Mãe, eu me lembro...
Mãe, eu me lembro de você, quando passava minhas férias no Crato, na época do Curso Científico, e você levantava à noite para cobrir uma jovem de 17 anos, não por causa do frio (pois o clima era quente), mas temendo que os mosquitos me picassem e eu voltasse marcada para Fortaleza...
Eu me lembro de você, nos anos 70, em Jardim Primavera, naquela noite de Natal, lá em casa, escandalizada com o excesso de presentes que meu marido e eu havíamos comprado para nossa filha Margarete, e da exclamação que você fez, ao abrir a porta da nossa Brastemp duplex e contar ali 12 tipos de frutas tropicais.
Eu me lembro de você, me chamando “maluca”, ao ver que eu lavava as vassouras com “Omo”, passava a ferro o pano de chão alvíssimo (pelos dois lados), lavando todas as frutas e verduras e até o feijão manteiga com sabão, antes de o cozinhar. Daí concordar com meu marido, que eu era uma “psicastênica”, depois que ele disse o que esse “palavrão” realmente significava! Mas... de quem havia eu herdado essas manias?
Eu me lembro de você, trajando uma camisola bordada no Ceará, usando chinelos de seda da mesma cor, porque sempre teve um gosto de rainha, e tudo seu devia combinar maravilhosamente! Estávamos num quarto de hotel (4 estrelas), em Belo Horizonte, e você se achava muito importante, porque jamais havia se hospedado num hotel tão chique! Nos restaurantes, demonstrava nobreza ao segurar os talheres e os copos. Seu sangue azul se manifestava em toda parte! Mãe, como você era elegante e discreta!
Eu me lembro de você, lá em Fortaleza, quando festejávamos os seus 68 anos (16/08/1976), segurando um bebê de 3 dias (colocado, pouco antes, dentro de uma caixinha, sobre o muro de sua casa), chorando de emoção, e mo entregando para que eu o adotasse. Era uma menina, a quem demos o nome de Rose (você é Rosa!), que se tornou uma bela jovem e hoje tem duas filhas lindas!
Eu me lembro de você, Rosa e eu, nas ruas 25 de Março e Zé Paulino, em S. Paulo, fazendo compras. Tantas compras, que depois tínhamos sempre de tomar um taxi para chegar em casa, mesmo Rosa morando no centro. Você era um tanto consumista, Rosa também, e eu... Bem herdei a soma do consumismo de ambas...
Eu me lembro de você, trocando de roupa, pelo menos 4 vezes, a fim de ser fotografada na grande festa dos seus 80 anos de idade (1988), enquanto eu, com 59, muito deprimida, me achava velha demais, tendo usado o mesmo vestido durante dois dias seguidos, o que deixou minhas elegantíssimas irmãs e cunhadas muito escandalizadas!
Eu me lembro de você, em maio de 1990, brigando comigo, quando exigi dormir no quarto de Rosa, que havia falecido na véspera, porque ela era sua filha predileta (e minha irmã favorita) e você não queria me ceder o quarto dela, o que me deixou enciumada, me fez perder a calma e dizer-lhe umas “verdades”, embora soubesse o quanto você estava sofrendo com a maior perda de sua vida. Lembro-me que Dária, minha irmã tão meiga e abnegada, que eu sempre adorei, ficou aborrecida comigo e me olhou de um modo como se dissesse: “Veja como fala com a nossa mãe!” Ó, Mãe, eu nunca me perdoei por ter-lhe aumentado o sofrimento, naquele dia tão triste! Dária faleceu em 1999, sabendo que eu ainda me culpava daquelas palavras que lhe havia dito, quando ambas estávamos sofrendo dolorosamente a perda de Rosa...
Eu me lembro de você, quando estive pela última vez em Fortaleza (1992). Fui criticada por algum motivo, fiquei aborrecida (sem controlar a agressividade herdada do meu pai) e disse que jamais voltaria ao Ceará, o que realmente cumpri, embora forçada pelas circunstâncias adversas com que Deus me tem disciplinado! (Hebreus 12:5-11) e porque Dária me pediu para não vê-la doente.
Eu me lembro de você, recusando atender-me ao telefone, porque eu fora tão malcriada que até viajara para os States sem me despedir de você, que ficou três meses sem querer ouvir minha voz, até que forcei um sotaque estrangeiro, você pensou que era outra pessoa e atendeu. Quando continuei falando com sotaque germânico, você deu uma risada e falou: “deixa se ser besta, menina, eu sei que é você”. Fizemos as pazes, até aquela noite de domingo (1996), quando eu lhe disse que as aparições da “Virgem Maria” não passavam de engendrações demoníacas, você me chamou de herege, bateu-me o telefone na cara e não quis falar comigo, por um bom tempo. Mas houve um dia, depois do AVC (1998), em que você, ao telefone, grunhiu uma frase, dizendo: “Filha, eu te amo!” E eu chorei de alegria, não apenas por causa da declaração de amor de uma tão preciosa mãe, toda entrevada em cima de uma cama, mas porque você já havia deixado o Catolicismo Romano e se entregara a Jesus Cristo, que agora seria o seu único, total e suficiente Salvador. Tanto que, naquela mesma noite, quando a filha caçula convidou-a para rezar a Ave-Maria, você, grunhiu: “Maíía, não!” Agora você já não era mais uma idólatra! Era uma cristã autêntica, filha do Deus vivo, irmã e co-herdeira com Cristo dos tesouros celestiais. Valeu a pena eu ter traduzido o livro de Rick Jones (Por amor aos Católicos Romanos), cujo título coloquei em homenagem a você e Dária, pois ambas deixaram a “santa madre” e se colocaram aos pés do Supremo Pastor.
Por tudo isso, mãe, é que nesta sexta feira 25/03/05, mesmo sabendo que você foi se apresentar diante do Supremo Juiz, Jesus Cristo, eu me sinto em paz, porque sei que você está realmente salva, ao lado dos santos, lá no céu... Não por ter tido uma vida reta e digna, diante de Deus, dos seus filhos e de todos, o que lhe valeu o nosso amor e respeito, mas porque encontrou Jesus Cristo, a verdade que a libertou da mentira religiosa. Por isso, hoje Ele a levou salva para o Seu reino celestial (2 Timóteo 4:18).
Este foi um dia muito triste para mim e também para meu irmão Gil e minhas três irmãs, Odete, Savany e Bernadete, porque perdemos nossa mãe, mesmo sabendo que você foi se encontrar com Jesus. Assisti a um belo culto em nossa PIBT, chorando de saudade, enquanto escutava belos sermões intercalados de leituras bíblicas e cânticos ilustrativos do sacrifício de Cristo na cruz. Estava chorando baixinho, mas em meu coração havia paz, porque sei em quem tenho crido... Porque sei que você está no céu, onde brevemente, se Deus permitir, estarei chegando, para me encontrar com você e os demais. Então, voltaremos juntas para o Reinado Milenar, quando o Rei Supremo do universo será o Senhor Jesus Cristo, sem nenhum desentendimento, pois no Seu Reino de Justiça nós duas teremos realmente o amor e a paz de Cristo que excedem todo entendimento! (Efésios 3:19; Filipenses 4:7) Mary Schultze - 25/03/05.