao qual ela pertence, e no qual os meus antepassados celtas estão sepultados com as suas espadas e as suas superstições.
Meu objetivo é destruir o Cristianismo como religião mundial e ser um (recatalyst) convocador ao movimento de Jesus Cristo... Algumas pessoas ficam aborrecidas comigo porque isso soa como se eu fosse anticristão. Acho que elas têm razão". Ervin McManus
Artigo: “The Christian Hordes?” - Kevin Reeves - OUTUBRO DE 2005
http://www.theothersideoftheriver.com/Articles/Hordes.shtml
Traduzido por Mary Schultze, em 03/09/07