O Mocotó do Noivo

 

O Coronel Fulgência era dono de muitas fazendas no interior do Rio Grande do Norte e podia se dar ao luxo de mandar seu filho Leonardo estudar em Paris. O moço lá ficou alguns anos, formou-se em Medicina e voltou à sua terra natal.

         A mãe de Leonardo era mulher piedosa, dessas que estão sempre ajoelhadas diante do oratório da família e entregam gordas somas de dinheiro ao padre da paróquia, a fim de conseguirem indulgências que lhes diminuam a pena do purgatório. Confessam seus pecados, certas de que o padre tem poder para perdoá-los, e engolem a hóstia, pensando que é o corpo de Cristo. Essas pobres almas ignorantes da verdade se dedicam mais a Maria do que ao próprio Salvador. Elas são ensinadas desde meninas que sendo Maria a mãe de Deus, o Deus Jesus tem de obedecer às suas ordens maternas, mesmo porque Ele, coitadinho, não passa de um bebezinho indefeso, que ainda suga o leite do peito materno da “eternamente virgem”.

         Mal chegou em casa, o pai de Leonardo veio-lhe com uma proposta estranha. Queria que ele casasse imediatamente com a Rosinha, filha do Coronel Trajano, seu vizinho e melhor amigo. Para tanto, organizou uma festa e convidou todos os moradores dos arredores, a fim de oficializar o noivado do rapaz. Quando a noiva chegou, acompanhada dos pais, Leonardo levou um susto. Era baixinha, gorducha, usava óculos tipo fundo de garrafa, tinha o cabelo amarrado num rabo de cavalo com fita cor de rosa berrante, e era tão tímida e iletrada que mal sabia responder as perguntas que o moço lhe dirigia. Comparou-a às garotas de Paris, todas desenvoltas, cheias de charme e cultura, e pensou: “Meu Deus, em que buraco estou me metendo! Preciso sair dessa, imediatamente!”

         Na mesa enorme havia todo tipo de comida nordestina, desde o baião-de-dois até o mocotó de boi, que, segundo a crença popular, era uma espécie de “Viagra” dos anos passados. Leonardo sentou-se ao lado do pai, a fim de receber as homenagens de médico recém-formado em Paris e futuro herdeiro da fazenda do vizinho, através do casamento com aquele “bofe” sentado à sua frente. Sentia comichões pelo corpo e decidiu fazer algo que chocasse de tal maneira os presentes, que o pai da noiva desistisse do casamento.

         Se bem pensou, melhor agiu. Levantou-se da mesa e começou a rebolar ao redor da mesma. Se havia coisa detestável naquele tempo era homem efeminado! Em seguida, apanhou um osso de mocotó, todo engordurado, foi chupando-o sofregamente e falando com voz cavernosa e repetida como um “Bolero de Ravel”: Isto é creme de beleza, creme de beleza, creme de beleza! Foi até a futura noiva, derramou-lhe uma porção generosa de gordura no decote, emplastrou-lhe o cabelo e a fita com aquela gordura misturada ao colágeno, dizendo: “Lá em Paris as moças bonitas usam creme de beleza... creme de beleza...”

Todos os convidados pararam de respirar, aguardando uma reação do pai do noivo, mas este ficara estático, achando que estava apenas dormindo e tendo um pesadelo horroroso, do qual iria despertar a qualquer momento.

         Quando o pai da noiva viu que o ambiente estava ficando irrespirável, levantou-se, puxou a mulher e a filha pelo braço e gritou: “Vamos embora, que esse doutor aí é doido varrido”. Os convidados foram se retirando, um a um, e, de repente, só restaram Leonardo, a mãe e o pai, estes completamente arrasados de vergonha e o moço aguardando a reação do velho fazendeiro. A mãe se benzia o tempo todo, repetindo: “Vixe Maria! Foram dormir e no dia seguinte Leonardo gastou um sabonete tipo “Vale Quanto Pesa” inteirinho apara retirar a gordura que se acumulara em todo o corpo. O terno parisiense teve de ser queimado no quintal da casa, pois ficara completamente imprestável.

Foi quando o pai chamou Leonardo para uma conversa e falou: “Meu filho, entendo que você fez tudo aquilo para se fazer de maluco, a fim de não casar com a Rosinha. Mas não precisava me matar de vergonha desse jeito. Agora, para salvar a minha honra, vou lhe mandar para o Recife, onde você poderá montar o seu consultório e casar com quem achar que lhe agrada”.

         Leonardo fez as malas na maior euforia. Meses mais tarde, quando já estava completamente entrosado na capital pernambucana, conheceu uma jovem de família evangélica e pediu-a em casamento. Houve uma batalha tremenda da parte das duas famílias. Os pais do moço achavam que a jovem sendo protestante, portanto “filha do diabo”, iria dar-lhes netos amaldiçoados. Os pais da moça, por sua vez, achando que o rapaz era católico, cheio de superstições e apegado aos dogmas de Roma, iria ser motivo de tropeço na vida da filha. Ai estava uma repetição do drama de Shakespeare, “Romeu e Julieta”.  Entretanto, depois de conhecerem bem o moço, consentiram no casamento. E o melhor de tudo é que o Espírito Santo, que havia traçado no céu aquele matrimônio, foi conduzindo Leonardo à igreja, todos os domingos, com a família da moça, e tocando-lhe o coração através das mensagens maravilhosas daquele pastor evangélico e da leitura da Bíblia, que a família costumava fazer diariamente. Finalmente, ele se entregou a Jesus, passando a ser um dos médicos cristãos a serviço de Cristo e da comunidade recifense. Louvado seja Deus! ... Romanos oito, vinte e oito!

 

Mary Schultze

Cap. 10 do meu livro “Colar de Pérolas”