Mulheres no púlpito
Após ter lido o meu artigo “Um Presente de Grego”, o irmão CMO me enviou um e-mail indagando: “Mulher pregadora???!!! Há-de me dizer onde tem suporte bíblico para tal!...” A esse lusitano (pela maneira de escrever), respondi com impaciência: “Se não tem suporte bíblico, pelo menos, com tantos pregadores semi-analfabetos grassando por aí, quando alguém encontra uma mulher preparada na Bíblia, como eu, que já traduzi mais de 6.000 páginas, inclusive o Comentário Bíblico do Novo Testamento de John Wesley e leio a Palavra Santa em três idiomas, até que dá para entender que me convidem para pregar. Só que nunca aceito, pois não nasci para isso. Minha vocação é escrever e traduzir assuntos bíblicos do Inglês e nisso o Senhor tem aproveitado bastante o meu talento, o que é motivo de louvor ao Seu Santo Nome.”
Agora vamos analisar com mais calma a presunção desse fundamentalista fanático, que deve ser um tipo para lá de machista, vasculhando na Bíblia tudo que possa rebaixar a mulher.
Primeiro, se ele é casado, a esposa deve sofrer um bocado em suas mãos, por causa do seu machismo. Segundo, se à mulher somente é permitido o que a Bíblia menciona, então a esposa dele não pode nem deve usar calças compridas, mas longos vestidos cobertos de túnicas soltas. Também não pode nem deve ter acesso ao rádio, nem ao telefone, nem à TV, nem ao computador, nem aos aparelhos eletro-domésticos, como: geladeira, liquidificador, espremedor de frutas, batedeira de bolo, forno micro-ondas, lavadora de roupas e louças, fogão a gás, etc., pois isso a Bíblia não menciona. Terceiro, como Jesus não condenou a “mulher adúltera”, aconselhando-a, em seguida, a não voltar a pecar, ele também fica obrigado a perdoar a esposa, se ela vier a cometer algum adultério. Quarto, como Jesus expulsou sete demônios de Madalena, ele deve levar a esposa a uma IURD, a fim de que um “pastor” daquela denominação expulse algum demônio que sua esposa, porventura, venha a incorporar. Se bem que, sendo uma cristã verdadeira, ela jamais poderia ser possuída por um demônio, pois, como diz a 1 João 5:18: “todo aquele que é nascido de Deus não peca; mas o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo, e o maligno não lhe toca”. Quinto, a esposa dele não pode nem deve trabalhar fora de casa, a fim de complementar o orçamento doméstico, pois isso não era permitido no contexto bíblico. Sexto, a esposa dele jamais poderia ser uma diaconisa, pois os fundamentalistas fanáticos dão mil e uma explicações, garantindo que Febe nunca foi diaconisa, mas apenas “uma serva na Igreja de Cencréia” (Romanos 1:16). Sexto, que Jesus não deveria, jamais, ter aparecido a Madalena, pois esta era mulher e mulher no contexto bíblico era apenas um zero à esquerda. Sétimo, finalmente, que as heroínas do Velho Testamento deveriam ser todas deletadas da história bíblica, pois mulheres como Miriam, Débora, Ester e outras não poderiam, de modo algum, tomar qualquer iniciativa, nem mesmo para salvar a pátria!
Se mulher não pode nem deve pregar no púlpito, o que iríamos fazer com algumas mulheres maravilhosas que conheço no Estado do Rio de Janeiro? Primeira - D. Tabita Kraule Pinto, reitora do Seminário Teológico Betel, onde estudei Teologia (Reitora? Será que esse ofício de mulher reitora está na Bíblia?) D. Tabita, com quase 82 anos de idade, é a melhor pregadora que já escutei em toda a minha vida. Segunda - A senhora mãe do pastor da PIBT, cujo filho deve ter com ela aprendido a ser um excelente pregador, seguindo a vocação e o exemplo materno. Terceira - Almerinda (dois diplomas universitários, professora da FESO), cuja pregação por mim ouvida, há quase dez anos, num culto, fez-me decidir vir morar nesta cidade florida, onde tenho trabalhado para o Senhor e me sentido feliz e realizada. Quarta - Susan Hodge, erudita bíblica, pregadora do evangelho no antigo CCC (Centro Cultural Cristão), com uma autêntica vocação herdada do avô inglês, um santo pregador, que esteve percorrendo o Brasil inteiro, nas primeiras décadas do Século 20, ganhando milhares de almas para o Senhor e plantando muitas igrejas neste país continente. Quinta - Silvânia Pimentel, que tendo pregado num culto de aniversário aqui em casa, deixou minha filha alemã encantada com a sua maneira de entregar a mensagem.
Diante de tais evidências, só lamento que esse irmão CMO seja tão fanático a ponto de discriminar a mulher, muito mais do que Paulo o fez, naquele antiqüíssimo contexto da Igreja Primitiva, quando a mulher ainda era apenas uma escrava do marido e uma geradora de filhos, que eram “o fruto do ventre e o galardão” do mesmo, conforme o Salmos 127:3. Isso porque, nesse tempo, a população do mundo era de poucas almas e não de seis bilhões, como a de hoje!
Mary Schultze, maio 2004