Outro domingo na igreja
Paulo diz em Romanos 14:5: "Aquele que faz caso do dia, para o Senhor o faz e o que não faz caso do dia para o Senhor o não faz... e dá graças a Deus”. Como tenho adotado a teologia paulina e nunca me arrependi, hoje decidi ficar em casa e não ir à igreja, pois haveria dois cultos festivos - com a peça de teatro “Deus Conosco”, no salão de conferências de um antigo hotel de luxo da cidade... e não gosto de festas.
Nossa PIBT ainda é uma igreja séria, pois nunca faz festa, limitando-se aos festejos do seu aniversário de fundação (07/09), de Natal e de Páscoa. Mas a maioria das igrejas nesta cidade vive sempre festejando, ao contrário da igreja primitiva, onde não havia qualquer tipo de festejo, pois os crentes se reuniam nas casas para estudar a Palavra, tomar a Ceia do Senhor e falar de assuntos relacionados às necessidades dos órfãos e viúvas desamparados.
De manhã, fiquei fazendo alguns trabalhos domésticos, pois, como “não faço caso do dia, para o Senhor não o faço”; coloquei algumas coisas em ordem, depois vim para o computador, a fim de receber e responder os e-mails do dia. Alegrei-me com a mensagem de Sílvia, minha filha espiritual que estuda na Inglaterra, falando de como os jornais londrinos (o Dailly Mirror, por exemplo) estão canonizando Judas, desde que a mídia veiculou a tradução para o Inglês do evangelho (gnóstico) a ele atribuído.
O dia passou depressa e quando chegou a hora do culto vespertino, eu, uma dependente semanal dessa programação, senti falta de um sermão e de uns bons hinos... Mas onde encontrar uma igreja tradicional nesta cidade, onde eu pudesse ser edificada, como uma tremenda fundamentalista bíblica? Então resolvi apelar... Sim, apelar para uma pequena aventura. Iria assistir a uma igreja neopentecostal, digamos à igreja do Missionário Luft, uma descendente da IURD (Luft em Alemão significa “ar”).
Cheguei ali depois das 19 horas e o culto já havia começado. O pastor, cujo nome não gravei (por sinal muito carismático), estava lendo e comentando Mateus 28 e até que estava indo bem, não fossem algumas frases que me pareceram meio estranhas, como por exemplo: “Vocês são exatamente iguais a Jesus ressuscitado, com o mesmo poder que ele tem.” Outra frase: “Aonde quer que vocês forem, Jesus estará indo na frente de vocês”... “A pedra do túmulo foi removida porque as mulheres quiseram assim e Deus lhes satisfez a vontade.” (Imaginem Deus ressuscitando o Seu Filho porque as mulheres assim o desejaram!). Lembrei-me de algo que o Dr. Peter Ruckman diz sobre os pastores malaquianos: “Eles pregam 80% de verdade e 20% de heresia. Ora, 20% de veneno em um copo d’água é mais do que letal e mesmo que eles pregassem apenas 1% de heresia já seria suficiente para colocar em perigo as almas inocentes por eles ensinadas...”
Depois da pregação e de muita cantoria, o pastor fez um breve sermão sobre dinheiro. Leu Malaquias 3:8-10, falou no gafanhoto devorador de Joel (esse gafanhoto vale ouro!) e frisou claramente que “ninguém é obrigado a entregar o dízimo, mas...” Deixou uma interrogação sinistra pairando sobre as cabeças mal informadas na Palavra... Logo em seguida ele citou Levítico 27:17 em diante, frisando a necessidade do crente entregar dízimos e ofertas, a fim de ser abençoado por Deus. Ele esqueceu (ou ignora), naturalmente, que somos gentios, pertencemos à Era da Graça e nada temos a ver com as leis de bênção ou maldição do Velho Testamento, pois o próprio Jesus declarou que “A lei e os profetas duraram até João” (Lucas 16:16). E quando Ele mencionou dízimo foi sempre em função dos judeus, pois até declarou em Mateus 15:24: “Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel”. E ali mesmo, Jesus comparou os gentios aos cachorrinhos: “Não é bom pegar no pão dos filhos e deitá-lo aos cachorrinhos” (v. 26), o que me deixa muito alegre, pois ser cachorrinho de Jesus seria uma glória, principalmente porque, depois de recebê-Lo como Salvador e Senhor, nos tornamos Seus “co-herdeiros”!
Como sempre, esse pastor malaquiano deixou Paulo de lado, pois o evangelho da graça não dá lucro! Durante a arrecadação dos dízimos e ofertas, foi dito, pelo menos três vezes, que a igreja precisa comprar um terreno de cinco milhões de Reais para edificar um templo, pois o aluguel do atual é R$3.000, e que, no culto da manhã, onde havia 120 pessoas, apenas 20 pessoas contribuíram, o que é lamentável! Infelizmente, disse o pastor, a igreja comprou, recentemente, um terreno de 6.000 metros quadrados em Caxias, por R$600.000 Reais, enquanto o de Terê, com apenas 2.400 metros quadrados, custa essa exorbitância!!! Mas se todos contribuíssem generosamente, logo essa quantia estaria disponível... Nesse momento eu me lembrei que, tendo sido microempresária durante 36 anos, jamais tive em mão R$60.000 para comprar um teto, e que este apê, onde moro há 11 anos, custou-me R$35.000, ou seja, o valor que me coube na venda da firma, da qual eu era proprietária. Se eu fosse mais nova iria fundar uma igreja malaquiana, pois um bom curso de Teologia eu tenho... Só me falta juventude e... esperteza!
O que mais me impressionou esta noite foi o pastor “falando em línguas estranhas”, o tempo inteiro, só que ele ficava apenas no “bla,bla,bla, ulalá,lalá,lalá, ble,ble,ble...” e sons desse tipo, o que, na certa, deixou os membros da igreja “espiritualmente edificados”!
Depois de muito barulho, orações estridentes, e vigorosos gestos de emoção e alegria, o culto-show terminou. Fiquei meia hora conversando com uma senhora de meia idade, culta e inteligente (Maria Luíza), que me contou como foi curada de uma paralisia generalizada, numa dessas igrejas malaquianas, e por isso freqüenta essa igreja, dizendo que sempre tem colaborado com a obra do Missionário Luft. Ela já foi membro da Igreja de Nova Vida, portanto se acostumou com igrejas malaquianas, todas elas milagreiras, barulhentas e de rápido enriquecimento, porque os cristãos se limitam a escutar o que os pastores falam, sem nunca estudarem a Bíblia com a intenção de crescer na graça e no conhecimento, achando que somente cresce na graça e recebe “bênçãos sem medida” um crente fiel nos dízimos e nas ofertas.
Esses pastores nunca pregam Romanos 13:7,8, por exemplo: “Portanto, dai a cada um o que deveis: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra... A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei”, pois, como já foi dito, o evangelho de Paulo não dá o lucro com o qual essas igrejas malaquianas sempre contam.
Quando pedia dízimos, o pastor citou ainda Mateus 22:21: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”, esquecendo, naturalmente, de explicar que “antes de dar a Deus” os crentes devem “dar a César”, isto é, pagar as contas de energia elétrica, telefone, supermercado, prestações, etc.
Ao término do culto, o pastor mandou que os seus obreiros entregassem a cada pessoa ali presente um vidrinho contendo 2 ml de suco de uva, garantindo que aquilo representava o sangue de Cristo e deveria ser colocado com um pincel na verga da porta, a fim de evitar que o “anjo da morte” passasse na casa de cada um, esta noite. (Vai ser judaizante assim em... Nova Iguaçu!)
Quando voltava para casa, tive uma experiência chocante. Na Catedral Metodista estava acontecendo um autêntico show carnavalesco, com todo mundo pulando, gritando e vibrando loucamente, ao som de um estridente conjunto de rock, numa demonstração de desenfreada emoção carnal. Então me lembrei de Habacuque 2:20: “O Senhor está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra”. Ora, os pastores malaquianos adoram o Velho Testamento; então, por que não seguem este mandamento de Habacuque?
Se John Wesley pudesse ver em que barafunda se transformou uma igreja que leva o seu honorável nome como fundador, iria morrer novamente... só que, dessa vez, de vergonha!
Mary Schultze, 16/04/06