Minha cama voltou!
Quando chegamos à terceira idade, tudo que nos lembra a juventude parece maravilhoso e nos leva de volta aos bons tempos em que ainda não tínhamos rugas no rosto, não sofríamos os achaques da velhice e nem estávamos a um passo da eternidade, como agora...
De repente, tudo que antes nos parecia sem importância, como as lembranças dos anos "teen", dos amores passados e até das broncas paternas, volta à nossa memória e nos deleitamos em recordar o que antes havíamos sepultado no cemitério do passado.
Não posso queixar-me da vida. Sempre acreditei na existência de um Deus Supremo, Criador do Céu e da Terra, e que Jesus Cristo é o Seu Filho Unigênito e morreu por mim, tendo me dado completa salvação, naquela cruz em que foi crucificado por amor da humanidade pecadora.
Meu pai era bom e me amava muito, chamando-me "princesa", pois eu era a mais velha de uma família de nove filhos. Sempre tirei as melhores notas nos colégios (e no seminário) onde estudei, dando alegria a meus pais. Minha saúde tem sido mais firme do que o Pão de Açúcar, meus dentes ainda são quase todos naturais e meus cabelos continuam fartos, daí não precisar usar truque algum para encobrir a calvície. Minha mãe, aos 96 anos, ainda é viva, o que me garante pelo menos umas duas décadas de vida, se eu tiver a mesma longevidade. Enfim, considero-me uma privilegiada, pois tenho o essencial para viver, sem precisar economizar o preço do restaurante, e sem nenhuma dívida que eu não possa pagar em dia. Tenho duas filhas e cinco netos lindos. Deus tem sido bom demais para mim e só posso agradecer tudo que Ele tem feito em meu favor.
Há muitas pessoas e coisas que eu perdi e me trazem saudade. Meu marido, meu pai, minhas duas irmãs prediletas (Rosa e Dária), algumas amigas e outras pessoas que me deram alegria neste mundo. As camas do meu casamento minha filha mais nova, que as havia herdado, achou de queimar porque não havia espaço na casa dela. Foi duro perdoar tal sacrilégio, mas consegui fazê-lo. Minha cama de solteira, do tempo em que ainda vivia com meus pais (até o início de 1947) fora "herdada" por Rosa e depois por Dária (que já estão no céu, me aguardando). Era muito linda! Jamais consegui esquecer a beleza e simplicidade daquela peça, que não via há mais de meio século. Ela estava guardada em minha lembrança, embrulhada no papel acetinado da saudade e amarrada com o fio de ouro da emoção que senti quando a ganhei de meu pai. Era a primeira jovem da família a possuir uma cama tão linda! A maioria dos jovens, no interior do Ceará, dormia em rede e ter uma cama de verdade era quase um símbolo de nobreza. Amei aquela cama!
Na semana passada, parei em frente a um bazar paupérrimo, na Av. Lúcio Meira, quando vi... minha cama à venda. Era igualzinha e meu coração começou a pular de alegria. Entrei, comprei, paguei e vim bailando, ao som da música dos sonhos da mocidade, para o meu apartamento, que estava em obras. Três dias depois o rapaz me trouxe o precioso objeto. Dei a cama moderna para Luísa, minha neta de oito anos. Comprei um colchão ortopédico "Epeda" lindíssimo (devia se chamar "é pedra", pois é meio duro), limpei a cama duas vezes com um pano úmido. Depois passei hidratante "Monange'" e ela ficou novinha em folha. Coloquei o colchão novo, roupa de cama nova, borrifei tudo com uma lavanda alemã bem gostosa e à meia-noite, quando já havia colocado a casa em ordem (sempre que os trabalhadores saíam, eu fazia uma boa limpeza na mesma), deitei-me na cama perfumada. Senti-me novamente jovem e comecei a louvar e glorificar o Nome de Jesus pelo presente que Ele me enviou.
Minha cama voltou! Minha cama da mocidade, e ainda para um apartamento reformado, com muita coisa nova e bonita. Como Deus é bom! Minha cama voltou e eu voltei a me sentir jovem e linda, como antigamente!
Mary Schultze, julho 2002
Atualizado em 08/12/04
10º. Cap. do Livro “D. Mariquinha em Prosa e Verso”