Pastor, bispo ou apóstolo?

 

            Há dias, visitei uma dessas igrejas avivadas, a qual é freqüentada por milhares de pessoas sequiosas de conhecer a Verdade e melhorar de vida.  Ali escutei um evangelho totalmente obsoleto, embasado no Velho Testamento, como se aquela igreja fosse uma sucursal de Israel e não uma congregação gentílica. Também vi, ali, outras coisas, que me deixaram abismada!

            O barulho de alguns cânticos, sem o menor indício de que os autores conheçam a Bíblia, já havia ensurdecido os milhares ali presentes, deixando-os hipnotizados; agora, o pastor estava “com a faca e queijo na mão”, para usar e abusar da sua autoridade, exigindo dízimos e ofertas, como condição sine-qua-non de que os presentes amam de fato a “obra do Senhor”. Essas igrejas têm crescido por causa do monopólio espiritual dos seus líderes, como se Deus exigisse quantidade em vez de qualidade. Depois de pregar, enaltecer e até exigir a coleta de dízimos e ofertas, o pastor ficou observando uma fila gigantesca de pessoas iludidas, que entraram na “marcha do ganso”, a fim de colocar dinheiro nos dois gazofilácios.

Após ter suportado uma hora de grande suplício, escutando um excesso de decibéis e vendo aquela confusão babélica de gente se atropelando em busca de uma “unção”, observei que o pastor veio à frente e se apresentou como um “apóstolo escolhido” pelo Senhor, para dirigir a congregação. Fiquei pensando que, anos antes, ele se auto-nomeava bispo, mas agora já virou apóstolo, dizendo-se “nomeado e ungido por Deus”.

            Alguns líderes carismáticos, neste país, todos eles macaquinhos dos “emergentes” americanos, nunca leram este verso de Efésios 1:22, referindo-se a Cristo: “E sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja...”  Por isso, eles vivem na triste ilusão de que são os donos da igreja. Cristo é o Senhor da Igreja e não pode existir outro dono.

            Os pastores, anciãos, mestres e evangelistas, todos eles fazem parte do corpo da Igreja, assim como o fizeram, no contexto do VT, os profetas e no contexto do NT, os apóstolos de Cristo. Os sinais e maravilhas operados pelos apóstolos e líderes da igreja primitiva  “foram paulatinamente, se extinguindo, em um após o outro local, onde os judeus iam rejeitando a mensagem  (Jerusalém - Atos 7; Ásia Menor - Atos 13:45-46; Europa Central - Atos 18:6; Roma - Atos 28:28). Na 1 Coríntios 1:22, os judeus pediam sinais; mas, quando Paulo chegou ao final do seu ministério, ele declarou: “Porquanto não há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam”. (Romanos 10:12). A essa altura, Paulo já nem pôde curar o amigo Trófimo (2 Timóteo 4:20), no final do seu ministério”. (*). Os judeus pediam sinais e o Senhor, em Sua infinita graça e misericórdia, concedeu-lhes muitos sinais, desde o tempo do  cativeiro no Egito, até a era apostólica. Mesmo assim, as conversões foram poucas. A fé legítima não carece de autenticação por meio de sinais e prodígios. O cristão deve simplesmente crer e aguardar a misericórdia divina.

            Na igreja moderna, existem os ofícios de pastor, presbítero (ancião) e bispo, no quadro da liderança. Como “bispo” e “ancião”  significam o mesmo ofício no Novo Testamento, torna-se desnecessário o uso dos dois ofícios. Algumas denominações estão colocando o ofício de “bispo” acima do ofício de “presbítero”, ou “ancião”.

            O Corpo de Cristo é pluralizado por Paulo na 1 Coríntios 12. Todas as partes desse corpo têm o mesmo valor e nenhum membro é superior ao outro. Existem ainda os crentes que trabalham fora das quatro paredes do templo, na Igreja organismo, prestando relevantes serviços ao Senhor, sem visar qualquer recompensa da parte da liderança da Igreja organizada.

            Qualquer líder protestante ou evangélico, ostentando, hoje em dia, mais do que o simples título de “pastor”, para orientar e servir o rebanho, demonstra orgulho e desejo de vanglória, conforme Paulo deixa implícito na 1 Coríntios 12.

            No concílio de Jerusalém (duas vezes reunido) não foram os “bispos” que deram presença, mas os apóstolos (que ainda viviam) e os “anciãos”, que se reuniram para decidir o destino da igreja. Os títulos de “bispo” dados a Tiago, Tito e Timóteo equivaliam exatamente ao de “ancião”, embora Timóteo fosse ainda jovem.

            Quando Paulo reuniu os irmãos para a sua despedida, em Éfeso, ele convocou os anciãos (Atos 20:17) e não os “bispos”, pois os dois ofícios se equivaliam. Nesse caso, porque Paulo não convocou os “bispos”, se eles fossem superiores? Em Atos 20:28, lemos: “Olhai, pois, por vós, e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue”. Isso mostra que os “bispos” e os “anciãos” eram os mesmos.

            A verdade é que, após o término da Dispensação da Igreja Judaica, entramos na Dispensação da Igreja Gentílica, quando os ofícios de apóstolos e profetas, bem como os sinais e maravilhas terminaram; porque a Igreja de Cristo passou a viver exclusivamente da fé (Romanos 1:17) e não dos sinais e maravilhas operados pelos  “profetas” e  “apóstolos”, que tão poucas conversões conseguiram entre os judeus.

            E como os “filhos de Deus” foram escolhidos antes da fundação do mundo (Efésios 1:3), devemos pregar o evangelho, para despertar os que foram escolhidos, e viver vidas santas, pois o nosso bom exemplo, muitas vezes, equivale à melhor pregação do evangelho. Que adianta um crente  andar com a Bíblia debaixo do braço, ir à Igreja, aos domingos, entregar fielmente os dízimos e ofertas, se, quando chega em casa e no ambiente de trabalho, ele se  comporta como um pagão? É isso que tem acontecido com milhares de crentes: eles se comportam maravilhosamente “avivados”, dentro das quatro paredes do templo, mas durante os outros seis dias da semana se comportam escandalosamente, vivendo como incrédulos pagãos, obviamente  achando que “o domingo é o dia do Senhor”, mas  os outros seis dias são deles.

 

Mary Schultze, 25/11/2008

Inspirado no Comentário de James Sundquist - “Pastor is Master?”

* “Mistery of the Ages”, Dr. James Modlish

www.cpr.org.br/Mary.htm

 

"Porque, se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois me é imposta essa obrigação; e ai de mim, se não anunciar o evangelho!"  1 Cor 9:16
"Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo". 2 Cor 4:6