O leão, o urso e a raposa

 

Um leão e um urso capturaram um cervo, e em feroz luta, disputavam pelo direito de posse da presa. Após terem lutado bastante, cansados e feridos, eles caíram no chão, completamente exaustos. Uma raposa, que estava nas redondezas, a uma distância segura, estava observando calmamente a cena e, quando viu os dois animais caídos no chão e o cervo capturado, ali perto, passou correndo entre os dois e, de um bote, agarrou-o com a boca e desapareceu no meio do mato. O leão e o urso vendo aquilo, mas incapazes de impedir, disseram: “Ai de nós, que nos ferimos um ao outro, apenas para garantir o jantar da raposa!”


Moral da História: Algumas vezes acontece de alguém fazer todo trabalho pesado, e outro levar todo o lucro.

 

         Digamos que a floresta seja a igreja, que o pastor seja o leão e os crentes desejosos de colaborar na obra sejam o urso. Vou ficar com o papel da raposa, pois fico observando certas coisas dentro da igreja, colho o que é bom (os hinos clássicos e a pregação) e desapareço das festas e das reuniões comunitárias.

Muitos crentes se realizam trabalhando na igreja e muitos pastores pregam no púlpito que esta é uma condição sine-qua-non de um membro comprovar sua dedicação ao Senhor, além de entregar os seus dízimos e ofertas.

         Neste ponto, sou uma rebelde. Não entrego dízimo algum, pois o dízimo é lei do Velho Testamento e não do Novo. Paulo até amaldiçoa (Gálatas 3:10) os crentes que cumprem somente uma parte da lei (como entregar o dízimo, por exemplo) e não toda a lei, o que se aplica aos dizimistas, que comem carne de porco, não guardam o sábado judaico; enfim,  não obedecem aos 613 mandamentos da lei judaica. Os mais errados nestes itens são os pentecas... Crente que lê e entende as Cartas de Paulo - aos Romanos e aos Gálatas - fica livre de quase todos os engodos pregados nos púlpitos, principalmente pelos pastores das igrejas malaquianas.

        Outra coisa que não faço é trabalhar na igreja (assim como jamais aceitei um cargo de síndica no prédio onde resido). Vejo alguns irmãos se esforçando para desempenhar um cargo na igreja, porque o pastor vive cobrando isso no púlpito.  Eles acham que se não se esforçarem bastante na ajuda ao pastor (de graça, enquanto o pastor fatura um ótimo salário), Deus não vai abençoá-los. Se, em vez de ficarem ajudando nos trabalhos da igreja, esses crentes estudassem a Bíblia com o sincero desejo de crescer na graça e no conhecimento do Senhor, seria bem melhor para a organização. Porque um crente que conhece a Palavra, nunca procura o pastor para pedir conselhos e presta muita atenção às pregações do mesmo. A maioria dorme, enquanto o pastor fica papagueando os seus sermões, porque, de tanto trabalharem durante a semana, esses “obreiros” ficaram sonolentos, ao escutar a Palavra de Deus. O Senhor não precisa de crente trabalhando nos ministérios da igreja, mas de cristãos pregando o evangelho (entre os incrédulos) através do bom conhecimento da Palavra e do bom exemplo que ele dá na comunidade. A melhor pregação é a do bom exemplo.

        O cervo nesta adaptação é exatamente o cargo almejado na igreja. Por causa disso tem havido tais desavença nas igrejas que muitas delas rivalizam com a Igreja de Corinto, por Paulo considerada a mais carnal do Novo Testamento.

         Outra cosia que eu acho estranha é que alguns irmãos, que não me cumprimentam na igreja, me festejam tanto quando me encontram na cidade. Vamos arrazoar: se a igreja é um lugar de amor e comunhão, por que o pastor precisa mandar que os irmãos se cumprimentem, se abracem na hora do culto, digam frases decoradas ao irmão do lado, quando ele mesmo, quando nos encontra no recinto da igreja, mal nos cumprimenta? Não é um absurdo? Acho que é porque ele se acha superior, esperando que as ovelhas entrem na fila, simplesmente para receber um aperto de mão do “anjo” da igreja. Também aqui sou do contra. Não entro em fila para cumprimentar pastor algum, mas corro para casa, onde me espera um bom almoço (após o culto matutino) e alguns e-mails dos irmãos mais chegados, para serem lidos e respondidos.

         Muitas mulheres da classe média vão à igreja com roupa, sapatos, bolsa e adereços  combinando. Uma das irmãs chega a usar sapatos cor de rosa, com 7,5 cm de plataforma, ditando moda ali dentro (imitando a esposa do pastor), embora  já tenha quase a minha idade. Quando ela conseguiu um cargo importante na igreja, deixou de sentar perto de mim e de me cumprimentar. Certa vez, ela me contou uma fofoca brava do pastor contra mim; dei uma risadinha sarcástica e disse que não me importava, acrescentando: “falem de mim, mesmo que falem mal”.

         A igreja organizada em denominações e mantida  entre 4 paredes está agonizando e só não morreu ainda por causa dos cristãos superficiais! Ela só é importante agora para os mais pobres financeiramente e para os biblicamente iletrados, pois, quem gosta de ler a Bíblia e quem tem uma instrução secundária e um computador ligado na INTERNET não precisa mais dessa igreja. Por outro lado, a igreja virtual atinge os 4 cantos do mundo, principalmente por quem fala mais de um idioma, como o Inglês, o Espanhol e o Alemão. A igreja do futuro será exclusivamente a virtual, onde conhecemos irmãos que aceitam ou não a nossa teologia; não nos incomodam com olhares indiscretos; não fingem nos desconhecer (dentro das caixas de recebimento e remessa de e-mails); enfim, não precisam ser hipócritas. Meus irmãos mais caros são exatamente aqueles que escolho como amigos, na INTERNET. Isso porque eles não podem ver minhas bolsas sob os olhos, (após uma noite de insônia); minha roupa de casa e meus cabelos crescendo sem tintura; minhas unhas não cuidadas e minha cara de mau humor, quando estou teclando, com uma panela no fogo e muita raiva do fogão! Quem não me conhece, me compra mais facilmente! Por isso é muito mais saudável manter meus amigos e irmãos na fé bem longe de mim (como uma filha que tenho na Holanda e outra no Japão, as quais me telefonam de lá). Porque se os irmãos conviverem todo domingo, cara a cara comigo, logo irão sentar num lugar bem distante do lugar onde me sento, há 12 anos!

 

Mary Schultze, 03/05/2008.