Ninguém é de ferro!
Quando apresento minha filha alemã a alguém, aqui em Terê, ela depressa completa: "filha biológica, pois minha mãe tem mais de cem 'filhos' espalhados por aí". E faz um sinal de "entre aspas".
Eu amo e sou amada por meus filhos espirituais, porque eles não ficam perto de mim. Não conhecem meus defeitos, como os conhecem as filhas biológicas; por isso me amam bem mais do que mereço.
Um deles, pastor de uma igreja batista em Sergipe, me apelidou de "Princesa da Escrita". Para quem já foi chamada de "Serpente do Éden", "Peste" e "Megera do Teclado", além de outros epítetos contundentes, ser chamada de "princesa" é bom demais! Até me deu vontade de usar um vestido longo (e tenho uns seis), calçar um sapato dourado, usar jóias combinando com a cor do vestido e sair bailando pela casa, ao som da orquestra de André Rieu, acreditando que, de fato eu sou uma princesa!
Um dos filhos em Rio Bonito (RJ), enviou-me, há duas semanas, uma caixa com 20 Kg de presentes. E, neste final de semana, ele veio ficar comigo. Só falamos de Bíblia, pois ele é craque no assunto. Este eu chamo de "Meu Príncipe Encantado".
Um filho paulista costuma enviar-me lindas mensagens. Há muitos meses, ele me apelidou de "Joana Batista" e eu adorei! Várias vezes por semana ele me envia e-mails, contando "estórias" do tempo em que era um "penteca", com um extraordinário senso de humor. Ele é culto, inteligente e muito criativo. Vejam o que ele me escreveu a respeito do artigo de ontem: "O que há de belo na velhice":
"Coincidência este teu texto, mamie, porque hoje estava pensando em minha avozinha, que faleceu há muito tempo; era uma cearense como você e comeu o pão que o capiroto amassou, literalmente, para criar 11 filhos em profunda miséria e viuvez...
Fervorosa devota da 'santíssima virgem', eu me lembro de sua pequena figura singular, arqueada, vestida com roupas negras com bolinhas brancas, pesadíssimas e que não deixavam ver sequer os pulsos ou tornozelos. Rezava todos os dias por horas a fio em seu altar particular e em absoluto jejum, sempre de véu negro sobre o cabelo que nunca cortara desde a morte do marido nos anos 40, ajoelhada aos pés da enorme estátua negra com manto azul e coroa dourada, benzida pelo bispo local e que ficava em seu quarto acompanhada com outras imagens, muitas flores e velas que nunca se apagavam... Poucos na casa tinham acesso a este ambiente tão "sacro". Extremamente intolerante com palavras chulas, não admitia que se envolvesse o nome de Deus em vãs conversas mundanas. Era uma anciã também muito supersticiosa, além de grande parteira (nasci pelas mãos dela, assim como meus irmãos, primos e dezenas de outras crianças). Ela era também uma benzedeira 'forte', de mão cheia, e em sua casa havia um enorme jardim com muitas plantas aromáticas, medicinais e "benzísticas".
Eu me pergunto se o século 21 teria um
cantinho reservado para tão folclórica figura. A propósito, será que ela já saiu
do purgatório?
Em tempos tão virtuais, agradeço a Deus porque cheguei a conhecer gente que hoje
só figura em livros de contos. Imagine, você, quantas [dessas figuras] não
conheceu em sua frutífera existência!"
Não devo esquecer meus dois "filhos" favoritos. Dizem que mãe não tem favoritismo, que todo filho é amado do mesmo jeito? Isso é balela. Tenho dois favoritos, que eu chamo de "Primogênito" e "Secundogênito" - o PP e o Mil. O "Primogênito" é diretor do CPR e trabalhamos juntos há 12 anos, entre um tapa e outro. No início do meu trabalho voluntário, quando ele estava ensinando-me computador, certa vez se aborreceu, porque eu usava muito o mouse, deu-me um tapa violento na mão e gritou: "Largue o rato, sua gata!". Agradeci, é claro! Ser chamada de "gata" aos 67 anos de idade, foi bom demais!
O "Secundogênito" mora em Juiz de Fora. PP e eu fomos passar um fim de semana em casa dele e fomos tratados como um rei e uma rainha. Esse "filho" é quem revisa todos os meus trabalhos, mesmo que eu me considere boa em redação e gramática. Já revisei livros de gente importante; por exemplo, do presidente da UNIFESO, a nossa universidade, o qual ainda me encarregou de escrever o prefácio. O homem é um crânio e, se me confiou essa tarefa, é porque me respeita muito.
Pois, meu "filho" Mil encontra tantos erros em meus escritos que eu fico abismada! Ele tem mania de perfeição! É um Advogado, não como tantos de hoje, que não sabem sequer escrever a palavra "exceção". Neste caso, ele é uma exceção à falta de conhecimento de tantos que usam o título de "Doutor" e são péssimos no vernáculo. Na Europa, só quem faz um doutorado pode ser chamado "Doutor". Aqui no Brasil, qualquer rábula semi-analfabeto se auto-intitula "Doutor"... Do mesmo modo como centenas de analfabetos bíblicos exigem que os chamemos "pastores". Por isso, eu considero o Mil uma benção enviada por Deus, em meu ofício de cronista evangélica. Ele tem sido um dos motivos belos de minha "velhitude".
Tenho ainda outro "filho" que só falta me carregar no colo, quando vamos assistir a um estudo bíblico nos morros da cidade e ele me segura carinhosamente para eu não cair nos íngremes e escorregadios degraus, quando descemos desses lugares difíceis. Ele é meu companheiro nos almoços, aos domingos, após o culto em nossa igreja. Gosto de ficar sozinha, quando estou trabalhando; mas na hora do almoço, gosto de ter alguém ao meu lado. Durante a semana, vou almoçar no Oswaldo, mas aos domingos, esse "filho" tem me suprido de uma boa companhia e por isso louvo a Deus pela sua vida.
Bem, por hoje basta! Já tive aulas na UNIVERTI, almocei com a filha alemã e umas amigas, fiz compras com a filha, li e respondi umas 20 mensagens na Internet... E acabo de escrever mais um artigo para meus filhos. Agora a "princesa da escrita" precisa descansar, vendo algumas novelas baratas e o JN, pois já está na ativa há 12 horas e, aos 78 anos de idade, ninguém é de ferro!
Mary Schultze, 21/02/2008.
Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os
pecados, e nos purificar de toda a injustiça. (1 João 1:9)
...o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado. (1 João
1:7)