Ontem (11/01/04) acompanhei uma amiga a um culto-show numa igreja malaquiana próxima de nossa residência. Chegamos na hora em que o culto-show estava começando. Por mais que eu estivesse preparada para as exibições carnavalescas já conhecidas dessa igreja, o que lá presenciamos foi muito além da expectativa.
O culto-show foi iniciado com uma jovem pastora, vestida com simplicidade e recato (blusa amarela e saia chanel estampada), a qual declamou alguns versos da 1 Coríntios 13. Digo “declamou” porque ela leu a Bíblia em voz alta e bem pausada, com acentuação teatral, como se tivesse praticado bastante essa leitura em casa. Contudo, a Palavra de Deus é sempre importante e não desgostei da maneira como foi lida pela jovem, a qual, numa igreja séria, poderia ser de valor...
Em seguida um jovem tomou conta do teclado, duas moças cantaram junto com ele e achei as melodias bem interessantes. Eram todas em ritmo de rock, sendo impossível entender a letra, pois o som era estridente demais e a fumaça e o jogo de luzes verde e vermelha davam uma impressão surrealista ao ambiente.
Eu já estava começando a me cansar do barulhento espetáculo, quando veio o pior. Um gigante de cabeça raspada, tipo Ronaldinho, veio me abraçar calorosamente e disse que me conhecia dos artigos de jornal. Fiquei sem jeito e apenas respondi aos gritos: “Estou perdida!”. Ele sorriu me tranqüilizando e voltou ao seu lugar. Era o pastor da igreja, como vim a saber mais tarde. Logo em seguida, quatro moças vestidas de odaliscas (usando calças largas de tecido dourado e blusas pretas) subiram ao palco e o show pegou fogo. As garotas rebolavam, se contorciam, pulavam, dançavam, exatamente como é visto nessas coreografias da TV. Além da gritaria, da fumaça, do jogo de luzes coloridas e do barulho infernal, o painel exibia letras de músicas tipo pagode, chocantes pela falta de doutrina bíblica, pela pobreza do vernáculo e pelas repetições tipo mantra. Vamos tentar recordar a letra de duas das três canções que foram cantadas ali: “Jesus está aqui. Por isso eu canto, eu grito, eu bato palmas, eu pulo, eu abraço, eu toco no irmão porque Deus mandou, etc”. Já na outra, com toda a igreja dançando, todo mundo se abraçando, pulando e gritando, a letra era assim: “Caia fogo do céu... caia fogo do céu... para incendiar nossas almas, etc.”
Com tanta fumaça e luzes coloridas varrendo o palco, tive medo que Deus ouvisse a “oração” cantada e mandasse fogo do céu para incendiar o salão repleto de dançarinos em estado de êxtase, completamente tresloucados pela música e pela coreografia do palco. Ainda bem que o Senhor se fez de surdo (quem não ficaria surdo com tanto barulho?) e deixou de atender ao pedido daquela igreja carnavalesca.
Depois do show, com todo mundo suado, rouco e cansado, veio a pregação da Palavra pela mesma declamadora do início do culto-show. Releu os versos da 1 Coríntios e fez uma pregação razoável, salientando o amor como o essencial para uma vida agradável a Deus. Se ela não gritasse tanto até que eu teria gostado da pregação, mas ela gritava demais e durante meia hora meus ouvidos – já afetados pela quantidade altíssima de decibéis – começaram a doer. Não se falou em santidade de vida, em estudo da Palavra, em tomar a cruz e seguir a Cristo... Nada disso, pois o ambiente não iria comportar esse tipo de pregação. As palavras pecado, pecador e inferno ficaram arquivadas no gazofilácio, provavelmente neutralizadas pela quantidade de dízimos e ofertas que vieram a seguir, sob o comando do pastor sósia do Ronaldinho, o qual teve a coragem de afirmar categoricamente que “a palavra mais usada na Bíblia é dinheiro”, compelindo os presentes a depositar tudo que pudessem, sob a leitura de Atos 4:34: “Não havia, pois, entre eles necessitado algum; porque todos os que possuíam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora vendido, e o depositavam aos pés dos apóstolos”. Todos se moveram na direção do gazofilácio, acreditando piamente que “a palavra mais usada na Bíblia é dinheiro” e que, desse modo, estavam agradando a Deus...
Depois de uma hora e meia de show, com a cabeça doendo e o coração completamente esfrangalhado de tristeza, minha amiga e eu viemos para casa, tomamos uma sopa quente e conversamos um pouco. Em seguida ela se foi e tentei ler alguns capítulos de um comentário bíblico, a fim de tranqüilizar minha alma sofrida. À meia noite fechei a luz do quarto, orei de joelhos e liguei o som para escutar os últimos dez capítulos de Mateus na voz de Cid Moreira. Depois fiquei rolando na cama, com uma tristeza enorme no coração e pensando: “A igreja de Roma levou 450 anos tentando liquidar o Protestantismo, através de inquisições, guerras e complôs políticos, e só conseguiu algum resultado com o Ecumenismo. Enquanto isso, o Neopentecostalismo, em apenas 50 anos, conseguiu neutralizar o evangelho de Cristo, com falsas curas, profecias, visões, revelações e shows musicais do tipo mundano”.
Com o coração abatido por essa constatação, fiquei até 3 horas da matina me virando na cama, em busca da paz de Cristo, sofrendo por esses pobres membros bem intencionados que militam nas igrejas malaquianas, tão carentes da verdadeira doutrina bíblica, os quais têm entrado pela porta larga que lhes é aberta pelo falso evangelho da fé/prosperidade!
Mary Schultze, janeiro 2004.
Igreja na folia II
Há exatamente duas semanas escrevi o artigo “Igreja na Folia”, o qual foi publicado no “O Diário” desta cidade e lido por algumas pessoas, que depois vieram comentar o assunto. Realmente, eu não pretendia mais entrar naquela igreja, depois desse artigo, mas ontem apareceu aqui um casal que acabou me levando novamente até a mesma. Ele é um ex-padre jesuíta e ela, uma parenta nascida no Ceará, ambos membros da IURD. Depois de ler o meu artigo quiseram conferir in loco a igreja supra citada, quem sabe para ver se existe uma congregação pior do que a deles...
Achei por bem me disfarçar um pouco, a fim de entrar na tal congregação, coloquei um turbante (tipo viúva Porcina) na cabeça e chegamos quando o culto-show já havia começado, tendo sentado na penúltima fila de bancos, a fim de não chamar a atenção dos presentes, o que não adiantou, pois apenas alguns minutos se passaram, até que apareceu o “Ronaldinho” (pastor da igreja), para nos cumprimentar e saber quem éramos. O casal se apresentou e quando ele me viu, reconheceu-me e ficou admirado de ali me encontrar, novamente. Abraçou-me carinhosamente, quase me quebrando as costelas e pensei: “Meu Deus, esse homem parece um lutador de caratê... Onde foi que eu vim parar?” “Ronaldinho” voltou ao seu lugar e notei que ele estava falando ao ouvido da pastora do último culto e de outro pastor, que seria o pregador da noite. No palco, umas doze garotas rebolavam e cantavam aos berros!
Logo em seguida, a pastora fez uma oração – numa voz normal, ao contrário da vez passada. Em seguida “Ronaldinho” subiu ao palco e anunciou o pregador da noite. A pregação foi medíocre, com repetições cansativas e muitos atentados ao vernáculo. Mas já ouvi piores... pelo menos uma vez em que fui à IURD, onde o pastor só falou no diabo o tempo inteiro. Curioso é que o pregador narrou um incidente acontecido no dia 20, passando a fazer rasgados elogios à minha igreja. Depois descobri que o pastor sabia que eu era membro da mesma...
Terminado o “sermão” embasado no II Reis 4:8-11, focalizando a sunamita, “Ronaldinho” chegou ao microfone para anunciar os visitantes, antes de começar a petição de dinheiro. Citou o nome de alguns pastores que ali se encontravam e mencionou o casal de visitantes membros da IURD. Depois disse que lá estava a Mary Schultze, visitando a igreja pela segunda vez, o que significava que “ela havia gostado muito, quando li estivera há duas semanas, etc”. Levantei-me e gritei para a igreja inteira: “Realmente, a pregação de hoje foi um pouco melhor!”
Depois da chuva de dinheiro que caiu no gazofilácio, inclusive com uma contribuição de R$10,00 do ex-jesuíta, o culto foi encerrado, como apenas 1/3 do barulho da vez passada. Algumas pessoas vieram me cumprimentar, inclusive um rapaz da AD que havia lido o tal artigo no jornal e estava de acordo comigo.
Logo depois, chegou o “Ronaldinho” para saber se havíamos apreciado o culto, ao que respondi que realmente o barulho fora bem menor. Ele se queixou do que eu falei no artigo, dizendo que eu exagerei, etc. Descobri, então, que além de lutador de judô e caratê, ele foi “leão de chácara” de algumas boates da cidade, as quais continua a freqüentar... Quando perguntei se ele ia às boates para dançar, respondeu que vai ali para ganhar almas para o Senhor (???) e que a sua igreja vai botar na rua um bloco de carnaval... para ganhar mais almas para o Senhor, etc. Deu-me dois exemplares do seu jornal, pedindo que eu escreva um artigo para o mesmo. Conversamos bastante e descobri que ele é filho do antigo pastor da igreja (o mesmo que me expulsou da Convenção de Pastores da cidade, depois que escrevi um artigo condenando o Movimento G-12 e cujas reuniões eu freqüentava em companhia do Pr. Paulo Pimentel). Descobri, também, que ele é irmão da minha ex-cabeleireira e manicure e prometi que não ira mais criticar a sua igreja, etc. Para tanto terei de evitar qualquer ida à mesma, pois não consigo me calar diante de coisas que me chocam a consciência.
O certo é que, mesmo pregando a falsa teologia da fé/prosperidade, essa igreja tem dezenas de jovens freqüentadores, que antes viviam nas drogas e na imoralidade, o que lhe dá um bom crédito. Digamos que mesmo um evangelho com apenas 80% de verdade é bem melhor do que a prostituição e as drogas!!!
“Ronaldinho”, você foi criado nessa teologia e se está ganhando almas para Jesus, colaborando com o Espírito Santo, vá em frente, amigo, pois isso vai lhe dar muito mais divisas celestiais do que a sua antiga profissão de “leão de chácara”! Só não entendi o porquê das contribuições à junta que você preside na denominação irem para a sua conta poupança (?). Será que irão financiar um carro novo, já que o seu foi recentemente roubado?
Mary Schultze, janeiro 2004