Jesus Cristo - nosso Advogado e Propiciação
“MEUS filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo. E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” (1 João 2:1-2 ACF).
Advogado
O apóstolo João diz que Jesus é o nosso “Advogado para com o Pai”. A palavra grega aqui usada é parakletos, a mesma empregada em João 14:16,26;15:26;16:7, referindo-se ao Espírito Santo. É uma palavra tão importante e significativa que deve ser examinada com carinho.
O vocábulo parakletos provém do verbo parakalein. Há ocasiões em que parakalein significa consolar. Com este significado ele é usado, por exemplo, em Gênesis 37:35: “E levantaram-se todos os seus filhos e todas as suas filhas, para o consolarem; recusou porém ser consolado, e disse: Porquanto com choro hei de descer ao meu filho até à sepultura. Assim o chorou seu pai”; em Isaías 61:2: “A apregoar o ano aceitável do SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes” e Mateus 5:4: “Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados”.
Contudo, este não é o uso mais freqüente do verbo parakalein. O sentido mais comum é chamar alguém para ficar ao lado de uma pessoa, a fim de ajudá-la e aconselhá-la. Este uso é muito comum no Grego popular. Xenofontes usou-o (Anabasis 1.6.8), contando como Ciro chamou Clearco à sua tenda para se consultar (parakalein), visto como Clearco era considerado em alta estima, tanto por Ciro como pelos gregos. Desse modo, parakalein significa, comum e naturalmente, chamar alguém para ajudar, aconselhar e apoiar uma pessoa.
Parakletos é uma palavra passiva em sua forma e significa literalmente alguém que é chamado em favor de uma pessoa. Visto como o mais importante na mente é sempre o motivo do chamamento, esta palavra, mesmo sendo passiva em sua forma, tem um sentido ativo, vindo a significar alguém que ajuda e, sobretudo, que testifica em favor de alguém, apoiando a sua causa, isto é, tornando-se o seu advogado de defesa. É uma palavra corriqueira no grego secular corrente. Demóstenes (De Fals Leg 1) fala das impertinências e interesses mesquinhos dos advogados do seu tempo (parakletoi - no plural), os quais serviam às suas ambições pessoais, em vez de pensar no bem público [Será que hoje é diferente?] Diógenes Lacécio (4:50) fala de um ditado irônico do filósofo Bion. Uma pessoa muito charlatã procurava sua ajuda em determinada questão. Bion disse: “Farei o que você me pede, mas somente se me enviar alguém para defender a sua causa (no caso um parakletos), mas você mesmo fica em casa.” Quando Filo conta a história de José e seus irmãos, ele diz que, quando José os perdoou do mal que estes lhe haviam feito, falou: “ofereço anistia por tudo que me haveis feito e não necessitais de outro parakletos.” (Vida de José, 40). Isso quer dizer que os irmãos de José não careciam de alguém que implorasse misericórdia em seu favor.
Filo conta como os judeus de Alexandria eram oprimidos por certo governador e por isso decidiram levar sua causa ao imperador, dizendo: “Devemos encontrar o mais influente parakletos, mediante o qual o imperador nos seja favorável” (Leg. in Flacc. 968 B).
Tão comum era esta palavra que penetrou sem qualquer modificação em alguns idiomas [Em Português como paráclito] que não conseguiram uma tradução para a mesma e, simplesmente, adotaram-na. As versões siríaca, egípcia, árabe e etíope do Novo Testamento conservam a palavra original. Os judeus adotaram-na especialmente com a significação de advogado, defensor. Eles a usavam em sentido oposto a acusador. Até mesmo os rabinos têm uma idéia do que poderia ocorrer no dia do Juízo Final: “Um homem que guarda um mandamento da Lei tem se tornado um parakletos; um homem que quebra um mandamento da Lei se torna um acusador”. Diziam eles: “Se alguém é convocado diante de um tribunal para responder por uma grave acusação, ele precisa de um poderoso parakletos para se salvar; o arrependimento e as boas obras são os seus parakletoi diante do juízo divino”. [Teoria judaica comprada pela ICR, colocando Maria e as boas obras como parakletoi dos seus membros]. Prosseguem os rabinos: “Toda justiça e misericórdia exercidas por um israelita neste mundo tornam-se em muita paz e parakletos entre ele e o Pai celeste.” Assim, dizem eles que a oferta pelo pecado era um parakletos diante de Deus, defendendo a sua causa diante Dele.
Foi com tal significação que o vocábulo chegou aos cristãos, podendo ser usado literalmente. No tempo das perseguições e dos mártires, um defensor cristão chamado Vécio Epagatos defendia habilmente a causa daqueles que eram acusados de pertencer ao Cristianismo. Ele “era um advogado (parakletos) para os cristãos porque tinha dentro de si o Advogado, isto é, o Espírito Santo.” (Eusébio, História Eclesiástica 5:1). A Epístola de Barnabé (20) fala sobre os homens maus que advogavam em favor dos ricos, com jurados injustos contra os pobres. O autor da 2 Clemente 6:9 indaga: “Quem será o teu parakletos, se ainda não está claro se as tuas obras são justas e santas?”
Um parakletos tem sido definido como “alguém que marca presença diante dos amigos”. Mais de uma vez esse vocábulo aparece no Novo Testamento com o grande e precioso conceito de que Jesus é o Amigo, o Advogado e o Defensor do homem. Numa corte marcial militar o oficial que defende o soldado raso de uma acusação é chamado “amigo do prisioneiro”. Nesse caso, Jesus é o nosso Amigo. Paulo diz que Ele “está à direita de Deus, e também intercede por nós”. (Romanos 8:34 ACF). O autor da Epístola aos Hebreus diz: “Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles... Porque Cristo não entrou num santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, porém no mesmo céu, para agora comparecer por nós perante a face de Deus” (Hebreus 7:25 e 9:24 ACF).
O que é mais importante é o fato de que Jesus jamais perdeu o Seu interesse pelos homens. Não devemos achar que Sua Vida na terra, Sua Morte na cruz e Sua Ressurreição colocaram um ponto final em Sua relação conosco. Jesus continua se preocupando com os homens, intercedendo por eles, enquanto forem prisioneiros em seus vasos de barro.
Propiciação
João diz que Jesus é a propiciação por nossos pecados. O termo aqui usado é hilasmos. Esta é uma ilustração mais difícil de captar e entender. A imagem do Advogado (parakletos) é universal. Todos nós temos a experiência de um amigo que vem em nosso socorro. Porém a imagem de propiciação provém de sacrifício e é mais natural para a mentalidade judaica do que para a nossa. Vamos tentar entender os seus pressupostos básicos.
O grande objetivo de qualquer religião é a comunhão com Deus. É conhecê-lo como amigo e entrar no gozo - não com temor - de sua presença. Desse modo, chegamos à conclusão de que o problema supremo é o pecado, o qual interrompe a nossa comunhão com Deus, conforme (Isaías 59:2): “Mas as vossas iniqüidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça”.
Por causa desse problema existe o sacrifício, através do qual a comunhão com Deus é restaurada. Não é possível pensar em religião alguma, sem lavar em contra uma relação pessoal com Deus. Por isso é que os judeus levavam ao templo a oferta pelos pecados, de manhã e à tarde. Não era uma oferta por um pecado especial, mas pelo homem pecador. Enquanto existiu o templo, essa oferta foi levada, de manhã e à tarde. Os judeus apresentavam também suas ofertas a Deus pelos pecados particulares e por determinadas violações da Lei. Eles tinham o seu Dia da Expiação, cujo ritual era preparado no sentido de expiar todos os pecados, conhecidos ou não, pecados dos quais os homens tinham consciência e dos que não tinham.
Com esta explicação podemos nos aproximar da imagem da propiciação.
Como já dissemos, a palavra grega para propiciação é hilasmos e o verbo correspondente é hilaskesthai. Este verbo tem três significados: 1. - Quando tem um homem como sujeito ele significa aplacar, apaziguar alguém que tenha sido injuriado, ofendido e agravado, especialmente aplacar a ira de Deus. Mediante um sacrifício ou um ritual, um deus ofendido é aplacado ou apaziguado. 2. - Quando o sujeito do verbo é Deus, significa perdoar, dando a entender que é o próprio Deus quem provê os meios através dos quais a relação quebrada pode ser restaurada. 3. - Aqui temos uma terceira acepção do termo, em estreita relação com a primeira. O verbo pode significar, e freqüentemente acontece, levar a cabo alguma tarefa, algum ritual, mediante o qual desaparece a mancha da culpa. Um homem peca e logo contrai a mancha do pecado. Então ele precisa de algo (usando a metáfora de C.H. Dodd) que o desinfete e o capacite a entrar mais uma vez na presença de Deus. Nesse caso, hilaskesthai não significa propiciar, mas expiar. O vocábulo significa não tanto pacificar e aplacar Deus, mas desinfetar o homem da mancha do pecado, capacitando-o novamente a manter comunhão com Deus.
Então, quando João diz que Jesus é o hilasmos por nossos pecados, achamos que ele está resumindo, em um, todos esses diferentes significados. Jesus é a Pessoa em virtude da qual são removidas tanto a culpa dos pecados passados como a contaminação do pecado atual. A pena (ou castigo) é anulada pelo que Ele fez e a contaminação é eliminada. Ele nos traz o perdão pelos pecados cometidos e nos reveste de uma pureza que apaga nossas transgressões. A grande verdade fundamental oculta nesta palavra é que mediante Jesus Cristo a comunhão com Deus é restaurada e, em seguida, preservada.
Conforme João nos mostra, essa obra de Jesus foi levada a cabo, não apenas por nós, mas pelo mundo inteiro. Existe uma linha de pensamento que acentua a universalidade da salvação divina: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito...” (João 3:16). João confia em que, tendo sido levantado, Jesus atraiu para si todos os homens (João 12:32). Deus é Deus e deseja que todos os homens sejam salvos (1 Timóteo 2:4). Seria ousadia o homem querer colocar limites à graça e ao amor de Deus ou à eficácia da obra e do sacrifício de Cristo. O amor de Deus excede em sua amplitude as medidas da mente humana e que, até mesmo no Novo Testamento, existe evidência de uma salvação, cujos alcances são tão vastos como o mundo!
William Barclay, “Comentário das Cartas de João e Judas”, 1958).
(N.T. - Aconselho aos amigos a leitura de dois artigos de Dave Hunt sobre o assunto: “Eis o Cordeiro de Deus” e “Cristo Morreu Por Nossos Pecados”. Somente a fé e a confiança em Cristo poderão nos levar à salvação. Mesmo porque se todos os homens serão salvos, para que, então, precisaríamos confiar na obra de Cristo na cruz e viver uma vida de retidão? Nesse caso, comamos e bebamos que amanhã seremos salvos!
Mary Schultze, fevereiro 2005