A Nordestina Alemã
Mary Schultze
1975/2005
A Nordestina Alemã
(Livrinho em prosa e verso narrando as aventuras de
uma cearense, por esse mundo de Deus)
Dedicatória:
Este Livro é dedicado às seguintes pessoas:
Minha mãe - Rosa
Se todo mundo decanta
sua mãe como rainha,
entre todas a mais santa
garanto que é a minha!
Meu Pai - Antero - Em memória
O cangaceiro galante
de minha vida não sai.
Empunha um fuzil brilhante
e parece com meu pai!
Meu esposo - Hans - Em memória
Bondoso e compenetrado
tive um marido alemão,
vinte e seis anos guardado
dentro do meu coração!
Meu irmão - Chico - Em memória
Quanta beleza e calor
havia em seu verde olhar!
CHICO sempre foi do amor
apologista sem par!
Minha irmã - Rosa Amélia - Em memória
Se além de bonita a ROSA
é flor que cheira tão bem,
minha irmã foi tão cheirosa
como o nome que ela tem.
Minha irmã Dária - Em memória
Tão meiga, linda e calada,
esta querida irmãzinha,
pra se tornar uma fada,
só lhe faltava a varinha!
Minha filha - Margarete
Flor duas vezes mimosa,
beleza de minha vida.
Meu lindo botão de Rosa,
minha doce Margarida!
Minha filha - Rosemary
Olhos negros e brilhantes,
como os cabelos, também,
com seus carinhos constantes
ela sempre me faz bem!
Minha Neta - Luciana
Vive chorando ou dormindo,
(boneca de porcelana)
mas tem um chorinho lindo
minha neta – Luciana.
Este netinha adorada,
tão frágil e tão mimosa,
veio do céu embrulhada
numa pétala de rosa!
Meus quatro netos:
Quando meu pai, com 18 anos de idade, foi pedir minha mãe em casamento, vovó QUITÉRIA, que reinava no Baixio dos Ferreiras, falou:
- Eu dou a mão da menina, mas você vai dar o enxoval. Quem quer moça bonita, mexe com os pés e com a bolsa.
E assim foi. Eu só imagino a simplicidade do enxoval. Meu pai não tinha onde cair morto!
Um dia eu estava tentando convencer o tio Quinco de que a Amazônia fica ao norte do Brasil e não “nas estranjas”, como ele dizia. Vovó perdeu a paciência com a minha teimosia e disse:
- Dadita, você é muito sabicholinha, mas dessa vez você perdeu.
E quando certo dia, me ouviu declamar o “Júlio César” de Shakespeare, no original, ficou muito preocupada e perguntou a minha mãe:
- Rosa, tu não achas que essa menina tá ficando ledeira demais?
Assim ganhei o apelido de “sabicholinha ledeira”.
Minha avó era nobre no nome, na pose, no sangue e, sobretudo, nas ações. Descendia, pelo lado materno, de algum judeu convertido à força ao Catolicismo Romano, lá pela Idade Média, pois nem tinha idéia de tal ascendência, que viemos a apurar em pesquisa feita após décadas, quando ela já estava no céu. Orgulho-me dessa parcela de sangue judeu, pois é o povo mais nobre e inteligente do mundo. E talvez por isso tão odiado e perseguido!
Quitéria era magra e tinha cerca de 1,70 m de altura. Cabelos longos e castanhos, olhos de avelã, sobrancelhas generosamente derramadas sobre os mesmos, lábios finos, num rosto maravilhoso. Era o meu tipo inesquecível e faria 110 anos de idade no ano 2.000. Casou com 11 anos de idade, teve 11 filhos e ficou viúva antes dos 30 anos. Criou os 11 filhos com determinação e carinho, ensinando-os a viver com dignidade. Jamais teve uma aventura amorosa depois da viuvez, nem casou novamente. Faleceu de câncer aos 74 anos de idade, quando adoeceu pela primeira vez na vida.
Quitéria nunca foi muito carinhosa comigo. Com os outros netos sempre se desmanchava em carinhos. Dizia que eu era muito “danadinha”, me chamava “Dadita” e continuava a não me dar cartaz. Talvez por isso é que eu a admirasse tanto e fizesse dela uma espécie de ídolo de minha meninice. Jamais conseguiria esquecê-la.
Quando fui ao Crato, casada com um Químico de Berlim, ela foi me visitar e lá ficou observando meu marido conversando com um “padre” alemão da paróquia de S. Miguel. Esse “padre” bebia mais cerveja do que meu marido, namorava as beatas solteironas da cidade e achava tudo “muito natural”. Tenho cá minhas dúvidas se ele era realmente um padre ou algum fugitivo de guerra nazista, daqueles milhares que o Vaticano enviou de contrabando, através de suas linhas de fuga, para a América do Sul. A “santa madre” devia isso ao seu amado Fuehrer Hitler. Afinal, como poderia ter ganhado tantos milhões de dólares com as ações que possuía em inúmeras fábricas de armamento bélico, na Europa e na América do Norte, se o “bigodinho” não tivesse organizado e deflagrado a II Guerra Mundial? “Heil Hitler!”, era o que os hierarcas romanos diziam o tempo inteiro!
Minha avó tinha nos fundos da casa uma capela, onde esse “padre” celebrava missa todo mês. Ela o cumulava de mil atenções e achava que ele era um verdadeiro santo! Só que esse “santo” um dia morreu esfaqueado num forró, lá pelo sertão de Pernambuco, naturalmente quando tentava desviar alguma mulher casada, nas barbas do marido ciumento. Nesse tempo minha avó já estava no céu e, portanto, não se decepcionou com o evento fatídico.
Minha avó Quitéria foi uma das pessoas mais fantásticas que eu conheci. Por mais que eu tenha me tornado esposa de alemão, jornalista, escritora, teóloga (pelo menos os tolos assim me chamam), pesquisadora, e aprendido a falar “com a língua enrolada”, jamais poderia chegar ao dedo mínimo do seu pé esquerdo. Ela mal sabia ler, mas tinha uma nobreza de caráter, uma pose de condessa, uma fleuma germânica, um modo tranqüilo de analisar as coisas, que eu nem posso me comparar com ela. Quando colocou minha filha Margarete (3 anos) ao colo, pela primeira vez, acariciou-lhe os cabelos louríssimos e falou: “Dadita sempre foi danadinha mesmo. Pois não é que arranjou um gringo de verdade e ganhou essa menina com cabelo de milho!”
Minha avó era diferente. Tinha nobreza de caráter e uma personalidade muito forte. Não compactuava com o mal e embora tivesse uma formação religiosa deficiente, por ser católica romana, era um símbolo de retidão e todos os seus familiares a respeitavam, como se ela fosse uma legítima representante de Deus na terra. Minha avó seria a “papisa” ideal para a Igreja de Roma, onde, na certa, teria implantado uma boa teologia moral, anulando, também, os dogmas do Concílio de Trento, ao exercer a sua infalibilidade “ex-catedra”.
Vó, eu fiz o máximo para conquistar o seu coração de granito. Sei que você jamais gostou de mim como gostava daquela porção de outros netos, porque eles morriam de medo de você, enquanto eu sempre a enfrentava de cabeça erguida. Acho que por sermos tão parecidas você me manjou desde cedo e pensou: “com a Dadita eu nunca vou poder. Então, farei de conta que ela não existe”. Pois é isso, vó. Eu tenho tratado meus netos com a maior distância, para ver se no final da vida, ou depois que eu morrer, eles me darão o cartaz que estou lhe dando. Porque de avó objeto o mundo está cheio. Não quero engrossar o rol dessas avós. Quero ser mais respeitada do que amada, mesmo porque essa história de neto amar avó é conversa pra boi dormir! O que importa a todos eles é isso: “Vó, me dá um dinheiro aí!”
Meu Pai
Nascido em 1909, meu pai - Antero Macedo - era, até 1976, quando fui lançar a primeira edição do “Cubos de Gelo”, o homem mais bonito do Crato. Alto, moreno, com uma farta cabeleira negra e olhos verdes. Minhas colegas do Liceu do Ceará faziam fila para ganhar um beijo dele, quando ia me buscar à saída das aulas. Ele era um bom repentista e se dele não herdei a beleza física, pelo menos herdei a facilidade de improvisar versos. Um dia lhe deram este mote para ele glosar, em cinco minutos, e vejam o que saiu de sua verve:
Mote: Toda mulher janeleira
namora que cai de costa!
Glosa: Quando a gente vive alegre,
no gesto o prazer encosta.
Lá da casa da rameira
quase todo mundo gosta.
Quem não quer ter prejuízo,
quando teima, não aposta.
Professores de primeira
sempre deram tal resposta:
Toda mulher janeleira
namora que cai de costa!
Quando eu estava no ginásio, ele me pediu que lhe ensinasse Inglês. Começamos, assim, a primeira aula:
G-o-o-d... pronuncia-se “gud” e significa BOM.
F-o-o-t... pronuncia-se “fut” e significa PÉ.
B-o-o-k...pronuncia-se “buk” e significa LIVRO.
Meu pai perdeu a paciência e falou:
- Minha filha, não quero mais aprender esta língua de doido, não. Uma língua que escreve “gato”, pronuncia “cachorro” e significa “vaca”, isso é coisa que se aprenda?
Entre 1948 e 1950, depois de vender sua loja “A Nova Aurora”, ele foi negociar com ouro e pedras semipreciosas, no norte do Brasil. Sempre que voltava, nos trazia lindos presentes. O mais precioso de todos foi uma sacolinha de morim, contendo um quilo de ametistas brutas, que logo distribuí entre as amigas. O mais bonito foi um par de brincos, de ouro e jacarandá, imitando abelhas. Ao me entregar o mimo, papai falou piscando seus olhos de esmeralda:
Paguei mais de vinte e cinco
pelo parzinho de abelhas.
Pois mulher que não tem brinco,
pra que diabo quer orelhas?
Ele era assim. Lindo, elegante, cheio de verve. Não perdia oportunidade de dizer coisas engraçadas, nem mesmo durante as refeições, que em nossa casa eram muito solenes. Um exemplo:
Minha filha magricela,
dona do meu coração,
passe depressa a tigela
que eu quero comer feijão!
Resposta:
A tigela de feijão,
senhor meu pai, vou lhe dar,
mas me passe o macarrão,
que eu preciso engordar!
No último ano do ginásio, fiz uma coisa horrível. Saí cedinho de casa, dizendo a minha mãe que ia para o colégio, mas fui com uma colega passar o dia no sítio de minha avó. Na volta, lá pelas cinco horas da tarde, tendo de vencer 7 km a pé, resolvemos tomar emprestado um cavalo... e foi muito pior. O animal galopou demais e nos atirou em cima de uma cerca de arame farpado. Ficamos muito machucadas e, só à noite, conseguimos chegar em casa. Nossos pais estavam aflitos à nossa procura. Quando me viu entrar toda arranhada, vestido em frangalhos, minha mãe teve um acesso de fúria (que disfarçava o alívio) e quis me dar uma grande surra. Papai, que era meu chapa, protestou:
- Você tá doida, Rosa? Nossa filha morrendo por causa de um desastre e ainda ser castigada? Deus já a castigou demais!
Em 1962, meu pai veio do Crato visitar a filha cearense casada com um alemão. Fomos a uma festa junina no Clube Primavera (eu ainda era católica) e aproveitei para lhe mostrar, de longe, todos os conhecidos, assim:
- Papai, aquela é Bicke, minha costureira belga. O casal alemão que lhe apresentei foi nosso senhorio, quando morávamos de aluguel. O homem moreno de bigode, que está bebendo chope, é o nosso médico austríaco, e se chama Walter Reichl. Veja como a esposa dele é linda! Aquele homem que está próximo ao balcão do chope é húngaro. Quando o Schultze e eu éramos noivos, ele tinha um cineminha em casa e a esposa dele cozinha divinamente. Então, íamos lá, comer gulash húngaro, e ficávamos no escurinho, vendo filmes do Carlitos. O rapaz louro é Martin, suíço, casado com aquela morena amazonense. Já o rapaz de blusão de couro preto, apesar de louro, é cearense, como nós. A moça morena é Valéria, iugoslava. O homem que está comendo com aquele gordão é o marido dela, italiano do Egito.
Aquela velhota gorda, que está no mesmo grupo, é a polonesa chata que matou nosso cachorro Sherlock. O casal com dois garotos lourinhos que estão brincando com a nossa filha é tcheco. Ele se chama Killer e dizem que o seu café da manhã é uma garrafa de Brahma. Todos que estão naquela mesa do centro são judeus. Não há anti-semitismo aqui. Aliás, quase todos estão no Brasil exatamente por causa de Hitler, portanto há um sentimento de união entre eles.
Apesar da má fama de Caxias, este bairro só tem gente boa. Aquele homem de terno cinza e capa preta é o convidado da noite - Tenório Cavalcante. O homem que está com ele é Nelson Cintra, fundador do bairro, o qual, além de corretor de imóveis, é também professor de música.
O cavalheiro que lhe apresentei – e que não fala uma palavra de português e foi trazido pela Solly - é americano e o outro, que não quis comer frios sem antes perguntar se era carne de vaca, é hindu. Veja como são as coisas. Os judeus não comem carne de porco e os hindus não comem carne de vaca porque este é um animal sagrado. Brasileiro é que é sabido, hem?
Meu pai coçou a cabeça com impaciência, me olhou com aqueles olhos verdes como o mar de Fortaleza e comentou:
- Lugar mais esquisito este, minha filha. Quando não é pau de arara, como nós, é logo gente do inferno da pedra!
Meu pai faleceu em 1997, aos 88 anos de idade. Nunca se converteu ao Evangelho do Senhor Jesus Cristo e morreu incrédulo, como membro da Maçonaria, o que me deixou muito preocupada com o seu destino eterno...
Minha Mãe
Sobre minha mãe - ROSA - nem sei o que dizer. É uma personalidade rica demais para ser descrita em palavras. É toda amor, carinho, dedicação, espontaneidade e de humana só tem mesmo as broncas que dá nos filhos, quando saem da linha, e nos netos, quando lhe desarrumam a casa, mexendo com a sua mania de ordem e limpeza.
Quando era jovem, minha mãe foi uma linda mulher e, mesmo depois dos 60 anos, não engordou, tendo permanecido elegante. Foi dela e de nosso pai, que também era magro e elegante, que os filhos herdaram uma boa figura. Sempre lhe envio trovas no “Dia das Mães”, e estas foram as de 1955:
Mais bela do que a beleza
mais perfumosa que a flor.
Mais pura do que a pureza,
mais amável que o amor.
Mais alegre que a alegria,
mais santa que a santidade.
Mais clara que a luz do dia,
mais sublime que a bondade.
Quem há de ser, nesta vida?
Só tu, mãezinha querida!
Minha mãe era uma católica nominal. Contudo, tanto acreditava nos poderes da “Virgem Maria”, que me dedicou à “Imaculada Conceição”, no dia do meu nascimento - 08 de dezembro.
Na última vez que passamos juntas, tivemos uma acalorada discussão porque procurei fazê-la entender que “Nossa Senhora” não tem poder algum para ouvir as orações que lhe são dirigidas e que somente Deus pode fazê-lo. Cinco anos depois, ao ouvir a leitura do livro “Understanding Roman Catholicism”, de Rick Jones, por mim traduzido especialmente para ela e minha irmã Dária, com o título “Por Amor aos Católicos Romanos”, minha mãe se convenceu da verdade do legítimo Evangelho de Jesus Cristo, e abandonou a Igreja Católica, tornando-se evangélica.
Quando a visitei, pela última vez, antes de sua doença, estava de partida para os States, onde ia apresentar meus produtos de beleza, num Congresso Internacional de Estética e Cosmetologia. Certo dia, quando fazia compras na Quinta Avenida, em Nova York, encontrei uma senhora tão parecida com ela, que parei, olhei e pensei: “Ora, não é que minha mãe tem tipo de americana e eu não havia notado?”
Nunca mais voltei ao Ceará para rever a família. Foram muitos os motivos, mas principalmente aquele do qual já falei num artigo anterior.
Minha mãe faleceu no dia 15/03/05, aos noventa e seis anos de idade, depois de quase sete anos de invalidez causada por um AVC. Nesse dia reguei as teclas do meu computador com uma mensagem para ela. Leiamos:
Mãe, eu me lembro...
Mãe, eu me lembro de você, quando passava minhas férias no Crato, na época do Curso Científico, e você levantava à noite para cobrir uma jovem de 17 anos, não por causa do frio (pois o clima era quente), mas temendo que os mosquitos me picassem e eu voltasse marcada para Fortaleza...
Eu me lembro de você, nos anos 70, em Jardim Primavera, naquela noite de Natal, lá em casa, escandalizada com o excesso de presentes que meu marido e eu havíamos comprado para nossa filha Margarete, e da exclamação que você fez, ao abrir a porta da nossa Brastemp duplex e contar ali 12 tipos de frutas tropicais.
Eu me lembro de você, me chamando “maluca”, ao ver que eu lavava as vassouras com “Omo”, passava a ferro o pano de chão alvíssimo (pelos dois lados), lavando todas as frutas e verduras e até o feijão manteiga com sabão, antes de o cozinhar. Daí concordar com meu marido, que eu era uma “psicastênica”, depois que ele disse o que esse “palavrão” realmente significava! Mas... de quem havia eu herdado essas manias?
Eu me lembro de você, trajando uma camisola bordada no Ceará, usando chinelos de seda da mesma cor, porque sempre teve um gosto de rainha, e tudo seu devia combinar maravilhosamente! Estávamos num quarto de hotel (4 estrelas), em Belo Horizonte, e você se achava muito importante, porque jamais havia se hospedado num hotel tão chique! Nos restaurantes, demonstrava nobreza ao segurar os talheres e os copos. Seu sangue azul se manifestava em toda parte! Mãe, como você era elegante e discreta!
Eu me lembro de você, lá em Fortaleza, quando festejávamos os seus 68 anos (16/08/1976), segurando um bebê de 3 dias (colocado, pouco antes, dentro de uma caixinha, sobre o muro de sua casa), chorando de emoção, e mo entregando para que eu o adotasse. Era uma menina, a quem demos o nome de Rose (você é Rosa!), que se tornou uma bela jovem e hoje tem duas filhas lindas!
Eu me lembro de você, Rosa e eu, nas ruas 25 de Março e Zé Paulino, em S. Paulo, fazendo compras. Tantas compras, que depois tínhamos sempre de tomar um taxi para chegar em casa, mesmo Rosa morando no centro. Você era um tanto consumista, Rosa também, e eu... Bem herdei a soma do consumismo de ambas...
Eu me lembro de você, trocando de roupa, pelo menos 4 vezes, a fim de ser fotografada na grande festa dos seus 80 anos de idade (1988), enquanto eu, com 59, muito deprimida, me achava velha demais, tendo usado o mesmo vestido durante dois dias seguidos, o que deixou minhas elegantíssimas irmãs e cunhadas muito escandalizadas!
Eu me lembro de você, em maio de 1990, brigando comigo, quando exigi dormir no quarto de Rosa, que havia falecido na véspera, porque ela era sua filha predileta (e minha irmã favorita) e você não queria me ceder o quarto dela, o que me deixou enciumada, me fez perder a calma e dizer-lhe umas “verdades”, embora soubesse o quanto você estava sofrendo com a maior perda de sua vida. Lembro-me que Dária, minha irmã tão meiga e abnegada, que eu sempre adorei, ficou aborrecida comigo e me olhou de um modo como se dissesse: “Veja como fala com a nossa mãe!” Ó, Mãe, eu nunca me perdoei por ter-lhe aumentado o sofrimento, naquele dia tão triste! Dária faleceu em 1999, sabendo que eu ainda me culpava daquelas palavras que lhe havia dito, quando ambas estávamos sofrendo dolorosamente a perda de Rosa...
Eu me lembro de você, quando estive pela última vez em Fortaleza (1992). Fui criticada por algum motivo, fiquei aborrecida (sem controlar a agressividade herdada do meu pai) e disse que jamais voltaria ao Ceará, o que realmente cumpri, embora forçada pelas circunstâncias adversas com que Deus me tem disciplinado! (Hebreus 12:5-11) e porque Dária me pediu para não vê-la doente.
Eu me lembro de você, recusando atender-me ao telefone, porque eu fora tão malcriada que até viajara para os States sem me despedir de você, que ficou três meses sem querer ouvir minha voz, até que forcei um sotaque estrangeiro, você pensou que era outra pessoa e atendeu. Quando continuei falando com sotaque germânico, você deu uma risada e falou: “deixa se ser besta, menina, eu sei que é você”. Fizemos as pazes, até aquela noite de domingo (1996), quando eu lhe disse que as aparições da “Virgem Maria” não passavam de engendrações demoníacas, você me chamou de herege, bateu-me o telefone na cara e não quis falar comigo, por um bom tempo. Mas houve um dia, depois do AVC (1998), em que você, ao telefone, grunhiu uma frase, dizendo: “Filha, eu te amo!” E eu chorei de alegria, não apenas por causa da declaração de amor de uma tão preciosa mãe, toda entrevada em cima de uma cama, mas porque você já havia deixado o Catolicismo Romano e se entregara a Jesus Cristo, que agora seria o seu único, total e suficiente Salvador. Tanto que, naquela mesma noite, quando a filha caçula convidou-a para rezar a Ave-Maria, você, grunhiu: “Maíía, não!” Agora você já não era mais uma idólatra! Era uma cristã autêntica, filha do Deus vivo, irmã e co-herdeira com Cristo dos tesouros celestiais. Valeu a pena eu ter traduzido o livro de Rick Jones (Por amor aos Católicos Romanos), cujo título coloquei em homenagem a você e Dária, pois ambas deixaram a “santa madre” e se colocaram aos pés do Supremo Pastor.
Por tudo isso, mãe, é que nesta sexta feira, 25/03/05, mesmo sabendo que você foi se apresentar diante do Supremo Juiz, Jesus Cristo, eu me sinto em paz, porque sei que você está realmente salva, ao lado dos santos, lá no céu... Não por ter tido uma vida reta e digna, diante de Deus, dos seus filhos e de todos, o que lhe valeu o nosso amor e respeito, mas porque encontrou Jesus Cristo, a verdade que a libertou da mentira religiosa. Por isso, hoje Ele a levou salva para o Seu reino celestial (2 Timóteo 4:18).
Este foi um dia muito triste para mim e também para meu irmão Gil e minhas três irmãs, Odete, Savany e Bernadete, porque perdemos nossa mãe, mesmo sabendo que você foi se encontrar com Jesus. Assisti a um belo culto em nossa PIBT, chorando de saudade, enquanto escutava belos sermões intercalados de leituras bíblicas e cânticos ilustrativos do sacrifício de Cristo na cruz. Estava chorando baixinho, mas em meu coração havia paz, porque sei em quem tenho crido... Porque sei que você está no céu, onde brevemente, se Deus permitir, estarei chegando, para me encontrar com você e os demais. Então, voltaremos juntas para o Reinado Milenar, quando o Rei Supremo do universo será o Senhor Jesus Cristo, sem nenhum desentendimento, pois no Seu Reino de Justiça nós duas teremos realmente o amor e a paz de Cristo que excedem todo entendimento! (Efésios 3:19; Filipenses 4:7).
Rosa e Dária
Tive oito irmãos e entre esses havia um irmão (José) e duas irmãs (Rosa e Dária), que sempre foram meus favoritos. Os três já faleceram. Meu irmão mais velho, o Chico, faleceu ainda moço, em 1972, num acidente de carro, na Transamazônica.
Rosa foi freira católica durante 10
anos, depois se desligou da
Congregação, formou-se em Enfermagem de alto padrão, em S. Paulo, trabalhou
para o governo do Estado, aposentou-se e voltou ao Ceará, a fim de cuidar da
mãe idosa. Com menos de dois anos de aposentadoria, faleceu de pancreatite
aguda causada por uma lipoaspiração mal feita. Tinha menos de 55 anos. Ainda
hoje eu choro a morte dessa tão amada Rosa, com quem estive sempre em contato,
quer indo a S. Paulo cada dois meses, quer vindo esta ao Rio. Rosa foi
"arrebatada" em maio de 1990. Em agosto de 1999, foi a vez de Dária, que
faleceu repentinamente de enfarte, dormindo, com um sorriso nos lábios. Havia
sido uma líder carismática e se convertera ao Senhor lendo o livro "Por
Amor aos Católicos Romanos", de Rick Jones, traduzido por mim, para o
Centro de Pesquisas Religiosas de Teresópolis, RJ. Foi outra perda
irreparável. Ficar sem essas duas irmãs foi mais doloroso para mim do que
perder meu marido... Curioso é que nossa mãe - D. Rosa - tendo ficado
paralítica em razão de um derrame cerebral, costumava brincar dizendo que iria
enterrar as três filhas favoritas. Daí por que fiquei aguardando a minha vez,
enquanto nossa mãe ainda vivia...
A partir da morte das duas irmãs queridas, fiquei desejando ir para o céu, a fim de me reunir às mesmas. Mas parece que o Senhor ainda não quer permitir-me essa alegria. Parece que Ele ainda quer usar esta Sua serva para continuar malhando a ICR e as igrejas malaquianas, através de livros, jornais e artigos enviados pela Internet. Um coisa é certa: sofri mais com a morte dessas duas irmãs do que tudo na vida, porque ambas eram minhas melhores amigas e confidentes. Jamais terei amigas iguais a Rosa e Dária, pois essas duas irmãs tinham a mesma mania de ordem e limpeza que eu tenho, eram corretíssimas nos compromissos, como eu sou, e adoravam nossa mãe...
Com toda a saudade que me obscurece a existência, vou continuar na luta, enquanto a "ceifeira de vidas" não aparecer para conduzir-me ao crematório! Contudo, faço questão de dar um gritinho cheio de esperança: "Rosa e Dária, me aguardem!”
Hans Schultze
No dia do casamento de Grace Kelly com o Príncipe Rainier, de Mônaco, nós, as quatro moças que morávamos no apartamento da Rua da Glória, em frente à Embaixada da Suíça, ficamos morrendo de inveja. Foi então que profetizei: “Pra mim só serve um homem assim. Viu, gostou e casou. Não vou ficar por aí dando sopa aos rapazes que só querem estudar anatomia no corpo da gente”. As colegas riram da minha “ingenuidade”, mas Deus abençoou a minha “profecia”.
Dez dias depois conheci - em Jardim Primavera (RJ), numa casa de campo de uma família de judeus alemães, um Químico Industrial alemão, que me viu, apaixonou-se por mim e logo me pediu em casamento. Nosso encontro foi assim: eu estava ouvindo música erudita, numa radio-vitrola e ele era hóspede daquela família. Chegou de mansinho, tentou conversar comigo em Alemão, mas eu lhe disse que só falava Inglês e que de Alemão só conhecia duas frases: “Ich liebe Dich” (Eu te amo) e “Dein ist mein Herz” (Meu coração é teu). Ele disse que era o bastante. Perguntei o seu nome e ele me disse: Hans Georg Max Paul Schultze. Escrevi logo em minha agenda, ele conferiu e ficou admirado. Havia seis maneiras de se escrever “Schultze” em Alemão e eu havia acertado o nome dele na primeira vez. Disse que eu era inteligente e pediu o meu endereço. Dei o de trabalho. Seis dias depois foi me encontrar, compramos um long-play com duas óperas de Puccini e, no sábado seguinte, ele comprou as alianças e ficamos noivos. Havíamos nos conhecido no domingo, 29/04/56, e ficamos noivos no domingo, (13/05/56). Casamos no dia 01/09/56 e fomos felizes durante 26 anos. Foi um casamento quase perfeito. Nosso padrinho de casamento foi o escritor Malba Tahan, com quem eu costumava almoçar toda semana, na ABI.
O Schultze tinha um fantástico senso de humor - o que seria necessário para suportar uma espoleta como eu, por mais de 25 anos! Trabalhamos muito, construímos nossa casa, compramos o primeiro carro - um Jipe Candango, a prestação. Construímos um laboratório, abrimos uma firma de Anilinas e Cosméticos (H. Schultze Ltda.), viajamos muito (13 países) e, de repente, já estávamos velhos, sem perceber que os anos haviam passado tão depressa.
O Schultze era um Luterano liberal. Havia perdido a fé no Seminário Teológico de Tübingen, onde entrara depois de II Guerra Mundial para se tornar um pastor. Depois de um semestre, procurou o Reitor do Seminário e lhe disse: “Entrei aqui para estudar Teologia e perdi a minha fé em Cristo. Se Jesus não é Deus e se Maria foi uma jovem sem juízo, que teve um filho sem pai, então, o que é que eu vou pregar para os meus paroquianos?”
Abandonou a Teologia e fez Química Industrial, onde se destacou brilhantemente. Junto com o seu professor - o Dr. Rueckl - foi um dos criadores da deterpenação do óleo de laranja e limão, que deu origem às laranjas artificiais, tipo Crush e Fanta. Um dos refrigerantes que ele criou a SUKITA.
Em 1954, desiludido com a Alemanha pós guerra, veio para o Brasil, onde trabalhou, durante alguns anos, como Químico, numa indústria de essências alimentícias, tendo criado a fórmula de muitos refrigerantes que hoje se vendem no Brasil.
Na Universidade, ele havia se casado com uma colega - filha de uma condessa da Família Habsburgo. A mãe suicidou-se durante o regime nazista. A moça estudava Medicina e se chamava Maria Luísa. O casamento não deu certo, divorciaram-se e ele decidiu emigrar para o Brasil, onde encontraria uma esposa e ganharia duas filhas.
O estado civil
Logo que chegou ao Brasil, teve de tirar a carteira profissional. No Ministério do Trabalho a funcionária perguntou:
- Estado civil?...Casado?
- Só de noite!
Ele pensou que era cansado.
Lembro-me que na noite do nosso casamento ele bebeu demais e o padre alemão (Frei Mansueto Kohnen), que realizou a cerimônia e era nosso amigo, me disse, depois da festa realizada em nossa casa:
- Mary, o noivo bebeu demais e hoje não vai dar... Não brigue com ele. Amanhã será outro dia...
Eu estava tensa demais para dormir. Nossas camas eram separadas. Então fechei a porta do quarto onde ele dormia e resolvi fazer uma faxina completa na casa, que estava toda desarrumada com a festa de casamento. No dia seguinte estava tão cansada que não tive disposição de brigar com ele.
Quando fizemos um ano de casamento, ele me deu um “Heure Intime” de presente. À noite usei o perfume e a camisola de renda preta mais transparente que havia no enxoval e, pulando na cama onde ele estava lendo um livro em Alemão, falei:
- Meu querido, olha como eu estou cheirosa!
- Está sim, muito cheirosa. Mas eu estou muito cansado. Boa noite.
Desse jeito, a família se limitou a uma filha apenas e mais tarde, quando esta já estava com 19 anos e tinha ido estudar Veterinária na UFRRJ, Deus nos enviou uma linda garotinha de 3 dias, colocada em nossa porta e adotada como filha legítima (Rosemary), a qual hoje tem 23 anos. Ela tem sido a alegria de nossa velhice e no dia em que o pai faleceu ela estava completando 6 anos de idade.
O Prefeito de Caxias
Em 1962 fomos a Belo Horizonte pela primeira vez. De lá o Schultze foi a Brasília, deixando-me no Hotel Amazonas com a Margarete. Quando voltou, contou-me que tinha visto maravilhas e até havia entrado no Palácio da Alvorada, onde governava o Presidente Jânio Quadros. Contou que ia entrando no Palácio, quando um guarda perguntou:
- Quem é o senhor, para entrar assim no Palácio?
- Sou João, Prefeito de Caxias.
- E como explica o sotaque estrangeiro?
- É que antes de morar em Caxias eu morava no Ceará.
Perguntei se não se envergonhava de enganar as pessoas, fazendo-se passar por uma autoridade, ao que ele respondeu:
- Minha querida, eu só falei a verdade. Eu sou HANS, que em alemão significa JOÃO. Eu sou SCHULTZE, que em Alemão significa PREFEITO. Moro em Caxias. Como você vê, eu só “mentirei” na vírgula.
Quando fomos ao Leme, em 1972, visitar a Solly e o marido americano, ele saiu para tomar um chope na Av. Atlântica. Apareceu um rapaz de boa aparência e quis tirar uma prosinha como o “gringo”.
- Do You speak English?
Silêncio total.
- Parlez vous le Français?
Silêncio total.
- Sprechen Sie Deutsch?
Silêncio total. Depois de alguns minutos, vendo que o rapaz se calara, o Schultze perguntou:
- O Sr. não fala português?
- Claro, sou brasileiro, aqui de Copacabana.
- E por que vem falar comigo em língua de gringo? Eu sou de Caxias.
- O Sr., de Caxias, com esse sotaque?
- Moço eu nasci no Ceará, na mesma cidade onde nasceu o Padre Cícero - Crato. Todo mundo lá tem sangue holandês e fala enrolado, não sabia? O senhor precisa ler mais sobre o nosso país. Se me der o seu endereço, mando-lhe uma biografia do Padre Cícero, que era meu tio avô.
Quando fomos a Buenos Aires, pela primeira vez, Margarete tinha quatro anos e sofria muito com a temperatura de 6 graus. Ficava o tempo inteiro suspirando:
- Ai, meu Deus, que saudade de Caxias!
Um dia estávamos na Galeria Once. Ela e o pai tomavam um lanche no terceiro andar, enquanto eu desci ao primeiro, para comprar perfumes. Terminando o lanche e não me vendo chegar, a menina começou a chorar e a gritar histericamente:
- Quero minha mãe! Quero minha mãe!
Um guarda achou a cena estranha e veio perguntar ao Schultze:
- Usted es el padre de la niña?
O Schultze, que mal entendia português nessa época, atrapalhou-se e respondeu:
- Eu não sou padre não, senhor. Sou casado e esta é minha filha.
Em Berlim Ocidental fiquei tão maravilhada com a cidade que não quis mais sair.
Certa noite (junho de 1967), enquanto passeávamos pelo KURFURSTENDAM – avenida principal - fiz umas trovas e depois perguntei:
- Meu querido, como é que você, tendo nascido numa cidade fantástica como esta, tem a coragem de morar em Caxias?
- É porque morando em Caxias, posso ganhar dinheiro para vir cada dois anos a Berlim. Enquanto que, morando aqui em Berlim, onde há tantos químicos dando sopa, não posso ganhar dinheiro para ir cada dois anos a Caxias.
Trovas em Berlim
O povo aqui de Berlim
pelos cães tem tal xodó,
que a gente, em todo jardim,
só vê cocô de totó.
Cachorro, aqui nesta terra,
tem capa de pele e cama,
e em tempo de paz ou guerra
de “Lieber Hund” se chama.
Com sobrenome do dono
tem na coleira uma ficha
e sonha, durante o sono,
com frango assado e salsicha.
Na próxima encarnação,
Eu – coitadinha de mim –
vou fazer minha opção:
nascer cachorro em Berlim.
Realmente, fiquei impressionada ao ver aquelas madames (cheirando a perfume francês e usando costumes chiquérrimos), segurando o cãozinho no colo, enquanto arrastavam seus filhos pela coleira, os quais choravam pedindo colo. Depois de muitos anos, regressando a Berlim, observei que o quadro se repete, o que me deixou realmente aborrecida com as madames alemãs e muito preocupada com o futuro desse país...
Amai-vos uns aos outros
O Schultze tinha um ótimo caráter e, com exceção da cerveja, que bebia diariamente, e às vezes ficava meio confuso, era uma pessoa excessivamente terna e amorosa. Sua saúde era delicada. Tinha um problema neurológico da época da juventude hitlerista - “Hitler Jung” (a mesma que o Ratzinger freqüentou). Teve polineurite em 1971. Tinha um fígado castigado de cirrose causada pela fabricação de Fluoresceína e Rodamina, corantes sintéticos dos quais ele era o único fabricante no Brasil. Tinha um problema de gota e, pior do que tudo, havia sofrido algumas cirurgias, depois de um dos três assaltos armados à nossa casa, em 1974/75.
Quando bebia não ficava violento, não me agredia, não dizia palavrão, mas ficava muito repetitivo, o que me deixava tremendamente irritada. Às vezes falava bem ou mal do Hitler. Às vezes anarquizava com todas as religiões, ou então ficava recitando versículos bíblicos, conforme a ocasião. Lembro-me de um domingo, na década de 70, em que ele, vendo a pia cheia de louça para lavar, foi logo dizendo:
- A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos.
Mais tarde, quando pedi-lhe que trocasse de roupa, pois esperávamos uma visita importante, ele respondeu:
- O meu reino não é deste mundo.
Quando os moleques encapetados da vizinha em frente atiravam pedras em nossas vidraças, pedi-lhe que fosse apaziguar os ânimos, pois eu, com a minha violência nordestina, só iria complicar as coisas. Ele foi até o portão e gritou para os garotos:
- Quem for livre de pecado, atire a primeira pedra!
Levou uma pedrada na hora, bem na testa. O que prova que os moleques eram realmente “santos” e estavam livres de qualquer pecado. Quando entrou e vi o ferimento, fiquei alarmada, porém ele falou:
- Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem.
Dias mais tarde, um dos garotos caiu em frente à nossa casa, soltando pipa, quebrou braço, e a mãe aflita pediu que meu marido levasse o menino ao hospital. O Schultze não só atendeu ao pedido daquela senhora - tão educada quanto os filhos - como também pagou os medicamentos. Desde aquele dia cessaram as pedras contra nossas vidraças e quando comentei a trégua o Schultze respondeu:
- Cristo é que sabia das coisas: Amai os vosso inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso pai Celeste...
Ele sempre resolvia tudo na maior paz. Foi presidente (duas vezes) do Rotary Club J. Primavera, conseguiu melhoramentos para o bairro onde morávamos, era amigo de todos e simples como uma pomba, sem o menor resquício de maldade em seu coração. Morreu de enfarte e foi sepultado no dia em que estaria completando 60 anos e pediu para ser sepultada junto com o pai. Aquele teria sido um dos dias mais trágicos de minha vida, se não tivesse passado a noite inteira lendo o Evangelho de João, enquanto velávamos o seu corpo em nossa casa. Quando a dor ia me dominando, eu cantava um hino de louvor a Jesus, meu Salvador, e aquela que poderia ter sido a noite mais dolorosa de minha vida transformou-se na noite em que me senti mais perto de Deus e do Seu Filho Jesus Cristo. Durante o sepultamento do Schultze, uma querida amiga me segurava pelos ombros, dando-me conforto com o seu amor cristão. Seu nome, Helga Kepler Fanini. Nunca mais deixei de amá-la porque naquela hora de dor e sofrimento ela me amparou, me deu força e me fez ver o quanto necessitamos do apoio dos irmãos, nas horas de tribulação e angústia.
Lembro-me que o pastor que a acompanhou naquela manhã leu 2 Coríntios 1:3-7. Desde então, sempre que leio essa passagem sinto uma enorme gratidão a Deus e ternura pela minha amiga Helga, que Ele tem usado de maneira tão poderosa na salvação de tantas almas! Obrigada, minha amiga!
Margarete
Um dos dias mais importantes de minha vida foi aquele em que fui para a maternidade, ganhar minha filha. Sentia-me como uma estrela indo à “avant première” do seu filme. Sofri menos de cinco horas e nasceu o meu bebê. Perguntei o sexo e fiz logo uma trovinha para comemorar. Ela recebeu o nome da avó cearense (ROSA) e da avó berlinense (MARGARETE), que era o nome (invertido) da princesa mais famosa da época – Margaret Rose, da Inglaterra.
Ganhou o apelido de “Lili” porque achava tudo “lili”, isto é, lindo! Era tão maravilhosa, na beleza dos seus cabelos platinados, que parava o trânsito, quando eu a levava ao Rio, para fazer compras. Era alegre, esperta e muito comunicativa.
Certo dia, quando tinha três anos e vínhamos pela Av. Brasil, em frente à “Casa dos Marinheiros”, ela gritou para a amiguinha: “Belvinha, olha lá a casa dos machos!” E quando ralhei com ela, admirada com o termo impróprio, ela se desculpou: “Ué, mãe, não é a “casa dos machos, soldados cabeça de papel”?
Aos cinco anos, olhando uma propagada de cigarros com a “Esfinge de Ghizé”, exclamou: “Olha aqui uma vista de S. João do Meriti”.
Nessa idade, costumava fazer muitas bobagens. Trancava-se no quarto e cortava meus vestidos com tesoura. Um dia cortou os cabelos longos e platinados, dizendo que ia fazer “talharim para as bonecas”. Doutra feita, ligou o ferro em cima da cama dela, senti cheiro de queimado, corri e a colcha já era... Por essas e outras, quando eu a chamava e ela não respondia, eu sempre falava: “É, minha filha, eu chamo e você não responde... Boa coisa não está fazendo!”
Memorizou a frase e uma noite, quando o pai já dormia, ela chamou: “Mãeê”... Fiquei quieta. Ela havia dormido a tarde inteira, enquanto eu moía anilina em nosso laboratório improvisado, e estava exausta. Ela tentou chamar o pai: “Papi”... Silêncio total. Então ela jogou esta frase: “É, eu chamo e vocês não respondem. Boa coisa não estão fazendo!“
Quando viu o péssimo estado de conservação dos ônibus em Montevidéu, tirou logo suas conclusões: “Agora já sei pra quem o pessoal de Caxias vendeu os ônibus velhos. Foi pra Montevidéu”.
Certo dia, quando viu o pai fazendo o caixa de nossa micro-empresa, ela indagou: “Papi, o que você está fazendo?“ O pai respondeu: “Contabilidade, filha”. Mais que depressa ela pegou uma folha de papel, começou a rabiscar e disse: “Pois eu vou fazer continhabilidade, tá? “
Doutra feita, quando observava o pai fazendo uma filtração de Fluoresceína no laboratório, vendo que esta não funcionava direito, ela advertiu: “Papi, você esqueceu de ligar a bomba de vácuo!“ E estava certa.
Quando viu nossa foto de casamento, perguntou: “Por que, numa fotografia tão bonita, vocês não me botaram?” Quando o pai lhe contou que o “haze” (coelho) lhe havia trazido ovos de páscoa, ela disse: “Ué, eu não sabia que coelho botava ovo. Só galinha!” E quando me ouviu reclamar que a manicure havia posto um esmalte vermelho demais nas unhas, replicou: “Por que você não usa um atenuante?”
Antes dos nove anos, resolveu ser jornalista. Escreveu dois artigos e enviou ao Jornal do Brasil, os quais foram publicados na íntegra. O primeiro era sobre o Presidente Castelo Branco. O segundo era sobre o jornalista Carlos Lacerda e o terceiro, sobre o Presidente Costa e Silva, ainda não empossado. Eram artigos biográficos, políticos e críticos. No dia da posse do Presidente Costa e Silva, o cronista Carlinhos de Oliveira focalizou os artigos dela na primeira página da revista “Fatos e Fotos”, edição especial de Brasília, dizendo que ela era uma criança genial! Passemos aos artigos da Margarete, com 8 anos de idade:
Um dia do Presidente - O Presidente (Castelo Branco) acorda às 10 horas e escova a dentadura, toma café e vai para o palácio. Na volta, compra 100 gramas de mortadela, um pão e um pedaço de manteiga. Chega em casa, toma banho. Pede à mulher pra fazer um sanduíche. Almoça e depois vai dormir. Quando acorda é hora de jantar. Como ele é cearense, gosta muito de arroz e feijão. Depois do jantar, vê televisão com os amigos e vai dormir às 9 horas. O programa que ele mais gosta é o “telecatch”.
Depois desta publicação, ela disse que já era jornalista mesmo e continuou:
Um dia do Lacerda – Ele acorda às 7 horas, toma banho e põe os óculos. Toma café com leite e vai para o jardim cuidar das rosas. Ele diz que uma rosa é uma rosa, é sempre uma rosa. Quando o sol esquenta demais ele entra em casa, abre a geladeira, toma um copo de cerveja. Bem gelada, é claro. Ele almoça ao meio dia. O prato que ele mais gosta é batata cozida com salada de pétalas de rosas e bife enrolado. Como não tem mais obras para visitar, cochila um pouco. Acorda, vai para a biblioteca e lê todos os escritores do mundo. Quando acaba é hora de jantar. Aí toma uma sopa de ervilhas com torradas dentro. E depois vai para a biblioteca escrever artigos para os jornais. Antes de se deitar, vai ao jardim com uma lanterninha na mão para ver se as formigas não estão fazendo besteirinhas nas suas roseiras. Depois dá boa noite aos cachorros e vai dormir. Uma vez por semana joga xadrez com os amigos. E geralmente perde.
Um dia do Costa e Silva – Ele acorda todo dia às 4 horas da manhã e corre para ver no calendário se já é o dia da posse. Só anda de óculos escuros com medo de entrar lacerdinha nos olhos dele. Como tem cara de avô bom, acho que vai fazer um ótimo governo. Sem aumentar os impostos e a gasolina, como os outros têm feito. Ele é gaúcho e come churrasco todo dia no almoço e toma aquele chá de canudinho. Um dia eu li num artigo de jornal que a esposa dele estava reclamando os preços das compras na feira. Isso quer dizer que, depois da posse do marido, ela vai mandar fazer a feira pela empregada e não vai mais reclamar dos preços, por falta de tempo. O Ministro mais simpático que o seu Artur nomeou foi aquele sem cabelo, dono do Banco onde minha mãe desconta cheque. Ele sempre trabalha em silêncio. Quando ele deixar de ser Presidente eu já terei 13 anos e vou escrever outro artigo dizendo se ele foi mesmo bom como parece.
Aqui ela encerrou sua carreira de jornalista, que só voltaria a exercer, aos 38 anos de idade, quando passou a escrever em dois jornais de Teresópolis. Foi presidenta do Rotary Club de Teresópolis, fez amizades excelentes, porém jamais conseguiu um emprego decente nesta cidade, daí por que resolveu emigrar para a Alemanha, terra natal de seu pai, onde reside hoje com os três filhos, Luciana, Gustavo e Marion.
Margarete na Europa
Quando viajávamos pela Europa, em 1967, ela estava com 9 anos e começou a escrever um diário de viagem, imitando o pai. Visitamos Lisboa, Paris, Londres, Copenhague e dez cidades alemãs, inclusive Berlim Oriental, onde residiam nossos parentes mais próximos. Depois de uma visita ao “Museu do Louvre”, ela escreveu:
“Hoje visitamos o Museu da Luva. Nome esquisito, porque todas as mulheres só entram lá de luva, até mamãe e eu. Não achei grande coisa o tal museu. O de Petrópolis, que já visitei muitas vezes, é muito mais bonito. Tem coroa de ouro e pedras preciosas e este daqui não tem nada disso. Só uns quadros e estátuas. O quadro mais olhado de todos era o de uma mulher meio gorda, com cara cínica, como o nosso pedreiro Forcatinho. Chamada Mona Lisa. Uma estátua sem braço meu pai disse que se chamava Venus de Milho. Ela perdeu o braço num terremoto. Enquanto mamãe olhava os quadros, fui com o papi tomar uma coca cola, e ele, uma cerveja, é claro! Quando a gente voltou, quase não encontramos a mamãe, e eu comecei logo a chorar, pensando que ela tinha se perdido. Mas ela não tinha, não. Aí fomos pro hotel e jantamos”.
O diário iniciado de maneira tão desastrosa não durou muito. Havia herdado a preguiça do pai para escrever e a mesma mania de ler. Em todos os países onde chegávamos, o pai lhe comprava revistas em quadrinhos, nas quais ela ficava horas “lendo” as gravuras.
Em Londres, ela se sentiu bem. Apesar da chuva constante e da temperatura de 6 graus, visitamos muitos lugares interessantes. Um deles foi o Palácio de Buckingham. Lá em frente, num domingo à tarde, ouvi o zum-zum de que a Rainha estava chegando de um fim de semana fora da cidade. Combinei com o Schultze e ficamos diretamente no portão de entrada dos carros. Daí a pouco chegava Sua Majestade num carro preto, vestindo um tailleur cinza muito simples, acompanhada da Rainha Mãe e do Príncipe Charles. O silêncio era completo. Alguns turistas batiam fotos e foi então que Margarete resolveu se manifestar. Começou a pular, batendo palmas e gritando: “A Rainha, a Rainha!”. A Rainha, ouvindo aquela criança estrangeira gritar o seu nome, sorriu para ela, piscou os olhos e acenou. Então se foi, vagarosamente. Quando entrou e o portão foi cerrado, Margarete comentou com simplicidade: “Puxa, mãe, como é simpática a Elizabeth Arden”! Ela pensou que se tratava da famosa cosmetóloga.
No dia seguinte, na entrada da Torre de Londres, pediu ao guarda que lhe permitisse alisar o chapéu dele, que devia ser macio. Traduzi o pedido e o guarda, pondo-se de cócoras, falou: "Pode passar a mão". Ela aproveitou e me aconselhou a fazer o mesmo. Aí o guarda levantou-se depressa.
Em Hamburgo (Alemanha) passamos o dia inteiro visitando o “Tier Garten” (Jardim Zoólogico), onde as feras vivem na mais completa liberdade. À noite, quando regressávamos ao hotel, entramos num restaurante para jantar. Havia uma orquestra. O maestro notou que éramos brasileiros, ouvindo a tagarela de nove anos conversando com todo mundo, e veio nos cumprimentar. Ele havia passado alguns meses no Rio e adorava o Brasil. Levou-me uma cesta de rosas vermelhas. Havia lá uma turma de portugueses e Margarete ficou muito feliz.
- Puxa vida, até que enfim, encontrei gente que fala a minha língua!
Arranjou logo um par, um rapagão de vinte anos, e dançou muito com ele. Todos riam da menina de nove anos, de vestido sujo do Zoológico, dançando com a maior desenvoltura no salão. Quando íamos nos retirando, às 23 horas, ela pediu:
- Papi, fica mais um pouquinho. Eu já estava quase aprendendo a dançar!
Em Copenhague ela disse uma frase de amor para o busto do escritor infantil, Hans Christian Andersen, depois que o pai lhe explicou que ele era o autor da história “A Menina dos Fósforos”, que ela adorava. Dali, fomos para o Parque Tivoli, onde ela brincou um dia inteiro.
Em Berlim Ocidental, visitamos todos os recantos pitorescos e fiquei maravilhada. Alguns dias depois fomos para o lado oriental, onde moravam nossos parentes. Era muito chato atravessar o Check Point Charlie. O pessoal do lado comunista ficava um tempão com os nossos passaportes, identidades, objetos de uso pessoal e ainda tínhamos de declarar por escrito todo o dinheiro que levávamos e entregar a eles. Davam-nos uma quantia razoável para as despesas em Berlim Oriental e só então nos deixavam passar pelo controle. Margarete, na primeira vez, comportou-se bem, mas na segunda, perdeu a calma e fez um discurso, ali mesmo:
- Gente chata, esses comunistas. Tratam todo mundo como criminosos. Eles pensam que só porque a gente mora em Caxias, somos bandidos.
Pedi que ela se calasse para nos evitar problemas, mas ela afirmou com segurança: “Vê lá, se esses idiotas entendem português”. Mas idiota é a mesma palavra em Alemão e o guarda de 2 metros de altura veio logo me perguntar o que a menininha estava falando. Traduzi o discurso dela, assim:
- Ela diz que vocês demoram muito a liberar os passaportes da gente. Que está morta de fome e quer ir logo para a casa da tia-avó, comer do bolo de aniversário, pois a Tante Trude faz hoje 80 anos. Diz que é uma idiota porque não trouxe um chocolate para ir comendo aqui, enquanto esperávamos.
O guarda sorriu tranqüilamente e falou: “Você é linda, sabia? Vem cá, amiguinha do Pelé!” Ela subiu nos braços do gigante e foi logo alisando o broche dele, com o compasso e o martelo, dizendo:
- Sabe que o teu broche é bacaninha, cara?
- O que foi que a menininha falou?
- Ela achou lindo o seu distintivo.
Ele, então, todo feliz, desculpou-se:
- Pena que eu não possa dar de presente a ela, pois é o emblema do Partido!
Quando traduzi a frase, ela fez esta observação, com uma careta:
- Pra que é que eu ia querer essa porcaria?
Cada vez que deixávamos a Alemanha Oriental, ela gritava; “Graças a Deus saímos da Alemanha ruim e chegamos na Alemanha boa!”
Os guardas americanos do Charlie Check Point gostavam muito dela e lhe davam balas e chocolate, que ela agradecia em Alemão, depois perguntava:
- Mãe, eu agradeci em Alemão ou em Inglês? ... É “Thank you” ou “Danke schön”?
Margarete fez ainda muitas trapalhadas na viagem de mais de dois meses, principalmente em Berlim, cidade natal do pai, onde ficamos mais tempo.
Quando fazíamos as malas para regressar ao Brasil, ela se ajoelhou e começou a chorar, suplicando para não voltar, dizendo que não queria mais ser brasileira. Preferia ser alemã. Hoje ela e os filhos têm dupla nacionalidade e residem na pátria escolhida.
Desde janeiro de 1998, Margarete, realizando um sonho antigo, reside perto da cidade que tanto amou na infância. Berlim é quase tão violenta quanto o Rio de Janeiro. Margarete trabalha como Secretária Executiva numa subsidiária da Mercedes Benz (RBL), cinco dias por semana, e como Veterinária, aos sábados, na Clínica de um amigo, o Ernst, que ela chama “Herr Doktor”. Ele veio conhecer o Brasil (2000), adorou o nosso “país tropical”, voltou no ano seguinte e pretende vir morar aqui. Meus três netos estudam. Já se acostumaram com o país e a língua, que falam fluentemente. Gustavo estuda e trabalha. Luciana faz o curso de “Euro-Secretária”, em cinco idiomas - Alemão, Inglês, Francês, Espanhol e Português, para conseguir um bom emprego na Europa Unida. No fim de semana de 22/05/00, ela me enviou um E-mail contando sobre dois dias que passou em Leipzig (cidade que visitei e achei maravilhosa), com uma turma da escola. Foram ao Museu de História, a restaurantes bonitos e duas vezes, à Ópera Municipal, para assistir ópera e balé. Foi um fim de semana glorioso e ela estava deslumbrada. Hoje (maio 2005) ela cursa o segundo período de Química Industrial, na Universidade de Chemnitz.
Marion, que é muito parecida comigo, no físico e ainda mais no temperamento nordestino, não quis estudar "Ética do Catolicismo", preferindo estudar Bíblia, pois deseja ser "protestante" como eu. É a legítima neta da avó, como afirma sua mãe.
Até pouco tempo, Margarete morava em Linbach Oberfrohna, a 20 Km de Chemnitz, cidade onde fica a firma onde trabalha. Hoje ela reside em Stollberg, uma pequena cidade onde o seu marido tem uma Clínica Veterinária.
Cartas de aniversário
No dia 10/01/73, quando Margarete completou 15 anos, entreguei-lhe esta carta:
Minha querida filha:
Neste dia, em que você está completando a idade mais linda da vida, desejo-lhe de coração o seguinte:
1. Que você tenha muita saúde, juízo e paz de espírito, a partir desta data.
2. Que você passe bem no teste que vai fazer e conquiste a bolsa de estudos no Colégio Werneck, de Petrópolis.
3. Que você seja feliz e se adapte à vida no pensionato, encontrando na companheira de quarto a irmãzinha que não lhe dei.
4. Que estude muito e brilhe no colégio, pois você tem QI acima do normal e isso lhe facilita tudo.
5. Que pague, vez por outra, um sorvete para um menino pobre. Você jamais soube o que é pobreza, nem o que é desejar um sorvete e não ter dinheiro para comprá-lo.
6. Que você encontre cada dia, na esquina, no jardim, na igreja, nos amigos, na surpresa e nos livros, aquilo que você tanto procura.
7. Que você fuja dos vícios: fumo, álcool e drogas, pois eles maceram o corpo e destroem a alma.
8. Que em vez de ficar gritando histericamente: PAZ E AMOR! Você aprenda a rezar (eu ainda era católica) pelas almas dos jovens sacrificados inutilmente nas guerras pelo egoísmo dos mais velhos.
9. Que você esteja em sintonia com seus sonhos, tentando construir os seus dias com irisados pedaços de luz.
10. Que você possa dialogar com o SOL, com a LUA, com as ESTRELAS, com o MAR e com a BRISA – presenças de Deus - purificando a sua alma e procurando o seu ideal de vida (nesse tempo eu tinha idéias panteístas).
11. Que você descubra, a cada dia que passa, uma nova fração da verdade que é Cristo.
12. Que suba diariamente na vida, melhor dizendo, procure sempre o horizonte mais alto para enxergar mais longe, melhor compreender os seus semelhantes e mais depressa perdoar os erros dos outros, conquistando para si mesma, o direito de ser perdoada.
13. Que mesmo se achando jovem e linda (como você de fato é), não se julgue superior às suas amigas. A beleza e a juventude são dons divinos e devem ser conservados com uma vida sã – mente sã em corpo são. E todo dia dê graças a Deus por ter esses dons.
14. Que você veja as coisas de tal forma e com tal intensidade, que acabe saindo de dentro de sua casca para abraçar e amar as criaturas de Deus, agradecendo-Lhe por estar forte, viva e feliz.
15. Que a nossa amizade de MÃE e FILHA, sempre estremecida por mútuas incompreensões, possa atravessar 1973 incorporando novas motivações, a fim de podermos sentir o sabor de muitos Natais e Anos Novos juntas, pois a FAMÍLIA QUE BRIGA UNIDA PERMANECE UNIDA!
Com um beijo carinhoso de sua mãe e votos de FELIZ ANIVERSÁRIO!
PS. Esta carta foi inspirada numa mensagem natalina que li no Jornal do Brasil.
Quando Margarete completou 21 anos, enviei-lhe esta carta:
Querida filha:
Neste dia em que você completa 21 anos de idade e se torna uma verdadeira mulher, tão mulher que já traz dentro de você uma nova e preciosa vida, uma criancinha presenteada por Deus, eu gostaria de lhe dizer tantas coisas! Mas quem sou eu para falar a você, que, como todos os jovens de sua idade, se acha mais inteligente, mais culta, mais sábia e mais atualizada do que esta sua velha mãe?
Entretanto, filha querida, eu sei que devo lhe dizer algo importante para a salvação de sua alma, pois durante a sua infância e adolescência, eu pouco lhe ofereci neste particular, porque ainda não havia encontrado a Verdade, esta Verdade maravilhosa que se chama Jesus Cristo, e não iria lhe oferecer uma idéia falsa, perecível, anodizada, porque a você eu só quero entregar OURO 24 quilates, tão puro e precioso como você é para mim.
Hoje, porém, minha filha, trago uma BOA NOVA para você, uma novidade de vida e amor (como o filho que está dentro do você), e peço-lhe que a receba de coração aberto e nela medite para o seu próprio bem e do seu filho, que chegará em breve. Para que você venha a ser melhor mãe do que eu tenho sido nestes seus 21 anos de vida. Perdoe tudo o que fiz de mal a você e, muito mais, tudo que deixei de fazer por você, como algumas vezes você reconheceu e até me acusou, com toda a razão deste mundo.
Você sabia, minha filha, que ...
O Deus e Pai de nosso Senhor Jesus nos elegeu antes da fundação do mundo, para fossemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor? (Efésios 1:4
E que, depois que ouvimos a palavra da verdade, o evangelho de nossa salvação, e tendo nele também crido, fomos selados com o Espírito Santo da promessa? (Efésios 1:13).
E que este Espírito é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor de sua glória? (Efésios 1:14).
que Ele, Cristo, é a nossa paz? (Efésios 2:14).
Que somente por ele temos acesso ao Pai...? (Efésios 2:18).
Que nós, os que estamos em Cristo, já não somos estrangeiros... mas concidadãos dos santos? (Efésios 2:19-22).
Que Cristo habitará pela fé em nós, a fim de que, estando arraigados e fundados em amor, possamos compreender suas maravilhosas promessas e conhecer o amor de Cristo que excede todo o entendimento? (Efésios 3:17).
Que somos membros de um só corpo e um só Espírito, chamados em uma só esperança... (Efésios 4:4).
Sabendo isso, não é justo que você, filha querida, deixe de gozar também desse privilégio. Você é a pessoa mais importante de minha vida, depois de Jesus Cristo, e qualquer felicidade não compartilhada com você deixa de ser completa para mim.
Leia esta carta, medite, chore, depois vá para dentro do seu quarto e diga estas palavras, de todo o seu coração:
- Meu Jesus, quero ser feliz junto com meu marido e meu filhinho que vai nascer. Sei que sou uma pecadora perdida, que vieste buscar neste mundo para a salvação através do teu sacrifício na cruz. Peço-te perdão de todos os meus pecados. Vem, Jesus, entra em meu coração. Fica nele para sempre, porque eu creio em ti e te aceito como meu legítimo, único e todo-suficiente Salvador. Amém.
Viu como é simples ser salva, tornar-se filha de Deus e estar garantida por toda a eternidade? Quem reconhece os próprios pecados, pede perdão e aceita Jesus como o Deus-Filho, Salvador e Redentor da humanidade, está salvo. O resto é hipérbole de pessoas que gostam de complicar a simplicidade do Evangelho de Cristo. E, uma vez salvo, para sempre salvo! Amém!
Com um beijo carinhoso de sua mãe, que não sendo a maior nem a melhor, contudo ama você mais do que todas as pessoas deste mundo.
J. Primavera, 10/01/79.
Rosemary, meu bebê
No dia 12 de agosto de 1976 tomei um avião da VASP em direção a Fortaleza, lá chegando a zero hora do dia 13 de agosto. Pretendia lançar “Cubos de Gelo, o primeiro dos meus 10 livros,” em Crato, minha cidade natal, através do Rotary Club daquela cidade. Os dias 13 e 14 passei visitando clubes de Rotary a propósito do lançamento do livro, também, em Fortaleza. Visitei ainda algumas clínicas de beleza que usavam os produtos Mary Schultze e aproveitei a boa vontade de Isaura, dona da “Clínica Life” para me cuidar um pouco.
No domingo, 15 de agosto, mamãe estaria reunindo todos os filhos para comemorar o seu 68º aniversário, que seria no dia 16, mas que iríamos comemorar no domingo à meia noite, entrando a segunda-feira em festa. À tarde tive uma dor de cabeça, provavelmente devido ao tempo excessivo que fiquei numa sauna. Tomei um comprimido e me deitei, enquanto mamãe e algumas irmãs iam ao aeroporto esperar nosso irmão José, que chegaria do Recife para o aniversário de mamãe. Quando acordei, lá pelas 19 horas, estava alarmada com um sonho muito plástico que acabara de ter. Chamei minha irmã, Savany, e contei o sonho.
Sonhei que recebera um cartão postal, com a “Última Ceia” colorida em alto relevo, enviado por meu marido, que estava no Rio e faria aniversário também no dia 16. Dentro do cartão, com a letra dele, havia esta mensagem: “Mamãe, como é que uma... pode fazer isto com o ...?” Assinado: Hans.
Em lugar dos pontinhos havia a cabeça da “Virgem Maria”, que eu interpretava como sendo a palavra “mãe”, e em seguida, a cabeça do “Menino Jesus”, que eu interpretava como sendo a palavra “filho”.
Então o conteúdo da mensagem que dei a minha irmã era este: “Mamãe, como é que uma mãe pode fazer isto com o filho?
Uma interpretação total para a mensagem me veio à mente e comecei a chorar. Meu marido estava muito doente, desde o assalto, e provavelmente iria morrer logo e este seria o seu último aniversário. Eu estava longe dele, daí a mensagem. Savany me consolou, dizendo que bem poderia ser outra coisa. Quando mamãe e os irmãos chegaram, contei o sonho e todos me consolaram, dizendo que eu ainda estava nervosa por causa dos assaltos à nossa casa, e tudo iria terminar bem. Mas continuei a sentir aquela sensação iminente de que algo iria acontecer e mentalmente pedi a Deus que não fosse uma notícia de morte.
À meia noite, quando íamos começar a festa do aniversário de mamãe, soou a campainha e alguém gritou:
- D. Rosa, encomenda pra Senhora.
Entendi que era o telefone e disse logo que devia ser notícia ruim de casa. Rosa, minha irmã de São Paulo, e Savany, minha irmã viúva que morava com mamãe, foram atender e demoraram alguns minutos. Quando entraram, Rosa trazia uma caixa que parecia conter um bolo de aniversário. Dentro dela havia uma linda criança de três dias, que, segundo informações contidas num papel anexo, havia nascido exatamente na hora em que eu desembarcara no aeroporto – zero hora do dia 13 de agosto. Dentro da caixa havia uma carta pedindo para ser adotada (que Deus lhe recompensará), uma lata de leite Pelargon, uma de Nidex, duas mamadeiras de plástico, muda de roupa fina, bordadinha à mão, e duas fraldas. Provavelmente a mãe daquela criança estava abandonando-a forçada pelos preconceitos, mas devia amá-la de verdade, pois havia pensado nos mínimos detalhes. Quando vi a menina, senti uma sensação estranha e uma voz bem suave, lá dentro, dizendo: “Como é que uma mãe pode fazer isto com o filho?”
Foi grande o alvoroço! Todos queriam ver a linda garotinha morena, de cabelos e olhos “negros como as asas da graúna”, que estava dentro da caixa. Então mamãe tomou-a amorosamente nos braços e começou a chorar de emoção. Todas as mulheres ali presentes foram sondadas sobre a possibilidade de adotá-la, pois mamãe, a líder da família, se achava muito idosa para tal missão, sendo já bisavó. Eu fui a única a não ser questionada, pois mamãe conhecia de sobra os grandes problemas que eu estava enfrentando, naquele tempo. Mesmo assim, algo me empurrou para o centro da sala e falei:
- Mãe, eu fico com esta criança. Ele veio para mim e só agora entendo a mensagem do meu sonho.
Todos concordaram. No dia seguinte liguei para o Schultze dizendo que ele seria pai novamente – depois de velho. Ele ficou tão surpreso, que não queria concordar com a adoção, mas convenci-o facilmente. Com a ajuda de Marta Leitão de Araújo, competente Assistente Social, cuidei dos papéis que me dariam o direito de trazer a criança para o Rio. Com dez dias de nascida, Rosemary Schultze (como estava escrito no atestado de batismo e na autorização do Juizado de Menores) embarcou num avião da VASP rumo ao Rio de Janeiro, que seria oficialmente sua cidade natal. Foi logo registrada como nossa filha legítima, nascida em Copacabana, no apartamento de minha secretária Marietta. Rosa e José foram os padrinhos do batismo católico. Rosemary ganhou tantos presentes que, ao chegar em casa, notei que o enxoval estava completo. Faltavam apenas um berço, uma cômoda e uma banheira. Foi o Schultze quem se ofereceu para comprá-los, no dia do registro civil, e assim facilmente assumimos ambos o papel de pais e nos sentimos tão felizes como se realmente eu tivesse dado à luz aquela criança. Confesso que houve um momento em que eu quase desisti da adoção. Em Mateus 18:5 Jesus fala: “E quem receber uma criança como esta em Meu nome, a Mim me recebe”. Obedeci, mesmo não sendo ainda convertida.
Rose nos trouxe felicidade porque esta não depende de valores materiais, mas sempre de valores morais e espirituais. Por isso mesmo existem tantos ricos infelizes e tantos pobres felicíssimos, neste mundo de Deus!
Escrevi esta crônica em 1979, depois de ter-me convertido ao Evangelho do Senhor Jesus Cristo. De lá para cá, tenho aprendido muito sobre como é bom e proveitoso adotar uma criança, em vez de um cachorrinho, como o fazem muitas senhoras que conheço. Louvado seja Deus pela minha filha! Hoje ela trabalha no Departamento Pessoal, na FESO (Teresópolis), graças à recomendação de um dos diretores, que lhe deu essa chance, após ler a sua história e ficar comovido com a mesma.
Obrigada, Doutor. Deus há de recompensá-lo por esse ato de amor ao próximo. Sei que o Sr. é um homem de muitas posses, mas, mesmo assim, o seu coração ainda se enternece ao ver uma jovem de talento, implorando um simples emprego, neste país de desempregados. Que Deus o abençoe muito por ter recomendado a minha Rosemary! Deus é muito justo, Doutor! Espere o melhor!
Algumas da Rosemary
Rose começou a falar muito tarde, por isso resolveu tirar o atraso revelando-se, em seguida, uma criança muito tagarela. Um dia quando assistíamos no “Globo Repórter” o filme, Paixão e Morte de Cristo, ela comentou indignada:
- Mãe, você viu que moço chato? Ele bateu no Jesus, jogou ele no chão e depois matou ele no pau.
Certo dia brigou com o pai e disse que não queria mais saber dele. Então lhe prometi:
- Vou lhe arranjar outro pai. É Jesus, o Papai do Céu. Ele mora numa casa muito linda, lá no céu cheio de estrelas. A casa tem jardim, piscina e muitas flores.
Ela concordou e todo o dia me perguntava quando poderíamos ir morar na casa do Jesus. Depois de muito tempo, perdeu a paciência[,] e num momento de muito amor pelo pai, veio a mim e falou:
- Mãe, eu não quero mais que o Jesus seja meu pai, não. Ele mora muito longe eu prefiro ficar com o meu pai aqui da terra, tá?
Outro dia, quando abriu os olhos ao contato da mamadeira, foi logo falando:
- Mãe, eu tive um sonho tão engraçado. Sonhei que o papai tinha dormido na sua cama (O Schultze e eu dormíamos em camas separadas).
Em junho de 1981, estávamos em São Paulo, jantando em casa do grande escritor e pregador evangélico, Dr. Aníbal Reis. Ele a cumulava de gentilezas e ela resolveu retribuir dizendo:
- Dr. Aníbal, o senhor é lindo! O senhor é o Rei Salomão! Porque o senhor é bonito e é sabido!
Tendo ido assistir missa na Igreja Católica, em companhia de minha irmã Rosa, sua madrinha, ficou impressionada com a beleza física do padre e gritou:
- Dindinha, que pastor lindo! Onde foi que você arranjou um pastor tão bonito?
Quando viajavam de ônibus para Osasco, onde Rosa trabalhava, ela viu entrar um homem de boa estampa e foi logo comentando em voz alta:
- Dindinha, olha que homem lindo! Por que você não casa com ele, hem?
Rose tinha uma verdadeira psicose por casamento. Tanto que vivia dizendo que ia se casar com o primo Daniel, que naquela época tinha dez anos. Certa vez o garoto deu-lhe um tapa no rosto e ela veio se queixar. Quando fui perguntar o motivo da agressão, ele me explicou:
- Também, tia, ela estava desabotoando o cinto da minha calça jeans pra ver o que tem lá dentro!
II Parte - A Nordestina, também conhecida por Dadita ou D. Mariquinha
Aventuras de Dadita
(Em Berlim e Wüstenbrand)
Apesar de ter nascido no nordeste brasileiro, Dadita herdou a pele e os cabelos claros dos seus antepassados portugueses e holandeses. Casou-se com um alemão de Berlim e virou alemã, de tal maneira que ninguém poderia descobrir a sua origem nordestina, a não ser pelo sotaque.
Já na terceira idade, ela resolveu aproveitar a carona moral da filha mais velha, que reside na Alemanha Oriental, e viajou com esta e a neta Marion para a terra natal do falecido esposo. Seu objetivo principal era fazer pesquisa religiosa a respeito de Martinho Lutero e da Reforma Protestante.
Sua aventura começou na Serra de Teresópolis e Estrada Rio-Petrópolis, onde pegaram um engarrafamento de mais de duas horas, tendo chegado ao Aeroporto, 15 minutos antes do avião decolar rumo a Madri, onde ficariam por vinte e quatro horas. A viagem foi tranqüila até a Espanha e desembarcaram ao meio dia (hora de Madri) no Aeroporto Barajas, indo se hospedar no Hotel Arosa, pertinho da Plaza de España. Depois de um lanche rápido numa cafeteria, as três mulheres foram visitar o Museu do Prado - Palácio Real - e lá ficaram até às dezessete horas, quando reabriria o comércio, após a siesta madrileña. No Museu, Dadita ficou muito impressionada com o teto dos salões principais do palácio, todos pintados a ouro e tintas não perecíveis, decorados em alto relevo, de maneira que ela não tem palavras para expressar tamanha beleza. Mas ficou imaginando que se os vassalos dos papas (os reis da Espanha) podiam gozar de tanto luxo, como seriam, então, as residências dos altos prelados?... Aproveitou para comprar um irresistível colar de pérolas de Mayorca, duas cópias de pintores espanhóis e um livro Santos Y Pecadores - La Historia de Los Papas - de Eaman Duffy, ficando com apenas dois dólares de troco.
No dia seguinte, no Aeroporto Barajas, aconteceu um incidente desagradável. A neta Marion teve uma hemorragia nasal e foi levada às pressas ao pronto socorro do aeroporto. Felizmente o vôo atrasou duas horas e meia e assim puderam embarcar a tempo para Berlim. Lá chegando, no Aeroporto de Tegel, havia um casal de primos aguardando-as, porém sem carro, por causa de um pequeno acidente. Dadita ficou muito preocupada porque ninguém lhe pediu o passaporte para conferir sua entrada, o que mais tarde foi esclarecido; é que ela havia embarcado na Espanha, que estava dentro da União Européia. Quando pisou o chão berlinense, depois de trinta e dois anos, ficou muito emocionada porque esta é a cidade natal dos dois alemães que ela tem amado a vida inteira: seu marido Hans e o teólogo luterano Dietrich Bonhoeffer, ambos falecidos. O marido morreu de um enfarte em 1982. O teólogo foi assassinado por Hitler em 1944. O pecado do marido foi abusar de cerveja e salsicha. O de Bonhoeffer foi pregar o evangelho de Cristo, durante o regime nazista. Bonhoeffer ficou dois anos na prisão, de onde escreveu cartas de amor à família, à noiva e aos irmãos em Cristo, antes de ser executado a mando de Hitler, como Paulo o fora, quase dois mil anos antes, a mando de Nero.
De Tegel as mulheres foram de ônibus para a Friedrich Platz. O ônibus tinha assentos de veludo estampado e Dadita ficou fazendo comparações com os assentos dos ônibus de Juiz de Fora, Teresópolis e Duque de Caxias. Dali tomaram um U-Bahn (metrô) para Rostock e dali outro para Lichtenberg, de onde tomaram um trem interestadual para Dresden e de lá, um carro até Wüstenbrand, onde finalmente chegaram salvas, quarenta e oito horas após terem saído do Rio. Uma pizza com coca-cola foi o jantar improvisado que tiveram, o típico e preferido, tanto no primeiro como no terceiro mundo.
Quando desceu do ônibus em Berlim, Dadita quase foi presa por furto. É que na entrada da estação do primeiro trem para Lichtenberg, ela viu uma banca de frutas e sobre a mesma, uma quantidade enorme de cerejas bem vermelhinhas. Ficou com água na boca, foi até lá, fez sinal para o vendedor de frutas, pegou uma cereja e colocou na boca. Aí se lembrou que a filha e a neta haviam descido antes dela, apavorou-se e ia sair depressa, quando o vendedor olhou-a de cara feia e disse que ela estava lhe devendo a compra mínima de meio quilo de cerejas. Ela ia discutir com o sujeito, no melhor alemão possível, quando ele lhe apontou uma dupla de “Cosma e Damiana”, ou seja, duas mulheres bem fortes, com cerca de 1,80m de altura, que estavam conversando ali perto. Ficou nervosa e sacou da bolsa seus últimos dois dólares para liquidar o “prejuízo”, tendo que levar meio quilo de cerejas. Quando foi pagar, o moço usou a máquina de calcular e disse que eram seis marcos, ou seja 3,5 dólares. Ela se apavorou mas, de repente, viu a prima Carla chegando à sua procura. Esta pagou os seis marcos alemães e as duas foram saindo na maior pressa, quando o vendedor, muito feliz com o desfecho do incidente, chamou Dadita e ofereceu-lhe uma cereja de brinde, a qual ela jogou com raiva em cima dele, falando o único palavrão que aprendera, há mais de quarenta anos, com o marido luterano, e se foi, com medo das duas policiais.
Em Wüstenbrand, a 15 quilômetros de Chemnitz, a cidade Karl Marx, onde há uma Universidade e um Shopping Center enorme, Dadita se hospedou com a filha que ali reside há cerca de dois anos. A temperatura média aqui é de 30º nesta época; o sol nasce às seis horas da manhã e se põe às nove da noite, o que faz com que os dias sejam muito longos e produtivos. Depois da pizza foram dormir e quando ela se ofereceu para lavar a louça, a filha disse que colocaria tudo na máquina de lavar e quando esta ficasse cheia, seria tudo lavado. Na Alemanha a água custa em média 12 marcos por metro cúbico e a economia é tão grande que alguns alemães deixam até de escovar os dentes! Ao saber disso Dadita ficou de mau humor. É que ela tem mania de ordem e limpeza. Limpeza encontrou. Ordem mais ou menos. E o que mais a deixou preocupada foi o problema do lixo, que aqui tem sete latões diferentes, para 1. Papel sanitário, 2. lixo seco não deteriorável, 3. papel e papelão, 4. plásticos, 5. tecidos, 6. vidros, 7. Pilhas e congêneres. Diante de tanto luxo e complicação em matéria de lixo, a turista desejou voltar correndo para o Brasil, mas se conteve, quando pensou na necessidade de preservar o meio ambiente num país pequeno como a Alemanha.
Ao despertar, no dia seguinte, estranhando o som da campainha do telefone, Dadita ficou meio desnorteada, achando que ainda estava em Teresópolis, e levantou sonolenta. Era a filha desejando saber se ela estava bem. Estava! Os netos tinham ido à escola, a filha, à firma onde trabalha como secretária, e ela ficara sozinha naquele apartamento enorme, cheio de modernidades assustadoras. Para gravar a sigla da firma onde a filha trabalha - que é RBL - Dadita traduziu-a como Rabo do Boi Louco. Mais tarde, ela resolveu fazer um café e se deu mal. O fogão é elétrico. Ligou o forno para esquentar um sanduíche de queijo e ao levantar-se apoiou a mão esquerda na chapa, que por pouco não virou um churrasco de avó. A dor foi terrível, Dadita correu atrás de um creme Nívea líquido e a queimadura melhorou bastante. Desistiu da cozinha e foi ligar a TV Schneider, de 29 polegadas. Mas a bichinha continuou muda e despida de qualquer imagem. Desistiu da TV e ligou o aparelho de som Awa, para ouvir alguns Cds de música clássica, mas cadê som, meu Deus? Antes de tentar o som, ela fizera uma pesquisa nos discos dos netos e ficara horrorizada. Na “cedeteca” dos netos só encontrou rock e música sertaneja da pior qualidade! Se o avô alemão visse uma barbaridade dessas morreria de decepção com a sua descendência, pois também só gostava de música erudita.
Depois de tanto fracasso, em plena manhã de quarta-feira, Dadita teve uma idéia brilhante. Subiu até o andar superior do apartamento e procurou consolo no computador do neto. Só que não conseguiu grande progresso na digitação de uma carta, pois todos os dados estavam em alemão. Ela é boa no idioma de Shakespeare, mas péssima no idioma de Goethe, por isso ficou boiando atrás de informações. Conseguiu algumas vitórias, menos encontrar o til, o trema, que já vem acoplado às vogais, e o rabinho do cedilha. Então desistiu e ficou lendo o livro dos papas, que pela primeira vez na vida lhe pereceram muito simpáticos! Mas como Deus é bom demais, naquela noite de uma quarta-feira tão desastrosa, Dadita recebeu um telefonema do editor, informando que o seu oitavo livro (A Deusa do Terceiro Milênio) já estava pronto para ser lançado em todo o Brasil. Ela ficou feliz e agradecida a Deus pela vida de um grande amigo, que achou por bem publicar o livro, depois de quatorze anos, desde que foi publicado o último.
Na quinta-feira, Dadita saiu a passeio com a neta de vinte anos. Andaram nada menos de três quilômetros a pé, até a estação de trem em Wüstenbrand, de onde seguiram para Chemnitz (500 mil almas). E de lá para Linbach (100.000 almas), onde visitaram a firma em que trabalha a filha mais velha. Quando a fome apertou, as duas excursionistas almoçaram na cantina da firma, pedindo o único prato disponível: repolho roxo com batata cozida e filé de frango empanado. Dali iam regressando pelo mesmo caminho, quando o bom Deus providenciou encontro com um amigo comum e ele veio trazê-las de carro em casa. Este amigo é tão apaixonado pelo Brasil que nos visita cada ano, e em Petrópolis sempre se encontra com o Teólogo Leonardo Boff, de quem é fã ardoroso. Já está de passagem marcada para julho, junto com a filha.
Na sexta-feira, Dadita fez uma boa faxina no apartamento, junto com a neta mais velha, e, quando a filha voltou do trabalho, quase chorou de alegria, agradecendo o tempo inteiro. No sábado, Dadita já estava craque em matéria de modernidades, pois já havia escutado música, passado a ferro, cozinhado e feito uma porção de serviço doméstico. Limpar vidraças na Alemanha é moleza! Os produtos são tão bons, que tudo é feito rapidamente e nem se nota, principalmente quando o som está tocando uma seleção de clássicos. Houve momento em que Dadita, muito feliz em poder ser útil, pensou: será que no céu a gente vai ficar à toa? Espero que não, pois não consigo parar de trabalhar... Se pelo menos lá houver uma boa faculdade de Teologia, então vou me realizar...
No sábado a filha foi trabalhar noutro emprego - como Veterinária - sua verdadeira profissão. Quando voltou à noite, estava enjoada porque tivera de cuidar de dois bichinhos muito especiais, cujas proprietárias eram meio histéricas. Um deles, um rato de estimação, no qual ela tivera de dar uma injeção com o maior cuidado, pois a dona do bicho estava olhando-a com uma cara de “olha lá como trata o meu filho”, e a moça não se pode dar ao luxo de perder esse emprego, pois o aluguel aqui é caro demais. O outro “cliente” era uma raposa de estimação, do tipo conhecido como “Martha”.
No Domingo, Dadita acordou toda eufórica porque ia conhecer a igreja do bairro, que é igual a todas as demais no interior da Alemanha. Chegou na hora exata do início do culto matinal e notou que na entrada do templo existe um cemitério muito bem cuidado e todo florido. Também viu uma imagem de Cristo parecida com aquela da catedral dos Mórmons em Utah. Ficou no andar térreo e notou as seguintes diferenças em relação à sua igreja no Brasil: 1. O púlpito fica a cerca de cinco metros de altura, é todo branco e ouro, um luxo. 2. Tem um altar igual aos das igrejas católicas. 3. Tem um crucifixo diante do qual todas as orações são feitas. 4. A pastora abençoa com os dedos levantados, exatamente como o papa, e fazendo o sinal da cruz. 5. Ela se veste com uma toga negra igualzinha à dos padres de antigamente. 6. Os hinos cantados são todos dos séculos 13 a 18, ou seja, hinos gregorianos adaptados à Reforma. 7. Existem imagens de Maria e outros santos (uma de São João Batista, do século 18), nas paredes e as lâmpadas são todas em forma de velas.
Segundo informação do neto, que levou Dadita à igreja, ela se coloca numa posição de superioridade em relação aos fiéis, exatamente como o padres católicos. Durante o sermão, do qual Dadita só entendeu 10%, o nome de Jesus foi pronunciado 20 vezes, o de Maria 5 vezes e a expressão “ação de graças” nada menos de 10 vezes, o que deu a impressão de que o assunto do mesmo era agradecer sempre a Deus por todas as bênçãos recebidas diariamente, etc. Após o culto, Dadita resolveu procurar a tal senhora. Ela só fala dois idiomas: alemão e russo, o que tornou a conversa difícil. Além do mais, estava muito ocupada, pois era um dia especial, de condecoração das pessoas (todas nascidas entre os anos 09 e 34 deste século), que sofreram perseguição durante o regime comunista, as quais se mantiveram fiéis ao Senhor Jesus. Contudo, ela foi tão gentil e se mostrou tão interessada ao ler o cartão de Dadita que imediatamente a convidou para um chá em sua residência, no dia seguinte. Dadita aceitou.
Na segunda feira, a turista se levantou. depois que todos já haviam saído. Tomou uma xícara de café, comeu alguns biscoitos e ligou o som para ouvir algumas músicas de natal pela Orquestra Sinfônica de Xangai. O café da Alemanha é um porre. É mais fraco do que chá mate, e tem gosto de cebola podre, mas mesmo assim a gente tem de tomar para se sentir viva. Com a temperatura de 30º, que incomoda mais do que 40º no Rio, as pernas, os dedos e o rosto das brasileiras ficam inchados e doloridos e os de Dadita ficaram assim também, o que a tem deixado bastante cansada e debilitada. A única vantagem é que as rugas desaparecem um pouco por causa da inchação. As alemãs de setenta anos não têm uma única ruga no rosto e isso deixa Dadita em tremenda desvantagem em relação às mulheres de sua idade que são gordas, mas têm o rosto muito jovial.
Às duas da tarde, Dadita foi fazer a entrevista com a pastora Helga Feigel, que prega há nada menos que 25 anos na igrejinha do bairro. Lá chegou Dadita com 15 minutos de atraso, porque se perdeu no caminho, embora a casa fique a poucos metros do apartamento da filha. É que ela tomou um caminho mais longo para não ter de passar dentro de uma estrebaria e sujar a sandália nova, que ela comprou na Alemanha e depois viu que era "made in Brazil". A pastora a recebeu com um largo sorriso. Estava descalça, usando uma saia verde toda manchada e enrugada e um blusão amarelo, acho que desejando homenagear a bandeira brasileira. A palestra foi muito cordial, uma boa salada de inglês e alemão, regada a chá preto sem açúcar. Quando Dadita viu que não ia conseguir engolir aquele chá amargo pediu açúcar e recebeu três tabletes, que quase adoçaram o chá, que ela sorveu até 2/3 da caneca, a fim de não deixar má impressão. Em vez de falar de religião, já que a pastora tem cara de liberal, a "teóloga brasileira" preferiu falar sobre a entrevistada. Ficou sabendo que ela nasceu em Bonn, tem 51 anos de idade, dos quais 25 como pastora em Wüstenbrand. Estudou teologia na Universidade Karl Marx, em Leipzig (hoje Lepziger Universität), de 1967 a 1972. Agora vejam que teologia ela deve ter aprendido num regime comunista ateu.
O povo alemão costuma dizer que o lado oriental é terceiro mundo, enquanto o ocidental é primeiro mundo. É verdade. Embora quase tudo aqui seja fantasticamente avançado, quando comparado ao lado ocidental a diferença é enorme. No lado oriental, muitas vezes, tem-se a impressão de estar num subúrbio do Rio, com pontas de cigarro e lixo espalhados pelo chão, coisa impossível de se encontrar no lado ocidental. As mulheres são gordas, mal vestidas e têm os cabelos ensebados, talvez pela má qualidade e escassez da água, que é reaproveitada e meio salobra, sem falar no preço da mesma. O detergente mais usado na cozinha e no banheiro é um que não precisa de enxágüe. Será que isso não vai dar câncer nas pessoas, depois de alguns anos de uso?
Dadita gostaria de ficar na Alemanha! Pelo menos não correria o risco de ser seqüestrada no Brasil, nem ter os seus órgãos “negociados” no hospital por algum enfermeiro ambicioso. Os hospitais são tão limpos e luxuosos como um hotel cinco estrelas. Dá até vontade da pessoa ficar doente. Mas Terê é a melhor cidade do mundo e Dadita só vai sair de lá para o céu.
Berlim, junho 1999.
D. Mariquinha em Berlim
D. Mariquinha (D.M.) tomou um avião da Ibéria no Aeroporto Tom Jobim, RJ, e viajou para Berlim, via Madri. Pretendia visitar a família, fazer compras com a filha mais velha, cozinhar alguns pratos especiais para os netos e consultar alguns livros na Biblioteca de Berlim (Stadt Bibliothek), a respeito das mutretagens dos ímpios Pios XI e XII, os dois “armadores” da II Guerra Mundial.
O vôo Rio/Madri, com a duração de nove horas, foi tranqüilo, exceto pelo viajante da poltrona vizinha. Era um suíço alto e louro, chamado Antônio, que falava alemão e italiano, tentando conquistar uma jovem belga que sentava na poltrona atrás dele. D.M. agüentou o tal suíço durante sete horas, até que descobriu uma poltrona vazia na fila ao lado, examinou o passageiro e mudou-se para lá.
O passageiro tinha aspecto oriental, era tranqüilo e D.M. deu-lhe um sorriso, antes de pedir licença (em Inglês) para sentar ao seu lado. O moço concordou com um sorriso tímido e um aceno de cabeça, e quando D.M. quis explicar-lhe (em Inglês) o motivo da mudança, ele disse que não falava esta língua. Por incrível que pareça, ele falou em português e D.M. alegrou-se, perguntando se ele era brasileiro e de qual região. Ele respondeu que era de uma cidade do Ceará, perto da cidade natal de D.M. e atualmente residindo no Rio de Janeiro. O papo durou duas horas, desceram juntos e ficaram conversando no Aeroporto Barajas, em Madri.
O moço se chama Efraim e ia a Madri expor suas esculturas em madeira, numa exposição internacional de artes. No aeroporto madrileno ele se encontrou com um repórter do Jornal O Globo que ia cobrir a referida exposição. O que tinha o cearense de gentil e humilde, o tal repórter do Globo tinha de pernóstico e orgulhoso. Ao saber que a cearense escreve na “Folha Universal”, ele passou a tratá-la com o maior desprezo, como se ela fosse um inseto nojento. Enquanto o repórter e o cearense aguardavam os amigos que deveriam buscá-los para o hotel, em Madri, D.M. pediu licença e andou uns 500 metros em direção ao portão de embarque que lhe fora designado, e ficou sentada durante mais de duas horas, lendo um livro, enquanto aguardava o vôo para Berlim.
Chegando ao Aeroporto Tegel, em Berlim, D.M. teve uma recepção inesperada. Logo que a porta da aeronave se abriu ela deparou-se com a recepcionista Doreen, da Ibéria, dando-lhe boas vindas com uma bela corbeille de flores enviada pela neta Luciana, e tomou-lhe das mãos a maleta de viagem.
D.M. saiu desfilando pelo aeroporto e em seguida a recepcionista apanhou o restante da bagagem e foram encontrar a família de D.M. Ao passar por uma obesa senhora de vestido longo azul-rei, contrastando com os cabelos vermelhos, D.M. foi apontada com estas palavras: “ela deve ser uma passageira VIP”. O caso é que esse tipo de recepção é dado somente aos VIPs ou deficientes idosos, o que não é o caso de D.M. que, apesar dos 71 anos, ainda pesa 50 quilos, tem uma saúde de ferro, anda correndo e fala à beça! De um certo modo, aquela senhora acertou, pois D.M. é realmente uma VIP no reino de Deus, visto como trabalha para o Rei Jesus.
Lá fora, estavam aguardando-a: a filha, os primos berlinenses, e, por acaso, um jornalista presbiteriano chamado Carlos Klein, residente em Londrina, PR, o qual estava regressando ao Brasil, depois de ter feito a cobertura de um congresso do Concílio Mundial de Igrejas, em Lausanne, Suíça. Ele havia acabado de conhecer Luciana e com ela se entrosara, ali mesmo no aeroporto.
A reunião de família em Tegel foi um momento de glória para D.M., com Efésios 3:20,21 mais uma vez se realizando em sua vida de crente no Senhor Jesus Cristo. “Ora, aquele que é poderoso para fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, segundo o poder que em nós opera, a esse glória na igreja, por Jesus Cristo, em todas as gerações, para todo o sempre. Amém”. Linbach Oberfronhna, fevereiro de 2001.
Chapeuzinho Vermelho e o Dentista Alemão
Sempre que algo de ruim está para acontecer a D. Mariquinha (D.M.), o Senhor Jesus Cristo lhe proporciona um momento de glória, como que preparando-a para uma breve provação. Esse momento glorioso lhe havia sido proporcionado no Aeroporto Tegel, em Berlim.
Na madrugada do seu terceiro dia de estada na Alemanha, D.M. acordou com uma terrível dor de dente. Ficou apavorada e pensou em acordar a filha, mas logo desistiu, lembrando-se que esta se levanta diariamente às cinco horas da manhã, mesmo sob uma temperatura de até 20 graus negativos. Leva os filhos à escola e às sete horas chega ao local de trabalho. D.M. procurou um analgésico nas gavetas dos móveis da sala, da cozinha e do banheiro, porém, nada encontrou. Em um dos armários ela viu algumas garrafas de vinho e, dentre estas, uma de champanhe, cujo título era “Rot Käppchen” (Chapeuzinho Vermelho). Ela pensou em sorver todo o conteúdo da garrafa, apagar de vez e, assim, esquecer a dor de dente.
Contudo, a Palavra de Deus veio logo à sua mente, conforme Provérbios 20:1: “O vinho é escarnecedor, a bebida forte alvoraçadora; e todo aquele que neles errar nunca será sábio”. Também Efésios 5:18: “E não vos embriagueis com vinho em que há contenda, mas enchei-vos do Espírito” (ACF). Em vez de desobedecer Efésios 5:18, resolveu ficar em Efésios 5:17, que diz:” Por isso não sejais insensatos, mas entendei qual seja a vontade do Senhor”.
D.M. examinou bem a garrafa, analisou o conteúdo da mesma e lembrou-se que o pecado sempre começa com a apresentação do fruto proibido, como aconteceu com Eva, no paraíso. Em seguida vem a apreciação do mesmo, depois vem o debate entre a consciência bíblica do cristão e a consciência secular moldada pela TV. Ela avaliou a situação, ou melhor, o problema: Tese=dor. Antítese=fé e, finalmente, a síntese=coragem. Guardou a garrafa e no desespero da dor, coçou violentamente a cabeça, quebrando uma unha. Foi ao banheiro e procurou uma lixa. Dentro da bolsinha de manicure estava uma cartela de analgésico e o anti-inflamatório (Cataflan), que ela tomou bem depressa. Adormeceu, logo em seguida, e só despertou, lá pelas sete horas da manhã, com a voz da filha chamando a neta menor para entrar no carro.
Deus havia permitido a tentação, para que D.M., usando o livre arbítrio, fizesse a avaliação, vindo em seguida o debate e, por fim a VITÓRIA!
Durante aquelas horas de dor, D.M. lembrou-se de sua secretária M.P., que tem passado por algumas crises de sofrimento, porém sempre tem pautado sua vida pela santa, pura e infalível Palavra de Deus, valendo-se de Romanos 8:28.
Ó, Eva, por que você não foi mais esperta, obedecendo a Palavra de Deus? Teria evitado tanta dor aos seus filhos!
Conforme o relato acima, depois de duas noites e um dia de forte dor e jejum forçado, D.M. resolveu procurar um dentista, o que fez em companhia do neto Gustavo e da neta Marion. Marcaram antecipadamente a consulta por telefone e foram atendidos pontualmente pelo dentista J. Anderson. Este examinou o dente infeccionado e disse que o dentista brasileiro havia deixado parte do canal sem tratamento. O dente estava condenado e precisava ser extraído com urgência. Ao saber que a extração custaria 100 marcos alemães, D.M. concordou, pois estava com 116,76 marcos na carteira e algumas notas de 100 dólares.
O dentista levou 35 minutos entre a picada da anestesia e a extração do dente. Enquanto isso, uma bela enfermeira loura de olhos azuis acariciava o rosto da cliente, dizendo palavras de ternura. O dente foi extraído em seis partes, pois havia se quebrado. Eram mais alguns pedaços de D.M. que iam para o lixo alemão de produtos biológicos.
Na hora do pagamento aconteceu uma tragicomédia. De cem marcos o preço havia subido para 151,76, porque o dente havia se fragmentado e a extração fora mais complicada, além do preço do Raios-X. Na hora do pagamento, D.M. colocou sobre o balcão da clínica odontológica os 116,76 marcos alemães que possuía e pediu um empréstimo ao neto. Este entregou-lhe todo o seu dinheiro e o total da apuração foi 145,76 marcos. D.M. perguntou se poderia pagar em dólar e puxou uma nota de U$100, apresentando-a ao cirurgião dentista. Ele disse que não tinha troco em dólar, então a cliente sugeriu que ele desse o troco em marcos. Por mais estranho que pareça esse filho de Karl Marx, criado no regime comunista, não concordou. E tiveram de ir ao banco mais próximo, que de próximo nada tinha, e, por falta de amor ao próximo da parte daquele próximo candidato ao inferno, o recibo só foi entregue à cliente, quando esta pagou os seis marcos que faltavam. Chegando em casa, D.M. foi depressa tomar o anti-inflamatório (Made in Brazil), pois o doutor cirurgião já havia avisado de antemão que qualquer problema futuro iria custar mais algumas dezenas de marcos.
Este é o país ideal para o Anticristo começar a governar o mundo - com toda injustiça e iniqüidade! (2 Tessalonicenses 2:3,4).
Hitler foi o último Anticristo e é provável que o próximo “666” saia daqui mesmo. Quando se chega em Berlim, sente-se um pavor inexplicável em relação ao futuro do planeta. Desta cidade partiram todas as ordens mortíferas do monstruoso Füehrer alemão, o qual foi entronizado, apoiado e abençoado “apostolicamente”, por Pio XII, com justiça cognominado “O Papa de Hitler” pelo escritor católico, John Cornwell. Hitler matou 60 milhões de pessoas através da II Guerra Mundial, inclusive 6 milhões de judeus inocentes e 1 milhão de sérvios ortodoxos. “Sua Santidade” jamais poderia excomungá-lo da Igreja, visto como a Concordata assinada entre o seu antecessor, Pio XI, e Hitler, dava a este carta branca para assassinar quantos milhões de pessoas quisesse. Ach, Du, mein Gött!
Linbach Oberfrohna, fevereiro de 2001.
O Motorista Alemão
D. Mariquinha (D.M.) desceu do trem que vai de Dresden até Berlim, cidade estado, onde pretendia fazer uma pesquisa sobre os ímpios Pios XI e XII, responsáveis diretos pela ascensão de Mussolini (Itália), Hitler (Alemanha), Dollfuss (Áustria) e Pavelic (Croácia) ao poder, antes da declaração da II Guerra Mundial.
Olhou em volta procurando um táxi e logo apareceu um senhor de meia idade, todo sorridente, oferecendo-se como taxista. Ela entregou-lhe a maleta de viagem e deu-lhe o endereço do primo, onde ficaria hospedada por três dias. O motorista logo puxou conversa (coisa rara na Alemanha), indagando se a passageira era húngara, como ele supunha, em razão do sotaque. Ela explicou que é brasileira e reside no Rio de Janeiro, acrescentando que gostaria de falar em Inglês, caso ele entendesse essa língua. O motorista concordou, dizendo que falava Alemão, Inglês, Francês e Russo, o que deixou D.M. envergonhada. Conversaram durante todo o trajeto e resumi o diálogo como segue:
Motorista – Ah! A Sra. é do Brasil! Lamento não saber falar o Espanhol, mas sei que a capital do Brasil já não é mais o Rio de Janeiro, é Brasília, uma cidade muito moderna e funcional. Mesmo assim, o Rio continua sendo a capital do futebol e do Carnaval, não é verdade?
D.M. – A língua do Brasil não é o Espanhol, mas o Português. A capital é Brasília, o Sr. fala um Inglês excelente e estou muito feliz em poder conversar com um berlinense, pois meu marido nasceu e cresceu nesta cidade.
Motorista – O Inglês é bem mais fácil do que o Alemão. Não tem gramática e basta que se memorizem 2.000 palavras, inclusive os verbos irregulares, para que se tenha capacidade de entabular uma boa conversação.
No Inglês temos o artigo “The”, que substitui os artigos “Der, Die e Das” no Alemão. O pronome pessoal “you” vale para “Du, Sie e Er” no Alemão. Mas o pior são as declinações herdadas do Grego e do Latim. Sem falar nas palavras quilométricas. Existem palavras no Alemão que deixam o estrangeiro maluco, como esta, por exemplo: “Bewölkerungsdichte”, que em Inglês é “population density” (densidade demográfica). Já a expressão “Declaration of Independence” (Declaração de Independência) no Alemão dá “Unabhangigkeitserklärung”, que deixa o estrangeiro engasgado! Enquanto no Inglês se diz “perception” (percepção), no Alemão temos a palavra “Scharfsichtigkeit”, sem falar na expressão “health insurance” (seguro de saúde) que no Alemão dá “krankenversicherung”, e por aí a fora.
D.M. – Acho que os alemães tomam tanta cerveja, a fim de poder engolir esses “palavrões”, hem? Você crê em Deus?
Motorista - Creio em Deus e também na Trindade. Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus, conforme disse o eunuco de Atos 8:37, e que Ele veio ao mundo para salvar todos os pecadores ... inclusive os alemães!!!
D.M. – Ótimo! Qual é a sua Igreja?
Motorista - Nenhuma. Não freqüento denominação tipo Luterana, Metodista e outras desse gênero, porque elas se aliaram ao Catolicismo Romano, que Lutero odiava... E acabaram se tornando monótonas e infrutíferas! Minha religião está aqui, dentro deste Livro.
Ao dizer isso, ele retirou do porta luvas do carro uma velha Bíblia de Lutero, de couro preto, bastante manuseada. Como D.M. já descobriu, há muitos anos, que os alemães, inclusive os pastores, não crêem na divindade de Cristo, ficou tão emocionada que tomou o Livro nas mãos, apertou-o de encontro ao peito, e começou a chorar de alegria.
Motorista - A Sra. está chorando! Será que falei alguma bobagem?
D.M. – Não! Você falou uma coisa linda! Minha religião também é a Bíblia e o meu Pastor é Jesus Cristo. É verdade que freqüento uma igreja evangélica, simplesmente para obedecer os mandamentos de Hebreus 10:25 e 13:17, que dizem: “Não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns, antes admoestando-nos uns aos outros... Obedecei a vossos pastores, e sujeitai-vos a eles, porque velam por vossas almas...”
Quase todas as religiões, e, principalmente, as seitas heréticas, levam os seus crentes para o inferno. O Catolicismo Romano, por exemplo, faz-se passar por uma religião cristã, mas não é. Os sacerdotes católicos logo aprendem nos seminários uma porção de matérias anti-bíblicas alicerçadas na filosofia pagã, e quando pegam a “Vulgata Latina”, que por si já é uma Bíblia deturpada, estão condicionados a não crer nas verdades fundamentais da Bíblia e nem que ela é a legítima Palavra de Deus, mas simplesmente um livro histórico, etc. Isso é fundamental para a Igreja de Roma, que exige lealdade absoluta à sua hierarquia, embora não ao Senhor Jesus Cristo.
A única religião verdadeira está pautada na Bíblia de Lutero, na Bíblia de Genebra, (a antiga) e na Versão Autorizada de 1611, a King James Bible. Estas produziram os frutos da Reforma Protestante e Jesus disse que pelos frutos é que se conheceria a árvore... Nenhum sacerdote católico, que seja padre, bispo, cardeal ou papa, crê na Trindade, na divindade, no nascimento virginal, na morte vicária, na ressurreição e ascensão do Senhor Jesus Cristo, e afirmam crer apenas para engodar os membros de sua Igreja e auferir lucros. Os dogmas papais – como o purgatório - dão um lucro assombroso!!!
Motorista – Concordo plenamente. A Sra. lê essa Bíblia de Lutero?
D.M. – Minhas Bíblias favoritas são a “King James” (em Inglês) e a “Almeida Fiel” (em Português). Infelizmente, temos uma quantidade enorme de “bíblias” no Brasil, copiadas da “American Standard Version”, da “New American Standard Version”, e de outras edições americanas, que já estão bastante corrompidas. Tenho coluna em jornais evangélicos e me dedico ao estudo deste assunto.
Motorista – Minha irmã em Cristo e minha amiga! Chegamos ao final de nossa corrida. Por favor, não fale em me pagar, pois já ganhei o meu dia. Conversar com uma brasileira bíblica para mim foi o melhor presente, neste Novo Ano de 2001.
Despediu-se, foi embora acenando calorosamente e deixou D.M. com uma tremenda sensação de perda. Ele lhe havia presenteado com uma corrida no valor de 100 marcos alemães, mas lhe havia roubado o coração! O que a consolou foram os seus versículos amados: Romanos 8:28 e Filipenses 2:10-11. E também a certeza de que em breve eles irão se encontrar no céu, cantando louvores ao Senhor Jesus Cristo, o Rei dos reis e Senhor dos senhores! - Berlim, março 2001.
Pluralidade e Longevidade
Minha filha alemã costuma dizer que metade do catálogo de Berlim tem o sobrenome “Schultze”, que pode ser escrito de seis maneiras diferentes. Por esse motivo foi que me casei com um Schultze, conforme a narrativa abaixo.
Estava entrevistando um Químico alemão em Jardim Primavera, RJ, no dia 29/04/1956, a fim de escrever um artigo por correspondência para o Jornal do Comércio do Recife. Ouvimos música erudita, conversamos na medida do possível, pois meu Alemão era mínimo e o Inglês dele era péssimo, sendo que o seu Português até dava para se entender mais ou menos, estando ele já há dois anos no Brasil. No final da conversa de mais de uma hora, perguntei o seu nome e ele respondeu: Hans Georg Max Paul Schultze. Escrevi o dito, pedi que ele conferisse e logo veio a surpresa num Português bem gutural: “Senhorita, muito linda e muito inteligente. Escreveu meu nome certo na primeira vez, quando em Alemão existem seis maneiras de escrever “Schultze”. Senhorita quer casar comigo?” Respondi que “sim” e, em menos de quatro meses, já estávamos casados. Infelizmente, ele só me agüentou por vinte e seis anos, teve um enfarte e morreu.
Quase cinqüenta anos depois, acessando o GOOGLE, descobri que existem 85 sites disponíveis “com resultados de 18.000 para Mary Schultze”, o que me deixa bastante encabulada, pois se aqui no Brasil esse nome é “VIP”, nos países de língua alemã e inglesa ele é vulgaríssimo!!! Contudo, apesar dos milhares de “Marys” e “Schultzes” o nome que me designa é o mais badalado de todos, pelo menos na língua de Camões. Não que eu seja assim tão importante, mas porque sou a velhinha mais louca da Internet, razão por que apareço com tantas críticas acerbas - nos sites católicos - e tantos elogios imerecidos - nos sites das igrejas evangélicas tradicionais - sendo que nos sites das igrejas malaquianas sou muito criticada.
Em geral, os membros da família Macedo (à qual pertenço) sempre passam dos 90 anos de idade. Baseada nisso, pretendo chegar tranqüilamente aos 90, sem dar qualquer desconto aos inimigos que desejam me ver enterrada, o quanto antes. Meu pai morreu com 88 anos e assim mesmo porque tinha mania de pilotar motos envenenadas. Minha mãe faleceu aos 96 anos, em março de 2005. Só minha avó Quitéria, uma nobre senhora de ascendência portuguesa, morreu cedo - com 74 anos - e assim mesmo porque nunca foi ao médico, tendo falecido vítima de um câncer uterino, o qual, se tratado a tempo, não a teria levado tão cedo!
Nos quatro anos em que escrevi na “Folha Universal”, recebi muitas cartas de apoio e, sobretudo, de ameaças. Uma dessas cartas me deixou especialmente feliz e vou contar o porquê de tanta felicidade.
Um réptil mineiro enviou-me, de uma casa lotérica no centro de Belô, em papel timbrado da casa, uma carta anônima bastante violenta, cheia de ameaças e agressões. Nessa carta, ele falava 4 palavrões assustadores, os quais foram repetidos pelo menos seis vezes, perfazendo um total de 24 nomes de baixíssimo calão. Essa carta foi a mensagem mais engraçada que recebi no “Dia da Senhora da Conceição”, meu aniversário. Esse réptil nojento, que tanto me injuriava por causa do artigo “Chegada de Wojtyla ao Céu”, em vez de me escrever uma carta contestando biblicamente as afirmações do que ali escrevi, preferiu me ameaçar de morte, dizendo que havia comprado um revólver calibre 38 e viria ao Rio para me assassinar “com uma bala perdida”.
Mas o que me levou a dar boas risadas foi que esse ignorante - no vernáculo e na Bíblia - disse que eu “não emplacaria o Ano 20001” (vinte mil e um). Além de cometer pelo menos 3 erros de Português em cada linha da carta, ele nem sequer soube escrever 2001, tendo colocado um zero a mais na data, o que me deu nada menos de 18 mil anos de vida, além dos que eu já vivera.
Depressa agradeci a esse católico papólatra/analfabeto essa longevidade, porque eu jamais esperei que Deus me desse tantos anos de vida! Ele me fez bater um recorde universal, até mesmo contra MATUSALÉM! Aliás, provavelmente Jesus voltará neste século 21, pois o mundo está tão podre que não dá mais para agüentar. Satanás deve estar muito ansioso, imaginando quantos milhões de católicos mariólatras/papólatras ele vai “papar” no seu reino infernal, mandando aquecer suas caldeiras a 12.000 graus C, para receber esses coitados enganados pela sua Igreja.
Uma coisa é certa. Se esses católicos não se convencerem de que são pecadores perdidos, incapazes de conseguir salvação através de sua igreja e de boas obras... Se não compreenderem que só Jesus Cristo salva, arrependendo-se dos seus pecados, confessando-os ao Pai e aceitando humildemente o sacrifício de Cristo na cruz, como total e suficiente, irão todos para o inferno. E não adianta ficar confiando na “única igreja verdadeira”, numa boa temporada no lendário purgatório e noutras baboseiras romanistas, porque todos nós seremos julgados pela Palavra de Deus (João 12:48) e a Igreja de Roma já deletou a Palavra Santa, há muitos séculos, substituindo-a pela Tradição e pelas encíclicas papais. A prova disso são os seus dogmas fraudulentos.
Também não adianta esses católicos me enviarem e-mails (como um deles, metido a sabichão) citando Lutero e outros Reformadores, que fizeram elogios a Maria, porque eu não sigo Lutero, nem Melâncton, nem Zwinglio e nem Calvino. Sigo a Bíblia e somente a Bíblia, principalmente uma Bíblia séria, embasada no Textus Receptus dos apóstolos, o qual foi organizado por Erasmo - a Bíblia King James (em Inglês) e a FIEL (em Português). Não confio nessas “bíblias modernas”, cujos editores entraram em conluio com o Vaticano, publicando também material pornográfico, além da “Bíblia de Satanás”. Também não confio nas “bíblias” católicas construídas segundo a corrompida Vulgata Latina, todas elas embasadas nos textos Vaticanus e Sinaíticus, que o vasculhador de lixo, Tischendoff, encontrou no quintal do Mosteiro de Santa Catarina (no Monte Sinai), no século 19. Esses textos estavam no lixo, exatamente porque nem mesmo os monges católicos achavam que merecessem destino mais apropriado. Só que agora eles são “os mais antigos” para os apóstatas!
Despertem, amigos católicos! A Igreja de Roma não tem e nem pode oferecer salvação porque só Jesus Cristo salva. Nosso grande Deus e Salvador não precisa da Igreja de Roma, nem dos seus papas e, muito menos, dos seus padres, para outorgar salvação aos pecadores. Também não precisa da ajuda da Senhora Mãe Dele, que morreu e virou pó, como todos nós, pecadores destituídos da glória de Deus (Romanos 3:23).
Mary Schultze, maio 2004.
O Esdrúxulo Visitante
D. Mariquinha estava sentada na sala, aguardando o melhor horário noturno para se ligar na Internet, quando, de repente, apareceu-lhe na frente um sujeito esquisito, trajando camisa branca, calça preta e uma capa vermelha, a qual quase lhe cobria os hirsutos pés de cabra.
A velhinha ficou surpresa, mas não perdeu a pose e foi logo indagando, sem dar tempo do visitante responder.
1. Como foi que você entrou aqui, se a porta está trancada?
2. Você veio fazer propaganda do Flamengo, pra ver se eu compro alguma ação desse clube? Pois, fique sabendo que eu detesto futebol!
3. Ou você pensa que ainda estamos no carnaval dos 500 anos?
O visitante olhou para ela com uma cara de deboche e respondeu:
1. Entrei pela porta fechada porque tenho um corpo imaterial, isto é, sou um “espírito de luz” e não me detenho diante de obstáculos materiais.
2. Torço pelo Flamengo, sim, porque, graças à idolatria dos “flamenguistas”, tenho levado muita gente para o meu reino infernal. O bom do futebol é que ele impede, até mesmo os crentes, de olhar para o meu “Inimigo Maior”, aquele que morreu na cruz por esse bando de ingratos, que agora são 6 bilhões e nem dão bola pra ele!
3. O carnaval dos 500 anos até que me agradou. Primeiro foi aquela violência tremenda praticada no local dos festejos, contra índios e trabalhadores, coisa que me deu um frenesi de alegria. Depois foi a idolatria dos festejos, inclusive a “missa” do dia 26, na qual os padres diziam estar invocando o meu ‘Inimigo Maior’, mas na realidade estavam me prestando um culto idolátrico, exatamente como na época do descobrimento. Porque ‘missa’, é comigo mesmo! Você deve se lembrar que a tal de “Carta aos Hebreus”, que aquele enxerido do John Wesley garantia ter sido escrita pelo ‘traidor’ Paulo de Tarso, condena a ‘missa’, mas eu simplesmente adoro esse tipo de ‘sacrifício’, porque ele repete, ‘mesmo de mentirinha’[,] e por ganância financeira, o sacrifício do meu ‘Inimigo Maior’, com a desculpa de ser ‘incruento’, e isso me alegra demais. Esses meus servidores romanos fazem tudo errado com respeito à tal da Bíblia, mas me agradam muito e por isso é que tenho dado à Igreja deles a maior fortuna do globo. Pio XII, meu “filho” predileto, já está morando comigo há 42 anos. Ah! Como temos nos divertido juntos!
Nesse ponto, D. Mariquinha já estava enjoada do cheiro de jasmim misturado com enxofre, que emanava do visitante e pediu-lhe, gentilmente, que se retirasse da sala, pois tinha muito o que fazer.
O visitante disse que iria ficar ali o tempo que desejasse, pois estava com a velhinha pelo “gogó”, porque ela andava mexendo muito com os “amiguinhos” dele, isto é, os pastores kakangélicos, que estão fazendo um belíssimo trabalho, ensinando as pessoas a cair de costas, andar de quatro nos cultos, urrar como leão, latir como cachorro, dar estrondosas gargalhadas e até vomitar em nome do “espírito santo”, que não é outro senão ele mesmo. Disse que a velhinha se cuidasse porque ele iria mandar-lhe uma porção de projéteis violentos, através da Internet e de alguns pastores da cidade. E completou: “Você foi considerada ‘persona non grata’ no ‘Capeta’, porque muitos dos meus ‘amiguinhos’, que lá estão, morrem de medo de sua língua de trapo, sabia? Por que não fica vendo TV e fazendo crochê, como as velhinhas da sua idade e me deixa em paz, hem, sua ‘alemã falsificada?’ Outro aviso. Deixe essa mania de mexer com a “minha igreja” favorita, que há 16 séculos vem me servindo fielmente. Não foi à toa que dei aos papas idéias maravilhosas como a ‘Doação de Constantino’, os ‘Decretos de Isidoro’, as ‘Aparições de Maria’, o purgatório, a infalibilidade papal, etc. Enquanto a Igreja deles enriquece com essas lorotas, eu vou enriquecendo o meu reino de almas, o que se torna uma permuta ‘do outro mundo’!
Ah! Já ia me esquecendo de um detalhe importante: viu aquela cena do ‘pedido de perdão’ que a minha igreja fez (hoje) diante dos índios e negros? Elementar, minha “inimiga”! Ela anda conforme os meus ditames e quando dei a idéia daquela cena de “contrição” foi para que ela escondesse as suas verdadeiras intenções quanto ao futuro, quando estiver no comando mundial! Aí o pau vai comer pesado contra todos os hereges. Legal, hem?”
D. Mariquinha respondeu-lhe que não tinha medo dele, nem dos seus hierarcas favoritos, nem dos pastores kakangélicos. E que só teme “cair nas mãos do Deus vivo, que é Fogo Consumidor”. E acrescentou: “Visitante, você parece muito poderoso, nessas igrejas kakangélicas, que falam mais em você do que em Jesus. Mas a verdade é que você tem um poder limitadíssimo diante de Jesus Cristo e dos verdadeiros crentes, que lêem a Palavra e levam uma vida pura e reta diante de Deus e dos homens. Se todos os crentes lessem a Bíblia com espírito de fé e humildade, desejando se tornar realmente santos como Deus exige que sejamos, jamais iriam se preocupar tanto com você e o seu inferno, porque saberiam que a sua batalha já está perdida, que o Senhor Jesus deve estar voltando, que pouco tempo lhe resta e que você, como todas as demais criaturas, vai ter de dobrar o seu joelho diante dele, mesmo que não queira, confessando que ele é o Senhor! Agora, retire-se daqui, depressa, em nome de Jesus, porque eu preciso trabalhar, pois a seara é grande, mas os trabalhadores são poucos!”
O visitante saiu em disparada e atravessou a porta trancada com uma “Papaiz” da melhor qualidade e garantia!
Aventura em Miami
Em outubro de 1992, eu estava em Miami, acompanhando uma excursão de profissionais que ali se encontravam para assistir ao Congresso Internacional de Estética e Cosmetologia. Quando o congresso terminou, os que não seguiram para Orlando foram convidados para fazer uma excursão ao shopping “Saw Grass”, na grande Miami, e fui com estes.
Atravessamos Miami Beach e a zona onde um furacão havia feito muitos estragos, chegando ao imenso shopping, ainda pela manhã. Fizemos algumas compras e na hora do almoço tive a felicidade de sentar na mesma mesa da jovem brasileira que dirigia a excursão.
Conversamos bastante e depois de ter observado que eu orei antes da refeição, ela indagou qual era a minha religião. Respondi que era evangélica presbiteriana (hoje sou batista) e ela perguntou “qual era o nome do meu anjo”. Respondi que a Bíblia não menciona nomes de anjos particulares e, portanto, eu não sabia o nome do meu anjo. Ela disse que era messiânica e começou a me pregar a religião do Mokito Okada. Aproveitei para dar-lhe alguns esclarecimentos bíblicos, falei do plano de salvação eterna em Cristo e dei-lhe de presente uma cópia do livro “Meu Cristo é a Verdade”, um dos cinco que eu havia escrito até aquela data. Conversamos muito e ficamos amigas. Quando lhe entreguei o livro, ela disse que eu era um anjo! Respondi que não era, nem jamais havia visto um anjo, apenas acreditando, no que diz a Epístola aos Hebreus 1:14, que os anjos são “espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação”. E acrescentei que ela até poderia ser o meu anjo naquele dia, visto como estava me tratando com tanta bondade!
Muitas compras foram feitas e na hora de voltarmos ao hotel, parei em frente a uma joalheria, onde muitos colares de pérolas de Mayorca estavam expostos e fiquei maravilhada com a beleza dos mesmos. Fiz um movimento brusco e, desastradamente, quebrei o colar de perolas legítimas que estava usando. Abaixei-me para recuperar as pérolas caídas ao chão e me esqueci completamente dos companheiros de passeio. Quando me levantei, todos eles haviam desaparecido através de um dos quatro enormes portões que davam para o estacionamento do shopping. Foi então que me conscientizei de que estava perdida em Miami, senti um frio intenso me percorrer a espinha e comecei a entrar em pânico.
Foi quando resolvi provar a minha fé, implorando que Jesus mandasse um anjo me apanhar ali, o mais breve possível, e fiquei mais calma. Fui até o balcão de informações e contei à jovem que ali me atendeu o que havia acontecido. Ela ficou preocupada e mandou um office boy chamar o xerife. Enquanto ao tal xerife não aparecia, preguei o plano de salvação em Cristo àquela jovem, que era uma católica nominal irlandesa, ocupando o seu primeiro emprego nos USA, ainda um tanto insegura.
Quando o xerife apareceu, ela contou o meu problema. Ele disse que o caso era grave, pois eu já era uma senhora de idade e ele teria de mandar me levar ao Hotel Marine, no centro de Miami. Pedi que ele esperasse algum tempo, pois eu “estava certa de que Jesus iria mandar um anjo me buscar”. Ele deu uma risada e disse para a jovem que eu era maluca. Respondi que “maluco” era ele por não acreditar em Jesus, a quem Deus Pai deu todo o poder nos céus e na terra. Ele disse que eu teria de pagar 70 dólares à polícia, para ser levada até o hotel. Respondi que era uma viúva pobre, pois o Presidente Collor (que havia sofrido um impeachment há poucos dias) havia roubado todo o dinheiro dos brasileiros, etc. Ele gostou da piada e ficamos conversando um bom tempo. Preguei o evangelho para ele, que era agnóstico, e continuei garantindo que Jesus mandaria um anjo me buscar, a qualquer momento...
O tempo foi passando, o xerife foi perdendo a paciência e quis me obrigar a acompanhá-lo até a delegacia, a fim de me mandar de volta ao hotel, dizendo que daí a pouco o shopping iria fechar e eu poderia ficar ao relento, etc. Pedi mais meia hora de prazo, pois estava adorando pregar o evangelho àqueles dois incrédulos. Então, de repente, alguém chegou e me abraçou pelas costas, quase chorando de emoção. Era a minha amiga messiânica, que tendo chegado ao hotel e não me vendo entre os membros da excursão, ficara preocupada e voltara para me apanhar.
Fiquei maravilhada com o milagre e falei para o xerife e a irlandesa: “Estão vendo? Eu não disse que Jesus iria mandar um anjo me buscar? Vocês não acreditaram e o xerife até me chamou de maluca, pelo menos três vezes. Pois agora eu digo que maluco é você, xerife, por não acreditar que Jesus é Deus e detém todo o poder nos céus e na terra.” Em seguida, saí dali, acompanhando a messiânica, na maior elegância, deixando o xerife e a moça sem pronunciar uma só palavra!
Um presente de grego
Estava em Miami, hospedada no Hotel Marine, bem no centro da cidade, junto com duas senhoras de Londrina, companheiras de excursão a um Congresso Internacional de Estética e Cosmetologia, em outubro de 1992.
Certa noite, quando voltávamos de um passeio noturno a um shopping ali perto, notei que havia uma loja de armas e munições ao lado do hotel, com um letreiro em néon dizendo: ”Jesus is the Lord!” (Jesus é o Senhor!). Fiquei curiosa e no dia seguinte, véspera de minha partida para Nova York, resolvi entrar na loja para falar com o proprietário, provavelmente um irmão em Cristo.
Cheguei ali pelas 9h da manhã, elegantemente vestida, e disse ao vendedor, que viera me atender todo solícito, que desejava falar com o Gerente. Ele me olhou espantado e respondeu que “o gerente não tinha tempo de atender gente estranha, etc”. Respondi que não era uma estranha, mas uma irmã em Cristo, que viera do Rio de Janeiro para falar com ele. Entreguei-lhe o meu cartão de visitas, ilustrado com um buquê de rosas vermelhas e estes dizeres: “Mary Schultze - Empresária na linha de Cosméticos - Av. Copacabana 500, sala 1210”, e no verso, minha profissão de fé: “Jesus Cristo é Deus e morreu por mim. Então, qualquer coisa que eu fizer para a glória do seu nome será tão somente uma gota dágua no oceano da minha obrigação”.
O vendedor olhou o cartão e entrou na imensa loja, a fim de procurar o gerente. Em seguida, voltou e pediu que eu o acompanhasse. Nunca vi um escritório tão luxuoso (nem mesmo o da Diana Lutfala, cunhada do Maluff, onde estive certa vez em São Paulo, conversando com aquela mulher coberta de jóias, a qual tomou pelo menos 3 comprimidos, enquanto eu lá estava, pregando o evangelho da salvação). Ao entrar naquele escritório em Miami, pisei no fofo tapete importado do Irã e quase me desequilibrei, embora estivesse usando um salto de apenas 4 centímetros.
O homem que me atendeu era jovem, lindo, elegante e simpático, com o prenome “John”, um sobrenome do qual não me recordo, e um número indicando nobreza. Conversamos algum tempo e ele me convidou para ir, no dia seguinte (quando eu deveria embarcar para Nova York), pregar no culto dos empresários, às 8 horas da manhã. Em seguida me fez atravessar aquela extensa loja[,] até uma capela nos fundos da mesma, onde me deparei com um mural de fazer inveja ao Portinari. Nele, Jesus estava voltando entre as nuvens, rodeado de anjos. Eu já ia recusando o convite, quando me lembrei de um rápido testemunho que havia dado no navio Doulos, anos atrás, quando me saí relativamente bem, e decidi que iria pregar ali. Na manhã seguinte, deixei a bagagem pronta na portaria do hotel e fui até a capela, que ficava no final do quarteirão.
Sou uma péssima pregadora em Português e pior ainda, em Inglês. Mas Deus me ajudou, preguei sobre Joel 2:28-32, com uma Bíblia emprestada por John, e recebi uma salva de palmas (era uma igreja pentecostal, claro!). Terminado o culto, John me entregou de presente um tipo de isqueiro contendo ácido a ser detonado contra algum bandido que me aparecesse em Nova York. Despedi-me dos irmãos, fui “ungida com óleo santo” por uma irmã negra, ricamente vestida, e saí dali flutuando de felicidade.
Não sei se algum dos crentes que ali se encontravam foi edificado com a minha insulsa pregação, mas garanto que jamais precisei usar o tal isqueiro letal, pois quando fui experimentá-lo à distância - no hotel em Nova York - quase fiquei asfixiada e cega! Isso é que se poderia chamar de um verdadeiro “presente de grego!” - Maio 2004.
O Visitante Especial
(Parábola)
No final de fevereiro (2003), depois de ter tido uma porção de visitas do RJ, eu estava com a conta zerada no Bradesco e com apenas R$50 na bolsa. O pior é que ainda precisava agüentar uma semana sem dinheiro, ou retirar mais R$100 da Poupança, porque tenho uma despesa média semanal de R$150. Deixei a geladeira esvaziar, dizendo a mim mesma que seria bom, pois somente assim poderia limpar aquela caixa de alimentos, serviço que detesto fazer. Para mim é bem mais fácil escrever dois artigos de duas páginas ofício A-4 do que limpar a geladeira, embora goste de cozinhar e de fazer qualquer outro tipo de serviço doméstico.
Quando cheguei ao portão de entrada do prédio onde moro, vi um senhor alto, magro e elegante, de cabelo e barba castanho escuros, com uma sacola marrom às costas. Tinha feições nobres, mas sua aparência era bastante humilde. Olhei para ele, dei um sorriso gentil e perguntei se poderia ajudá-lo, achando que ele poderia estar chegando de viagem e procurando algum morador do prédio. Ele respondeu que estava chegando do Crato, Ceará, não tinha onde se hospedar e o pastor Zeca, dono da Papelaria Xande, ali perto, havia dito que sou da mesma cidade e costumo ajudar as pessoas que vêm de lá.
Fiquei indecisa e falei para mim mesma: “Neste mundo repleto de “beira-mares” é até perigoso dar pousada a qualquer estranho. Ele pode ser um bandido e me detonar à noite... Além disso, o que os vizinhos vão falar, se eu receber esse homem em minha casa?” Hesitei bastante, mas, finalmente, disse: “O Sr. pode entrar em meu apartamento para tomar um banho, comer alguma coisa e depois vou encaminhá-lo a um abrigo de pessoas carentes”. Ele concordou com um sorriso de gratidão e subiu junto comigo.
Não costumo comer comida convencional, por isso tinha na geladeira apenas um resto de maionese de atum e uma papaia, prato que iria servir para o meu jantar. Peguei duas fatias de pão de forma, coloquei a maionese dentro das duas metades de papaia (já descascadas e sem sementes), rodeei as fatias com cubos de pão amanteigado, coloquei o último tomate, sem pele e sem sementes, a fim de completar a decoração do prato, e servi o VISITANTE num dos pratos azul rei, que havia comprado na semana passada, na loja Bom Preço. Junto ao prato, coloquei um guardanapo de papel e um dos talheres comprados em Nova York, em minha última viagem aos USA. Sobre a mesa, já havia colocado uma toalha enfeitada de guirlandas coloridas... e tudo ficou lindo! O visitante já havia tomado um banho, enquanto eu, por via das dúvidas, havia deixado a porta destrancada, para, numa emergência qualquer, gritar pela vizinha Betty.
O visitante comeu tudo e elogiou o prato, dizendo que aquilo não era comida cearense... Era comida européia! Dei um sorriso e disse que exatamente porque não gosto de arroz, feijão, macarrão e outros carboidratos, não como doces e geléias e nunca fui gulosa, é que já passei dos setenta anos, com o mesmo peso dos vinte. Conversamos bastante e descobri que o homem era culto, inteligente e muito simpático, além de ter a mesma voz do Cid Moreira. Meu coração começou a arder no peito, com um sentimento diferente, e pensei: “Que homem maravilhoso! Se ele tivesse a mesma idade que eu tenho... meu computador iria morrer de ciúmes...”
Senti um amor enorme por ele e quase desisti de conduzi-lo ao abrigo de carentes, mas a minha experiência com visitantes desconhecidos fez-me mudar de idéia. No tempo em que eu era micro-empresária na Baixada Fluminense, certa vez abriguei uma nordestina, a qual havia encontrado perambulando pelas ruas do RJ, e a mulher me deu muita dor de cabeça, exigindo que eu lhe desse metade da roupa de cama nova que viu numa das gavetas da cômoda. Também abriguei uma jovem hippie paraguaia, que acabou ficando seis meses em minha casa; uma jovem cearense, que desejava fazer um curso de Estética, tendo ficado outros seis meses; uma jovem paulista, que depois de seis meses, revelou-se uma tremenda mau caráter, contando a Rose, que era apenas uma criança, ser ela adotada e não filha legítima; um seminarista peruano, que depois se revelou com segundas intenções, e, finalmente, uma mulher estranha, que, no final das contas, era uma cigana e quase me seqüestrou a Rose, naquela época com dez anos de idade. A partir desse dia, fiquei mais cuidadosa. Mesmo assim, anos depois, hospedei uma “escritora” paraense, que acabou me dando um prejuízo de R$200 e alguns problemas no supermercado vizinho, onde deu uma nota falsa de R$10, e só não foi presa porque disse onde estava hospedada e o gerente era meu amigo.
Relembrei todos esses incidentes e optei por levar o VISITANTE ao abrigo de carentes. Contudo, ao sair do apartamento, veio-me à memória este verso de Hebreus 13:2: “Não vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela alguns, não o sabendo, hospedaram anjos”. Hesitei um pouco e já ia decidindo ficar com o VISITANTE, quando este, olhando-me com doçura, falou: “Você já fez demais por mim. Provou que, realmente, obedece aos mandamentos de Tiago 2:5,16: “Ouvi, meus amados irmãos: Porventura não escolheu Deus aos pobres deste mundo para serem ricos na fé, e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam? ... E algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos, e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí?”
Fiquei maravilhada com o conhecimento bíblico do visitante e perguntei se ele era crente. Ele respondeu, simplesmente: “EU SOU O QUE SOU!”
Foi então que compreendi que aquele VISITANTE de aparência humilde não era outro senão o próprio JESUS CRISTO, Rei dos reis e Senhor dos senhores!
Vale a pena ser brasileiro?
Essa é uma pergunta que tenho feito a mim mesma, ao longo dos anos, duvidando se realmente fiz bem em não querer adotar a nacionalidade alemã, logo após o falecimento do meu marido, em 1982, quando a filha mais velha e os netos ganharam dupla nacionalidade e hoje vivem no país de Lutero.
Quando eu tinha 17 anos e cursava o segundo grau, ganhava a mesada mais alta da turma, naquele tempo equivalente a 300 dólares. Vestia-me bem, comprava os livros que desejava ler e morava com uma família de classe média que me garantia conforto e boa alimentação. Era uma jovem bonita e privilegiada e, portanto, não me era difícil tirar nota 10 em quase todas as matérias, concluindo o curso com média geral 9,7. Meus pais tinham nove filhos, mas eu era a segunda da família e ainda pude cursar bons colégios.
Depois de trabalhar durante 45 anos, pagando INSS e mil e um outros impostos, vejo-me reduzida a uma pensão que me faz refletir com gravidade se devo ou não comprar uma simples blusa de lã na feirinha de Terê, mesmo sob uma temperatura de 15 graus, como temos tido ultimamente. Ou se devo ligar a Internet mais de uma hora por dia, para fazer minhas pesquisas religiosas, pois a Telemar cobra muito caro... Será que vale a pena ser brasileiro?
Na Alemanha, onde moram a filha mais velha e os netos adolescentes, o desconto médio no salário do trabalhador é 36% do bruto, mas aí já estão incluídos todos os impostos, inclusive o “kirchensteuer”, a taxa da Igreja.
Quando o trabalhador fica desempregado recebe uma média de 750 Euros, que dão para a alimentação, além de uma ajuda no aluguel, sem falar nos estudos gratuitos dos filhos. Assim há uma compensação do que o “Deutsch Löwe” come dos contribuintes. Quando adoece, o trabalhador vai para um “hotel 4 estrelas”, com tudo a que tem direito: médicos, enfermeiros e medicamentos. Nenhuma junta diretora precisa entrar em greve ou renunciar, a fim de conseguir melhoria nos hospitais, pois tudo funciona maravilhosamente bem. Ali as pessoas são tratadas como gente e não como animais, como acontece a quem não tem um dispendioso plano de saúde aqui no Brasil.
Infelizmente, porém, a Alemanha está quase falida. Não por tratar dignamente os seus filhos, mas porque o Vaticano (dono da maior fatia das multinacionais) tem arrasado o país, nos últimos 10 anos, principalmente depois da recuperação da parte oriental, que sempre foi menos rica, por ter uma alta porcentagem católica. E com o lançamento do Euro o povo começou a apertar o cinto e a beber tanto que agora se pode dizer que o povo alemão é quase todo alcoólatra, tendo trocado a Bíblia de Lutero, pela vodka russa e os programas da TV americana. Foi isso o que eu constatei em 2001, quando estive por algumas semanas no lado oriental e também aqui, nos muitos alemães que têm vindo ao Brasil, tentando conhecer a Cidade Maravilhosa, enquanto (segundo eles) ainda têm um emprego... O desemprego no país está rivalizando com o do Brasil. Algumas firmas já estão com atraso de três meses nos salários dos empregados e só estão pagando um mês porque se uma delas atrasar mais de três tem, obrigatoriamente, de requerer falência.
Outro pais que está afundando paulatinamente é a Inglaterra, porque trocou a Bíblia King James pela Tradição católica, pelo Corão e pelo Baghavagita, sendo estes dois últimos os livros sagrados do Islamismo e do Hinduísmo, respectivamente. E como “um abismo chama outro abismo”, o povo inglês está mergulhando também nos horrores do Druísmo, o culto pagão dos antigos bretões. Primeiro a Rainha e os seus governantes (principalmente o Tony Blair) começaram a namorar o Vaticano. A partir de então, o país foi caindo, caindo... e agora a Inglaterra é um país de várias fés, tendendo para um generalizado paganismo. Isso nos faz lembrar 2 Pedro 2:22, que diz: “... o cão voltou ao seu próprio vômito, e a porca lavada ao espojadouro de lama”.
Aqui no Brasil pode até ser que o Lula e os seus assessores queiram de fato melhorar o sistema tributário em favor dos descamisados. Contudo, muitos dos parlamentares, que provêm das classes rica e média, não conhecem o aperto em que vivem os pobres do país (e também a classe média baixa). Eles ganham fábulas sem trabalhar! A maioria chega ao poder através de falcatruas e até mesmo do crime organizado, conforme se tem visto nas denúncias apresentadas na TV. Parece até que nove entre dez políticos brasileiros são criminosos!!!
Vou dar o meu próprio exemplo de trabalhadora da classe média baixa. Trabalhei durante 45 anos (nove como secretária bilíngüe e 36 como micro-empresária) e sempre descontei para o INSS. Aposentei-me com dez salários (seis meus e 4 de pensão do marido) e vivia razoavelmente tranqüila, até que o governo passado me levou – em dois anos – mais de 1,5 salário, deixando-me com apenas 8,4 salários. Com uma mãe idosa (95 anos) carecendo de ajuda, tenho ficado cada vez mais apertada, a ponto de ter dado – na semana passada – um cheque pré-datado para a compra de 03 cartuchos de tinta para a impressora. Como posso continuar com as minhas pesquisas religiosas?
Dois planos de saúde (caríssimos), condomínio, energia elétrica, telefone, etc., etc., me levam mais de 50% do orçamento e fico reduzida - no máximo – a 3 salários para vestir, comer, pagar medicamentos, manter o apartamento e pagar a UOL. Ach, Du, mein Gott!!!
Se eu fosse megalomaníaca como o governo brasileiro, já estaria encrencada no SPC, com um montão de cheques sem cobertura, com o cartão de crédito (que nem possuo) estourado e devendo a duas pessoas importantes: o Sr. Deus e o Sr. Mundo. É o que acontece a 9 entre 10 conhecidos meus...
Pois é. O governo vive nos espoliando porque tem mania de grandeza. Quem leu a Veja de 03/09/2003, pode constatar essa verdade.
O governo tem queimado através do INPE, em apenas 3 anos, mais de 01 bilhão de dólares em três satélites que nunca decolaram... Em aviões de caça tipo AMX o governo gastou 2,5 bilhões de dólares, achando que iria vender umas 800 máquinas, mas conseguiu vender apenas 8, pois o Canadá deve ter vendido os demais 720 aviões para o mundo inteiro, com o aval da União Européia e dos USA, que só apadrinham os países ricos. Um submarino nuclear... para que, meu Deus? Pois o governo gastou 01 bilhão de dólares na construção de um desses artefatos de guerra, o qual, infelizmente, continua em miniatura, como tudo que o nosso governo tenta fazer, para imitar os países ricos. Nos anos 1980, a ENGESA investiu 100 milhões de dólares no tanque de guerra OSÒRIO, o qual continua no papel, como quase tudo que o governo sonha construir no país, tentando imitar, como macaco, os países ricos. E as nossas usinas atômicas para quem têm servido, se precisamos racionar a energia elétrica, quando não chove? Até a banana está em vias de extinção e, então, teremos de falar para os gringos: “Sorry, we have no banana”! Agora, imaginem todo esse pacote bilionário investido em educação e saúde, hem? Que país grandioso seria o nosso... talvez o mais importante do mundo... sem a mania de guerrear por aí, como os USA têm feito!
Já imaginaram a possibilidade de um caboclo analfabeto do interior do Piauí ir até Brasília para dar lições de Português ao Ministro Cristovam Buarque? Pois é assim que o Brasil tem se comportado em relação aos países do Primeiro Mundo. Para mim o Brasil é o MELHOR PAÍS DO MUNDO, guardada a devida distância entre a megalomania dos seus governantes e a realidade brasileira.
O povo brasileiro assiste impotente ao desmatamento da Amazônia e da Mata Atlântica. Também ao roubo dos metais e pedras preciosas que os barões da floresta permitem, em sua satânica fome de ouro. A SUDAM é um poço de corrupção, segundo depoimento de uma funcionária honesta, que teve medo de ser transferida para a Amazônia, temendo pela própria vida.
Ser empresário neste país é duro, mas ser micro-empresário é simplesmente doloroso. E este é o setor que mais emprega os brasileiros. Por isso deveria receber mais ajuda do governo e menos assalto em forma de tributos. Fui micro-empresária por 36 anos e sei o que é ficar sem um Real no final do mês, para repor o estoque desfalcado. Porque o governo leva todo o lucro em tributos. Para cada empregado contratado na base de um salário mínimo o governo leva outro tanto em impostos. Então o micro-empresário fica sem capacidade de trabalhar e fazer crescer o número de vagas em suas pequenas empresas. Isso também acontece nas médias empresas...
Se o governo do Brasil gastasse menos e trabalhasse mais em favor do micro-empresário não teríamos uma taxa de desemprego tão assustadora. O povo já está anêmico e sem esperança de ver o país entrar nos eixos...
Que a Alemanha fique num alto patamar de desemprego, pois é um país do tamanho de um dos menores estados do Brasil, não tem as riquezas naturais que temos e ainda pecou assustadoramente, desviando-se da Verdade libertadora do Evangelho de Cristo para a descrença generalizada que tem dominado aquele país. E os salários lá são 4 vezes mais altos que os nossos.
O Brasil nasceu e permaneceu por 500 anos cativo do falso evangelho de Roma, porém agora tende a se conscientizar da Verdade que liberta da mentira religiosa... Portanto, será abençoado por causa dessa acertada escolha, mesmo que continue ainda por muito tempo a ser consumido por uma cambada de políticos ladrões, que infestam as duas casas do parlamento. Então, olhando o país sob essa perspectiva, acho que vale a pena ser brasileiro! - 17/09/2003.
Informações colhidas na “Veja”, No. 1.818 e no
Site “www. ianpaisley.org”.
As Peruas do Congresso
Hoje acordei tarde, pois fui dormir depois das 2h [s.] da manhã, tendo chegado (uma hora antes) do Congresso da Profecia, organizado pela Chamada da Meia Noite em Poços de Caldas, MG. Quando acessei a Internet havia mais de 50 e-mails, o que me deixou realmente desanimada... Ach Du, Mein Gott!
Este sexto Congresso da Profecia, como sempre, foi muito bem organizado, tendo apresentado excelentes preletores, como Dave Hunt, Thomas Ice, Arno Froese, Dieter Steiger e o jovem Reinhold Federoff, cuja explanação sobre os Sete Montes de Israel foi simplesmente maravilhosa!!!
O serviço do hotel não foi tão perfeito como esperávamos e, depois que eu fiz uma leve reclamação em favor de duas companheiras de quarto, fui convidada pela diretora do estabelecimento, uma senhora jovem e simpática chamada Letícia, para uma conversa franca, durante a qual, a pedido da mesma, expus o que não nos havia agradado. Ela ouviu, e anotou tudo e, em seguida, me ofereceu cinco dias de estada no referido hotel, a título de cortesia, o que agradeci e depressa recusei. No dia seguinte, notei que uma das reclamações feitas (a carne de frango que chegava meio dura) tinha sido atendida, pois o franguinho estava “desmanchando”.
No Congresso da “Chamada”, aprendemos coisas muito importantes a respeito das Profecias, as quais apresentam Israel como sendo realmente o povo escolhido por Deus para evangelizar o mundo e para reinar durante o Milênio vindouro, na Pessoa do Senhor Jesus Cristo. Nesse Congresso nenhuma denominação foi criticada, tendo sido o objetivo do mesmo simplesmente denunciar aos congressistas o que os árabes têm feito no sentido de riscar Israel do mapa, no Oriente Médio. Também foi mostrado como as Nações Unidas e todos os países do mundo (exceto os USA) têm marginalizado a Nação de Israel, engano diabólico que os profetas do Velho Testamento já haviam profetizado em seus escritos, mais de 700 anos antes de Cristo. Além das palestras de alto nível, havia uma exposição de livros igualmente edificantes sobre o assunto da profecia, além de outros escritos com muita erudição bíblica. Comprei apenas uma dúzia de livros, mas gostaria de ter comprado uns cinqüenta títulos !!!
Além dos dias felizes que passamos no Congresso, as viagens de ida e de volta foram uma verdadeira festa. O motorista do ônibus da Viação Teresópolis no qual viajamos (Marcos Vinícius C. Rocha), foi muito firme e responsável no volante, tendo nos levado e trazido na mais perfeita segurança (Parabéns à Viação Teresópolis por escolher competentes profissionais do volante).
Na ida a Poços de Caldas (umas dez horas de viagem), houve um serviço perfeito de “bordo”, sob a responsabilidade do casal Alexandre (pastor) e Raquel, com o pessoal (cerca de 70 almas) se divertindo saudavelmente, com animados bate-papos entre alguns, conversa à meia voz entre outros e algumas piadas inocentes, como convém a crentes realmente bíblicos. Na volta, houve a brincadeira do “amigo oculto”, na qual fui agraciada com um broche folheado a ouro com o Menorá, acondicionado num estojo de veludo vermelho. Houve ainda o sorteio de brindes, de passagens para o próximo ano, de promessas para novos encontros e, sobretudo, a consolidação de novas amizades estabelecidas na graça e no conhecimento de Jesus Cristo, o Rei dos reis e Senhor dos Senhores.
Entre as senhoras da caravana houve uma que se destacou pela beleza madura e elegância parisiense. Seu nome - Edinalva. A turma, muito alegre e brincalhona, logo apelidou-a de “perua do congresso”, título com que também fui agraciada por causa da minha mania de trocar de roupa e usar adereços combinando com as roupas.
O casal mais jovem, lindo e bem comportado, foi aquele formado por Carlos Eduardo e Raquel. O casal de meia idade, igualmente lindo - e alegre demais - era formado por Rubens e Dalva (eu deveria fazer mais elogios ao Rubens, pois foi dele que ganhei o Menorá... Mas não me fica bem...).
A pessoa mais alegre e descontraída nessa caravana foi Maria Célia, que ajudou o Pr. Alexandre em certos momentos e, por isso, foi apelidada jocosamente de “vigária” ou “apóstola” da igreja do referido pastor (que nem igreja possui).
Fomos obrigados a parar por alguns minutos num lugarejo do interior, na cidade de Pouso Alegre, (MG), quando a brincadeira chegou ao ápice, ao nos depararmos com uma enorme faixa, na frente de uma “igreja”, na qual podiam-se ler, em letras enormes, os seguintes dizeres: “Dízimo, um ato de fé. Convidamos toda a comunidade para a primeira semana missionária do dízimo, de 24 a 31 de outubro”. Como nenhum dos passageiros (nem mesmo os pastores) era fanático na cobrança e/ou entrega do dízimo, houve muita brincadeira, tendo eu me tornado o centro das piadas, por causa da minha apostila “O Dízimo do Dízimo”, em que condeno a “auris sacra famis” de certos pastores malaquianos.
O jovem mais lindo e simpático que eu conheci nesse Congresso foi o Danilo, encarregado do stand da revista “Defesa da Fé”. Apaixonei-me perdidamente por ele (como avó) e dediquei-lhe um dos seis livros (Viajando com Martinho Lutero) que tinha levado na bagagem. O mais discreto e carente de afeto maternal foi o jovem Luís (muito parecido com o Ronaldinho) e o mais alto foi o Paulo Pantaleão (pastor da AD) de Nova Iguaçu. O que mais adorei conhecer foi o Paulo Sérgio (de Taubaté), um dos “filhos” com quem me correspondo através da Internet, o qual prometeu estar aqui em Terê, no final de novembro, para o Congresso de Seitas do CPR.
Minhas duas companheiras de quarto foram a Molar e a Diva. Brincávamos o tempo inteiro com a Molar, porque ela ADORA dormir e comer, enquanto eu sou do tipo que só come para sobreviver. Molar ia correndo para o restaurante, antes que Diva e eu lá chegássemos. Diva afirmava que ela assim o fazia para evitar o meu controle sobre o excesso de comida, principalmente de farofa (que eu sempre detestei), que a Molar comia. Molar é alegre, generosa e amistosa, tanto que é a segunda vez em que ficamos juntas no Congresso da “Chamada”. Quanto a Diva, que eu já conhecia de nome, desde o tempo em que fui micro-empresária na linha de cosméticos, achei-a simplesmente maravilhosa! Diva é linda, elegante, culta, inteligente e bíblica, de modo que me deixou a melhor das impressões e estabelecemos uma amizade, que espero possa alcançar o “Dia de Cristo”.
Fui muito assediada por irmãos que haviam lido meus artigos e livros, procurando comprar outros exemplares (que não levei porque a Editora mos sonegou), de muitos que eram encaminhados a mim, pois desejavam me conhecer pessoalmente, e por outros que ficavam me conhecendo por “ouvir falar”, através dos que já haviam comprado e lido meus trabalhos, nos últimos anos (É chato ser famosa!!! Riso).
Fiquei tão cansada que, na última palestra da noite de sexta feira, logo depois do jantar, tomei um banho quente e desabei na cama, desejando apenas dormir... No dia seguinte, porém, assisti às duas últimas palestras do Congresso (Dave Hunt e Arno Froese), a do Hunt sobre “O Caminho para o Armagedom”, assunto que eu já havia lido no trabalho dele, com esse título, por mim traduzido, há meses.
Dou graças a Deus, por tudo de bom que nos aconteceu nesse congresso, onde 500 pessoas ouviram e retiveram muitas verdades importantes sobre o valor e a infalibilidade da Profecia na Palavra de Deus, a qual, infelizmente, tem sido tão deturpada e erroneamente manejada, nos dias de hoje, por pastores ambiciosos, que visam tão somente a fama, o lucro e o poder, em vez de ganhar almas para o Senhor Jesus Cristo! - Outubro 2004.
Love Story Outonal
Eu tinha 52 anos, quando meu marido faleceu. Cursava o seminário Teológico Betel, dirigia uma micro-empresa e tinha uma filha menor e dois netos com quem me ocupar. Portanto, minha vida era completa e prometi a mim mesma que jamais me casaria novamente e que iria me dedicar somente a Jesus, à firma, à família e a escrever livros evangélicos.
No dia em que deveria estar recebendo o diploma de Bacharel em Teologia, exatamente quando completei 56 anos, não o fiz, porque ficara devendo algumas matérias que precisariam ser cursadas no ano de 1986. Nesse dia (08/12/1985) fui assistir a um culto na Igreja Presbiteriana da Taquara (RJ), cujo pastor, Nélio Quaresma, dedicou muito de sua pregação à minha vida e lá estava ainda um casal que havia se convertido lendo meus livros, portanto foi um dia de galardão inesquecível...
À noite, quando cheguei da IP de Jardim Primavera, onde havia assistido ao culto vespertino, o telefone tocou. Era o Químico Eduardo Konstanty, o melhor amigo e ex-assistente do meu marido, nos anos 50, e nosso padrinho do casamento civil. Ele havia regressado à Alemanha em 1959. Fazia, portanto, 26 anos que não nos víamos. Ele disse que estava no Brasil e perguntou se poderia hospedar-se conosco, com o que logo concordei.
No dia seguinte fui esperá-lo na entrada do bairro que ele tanto conhecia e conduzi-o à nossa casa, onde ele iria permanecer por uma semana. Passeamos muito, junto com minha filha Rose, então com 9 anos de idade. Fomos ao Corcovado, ao Pão de Açúcar e a Teresópolis, onde eu tinha um apartamento na Av. Pres. Roosevelt. Quando já ia embora, Eduardo me pediu em casamento. Ele era um dos homens mais belos que Deus criou: inteligente, amoroso, gentil e honestíssimo. Estava separado da esposa polonesa e queria refazer sua vida. Ele havia conquistado o meu coração solitário, naqueles dias de visita. Esqueci a promessa feita a mim mesma e aceitei o seu pedido de casamento, que deveria realizar-se na Alemanha, no mês de abril daquele ano, tempo que eu deveria aproveitar para organizar meus negócios, deixando a firma nas mãos da Margarete e levando somente a Rose comigo. Era uma decisão muito radical: deixar a firma que eu havia construído do nada, junto com o Schultze, abandonar meus netos pequenos e, sobretudo, abandonar o meu ministério, pois Eduardo era ateu e já havia me imposto uma condição única: não levar a Bíblia comigo.
Depois que ele partiu e comecei a preparar o enxoval, minha consciência começou a reclamar. Sempre que eu pegava a Bíblia para ler, o Espírito de Deus falava comigo: “Você vai abandonar o seu Senhor? Fez um bom curso teológico e agora vai casar com um ateu?”
Foram quase três meses de luta interior, até que uma noite, quando o enxoval já estava pronto, ajoelhei-me para ler 13 salmos e orar, quando o Espírito Santo voltou a me falar pela centésima vez, só que, dessa vez, de maneira mais contundente: “Você é uma apóstata! Vai abandonar Jesus por um ateu... Ele não vai permitir que você vá à Igreja. Aqui você tem duas empregadas domésticas e só cuida da firma e de escrever seus livros. Lá você vai lavar, passar, cozinhar e arrumar para um ateu... Enfim, vai ser uma espécie de empregada do marido... Além disso, vai esquecer tudo que aprendeu e ainda ficar sob a ira divina...Será que vale a pena?”
Tive uma crise de fúria, joguei a Bíblia no chão e desafiei o meu Deus: “Olhe aqui, Senhor. Eu vou me casar com esse homem de qualquer maneira, pois já dei minha palavra. Agora, se Tu não queres que eu vá para a Alemanha, me derruba depressa, senão eu vou...” Pois ele me derrubou... No dia seguinte, 01/03/1986, fui ao Seminário renovar a matrícula, embora sabendo que iria embora em abril. Quando fui preencher o cheque, meus dedos ficaram rijos e não o consegui. Dali fui para casa e quando tentei engolir a salada do almoço, minha garganta se fechou e não consegui mais engolir nenhum alimento sólido. Tomei um suco e fui para uma livraria em Copacabana, a fim comprar o material escolar da Rose. Quando fui preencher o cheque, novamente não o consegui e foi a secretária Marieta quem deu um cheque dela mesma.
A partir daquele dia, não consegui mais engolir coisa alguma, a não ser sucos, chá e café. Dez dias se passaram e comecei a sentir dores horríveis no estômago. Parecia tratar-se de uma gastrite feroz e as dores se agravaram tanto que precisei ser internada. Durante dez dias fiquei internada, tomando sedativos e fazendo todos os exames possíveis e imagináveis no Hospital Silvestre, com uma boa equipe médica me cuidando. Saía do hospital me sentindo melhor, ia para casa, mas as dores voltavam e tinha de ser internada novamente. Quatro meses se passaram e eu cada vez me sentia pior. Não conseguia engolir coisa alguma, exceto líquidos. Nenhum exame acusou qualquer anormalidade, enquanto as dores continuavam. Durante quatro meses sofri muito. Aconselharam-me a consultar uma Psicóloga... Tudo em vão.... Eu estava tão fraca que já não conseguia andar sozinha... Em junho, Eduardo veio da Alemanha e me cuidou durante duas semanas, com o maior carinho. No dia em que ele ia regressar, pedi-lhe para esquecer minha promessa de casamento, pois eu ia morrer. Ele ficou triste, chorou muito e embarcou chorando, segundo me contou o motorista que o levou ao aeroporto internacional.
Naquela noite de domingo, final de junho, de repente eu tive um insight: “Será que aquilo tudo não era um castigo divino porque eu ia abandonar a minha fé por um ateu?” Caí no choro, reconheci meu grave pecado e pedi que Deus me perdoasse, pois a partir daquele dia eu iria servir somente ao meu Senhor. Alguns minutos depois desse compromisso, o telefone tocou. Era uma mulher desconhecida que havia sabido do meu sofrimento através de minha irmã Odete, que estava passeando no Rio. A mulher me contou que havia passado pela mesma crise de anorexia e depressão, quando fora abandonada por um homem com quem havia vivido por alguns anos. Indicou-me um Psicanalista, o Dr. José Elvas, com quem eu deveria me consultar. Concordei imediatamente e consegui uma consulta com o Psicanalista, para daí a 3 dias. Não sei quem era essa mulher... Talvez um anjo enviado por Deus para ajudar uma pecadora arrependida...
A consulta demorou poucos minutos e o diagnóstico foi rápido. Era um tremendo complexo de culpa que estava me destruindo o corpo e a alma. Dr. Elvas me prescreveu dois medicamentos: Anafranil e Olcadil. Comprei os medicamentos, na mesma hora, e três dias depois já comia o primeiro bife, depois de 4 meses de jejum quase absoluto. Entrementes, mandei chamar o pastor da IP, da qual estava afastada há mais de 4 meses, por causa da doença, e confessei o meu pecado, pedindo que ele orasse por mim. Ele orou e comecei a me curar das dores e só me restou uma terrível depressão, que durou quatro anos... de estudo bíblico...
Todo ano, na data do meu aniversário (durante 10 anos), Eduardo vinha ao Brasil e renovava o seu pedido de casamento. Eu sempre respondia não! Até que um dia, ele veio em companhia de um amigo (Otto) e falou: ”Esta é a última vez que lhe peço para casar comigo. Se disser não, outra vez, eu vou desistir”. Respondi que ele já deveria ter desistido há muitos anos... Ele ficou bravo e falou para o amigo: “A Mary não gosta de homem...” Perguntei se ele estava me chamando de lésbica, ele deu uma risadinha sarcástica e disse: “Não, é que você só gosta do computador e do Jesus...” Fiquei intrigada e indaguei: “Por acaso Jesus não é homem?” Ele fez um trejeito cômico, dando a entender que Jesus é gay. Pedi que ele falasse claramente, ele falou e atirei-lhe na cara um copo de meio litro do suco de frutas que estava lhe servindo. Ele ficou espantado e falou para o amigo: “Ela é louca!” Respondi que ele havia passado dos limites e que jamais voltasse à minha casa.
Ele se foi... Já faz 7 anos que aconteceu esse incidente desagradável, ele me deixou em paz e só nos vimos uma vez na Bavária (Alemanha), durante a festa de aniversário e noivado do Frank, nosso amigo comum (1999). Em dado momento, ele quis mexer comigo e falou: “Mary não segue a Bíblia, pois Jesus disse para amar os inimigos e ela nem consegue amar os amigos...” Perdi a calma e respondi: “Ah! Você está citando um gay?” Amigos, ele chamou Jesus de gay, lá no Brasil, em minha casa!” A revolta dos convidados foi geral e, a partir daquele momento, Eduardo se tornou “persona non grata” naquela festa...
“A Palavra de Deus é a verdade” (João 17:17) e ela nos admoesta: “O salário do pecado é a morte...” (Romanos 6:23). Por causa de um amor outonal, que foi um grave pecado contra o meu Senhor amado, eu quase perdi a vida e fui tão disciplinada... Outubro 2004.
Ser dizimista, não senhor!
Em nossa PIBT o pastor nunca fala em dinheiro. Ele é culto e inteligente demais para se expor, ao contrário do que os pastores malaquianos costumam fazer, mostrando o seu lado ambicioso, pensando em aumentar suas contas bancárias, sem o menor interesse em ganhar almas para o Senhor Jesus Cristo.
Pelo fato de jamais mencionar dinheiro no púlpito, de pregar mensagens totalmente bíblicas, de ser carismático e até charmoso, o nosso pastor tem agradado os membros e muito mais os visitantes, que chegam à nossa PIBT, amam a igreja e acabam deixando as suas igrejas malaquianas para se filiar à nossa. Assim o rol de membros tem aumentado bastante e logo teremos um novo templo para acomodar tanta gente que vai chegando e ficando... maravilhada com uma igreja que nada tem de “propositada”, de “emergente” e de “panenteísta”, uma igreja onde raramente são cantados corinhos heréticos (na Bíblia e no vernáculo), uma igreja na qual se pode realmente confiar, para ali se congregar, até o dia em que o Senhor Jesus Cristo nos arrebatar, ou então nos chamar para um encontro pessoal com Ele.
Infelizmente, como nem tudo é perfeito, alguns líderes da igreja acharam por bem coletar mais dízimos e bolaram um meio de fazer isso, escolhendo alguns membros (em geral novatos) para irem até o microfone, dizendo como são abençoados porque têm sido fiéis na entrega do dízimo, etc.
Uma irmã, que sempre fala articuladamente, esteve dando o seu testemunho de como Deus a tem abençoado por ser dizimista. Criada num lar evangélico, essa irmã se habituou a ouvir louvores a quem entrega o dízimo, foi educada nessa mentalidade e agora é capaz de morrer, jurando que quem não entrega o dízimo não é abençoado. Ela chegou a ponto de citar Malaquias 3:8-10. Ora, essa irmã, que é tão bajulada na Igreja, sendo muitas vezes convidada a orar, sentindo-se uma VIP ali dentro, provou o seu total desconhecimento da Bíblia, ao citar Malaquias, um livro do Velho Testamento, para corroborar a sua reivindicação do dízimo.
Digamos que essa irmã, que já vai no terceiro ou quarto marido (ficou viúva de dois ou três maridos anteriores) não fosse tão abençoada assim, a ponto de ficar viúva tantas vezes! Fiquei viúva apenas uma vez e isso foi tão doloroso que nunca mais me casei, embora tivessem aparecido alguns candidatos (inclusive um pastor, também viúvo).
Vamos fazer um balanço, para ver qual de nós duas é mais abençoada, se ela, que é tão pontual no dízimo, ou eu, que não o entrego:
1. - Só tive um marido e fui muito feliz no casamento, durante 26 anos.
2. - Tenho duas filhas bonitas e inteligentes e cinco netos saudáveis e lindíssimos.
3. - Nunca fui pobre, sempre tive o essencial para viver e viajei por 15 países ocidentais, muitas vezes me hospedando em excelentes hotéis cinco estrelas.
4. - Fui empresária durante 36 anos e nunca precisei pagar uma conta com atraso e nem fazer qualquer empréstimo bancário, o que ainda hoje me acontece, nesta fase da terceira idade.
5. - Tenho uma saúde de ferro, sem nenhum dos achaques da idade... Será que ela tem uma pressão 12 X 8?
6. - não é abençoado. Ela chegou a ponto de citar Malaquias 3:8-10. Ora, essa irmã, que é tão bajulada na Igreja, sendo muitas vezes convidada a orar, sentindo-se uma VIP ali dentro, provou o seu total desconhecimento da Bíblia, ao citar Malaquias, um livro do Velho Testamento, para corroborar a sua reivindicação do dízimo.
Digamos que essa irmã, que já vai no terceiro ou quarto marido (ficou viúva de dois ou três maridos anteriores) não fosse tão abençoada assim, a ponto de ficar viúva tantas vezes! Fiquei viúva apenas uma vez e isso foi tão doloroso que nunca mais me casei, embora tivessem aparecido alguns candidatos (inclusive um pastor, também viúvo).
Vamos fazer um balanço, para ver qual de nós duas é mais abençoada, se ela, que é tão pontual no dízimo, ou eu, que não o entrego:
1. - Só tive um marido e fui muito feliz no casamento, durante 26 anos.
2. - Tenho duas filhas bonitas e inteligentes e cinco netos saudáveis e lindíssimos.
3. - Nunca fui pobre, sempre tive o essencial para viver e viajei por 15 países ocidentais, muitas vezes me hospedando em excelentes hotéis cinco estrelas.
4. - Fui empresária durante 36 anos e nunca precisei pagar uma conta com atraso e nem fazer qualquer empréstimo bancário, o que ainda hoje me acontece, nesta fase da terceira idade.
5. - Tenho uma saúde de ferro, sem nenhum dos achaques da idade... Será que ela tem uma pressão 12 X 8?
6. - Tenho 75 anos e nunca engordei - o que, obviamente, não é o caso dessa “dizimista abençoada”.
7. - Traduzi mais de 6 mil páginas do Inglês, sou autora de 15 livros (dez já publicados) e de mais de mil artigos, todos eles louvando e glorificando o Nome Santo do Senhor Jesus Cristo, o que vale mais do que ter entregado mil dízimos...
8. - Tenho um grupo na Internet, correspondo-me com dezenas de amigos e irmãos na fé (em Português e inglês) e sou conhecida até no exterior, de onde recebo cartas de personalidades importantes, elogiando o trabalho que faço, desejando vir ao Brasil para me conhecer pessoalmente. Exemplos: o Diretor do Centro de Pesquisas Bíblicas de Jerusalém, chegando ao Brasil, veio a Teresópolis, simplesmente para almoçar e passar um dia comigo. O Dr. Thomas Gilmer, Presidente da Editora Trinitariana no Brasil, veio de São Paulo para me conhecer e almoçar comigo.
9. - Sou amada e respeitada pelos vizinhos, no prédio onde tenho um apartamento comprado com muitos anos de trabalho honesto. Não freqüento a casa de pessoa alguma, mas elas sempre me vêm pedir conselhos e até o síndico me pede aprovação sobre os projetos que pretende colocar em prática no prédio.
10. Minha filha alemã ontem me telefonou para dizer que me ama, que eu sou o seu modelo de vida, que sente a maior alegria em me ter como mãe. Eu havia acabado de receber um presente e um cartão com os seguintes dizeres:
“Querida mamãe: os dizeres deste cartão [um pensamento de Pascal] me fizeram lembrar da nossa última conversa por telefone. Como é bom saber que a Sra. é tão feliz!
Também me vem à cabeça um trecho do livro de Kenn Follet, ”Pilares da Terra”, que diz: ‘Ter fé em Deus não significa ficar sentado sem fazer nada. Significa ver que se terá sucesso, quando se fizer o melhor possível, sincera e inteligentemente.'
Pois é isso que a Senhora é, Mãe! Uma expert na língua, na Bíblia e na VIDA! Feliz Dia das Mães! - Margarete.
Ora, com tantas bênçãos materiais, familiares e espirituais me cobrindo a vida, do amanhecer ao por do sol, se eu precisasse de mais alguma bênção, iria correndo até o gazofilácio da igreja e ali colocaria, não somente 10% do meu salário, mas até muito mais. Contudo, já tenho Filipenses 4:7, 19 e Efésios 3:19-20 me abarrotando a existência! Então, Louvado seja Deus, que eu não seja dizimista! Realmente, gosto de contribuir com missões e com a construção do novo templo. Mas... ser dizimista, não senhor! Se não houvesse dizimistas tão fanáticos na igreja eu até contribuiria, digamos, com 3% do que recebo do INSS (como se faz na Alemanha), para ajudar nas despesas do templo e pagar o salário do pastor. Mas dar 10% do bruto de minha pensão, depois de ter trabalhado durante 45 anos ... E ver gente deixando de se alimentar corretamente para entregar 10% de sua renda bruta, levando tantos pastores (principalmente os das igrejas malaquianas) a engordar as suas contas bancárias no exterior... Essa não!
Se os “abençoados dizimistas” da nossa PIBT acham que estou errada e querem falar biblicamente sobre o assunto, podem me procurar. Tenho um livro prontinho para entregar-lhes, mesmo sabendo que os líderes da Igreja vão me detonar por causa disso!!! Nesse caso, como não coloco a menor fé no dízimo, eu citaria Romanos 14:23 e 12: “tudo o que não é de fé é pecado” e “cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus”. Abril 2005.
Que culpa tenho eu?
Para alguns irmãos (principalmente mulheres) que me enviam mensagens contundentes, achando que vão me deixar deprimida, ou com um enorme complexo de culpa, respondo simplesmente.
Que culpa tenho eu ... que Deus tenha sido maravilhoso demais para mim, desde o dia do meu nascimento, até o dia de hoje? Ele me tem cumulado de bênçãos (mesmo eu não sendo dizimista) e essas bênçãos são tantas que resolvi fazer um ligeiro resumo de algumas delas...
Nasci num lar católico, onde havia muita generosidade com os empregados, meus pais me amavam muito e me deram tudo de que eu precisava para ser uma criança feliz. Fui educada na fé em Cristo, honrando-O como Deus e Salvador, embora com a falsa noção de que Maria tinha quase tanto poder como Ele e que eu era tão abençoada, por ter nascido no dia da Imaculada Conceição.
Na escola nunca tirei o segundo lugar, sempre era a melhor aluna da classe e quando terminei o curso ginasial falava Inglês fluentemente, tendo aprendido essa língua sozinha, porque sempre me dediquei ao estudo da mesma, além do Português e do Latim, que eu também apreciava muito. Por isso hoje consigo escrever as duas primeiras línguas sem problema algum de redação e ainda entendo um pouco da terceira. Do Alemão aprenderia o básico, no futuro...
Meu pai me adorava. Quando completei 15 anos, ele me deu de presente um colar com 15 gramas de ouro 18 K, com uma medalha de Nossa Senhora. Quando completei 18 anos, ele, que sempre desejou me ver formada em Medicina, deu-me de presente uma caneta de ouro 18 K com duas esmeraldas formando os olhos da cobra que adornava a peça. Nos anos seguintes, eu escreveria sempre com essa caneta de ouro!!! Até que um dia perdi a peça... Mas não chorei, pois nunca me apeguei a coisas materiais.
Meu pai sempre me cumulava de mimos. De brincos e pulseiras, de roupas lindas, dizendo que eu era uma princesa, que era linda e que um dia ainda seria uma grande médica. Nisso ele errou, pois me tornei uma secretária bilíngüe, depois empresária em cosméticos e, finalmente, uma escritora evangélica, pelo que agradeço imensamente a Deus, pois não gosto de ver sangue...
Por não ter seguido a carreira que meu pai escolhera, ele rompeu comigo e me cortou a mesada (que era a maior do colégio), mas logo arranjei um bom emprego e até o dia do casamento nunca me faltou coisa alguma. Dou graças a Deus por esse rompimento com meu pai, visto como aprendi a me “virar” sozinha” e, assim, cresci na vida. Romanos 8:28!!!
Casei-me com um alemão de Berlim e não poderia ter escolhido um marido mais honesto, mais trabalhador, amoroso e apaixonado do que este. Ele continuou me cumulando de jóias, roupas finas e livros, viajamos por 13 países (depois viajei por mais dois), ele sempre me dando amor, apoio e dizendo que eu era maravilhosa! Trabalhamos muito e fizemos uma pequena fortuna (nunca recebi nada de meus pais, porque minha mãe ficou com tudo e como esta morreu recentemente e meus 4 irmãos estão se desentendendo por causa da herança, preferi ficar neutra, pois brigar por dinheiro não é exatamente o meu forte).
Converti-me aos 48 anos de idade, lendo em duas línguas a Bíblia King James/Trinitariana, e, quando me filiei a uma igreja presbiteriana, já havia lido o Novo Testamento 50 vezes, portanto não deixei que pastor ou presbítero algum me fizesse a cabeça, impondo-me leis humanas (como o Dizimo, por exemplo). Hoje leio a Bíblia em três idiomas e fiz um bom curso teológico, portanto os pastores sempre pensam bastante, antes de virem me expor doutrinas humanas, tentando me convencer de coisas que são do interesse deles e não do Reino...
Não posso reclamar da vida. Tenho o suficiente para viver, sou amparada por um bom plano de saúde, tenho boa saúde, o mesmo peso dos vinte anos, congrego numa igreja excelente e minha cabeça ainda está funcionando muito bem. Ultimamente, quando traduzi dois livros de Teologia Bíblica (O Senhor do Céu e A Glória do Seu Nome), num total de 120 páginas, consultei o dicionário apenas 12 vezes, o que deu uma consulta para cada dez páginas. Esses livros escritos por Sir Robert Anderson são maravilhosos e me fizeram crescer na fé, pois versam sobre a Divindade e o Nome de Jesus Cristo, nosso grande Deus e Salvador.
Gastei seis semanas nas duas traduções e como não aceitei pagamento algum (enquanto um irmão que traduziu um outro livro de 120 ps., do mesmo autor, pediu R$1.800 à pessoa interessada na tradução), ganhei de presente um monitor de cristal líquido, que há tanto tempo eu desejava possuir.
Que culpa tenho eu de Deus ser tão maravilhoso assim comigo, provando a veracidade de Efésios 3:19-21? “E conhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento, para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus. Ora, àquele que é poderoso para fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, segundo o poder que em nós opera, a esse glória na igreja, por Jesus Cristo, em todas as gerações, para todo o sempre. Amém”.
Aos invejosos aconselho que façam a seguinte oração: “Senhor, tu tens sido bom demais com a Mary, que é tão má, tão orgulhosa, tão vaidosa, tão deficiente no amor ao próximo... Castiga a Mary e me dá tudo que tens dado a ela”.
Se Ele escutar esta oração, tudo bem. Ele é SOBERANO e JUSTO. Tem todo o direito de fazer o que bem desejar... com o fariseu invejoso que fizer esta oração.
Abril 2005.
Ana e o Reis dos reis
Ana é uma garota de 25 anos, alta, loura e esbelta, inteligente, culta e poliglota. Converteu-se aos 13 anos de idade, quando passava férias em casa da avó. Durante o dia, enquanto a avó trabalhava, Ana saía com as antigas colegas de escola, assistia televisão e à noite, depois do Jornal Nacional, quando a avó entrava no quarto para fazer as orações, levava Ana consigo e depois de lerem dois salmos e orar, tempo de devoção que durava em média uma hora, dormiam em camas gêmeas, como no tempo em que o avô era vivo e Ana dormia entre os dois.
Uma noite, depois da hora devocional, Ana pediu: “Vó, me ensina a ser crente como você”. A avó ensinou-lhe o plano de salvação e Ana aceitou Jesus na mesma hora, depois chorou de alegria e ganhou um Novo Testamento.
No dia seguinte começou a ler avidamente o livro santo, esquecendo as amigas. Lia em voz alta, com o maior entusiasmo, e a avó ficava muito feliz de ouvir aquela vozinha meiga e pura, falando nos Evangelhos como se fosse Jesus. Poucos dias depois da conversão de Ana, sua avó entrou no quarto, onde ela lia o NT deitada, muito à vontade, e ouviu este versículo: “Porque, se pecarmos voluntariamente, depois de termos recebido o conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados...” (HB 10:26). A avó admirou-se da seriedade da leitura e perguntou: “Você está gostando de ler Hebreus?” A resposta foi rápida: “Claro, vó, é o livro mais bonito que li até agora. Só estou preocupada sabendo que, se cometer algum pecado, Deus não vai mais me perdoar.” A avó explicou-lhe que Hebreus foi escrita por um escritor hebreu, destinada exclusivamente aos hebreus na dispersão, e que nada tem a ver com os gentios da Igreja do Senhor. Jesus não mais nos condena, depois de O termos aceitado como Salvador e Senhor de nossa vida. Em seguida grifou alguns versos de Gálatas e Romanos para a menina ler depois. Ana ficou mais tranqüila e prosseguiu na leitura do Novo Testamento. Os anos passaram e hoje, estudando numa universidade alemã, onde milhares de alunos descrêem na divindade de Jesus Cristo, Ana continua firme em sua fé.
Há pouco tempo, quando esteve no Brasil, a avó perguntou-lhe o que achava de Jesus. Ela deu uma resposta muito pitoresca:
Jesus é mais lindo do que o Gianechine.
Mais melodioso do que as Valsas de Strauss.
Mais saboroso do que o chocolate Ferrero Rouché que eu lhe trouxe.
Mais refrescante do que uma Coca-Cola bem gelada.
Mais amigo dos negros do que o ... Esqueci o nome... Aquele político da África do Sul.
Mais amigo dos índios do que o Marechal Rondon.
Mais meu amigo do que... até mesmo minha mãe e você.
Mais importante para mim do que o meu noivo.
Mais precioso do que esta calça Jeans que eu trouxe na viagem pois, infelizmente, não consegui uma só que me agradasse aqui em Terê.
Vó, Jesus é único. Jesus é DEZ!
Setembro, 2004.
Solly e eu
Hoje Solly está completando 75 anos, gozando uma saúde invejável e vivendo de sua aposentadoria como funcionária do INCRA, para o qual trabalhou durante muitos anos.
Nossa amizade começou com uma antipatia mútua. Fui trabalhar como Secretária do Superintendente americano da Singer, no Recife, em 1951, e ela que fora secretária da moça que eu estava substituindo, antipatizou comigo e passou a me hostilizar em todos os sentidos. Eu era jovem e bonita, Solly nunca foi bonita. Baixinha, com um defeito tipo lordose, só tinha de belos os cabelos macios e alourados de pernambucana descendente de algum holandês descendente da ocupação de Maurício de Nassau. Só tinha o primeiro grau e não falava Inglês, o que a colocava em posição de inferioridade com respeito a mim. Contudo, sempre foi muito melhor datilógrafa do que eu. Com o passar dos meses nós nos acomodamos (eu fechava os olhos às suas implicâncias, pois entendia o seu sentimento de revolta por não ter sido escolhida para substituir a secretária antiga) e trabalhávamos juntas com a maior eficiência.
Até que um dia o chefe da Solly (um judeu subalterno ao superintendente) teve um problema com ela e demitiu-a do emprego.
Fiquei revoltada com a injustiça e tomei as dores de Solly e, desde esse tempo, nossa amizade se fortaleceu tanto que hoje, depois de 50 anos, continua firme.
Desgostosa com a Singer, alguns meses depois Solly decidiu arriscar a vida na capital do país (nesse tempo, o Rio de Janeiro) e foi morar em um pensionato na Glória. Foi-lhe difícil conseguir um bom emprego e foi trocando de firma, até que fez um concurso no INCRA, foi aprovada e garantiu-se pelo resto da vida.
Alguns meses depois de sua vinda para o RJ, eu também quis tentar a vida na capital do país. Nesse tempo já havia deixado a Singer e estava trabalhando no Consulado Real da Dinamarca, onde tinha um chefe muito arrogante. Só agüentei seis meses e pedi demissão. Aproveitei, então, uma passagem que me foi oferecida pelo primo de uma grande amiga, com quem eu morava, o qual era oficial da marinha e tinha direito a duas passagens na Cruzeiro do Sul. No dia 02/09/1954, aterrissei no Aeroporto Santos Dumont, no RJ, onde me esperava uma amiga poetisa, que me levou para o mesmo pensionato onde Solly morava e ali me deixou. Nossa luta - minha e da Solly - para conseguir sobreviver na cidade grande está narrada em outro artigo - O Ano das Vacas Magras - mas vou tentar resumir.
Ficamos alguns meses tentando conseguir um bom emprego. Eu era esteno-datilógrafa bilíngüe, diziam que era bonita e tinha muita fé em Deus. Meu primeiro emprego foi numa companhia de engenharia. Não gravei o nome da firma. Mas uma coisa me ficou gravada na memória. Naquele tempo não havia self-service, a comida no pensionato era péssima e eu tinha saudade de uma boa refeição. Na tal firma o almoço era fraqueado aos empregados. No primeiro dia o cardápio servido foi arroz, feijão manteiga, carne assada e salada de alface e tomate. Que delícia, meu Deus! Eu queria ficar naquele emprego só para saborear aquele tipo de refeição.
Infelizmente, porém, a moça que eu iria substituir era uma chata, que fez questão de me ensinar tudo errado, pois segundo ela mesma declarou, “não gostou da minha cara”, talvez me achando bonita e confiante demais. Fui desclassificada e Continuei desempregada.
O segundo emprego foi na filial recém instalada do Bank of América (da Ordem Jesuíta), onde me tornei secretária interina, até que chegasse a americana que estava terminando o curso de Português nos USA. O gerente foi muito bom comigo, pois me deu um mês de salário de indenização, mesmo tendo eu trabalhado apenas dois meses no tal Banco.
O terceiro emprego foi na firma de um judeu alemão e poderia ter ficado ali, pois corrigia as cartas que ele redigia em Inglês e o velhote me achou tão competente que foi logo me pedindo a carteira para assinar, antes de decorrido estipulado prazo de 30 dias. Saí porque o escritório era velho e sujo e eu sempre tive mania de limpeza. Além disso, fora chamada para trabalhar na firma inglesa Mappin & Webb como secretária do Diretor, onde fiquei até me casar, o que aconteceu exatamente na véspera de completar dois anos de chegada ao RJ. Foi assim que São Paulo, Nova Iorque e Tóquio deixaram de me conhecer! Essas seriam as cidades para onde eu deveria ir, caso não conseguisse logo um bom emprego no RJ.
Solly é espírita desde jovem. Fui católica e me converti ao Evangelho, aos 48 anos de idade. Ela casou com um americano e eu, com um alemão. Nossas filhas nasceram com uma diferença de apenas 35 dias (a minha veio antes) e eram tão parecidas que as más línguas ficavam sugerindo que talvez fossem irmãs por parte de pai... Meu casamento durou 26 anos, quando meu marido, não me suportando mais, teve um enfarte e faleceu. O casamento da Solly durou apenas um ano e meio, pois o marido era muito infiel.
Hoje Solly continua morando na zona sul do RJ. Eu morei durante 38 anos na Baixada Fluminense e há dez anos vim morar em Teresópolis, RJ. Ela sempre vinha me visitar, até que resolveu usar suas economias para comprar um apartamento em frente à Prefeitura, a uma quadra do meu. Agora aparece em fins de semana alternados e saímos juntas para as compras e o self-service.
Deus tem sido bom para nós ambas. Só que, para mim, Ele tem sido muito MELHOR, pois me deu a salvação eterna através da fé em Jesus Cristo, Seu Filho, enquanto Solly continua militando nas mesas kardecistas.
Amados, vocês que estão lendo este relato, por favor orem pela conversão da Solly (que é dura na queda), pois estou orando por ela há 27 anos e, até agora, o Senhor não deu um sim e como Paulo diz que em Cristo sempre temos boa resposta: “Porque o Filho de Deus, Jesus Cristo... não foi sim e não; mas nele houve sim”. (2 Coríntios 1:20), espero que esse milagre logo aconteça na vida da minha amiga.
Teresópolis, 02/02/05.
A Ingratidão de Demas
Na 2 Timóteo 4:10, o apóstolo Paulo se queixa da ingratidão sofrida de alguns irmãos na fé, dizendo: ”Demas me desamparou, amando o presente século...” Pois eu também tive não um, mas uma “Demas” em minha vida, que me desamparou quando eu mais necessitava de sua presença ao meu lado.
Demas viera da região mais pobre de Minas Gerais, junto com a família, e fora morar numa cabana, perto de nossa casa. Gostei dela e convidei-a para trabalhar na limpeza doméstica, onde ela se revelou perfeita. Achei que Demas merecia um emprego melhor, com carteira assinada, e pedi que meu marido a levasse para trabalhar na firma da qual ele era o Gerente Químico. Ele me atendeu e logo Demas estava trabalhando naquela firma e vindo limpar nossa casa aos sábados.
Quando meu marido deixou o emprego para cuidar do nosso próprio laboratório, Demas também veio e começou a trabalhar conosco. Ganhava um salário mínimo, cesta básica e colégio particular para as duas filhas, o mesmo ginásio onde estudava nossa filha Margarete. Nesse tempo, seu marido havia conseguido um emprego de motorista na Petrobrás e a vida daquela família melhorou rapidamente.
Os anos passaram, deixamos de fabricar anilinas e Demas foi aproveitada na fabricação de cosméticos. Ela era muito pontual, eficiente, interessada em nosso progresso e ficou 20 anos conosco - de 1972 até 1992. Aprendeu a fazer tudo e passou a gerente de nossa micro-empresa. Em 1975 eu havia comprado um apartamento de 60 metros quadrados, morei ali apenas um ano, enquanto esquecia os horrores do último assalto armado à nossa casa, e logo dei o apartamento para Demas morar com a família.
Em 1982, meu marido faleceu e quando o inventário ficou pronto (1984), passei o apartamento para o nome de Demas, que ali já morava há alguns anos, sem pagar aluguel. Agora eu precisava dela, mais do que nunca, pois sem meu marido, havia muito o que fazer. Margarete (que havia terminado ao curso na UFRRJ), veio substituir o pai e não gostou de Demas, dizendo que ela era uma pessoa falsa e que eu não deveria delegar tantos poderes à mesma... porém me recusei a dar-lhe ouvidos. Em 1992 minha filha mudou para Teresópolis e foi trabalhar na firma de um amigo nosso. Nossa empresa ia mal, desde o tempo do Color, por causa da instabilidade política e financeira, a inflação nos levava todo o lucro e comecei a vender os terrenos herdados no inventário (três) para liquidar as dívidas da firma, pois nunca deixei de honrar meus compromissos.
Em 1992, viajei para Miami e Nova York, onde iria apresentar meus cosméticos num congresso internacional, e fazer um breve curso de cosmetologia. Demas ficou na gerência da firma e quando voltei do congresso (cuja viagem fora financiada pelo meu próprio bolso), Demas veio me pedir uma quantia enorme, dizendo que precisava fazer uma reforma no seu apartamento. Expliquei que a situação nacional era caótica e pedi que ela esperasse dias melhores. Mas ela não quis esperar. Foi ao Ministério do Trabalho em Duque de Caxias e moveu uma ação contra mim, exigindo o valor que me havia pedido para a tal reforma. Eu jamais havia ganhado uma ação na Justiça do Trabalho, pois sempre havia um esquema de corrupção, no qual me recusava a entrar e, por isso, sempre perdia as causas. Mas Deus é bom demais. Demas levou uma porção de testemunhas falsas, mas como houve a necessidade de um laudo pericial no laboratório (ela acusava a firma de insalubridade) e o técnico não encontrou insalubridade alguma, Demas perdeu a questão.
Fiquei tão sofrida com a ingratidão dela que só agüentei dois anos sozinha e acabei vendendo a firma por um décimo do valor, vindo morar em Teresópolis, onde me dediquei à pesquisa religiosa.
E como “todas as coisa contribuem juntamente para o bem dos que amam a Deus” (Romanos 8:28), nunca me senti tão feliz e realizada em minha vida, como nos últimos dez anos! Por isso desejo louvar a glorificar o Nome do meu grande Deus e Salvador Jesus Cristo pela ingratidão de Demas.
Maio, 2005.
Grande Marietta
Esta semana veio me visitar uma das mulheres mais fantásticas que já conheci em meus 72 anos de vida. O nome dela é Marietta Gomes da Silva.
Ela tem agora 88 anos, sua cabeça é mais lúcida do que a minha, sua voz não ficou rouca, como ficou a minha, seu bom humor não arrefeceu, como arrefeceu o meu, nunca teve uma depressão, como tenho tido muitas... Ela é simplesmente maravilhosa! Louvado seja Deus pela sua vida!
Aposentada pela Loteria do Estado do RJ, aos cinqüenta e seis anos, Marietta foi trabalhar como encarregada do nosso escritório de vendas, na Avenida Copacabana, 500/1210 lá pelo ano de 1972, onde permaneceu durante mais de vinte anos. Foi a pessoa mais honesta, mais ágil, mais dinâmica, mais interessada pelos negócios, que eu conheci em toda a minha vida. É uma das dez pessoas que mais amo e admiro, neste mundo maluco.
Até os oitenta anos de idade Marietta não tinha rugas no rosto. Jamais fez uma plástica e garante que a juventude de sua pele se deve ao colágeno em pó, que toma desde os sessenta anos, e aos cosméticos da linha Mary Schultze que sempre fez questão de usar, até 5 anos atrás, quando deixaram de ser fabricados pelo novo proprietário, que nos comprou a firma, há quase 8 anos.
Marietta é sócia proprietária do Clube de Regatas Flamengo e sempre que havia um jogo decisivo, na época em que trabalhávamos juntas, eu entrava em pânico, temendo uma derrota do seu clube, pois o seu amoroso coração poderia não suportar tamanha desilusão e parar de bater, o que seria um desastre em minha vida. Agora, com 88 anos (11/01/02) ela está fazendo... adivinhem que curso? Simplesmente o de informática.
Ela sempre foi uma tia muito querida, para quem os sobrinhos e sobrinhos- netos corriam nas horas de tristeza, certos de encontrar um ombro amigo sobre o qual poderiam chorar. Marietta já não trabalha há alguns anos, mas continuo amando-a e admirando-a, como nos bons tempos de nossa convivência diária. Jamais tivemos um desentendimento e fiz estas trovinhas para ela, há alguns anos, como dedicatória em meu primeiro livro ”Cubos de Gelo":
Se me faltas, Marietta,
eu sou franca em te falar:
minha vida fica preta,
que outra igual não vou achar.
Não vou achar outra igual,
em cem anos de procura,
e vou viver muito mal
sem teu carinho e ternura!
Marietta é católica romana, mas não do tipo fanático e idólatra. Ela ama Jesus e nunca foi sequer beijada por um homem, tendo se guardado sem a contaminação do mundo para o Homem-Deus que escolheu servir, de livre espontânea vontade, sem jamais ter precisado entrar num convento para fugir do mundo.
Quando Marietta entrou hoje (depois de 3 meses de ausência), toda eufórica e sorridente, pela porta do meu apartamento, senti-me novamente jovem. Eu sempre dizia, quando estava na faixa dos 40 anos, que gostaria de envelhecer ágil e elegante, como a encantadora Marietta. Pois Deus me concedeu esse privilégio. Somos duas velhinhas ágeis, vaidosas e desembaraçadas. Temos ambas boa saúde, manequim 42 e a cabeça ainda funcionando, perfeitamente. Isso eu atribuo a três dos meus versículos bíblicos favoritos, Romanos 8:28 e Efésios 3:20-21: "E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus...Ora, àquele que é poderoso para fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, segundo o poder que em nós opera, a esse glória na igreja, por Jesus Cristo, em todas as gerações, para todo o sempre. Amém." (ACF) Fevereiro 2002. (P.S. - Agora Marietta já está com 91 anos de idade e continua lúcida e saudável, o que demonstra a imensa bondade e justiça divina - maio 2005).
O Cantador
André Luiz de Oliveira é um pastor batista bíblico, muito sério e aplicado, que reside em Belo Horizonte. É alto, magro e moreno, com aparência meio hippie, tem 45 anos e nasceu para cantar. É um poeta de mão cheia. Escreve versos perfeitos, em seguida coloca música em seus poemas, ao som do violão, que toca magistralmente, e compõe canções tão lindas que nos deixam encantados. Tem pelo menos três CDs gravados e foi através do seu “O Cantador” que o conheci. Para ser franca, não aprecio música evangélica do tipo que anda grassando por aí. Em geral essas músicas, principalmente as compostas por jovens iletrados bíblicos, de vida nem sempre pautada nos padrões cristãos, são pobres de letra e música, cheias de erros gramaticais e de gritantes heresias.
E foi assim que imaginei o conteúdo do CD do mineiro André, quando um amigo comum mo trouxe de um congresso em São Paulo. Eu nem queria ouvir o disco, mas o amigo me obrigou e acabei escutando-o. Foi paixão fulminante... à primeira escuta. Amei suas canções lindas, suaves e completamente pautadas na Palavra de Deus, coisa rara nos meios musicais evangélicos. Ouvi duas, três, dez vezes o CD do André e me apaixonei por ele de tal modo que o adotei imediatamente como filho do meu coração.
Começamos a nos corresponder. Tornei-me revisora dos trabalhos de André, que me telefonava todo sábado, e assim fomos levando nossa tórrida “love story” de mãe e filho. Ele começou a se corresponder com minha filha Margarete, e ela sempre me agradecia por ter-lhe arranjado um “irmãozinho”, depois dos 40 anos. Nossa “love story” ia seguindo o seu curso normal, todo mundo se amando, até que um dia André faltou a um encontro com minha filha, que havia chegado da Alemanha, onde reside, dando-nos um “bolo”. Resolvi dar-lhe um gelo de seis meses e, depois de uma bronca, deixei de falar com ele. O mineiro agüentou firme a minha maldade “maternal” e um dia resolveu me derrubar e... conseguiu! Enviou-me uma canção dizendo que eu sou “um dos sete mil que não se dobraram diante” dos modismos evangélicos, referindo-se ao Movimento G-12. Fizemos as pazes. E o amor voltou mais violento do que antes...
Um dia ele chegou de surpresa para me conhecer, na hora do almoço. Eu tinha apenas um prato de risoto de frango no forno e ia comer o dito, quando ele tocou o interfone e subiu. Estava de passagem Rio/Belo Horizonte e tinha pressa, tendo vindo apenas para dar um abraço e conhecer pessoalmente sua mãe de Teresópolis. Ofereci-lhe o risoto e, achando que era pouco, completei com uma salada de cenoura e tomate, e um suco de manga. Ele comeu tudo, olhou as fotos da família e se foi, deixando um vazio enorme em meu coração materno, agora despido de toda mágoa. Quando chegou em Belô, compôs uma “Canção de amor pra mãe” e me enviou. André é realmente um gênio em matéria de letra e música, sua canção é linda e diz assim:
Foi tão bom sentar à tua mesa
e usufruir do teu almoço,
em paz, sem alvoroço,
e ter lembranças como sobremesa.
Viajar em fotografia,
foi tão bom aí estar,
te conhecer e te amar,
Mary, que alegria...
Minha mãe, minha irmã,
NORDESTINA ALEMÃ,
filha do Deus vivo,
a quem também eu sirvo...
Ouvi a canção, chorei de alegria. Mais tarde, fiz dela uma paráfrase como se ele estivesse reclamando da pobreza do cardápio:
Quando eu sentei à tua mesa,
fui tratado como um garoto,
pois me deste - que pobreza -
aquele mísero risoto...
Te pegando desprevenida,
tão alegre e apressada,
tu me deste por comida
de cenoura uma salada...
Me senti índio de tanga,
obrigado a beber
aquele suco de manga
pra de sede não morrer...
Minha mãe, minha irmã,
estou indo viajar...
traz depressa uma maçã
para eu me alimentar...
É isso aí, André. Você escreve lindos poemas, depois os enriquece ao som do violão, e assim vai chegando em cada palacete e em cada choupana deste imenso continente Brasil, e até no exterior, pois o seu CD já chegou nos Estados Unidos e na Alemanha, por mim enviado a pessoas amigas e da família.
Espero que Deus continue usando você, meu filho, com esse dom maravilhoso que lhe deu, para honra e glória do Nome de Jesus, nosso grande Deus e Salvador eterno.
Mary Schultze - frauschultze@uol.com.br
Atenção: Fiz essa coletânea de reminiscências para atender aos pedidos de alguns irmãos mais chegados, que sempre querem saber algo sobre minha família e sobre a minha vida.
Muitos até pensam, erroneamente, que sou alemã! Oxente!
Teresópolis, 08 de maio de 2005