O Preço de Um Coco
“The Price of a Coconut”
Traduzido e adaptado por Mario Sergio de Almeida
Revisado por Mary Schultze
Janeiro de 2004
“Dai, e ser-vos-á dado; boa medida, recalcada, sacudida e transbordando, vos deitarão no vosso regaço; porque com a mesma medida com que medirdes também vos medirão de novo.”
(Lucas 6:38)
“Deleita-te também no SENHOR, e te concederá os desejos do teu coração.”
(Salmo 37:4)
Esta é a história do missionário O.L. King, como foi contada por ele mesmo. Tudo aconteceu a partir dos anos de 1890, mas sua leitura será muito interessante e também lhe dará uma importante lição sobre ser um missionário todos os dias, seja em outra cidade, estado, país ou mesmo bem no lugar onde você está.
Numa antiga fazenda, onde O.L. King nasceu e foi criado, em Indiana, nos Estados Unidos da América, não havia dinheiro e luxo, como costuma haver para as crianças americanas de hoje em dia. Ele nos conta:
Nós tínhamos que produzir a maior parte dos meios de sobrevivência e isso nos mantinha muito ocupados. Nosso pão era obtido depois de plantar e colher o próprio milho e trigo, levando-os ao moinho para fazer a farinha e os alimentos. Então cortávamos madeiras e mamãe cozinhava nosso pão no velho fogão a lenha. Este era um pão de verdade e nós sabíamos como o conseguíamos. Ele era barato. O único intermediário era o dono do moinho, que cobrava um pedágio para moer o milho e o trigo.
Se quiséssemos comer um doce, fazíamos melaço de cana e usávamos uma velha égua para rodar o moinho. Se precisássemos de tempero, tínhamos hortelã-pimenta crescendo no antigo manancial e outras plantas aromáticas que brotavam perto das cercas e subidas das montanhas. Produzíamos todo tempero, sem qualquer custo. Os doces eram feitos sem comprarmos açúcar. Por quê? Porque era muito difícil ganhar dinheiro e havia poucas e preciosas maneiras de consegui-lo. Nós podíamos ganhar apenas 50 centavos por dia de trabalho, que começava ao amanhecer e terminava ao pôr-do-sol. Os dias eram longos no verão e esta era quase a única época em que podíamos ter a oportunidade de trabalhar por dinheiro.
Nós, meninos, nunca tínhamos dinheiro para sorvete. Na verdade, nunca vimos coisa parecida. Frutas tropicais, como laranjas e bananas, eram totalmente desconhecidas. Às vezes, no Natal, comíamos um pedaço de uma antiga barra de doce, limão ou hortelã-pimenta. Costumávamos ir à velha loja da cidade para trocar nossa manteiga e ovos por coisas desse tipo e suprimentos de que precisávamos. O comerciante não pagava muito pelos produtos da fazenda; então, tínhamos que fazer trocas. Assim comprávamos nossas roupas, café e, de vez em quando, um pouco de açúcar. Porém, na maioria das vezes, as frutas, crescidas na fazenda, e nosso café, eram adoçados com o melaço produzido em nossa própria fábrica.
Crescendo em meio ao que todos chamariam de “miséria completa”, éramos moldados com algo mais do que luxo e algo mais real do que um bom acabamento. Tínhamos valores mais duráveis. Pelas nossas veias corria o heroísmo de produzir tudo, após desbravar as florestas selvagens para conseguirmos o necessário.
O Natal era uma grande data para todos. Muitas vezes, era celebrado com um peru criado especialmente para a ocasião. De vez em quando uma raposa comia o peru antes do Natal e tínhamos que substituí-lo por coelhos selvagens ou por um grande e gordo gambá. O abatimento era feito antes do feriado e a carne preparada no dia. Estes eram dias fabulosos e nossa história começa no bem meio deles.
Minha avó veio passar o Natal conosco. Alguns parentes dela eram tidos como ricos na cidade. Eles mandaram à minha avó uma caixa de Natal contendo muitas coisas boas. Eu me lembro de três: doces, laranjas e um enorme coco. A caixa foi aberta na manhã de Natal revelando o primeiro chocolate, as primeiras laranjas e o primeiro coco que jamais tínhamos visto. Aquele foi um Natal inesquecível! O chocolate não foi muito apreciado, porque o achamos um tanto estranho ao paladar. As laranjas pareciam boas, mas as maçãs do nosso jardim eram melhores.
A empolgação começou quando aquele coco, que parecia uma bola peluda, foi tirado da caixa. Antes do jantar, meu pai abriu o coco, que foi dividido entre as crianças da família e vários primos que vieram passar o Natal conosco. Eu ganhei um pedaço, apenas do tamanho do meu polegar.
Provei o coco devagar, imaginando se gostaria dele. Mas, aquela beliscada tímida me fez lamber os beiços e dizer: “Hummm… esta é a coisa mais gostosa que já provei”. Coloquei o pedacinho de coco no meu bolso e corri pela casa tentando trocar chocolates e doces pelos pedaços de coco recebidos por meus irmãos, irmãs e primos, mas ninguém queria fazer a troca. Então, eu passei o dia inteiro beliscando meu pedacinho de coco, dizendo para todo mundo que era a melhor coisa que eu já havia provado em toda minha vida.
Eu tinha uns 8 anos quando isto aconteceu e aquele pedacinho de coco fez daquele Natal, sem sombra de dúvida, o melhor de todos os tempos.
Seria o coco ou o homem negro?
Eu ficava imaginando onde os cocos cresciam e se voltaria a ver outro, algum dia. Na primavera seguinte, na escola, eu estava folheando um livro de geografia de uma aluna mais adiantada e cheguei a umas fotos mostrando coqueiros e cocos sendo empacotados por um homem negro. Como não sabia ler, peguei o livro e mostrei as fotos à menina, perguntando onde aquelas coisas cresciam. Então ela leu o parágrafo e me disse que os cocos eram produtos dos trópicos. “Mas, onde ficava aquilo?”, pensei. A timidez não me permitiu fazer esta pergunta, embora eu quisesse muito saber.
Voltei-me para a garota e, com o dedo indicador na foto do coco, pensei e disse: “Esta é a coisa mais gostosa que você pode comer”. As crianças que estavam juntas caíram na gargalhada quando a garota me perguntou: “Quando você comeu um desses?” Então eu olhei para a foto e vi que meu dedo estava apontando para o homem negro, que empacotava os cocos para a venda.
Todo aquele dia os colegas me apresentavam aos outros como o garoto que “come homens negros”. Isto foi muito embaraçoso à minha timidez, mas eu lhes disse que os cocos eram a coisa mais gostosa do mundo e tentei convencê-los de que já havia provado um. Como não conseguia descrever o gosto, nem metade do quanto era maravilhoso, eles diziam que eu nunca provara tal fruta. Se eu tirasse uma nota vermelha na escola, todos diriam: “Bem, isso é justo. Ele só pensa em cocos e sua cabeça vai se transformar em um, qualquer dia desses.”
Eles diziam isso porque eu sempre estava com o livro de geografia nas mãos, olhando para a foto dos cocos e imaginando se eu veria outro novamente. Essa fruta crescia nos trópicos! Mas, onde ficava aquilo? Eu sonhava freqüentemente com os trópicos e os cocos, pensando no grande privilégio dos homens negros que viviam onde tais frutas cresciam. Até aquele momento eu nunca tinha visto um homem negro e só conseguia relacioná-los aos trópicos e ao privilégio de comer a fruta mais gostosa do mundo, por causa da foto que encontrei no livro de geografia. Eles eram, sem dúvida, um povo abençoado, na minha opinião.
Não existiam homens negros no lugar onde cresci e, naqueles dias, as pessoas não viajavam muito, como atualmente. Assim, não era de se admirar que eu nunca tivesse visto um homem negro.
Na volta às aulas, no outono, as castanhas de todo tipo começavam a amadurecer: castanhas de Natal, castanhas-manteiga, nozes e avelãs. Eu e meu irmão colhíamos tudo no caminho da escola e até corríamos para casa, ao entardecer, para colher ainda mais. Mamãe nos dizia que, se continuássemos chegando tarde em casa, um homem negro viria nos seqüestrar. Então, dizíamos o que faríamos, caso algum homem negro tentasse nos perturbar. Estava tudo bem pois, afinal, jamais tínhamos visto um.
Num sábado de manhã fomos a uma rodovia, a quase 400 metros de casa, onde ficava uma grande nogueira na bifurcação das estradas. Essa rodovia não era movimentada. Eu e meu irmão juntamos um monte de nozes e sentamos no meio da rodovia para saboreá-las, enquanto olhávamos um para o outro.
Eu estava de frente para a descida e meu irmão de frente para a subida. Se bem me lembro, eram 11 da manhã quando olhei sobre as nozes descascadas e vi, a uns 10 passos da gente, um enorme homem negro, no meio da rodovia, e vindo em nossa direção! Meu irmão olhou para mim e viu o medo estampado em minha cara. Olhou para trás, a fim de ver o que estava acontecendo e, quando viu o homem negro, correu para trás de mim porque eu era o mais velho. O homem percebeu que estávamos morrendo de medo dele, então chegou mais perto, porém caminhando contra a cerca. Ele falou muito gentilmente conosco e perguntou onde o senhor Rhodes morava. Finalmente recuperei minha fala, dizendo-lhe que era a primeira casa acima da rodovia e ele foi embora.
Nós tínhamos dito o que faríamos com um homem negro se ele nos perturbasse. Mas, foi isso o que fizemos: quando ele partiu, a poucos passos de distância, fiquei em pé segurando meu chapéu e corri para casa, tão rápido quanto meus pés descalços podiam me levar. Meu irmão correu atrás de mim gritando feito um louco e, quando estava muito à frente dele, o pobre ficou tão apavorado que caiu na rodovia, chorando e gritando: “Homem negro!”
Mamãe estava na porta da frente e viu quando eu chegava da rodovia, de chapéu na mão e correndo feito um cavalo. Ouvindo os gritos do meu irmão, ela desceu para nos encontrar e saber qual era o problema, mas levou algum tempo até que eu pudesse falar. Finalmente, disse-lhe: “Mãe, um homem negro gigante apareceu na rodovia e talvez ele tenha um irmão!”.
Quando mamãe alcançou meu irmão, ele estava tão pálido que parecia um morto e tão apavorado que mal podia ficar em pé. Meu primeiro contato com um homem negro foi muito emocionante. Pesquisando, soubemos que ele fora mandado de um estado vizinho para levar alguns cavalos comprados pelo seu patrão, da fazenda do senhor Rhodes.
Nossa vida dura e simples, que moldava homens fortes acostumados à natureza, continuou. Entrementes, as lembranças do coco jamais me deixaram. Aprendi a trabalhar arduamente, sendo apenas uma criança.
Capítulo 4
Quando tinha uns 12 anos, depois de terminar o árduo trabalho de verão e outono, papai me prometeu, depois do Dia de Ação de Graças, que eu poderia passar o Natal com vovô. Fiquei muito ansioso, porque adorava visitá-lo. Ele estivera na Guerra Civil, conseguindo uma pensão, e sempre tinha algum dinheiro. Vovô jamais deixou de repartir comigo, pois eu era o seu neto mais velho e o preferido.
A manhã antes do Natal finalmente chegou e eu já estava de pé antes de todo mundo, só pensando na viagem. Apenas uma coisa poderia ter sido melhor do que isso: se eu tivesse ganhado um grande coco. Aquele Natal, quando experimentei o coco, fora, sem dúvida, o melhor de todos os tempos.
Após o jantar, papai saiu e selou a velha égua cinza. Pulei em cima dela, galopei até a fazenda de meu avô e cheguei gritando: “Olá!…” Meu avô, em sua farda de soldado com os botões de bronze brilhando, veio até a porta e me perguntou: “Olá… onde o general está indo?” Então respondi: “Pensei que pudesse vir e passar o Natal com o senhor.” Com um sorriso de boas vindas, disse-me: “Desça da égua, tire a sela, que nós vamos sair depois.”
Enquanto o jantar era preparado, ficamos sentados em frente à lareira, comendo maçãs. Eu disse ao meu avô que as maçãs eram cheirosas e saborosas, ao que ele comentou: “Elas são imbatíveis em todo país.” Concordei, afirmando que nunca comera melhores, porém… “PORÉM, o quê?”, perguntou ele. “Porém, um pedacinho de coco que vovó me deu há 4 quatros anos, era infinitamente mais gostoso.” Vovô disse que tinha visto uns na cidade, fazia alguns anos, mas nunca provara um pedaço sequer.
Enquanto conversávamos, vovô se levantou, jogou os ombros para trás e disse: “Queremos ir à cidade esta noite para ver as luzes de Natal e fazer compras. Gostaria de ir conosco?” É que claro que aceitei, como qualquerqualquer dos outros meninos também o faria. Antes de se sentar, ele tirou a carteira do bolso, pegou uma moeda de 10 centavos e me disse: “É para você comprar o que quiser.”
As crianças de hoje em dia não pensariam que 10 centavos fosse muito para gastar no Natal, porém, naquela época, era muito dinheiro para um menino. Os pensamentos sobre nossa ida à cidade para ver as luzes de Natal eram tão intensos que quase perdi o apetite. Logo depois saímos eu, vovô e uns tios um pouco mais velhos do que eu.
Após uma caminhada de três quilômetros, chegamos à cidadezinha que se gabava de ter quatro grandes lojas de produtos gerais, uma agência dos Correios, uma farmácia e uma estação de trem. Estavam todas iluminadas e decoradas para o Natal. Papai Noel estava num loja e, para mim, que nunca estivera na cidade à noite, e jamais tinha visto uma luz mais forte do que a de uma lamparina de querosene, esse era um deslumbramento. Havia tantas coisas para comprar e eu tinha uma moeda de 10 centavos inteirinha para gastar, a primeira da minha vida, a qual gastaria apenas comigo mesmo. A dúvida era: o que comprar, entre tantas coisas maravilhosas? Um presente para mamãe, para o meu pai, para ambos? Pensando assim, fui de loja em loja, vendo tantas coisas interessantes, que minha cabeça girava. “O que deveria eu comprar com meus 10 centavos?”
Eu fui ensinado a obedecer à voz da consciência. Permaneci olhando fixamente, desejando aquele coco mais do que qualquer coisa em minha vida. A lembrança da primeira vez que provei um coco ainda era muito forte. As fotos do velho livro de geografia, o homem negro empacotando cocos, passaram pela minha cabeça e imaginei que ele tivesse empacotado aquele, bem na minha frente, e tê-lo-ia mandado para mim. Eu estava hesitante, a Voz disse muito clara e positivamente para deixar o coco em paz. Tinha medo de desobedecer. Então, larguei a maçaneta do armazém, dei outra olhada cheia de desejo no coco, andei para trás em direção à rua até que dei as costas e fui embora.
Comecei a olhar as coisas pela vitrine da farmácia. Lá estava um pequeno Novo Testamento de capa vermelha. A Voz disse: “Entre e compre o Novo Testamento.” Ele também custava 10 centavos.
Aquilo era contrário a toda razão humana, e eu mal podia entender o que fizera, pois ganhara há pouco tempo uma linda Bíblia como presente de aniversário. Por que eu precisaria de um Novo Testamento pequeno e barato? Porém, a Voz me disse para comprá-lo! E eu sabia que compensava ouvir a voz da consciência mais do que obedecer aos apetites carnais. Aqui, eu considero que travei uma das batalhas mais difíceis e importantes de toda a minha vida.
Finalmente, entrei na farmácia. Depois de esperar minha vez de ser atendido, o vendedor perguntou: “O que posso fazer por você, filho?” Respondi: “Eu acho que quero um daqueles pequenos novos testamentos.” Ele pegou um exemplar sobre a máquina registradora e mo entregou. Folheei o livro, sentindo o gosto daquele coco por todas as páginas, até que deixei cair minha moeda de 10 centavos na mão do vendedor. Ele pegou-o de volta, embrulhou-o e me devolveu dizendo: “Você comprou o mais proveitoso presente de Natal da loja para um jovem.” Ao que respondi, meio timidamente: “Espero que sim”, e caminhei de volta à rua, planejando voltar ao armazém e dar apenas uma última olhada no coco dos meus sonhos, porque os 10 centavos tinham ido embora e tive medo de desobedecer à voz da consciência.
Enquanto atravessava a rua, um menino mal vestido, com uns 8 anos de idade, parado no meio da rua, chamou-me a atenção. Suas mãos estavam cheias de neve, que ele jogava nos pedestres. Observei que seu chapéu não tinha a parte de cima. Nos joelhos, a calça estava desbotada e os cotovelos para fora da blusa. De repente, o menino jogou-me uma bola de neve nas costas. Falei com ele muito gentilmente e ouvi-o dizer: “Você é do interior também.” Respondi que sim e o menino disse-me que estava na cidade para ver as luzes de Natal e que eu não deveria ir embora tão cedo porque haveria queima de fogos em poucos minutos, o que seria divertido.
Conversei com o garoto sobre o Natal e o Cristo natalino. Perguntei-lhe se sabia de quem era o aniversário e ele respondeu que não fazia a menor idéia. Contei-lhe a história dos pastores e dos magos e instiguei sua curiosidade ao máximo. De repente, a Voz que fala à consciência me disse: “Dê o Novo Testamento ao menino.”
Perguntei-lhe se sabia ler e ele respondeu: “Não. Mas minha mãe é uma ótima leitora.” Contei que tinha um livro, o qual contava tudo sobre os pastores, os magos, o bebê na manjedoura, como o bebê cresceu e se tornou o grande Salvador, com poder para abrir os olhos dos cegos, ressuscitar os mortos, curar os doentes e como Ele poderia transformar maus meninos em bons meninos.
Entreguei-lhe o pequeno Livro, que foi recebido com mãos ansiosas. Pude ver que o presente tinha um alto valor para o garoto. Ele colocou-o num bolso sem fundo e Livro caiu na neve. Prontamente, apanhou-o de volta e disse: “Tenho um ótimo bolso no meu casaco.” Procurando na roupa, achou um alfinete, com o qual fechou o bolso, dizendo: “Os meninos vão implicar comigo e me agarrar antes de sair da cidade, assim posso perdê-lo. Mas, prendendo bem o livro com o alfinete ele estará a salvo.” Recomendei que ele fosse um bom menino, desejando-lhe um feliz Natal.
O garoto seguiu alguns passos e, com voz trêmula, disse: “Desculpe-me por ter sujado você de neve. Pensei que fosse um dos caras brigões e convencidos do sul da cidade.” Falei que estava tudo bem e que era tudo diversão de Natal.
Nessa época eu tive uma vitória tão grande sobre o meu apetite por cocos, que raramente passei a querê-los. Encontrei meu avô, que reuniu os outros garotos e voltamos para casa.
No caminho, os meninos me perguntaram: “O quê você comprou com os seus 10 centavos?” Porém, não lhes contaria. Eles me ofereceram doces, amendoins, bombinhas e tantas outras coisas se eu lhes mostrasse o que comprara com meus 10 centavos. Fui acusado de tê-lo perdido. Durante todo o Natal eles tentaram saber onde eu gastara o meu dinheiro, mas nunca souberam e nunca saberão, a menos que leiam esta história. Tudo que puderam arrancar de mim foi: “Está tudo certo com o que fiz com meus 10 centavos.”
O Natal terminou com um suculento jantar de peru. Vovô tinha um bom suprimento de doces e, na manhã seguinte ao Natal, encontrei doces e bombinhas nas minhas botas, além de excelentes presentes. Mas o mistério que ninguém pôde sequer imaginar foi o que eu havia comprado com meus 10 centavos. No dia seguinte, fomos caçar coelhos pela manhã e, à tarde, montei na velha égua cinza, voltando para casa.
Passei a maior parte da infância trabalhando na fazenda, limpando o chão, lidando com madeira e cortando troncos para a serralheria. Fazendo o que fosse, sempre tentava obedecer à voz da consciência. Apenas em alguns momentos o egoísmo e os apetites conseguiram me dominar. Aquela Voz que fala à consciência continuava a me dirigir e, quando estava beirando os 15 anos, fui levado ao arrependimento e aceitei Cristo como meu Salvador.
Depois de convertido e santificado, este mundo me parecia vazio e tudo nele de pouco valor. Comecei a procurar uma profissão. Foi-me revelado que as almas dos homens era tudo que herdaria a eternidade, então eu passava muito tempo em oração. Esta impressão estava profundamente em meu coração e a Voz que fala à consciência dizia-me que eu deveria dar minha vida para salvar os homens do pecado e do inferno, levando-os ao céu de glória imortal.
Aos 18 anos comecei a pregar, como uma espécie de exortador, na antiga escola e onde quer que houvesse um ajuntamento de pessoas. Não demorou para que reavivamentos começassem e almas estivessem sendo salvas. Num fim-de-semana pediram-me para que fosse a um lugar ao norte, a quase três quilômetros de distância, para me inscrever em um circuito de pregadores viajantes. As pessoas lá pareciam duras e insensíveis. Tentei pregar sobre exortação, mas o grupo parecia duro demais. O chão da casa estava muito sujo com tabaco cuspido e havia mais buracos de balas no teto do que unhas nas mãos dos homens. Enquanto tentava pregar, tinha certeza de que havia mais revólveres do que bíblias entre a multidão.
Quando eu já me sentia totalmente fracassado, a Voz que fala à consciência levou-me a pedir às pessoas que levantassem suas bíblias, para que eu pudesse ver quantas tínhamos naquela casa. Havia algumas entre os crentes locais e, no meio, estava um jovem barbeado, que parecia muito interessado no que eu estava pregando. Notei que ele levantou um pequeno Novo Testamento de capa vermelha e imediatamente a voz da consciência disse: “Lá está o preço do seu coco.”
Não percebendo qualquer sinal de convencimento na multidão, despedi-a, caminhei pelo meio da casa falando com todos e apertando suas mãos, enquanto acendiam suas lanternas para voltarem às suas casa. Finalmente, cheguei àquele jovem e perguntei: “Perdão jovem, mas posso fazer uma pergunta pessoal? Onde você conseguiu esse Novo Testamento que levantou esta noite?”
Ele respondeu: “Este livro tem uma longa história e não o trocaria por nenhuma fazenda deste país.” Insisti para que me contasse onde o conseguira. “Há 7 anos eu estava na cidade numa noite de Natal. Um menino veio até mim, saindo de uma farmácia, e me deu este Livro, depois de me contar a história de Natal, que eu não tinha ouvido antes. Cheguei em casa por volta de meia-noite e mamãe leu o livro até o amanhecer. Passamos todo o Natal e as longas noites de inverno lendo este Livro. Os vizinhos iam até minha casa ouvir a leitura todos os dias. Uma noite estávamos lendo o Novo Testamento sozinhos e meu pai começou a chorar, ajoelhou-se e passou a falar com alguém. Eu não pude entender e tentei ver com quem ele estava conversando. Ele olhava para o teto, mas eu não via ninguém. De repente ficou de pé, começou a bater palmas e a pular ao redor da sala. Havia uma luz no seu olhar que nunca vira antes. Ele agarrou mamãe, beijou-a, beijou-me, pegou o livro das mãos dela, beijando-o também. Ele era o homem mais feliz que eu tinha visto.”
“Alguns dias depois mamãe estava lendo o Novo Testamento e seus olhos ficaram cheios de lágrimas. Ela se ajoelhou, começou a conversar com alguém que havia lido a respeito no Livro e depois, com sua face iluminada, disse: “Bendito Jesus, Bendito Jesus!” Ela beijou o Livro e falou: “Bendito Livro que me contou sobre Jesus. Agora Ele é meu e eu sei que este é o seu bendito Livro.” Aquela felicidade continuou em nossa casa até que papai foi para o Céu gritando “glória.”
Como as pessoas iam sempre ler e ouvir a leitura deste Livro, assim como ouvir meus pais orarem, esta antiga escola foi transformada numa igreja.
Esta era uma antiga escola abandonada, que se tornou um covil de jogatina e prostituição. “Veja os buracos de bala no teto”, ele disse. “Muitos deles foram disparados para conter os ânimos. Todas estas mudanças aconteceram por causa deste Livrinho abençoado. Agora existem dezenas de outros na comunidade e você verá que nós os usamos na escola bíblica dominical.”
Então, eu perguntei-lhe: “Jovem, você reconheceria o menino que lhe deu este Livro se o visse?” Ele respondeu: “Não. Eu tinha apenas 7 anos de idade e acho que ele não deveria ter mais de 14 anos. Agora eu cresci e ele também. Acho que não o reconheceria.”
Eu disse: “Dê uma olhada nele e veja se pode reconhecê-lo agora.” O rapaz perguntou: “É você mesmo?” Respondi: “Veja se não sou eu”. Ele olhou cuidadosamente o meu rosto e falou: “Sim… você é o homem, porque aí está a cicatriz no seu rosto.” Então, as coisas começaram a acontecer!
Ele me abraçou e levantou, jogando-me sobre seus ombros, carregando-me até o altar e beijando-me sem parar. Então se voltou para os presentes, que agora eram poucos, curiosos para saber o porquê daquela conduta dentro da igreja. Foi quando o jovem disse-lhes: “Este é o homem que deu este pequeno Livro à nossa comunidade. Todos vocês sabem a história dele… agora conheçam o homem que me deu este presente.”
Naquela noite eu fui tão sacudido que quase virei um picadinho. O altar ficou lotado e o encontro só acabou depois de meia-noite.
Aquele era O PREÇO DE UM COCO, quando um menino obedeceu à sua consciência, matou o Golias do apetite e empregou o preço de um coco no crescimento do reino de Deus. Existe festa no Céu quando um homem é salvo. Uma casa foi salva e se tornou feliz. Um covil de jogatina e prostituição se transformou numa igreja e escola dominical onde as pessoas se encontram para ler suas bíblias, em vez de jogar, brigar, se prostituir e encher o teto de balas. Tudo isso me custara a auto negação de apenas um coco de 10 centavos, que eu desejava mais do que tudo na vida. O desejo, na verdade, fora aplacado quando obedeci a Deus.
Aquele foi um fim-de-semana glorioso. Passei a noite na casa do jovem. Não posso dizer que dormi: aquela velha mãe me abençoou e gritou toda a noite porque seus olhos tinham o privilégio de ver o homem que mandara o Livro bendito a eles.
O domingo foi um dia abençoado e muitas pessoas vinham ver aquele que enviara o primeiro Novo Testamento à vizinhança, e os “Deus te abençoe” ainda corriam pela minha pobre e indigna alma. Ninguém saberá quando os anjos vão parar de exultar, porque “haverá alegria no céu por um pecador que se arrepende.”
Deixei aquela solitária comunidade na segunda-feira de manhã, talvez para nunca mais vê-los novamente. Porém, “O PREÇO DE UM COCO” não termina aqui.
Deixando minha casa
Uns 4 anos depois, decidi que iria para o Seminário, a fim de estudar a Bíblia. Depois de 2 anos de trabalho honesto e vida reclusa, eu tinha juntado dinheiro suficiente para pagar parcialmente meus estudos. Alguns amigos cristãos me aconselharam a estudar no Ruskin Cave College, em Tennessee, a muitos quilômetros de distância.
Nascido numa humilde casa de madeira na fazenda, crescendo e vivendo onde via poucos estranhos, além de ser tímido e meio atrapalhado, foi um esforço tremendo deixar minha casa e viver entre completos estranhos.
Estava bastante ocupado às vésperas da partida. Tinha que pregar num funeral no sábado, pregar duas vezes no domingo e chegar tarde da noite em casa. Na segunda-feira de manhã comecei minha primeira viagem para longe. Papai me levou à estação. Enquanto esperava pelo trem, disse-lhe: “Estou indo para uma longa jornada.” Meu pai, quase em lágrimas, respondeu: “Faça o que achar melhor.” Não havia qualquer dúvida em minha mente sobre o que deveria fazer.
Por fim, o trem chegou e o condutor chamou: “Todos a bordo!” Acenei dos degraus, enquanto o trem se afastava. Em algumas horas havíamos chegado a Louisville, no Kentucky, onde fizemos baldeação. Eu nunca vira uma cidade grande antes. O agente disse-me que deveria cruzar a cidade até a outra estação. O lugar estava completamente lotado, eu não conhecia uma alma e nem fazia a menor idéia de como sair dali. O condutor percebeu minha perplexidade e disse-me que estava indo para a outra estação em alguns minutos, levando a correspondência. Ele foi muito gentil, levando minha bagagem também. Contei-lhe que estava a caminho do Seminário. Então, ele não me cobrou pelo transporte e ainda mostrou-me alguns pontos turísticos da cidade.
O agente na segunda estação teve dificuldades para localizar Ruskin Cave, mas enfim disse-me que deveria ir à Cidade do Tennessee, a 73 Km de Nashville. Quando ele me falou a distância, me dei conta de que estava indo para longe. Minha passagem até Louisville custava apenas 1 dólar e pensei ter viajado um longo percurso até chegar àquele ponto. Agora minha passagem custava 9 dólares, então concluí que viajaria 9 vezes mais do que o trecho anterior. Enfim, eu estava num trem rápido, em direção ao Sul.
Passamos algumas estações e um homem de aparência bruta entrou no trem, sentando-se à minha frente. Ele puxou conversa e achei suas atitudes muito estranhas. Até aquele momento eu jamais vira um bêbado, então pensei o que poderia estar acontecendo. Ele parecia conhecer os lugares por onde passávamos e nos falava sobre eles enquanto o trem se movia. Depois de algum tempo, o bêbado queria que eu fosse com ele ao banheiro. Perguntei-lhe o que pretendia lá. Ele respondeu: “Tenho uma mala cheia do bom e velho Whisky do Kentucky, o melhor jamais feito.” Disse-lhe que não bebia e que se encontrasse um policial iria denunciá-lo por fabricação ilegal de bebida alcoólica. Eu não suportava aquele tipo de negócio.
Assim, ele tentou ser mais amigável comigo, dizendo-me que eu deveria passar a noite em Nashville e procurar o Exército da Salvação. Porém, estava decidido a entregá-lo à Polícia por fabricação ilegal de Whisky. Na estação seguinte um policial entrou e, quando fui contar-lhe sobre o que estava acontecendo, o bêbado saiu correndo e conseguiu fugir do trem com a bebida.
Descobri cedo com minhas experiências que, se você permanecer a favor do certo e contra o errado, isto o mantém longe das más companhias.
O trem chegou a Nashville ao entardecer. Procurei o Exército da Salvação e eles estavam se preparando para sair às ruas. Perguntaram-me se eu era um pregador. Disse-lhes que sim, mas estava indo para o Seminário, onde esperava aprender mais sobre como pregar. Falei em quatro esquinas naquela noite e sete almas preciosas foram salvas.
Logo após, o Capitão veio até mim, abraçou-me e disse: “Rapaz, você é um pregador de verdade e foi um herói hoje. Se continuar, eu profetizo que você vai atrapalhar a vida do diabo. Você merece o melhor jantar que nossas cozinheiras podem fazer.” Tudo me soou meio estranho porque ninguém me falara palavras tão maravilhosas de encorajamento e apreciação antes. Em minha casa, me viam apenas como um garoto da fazenda.
Aquele foi sem dúvida um grande jantar! Depois de um bate-papo com os oficiais e vários “Deus te abençoe” de belas jovens, que me ajudaram nas orações, fui levado a um ótimo quarto com uma cama confortável. Meu trem partiria às 7h30min. e o Capitão solicitou nosso café da manhã para às 6h.
Finalmente no meu quarto para descansar, recapitulei os estranhos eventos daquele dia, num mundo que jamais pensei ser tão imenso, cheio de maldade e com problemas terríveis. Pela primeira vez tive contato com o preconceito racial no Sul, o que me deixou perplexo. Minutos após a saída daquele bêbado do trem, eu presenciaria uma cena horrível de racismo. Assim que o trem partiu da estação, vendo um homem no corredor comendo seu lanche, lembrei-me de que também tinha algo para comer, preparado por mamãe.
Enquanto fazia meu lanche, o condutor disse alguma coisa que não pude entender. Todos foram deixando o vagão, exceto o homem lanchando. Ele disse-me: “Rapaz, fique sentado. Vou mostrar a estes pretos aonde devem ir.” Ele pegou um revólver, colocou no assento e falou: “Não se mexa até terminar o seu lanche.” Alguns negros apareceram à porta e ele pegou a arma dizendo: “Não quero ver estes pretos até nós terminarmos de comer.” Permaneci sentado, pensando que aquilo era uma ordem, enquanto o homem apontava o revólver para os negros, que começavam a entrar no vagão. Esta foi uma lição de puro racismo e evidentemente havia pessoas que o praticavam muito bem, sem terem aprendido o que a Bíblia nos ensina:
“O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra… é quem dá a todos a vida, e a respiração, e todas as coisas; E de um só sangue fez toda a geração dos homens, para habitar sobre toda a face da terra, determinando os tempos já dantes ordenados, e os limites da sua habitação;”
(Atos 17:24-26)
Ao me deitar, fiquei ponderando os eventos do dia, o modo como o Senhor me conduziu e toda aquela atitude reprovável contra os negros. Concluí que este era realmente um mundo estranho e peguei no sono ainda pensativo.
Na hora marcada, eu e o Capitão tomávamos o café da manhã e o cavalo com a bagagem já estava no portão da frente. Ele me levou à estação e agradeci a gentileza. Nos despedimos e o Capitão me disse que eu jamais seria esquecido.
Capítulo 8
Ruskin Cave College
Na estação, observei vários rapazes e moças que pareciam se conhecer. Cada um usava uma fita branca, na qual se lia “Ruskin Cave College.” Como aquele era o meu destino, esforcei-me para me enturmar e passamos bons momentos no trem. Duas carroças antigas, puxadas por quatro mulas cada, esperavam pelos estudantes no desembarque. Depois de duas horas de viagem, finalmente chegamos ao belo campus da faculdade.
O som do clarim convocava à sala de jantar, onde um esplêndido jantar nos aguardava. Houve discursos de boas vindas e comecei a me sentir mais à vontade.
A inspeção da bagagem
Após o jantar, eu e outros três rapazes estávamos no campus, quando veio até nós um dos professores e se apresentou. Ele era alto e de aparência majestosa. Depois de alguns minutos de conversa, disse-nos: “Senhores, por favor me dêem as chaves das suas bagagens e baús.” Prontamente entreguei-lhe as chaves, mostrando qual delas abria os cadeados. Os outros rapazes ficaram vermelhos e não queriam entregar as chaves. Um deles disse ao professor que poderiam enviar sua bagagem para o quarto, onde ele cuidaria de tudo. Entretanto, o professor respondeu: “Suas malas estão na sala de inspeção e não saem de lá antes de serem inspecionadas. Elas serão abertas ou enviadas de volta à estação, junto com o seu dono.” Um dos rapazes disse: “Pode levar a minha de volta”, virando as costas e indo embora. Os outros dois, com relutância, finalmente deram as chaves.
Eu disse: “Professor, se o senhor encontrar qualquer coisa na minha bagagem que a inspeção não aprovar, pode tirar e fazer o que quiser.” Ele respondeu: “Acho que está tudo certo com você”, e nos deixou. Os outros rapazes ponderaram: “Se eu soubesse que esta era a regra, teria retirado algumas coisas quando estava em Nashville na noite passada.”
No dia seguinte, eu vi uma enorme fogueira no jardim da faculdade com fotos rasgadas de mulheres nuas, cachimbos, cigarros, roupas transparentes e decotadas e muitas outras coisas queimando e sumindo na fumaça.
Caro amigo, você já pensou que todos os dias estamos colocando coisas em nossas malas que serão inspecionadas pelo Juiz do Universo, Jesus Cristo? Se você tem qualquer coisa para descarregar, que não passará na inspeção, por que você não joga fora aqui e agora? Aqui é Nashville. Não espere até que as chaves sejam pedidas.
O Preço de um Coco
Três dias depois da minha chegada na faculdade eu caminhava no campus, me sentindo muito triste e estranho entre aquelas centenas de pessoas. Parei para observar os novos estudantes chegando com suas bagagens à frente da faculdade. Entre eles estava um rapaz de cabelos claros e a voz da consciência me disse: “Lá está o preço do seu coco novamente.” Era o mesmo jovem para quem eu dera aquele Novo Testamento de capa vermelha, anos atrás. Perguntei-lhe o que fazia lá e ele disse-me que vendera sua velha fazenda e viera para o Seminário. Agora eu tinha uma companhia nas horas mais solitárias da minha vida: o preço do meu coco de 10 centavos. Tivemos um excelente e proveitoso ano juntos.
O rapaz provou ser um estudante brilhante. Algumas circunstâncias me tiraram do Seminário, porém ele permaneceu e terminou o seu curso. Ele me escreveu, convidando-me para a formatura, desejando muito que eu fosse, mas, se não pudesse, disse-me que estava se preparando para morar na China, onde planejava trabalhar como missionário pelo resto da vida. Quem pode dizer o que “o preço de um coco” fez pelas almas na China?
Algum dia nós teremos que dar conta de como gastamos nossos centavos e Reais satisfazendo o próprio Ego e prazer, enquanto as almas estão perecendo, indo para o inferno sem a Palavra da Vida. Eu, pessoalmente, prefiro ver os resultados do preço de um coco investido na eternidade do que satisfazer o meu apetite e prazer momentâneos.
Encontrando meu lugar na vida universitária
Descobri que me ajustar à vida universitária era bem diferente de estudar naquela velha escola do interior.
Na sexta-feira de manhã o presidente da faculdade foi até meu quarto, dizendo que eu seria o pregador do domingo à noite. Tentei recusar, mas fui informado de que se alguém do corpo docente dissesse para fazer algo, a resposta “não posso” não existia na faculdade. Expliquei-lhe que jamais pregara para uma multidão como aquela, que estava acostumado a pregar para pessoas do interior e estava lá para aprender. Ele respondeu: “O único modo de aprender a pregar é pregando.” Depois, apertou minha mão, me abençoou e disse que todos dependiam de mim no domingo à noite. “Vocês vão se lamentar”, disse eu.
Lembro-me de que passei a sexta e o sábado em oração. O corpo de estudantes era um seleto grupo de vários estados, além de amigos e parentes que também estariam presentes. Eram pessoas abastadas, altamente cultas e educadas. Eu tinha que pregar para eles e não havia modo de recusar. No sábado, mal pude dormir. No domingo pela manhã fui à floresta, orei e procurei um texto na minha Bíblia. Disse ao Senhor que estava pronto e pregaria o que Ele quisesse. Finalmente, tive a resposta do Céu: Meu texto deveria ser Mateus 7:24-27, sobre “lançando uma fundação sólida.” Este foi um tremendo alívio para a tensão que sentia há dois dias. A noite se aproximava e eu carregava tanta responsabilidade que perdi a fome e não jantei.
O sino da capela começou a soar, chamando as pessoas para quem eu iria pregar. Olhei pela janela e os vi chegando de todas as direções. De joelhos, disse ao Senhor que no momento da minha consagração eu me colocara à Sua disposição para fazer o que Ele desejasse. Aquilo eu não sabia, que teria de pregar para um grupo tão seleto e numeroso. Porém, lá estava eu, diante da minha tarefa, e Ele me ajudaria.
Quando cheguei ao vestíbulo da capela, com a Bíblia debaixo braço, havia um burburinho entre os estudantes de que o jovem King, de Indiana, seria o honorável pregador daquela noite. Era considerada uma honra porque tratava-se da primeira noite de domingo do ano letivo. Pais, mães e amigos estariam voltando para casa no dia seguinte. Os seminaristas comentavam: “Ele deve ser um ótimo pregador, ou a direção não o escolheria para uma ocasião especial como essas.” Tudo isto me fez desejar que a oportunidade tivesse sido dada a eles e não a mim.
Sentei-me timidamente na primeira fila da congregação. O coral estava em seu lugar. Diversas pessoas de renome encontravam-se no altar. O culto teve início e o presidente olhou a platéia, perguntando: “Onde está o nosso pregador de Indiana?” De repente, ele me viu na primeira fila, desceu e pediu desculpas por não ter me levado ao altar com ele. Sentei-me ao seu lado e fui apresentado a várias pessoas.
A música começou e eu jamais havia escutado um piano antes. Cornetas, trombones e violinos eu jamais os ouvira tocar juntos a não ser que fosse para dançar. Estava quase certo de que eles eram coisa do diabo. Música como aquela eu jamais escutei antes, com letras de canções tão belas que nunca sonhara. Alguém começou a orar e voltei o rosto para o chão, pedindo socorro. As ofertas estavam sendo recolhidas e uma bela jovem cantava um solo sem igual. Logo na primeira estrofe todos já estavam quase flutuando, ao som de sua voz angelical. Eu me sentia menor a cada segundo. Quando a música acabou, o presidente levantou-se e apresentou o jovem pregador de Indiana. Ele fez isso com toda a eloqüência exigida pela ocasião.
Abri a Bíblia no texto que o Senhor me dera, coloquei-a no púlpito e fiquei sem fala. Não conseguia pensar numa palavra. Caminhei pela longa plataforma, retornei, passei a mão pelos cabelos e o presidente disse: “King, agora você pode pregar.” Joguei a cabeça para trás, depois voltei. Estava claramente fora de mim, parecendo ter os pés acima chão.
Havia um seleto grupo à minha frente, com altos ideais. Mostrei-lhes que não importava quão altos fossem os ideais, o nível de educação ou riqueza, se eles não fizessem sua construção sobre a rocha. Todos os seus esforços fracassariam e eles não receberiam nada digno. Quase todos naquela multidão foram capazes de perceber a importância do tema, após 45 minutos de pregação estritamente bíblica, e o altar ficou cheio de jovens.
Quando terminei, o presidente disse que a mensagem viera de Deus e que era verdade: quando construímos qualquer coisa sobre a areia da nossa natureza corrupta e pecaminosa, nada subsistirá, caindo cedo ou tarde. Eles vieram ao altar de todas as partes do grande auditório e mais de 100 pessoas oraram naquela noite. Um reavivamento começou e perdurou por semanas.
Depois disso, todos os rapazes eram meus irmãos e todas as moças, minhas irmãs. Quando as aulas finalmente começaram, fui eleito o presidente espiritual dos alunos da faculdade. Nas reuniões de oração, minha atividade era examinar estudantes sobre suas condições espirituais e ter uma visão geral da parte religiosa da faculdade. Isso me tornou um membro do corpo docente.
Acho que aquela foi a primeira vez que tive medo de falar para tantas pessoas. Quando cheguei ao limite, Cristo veio em Seu poder mudando tudo e almas retornaram às bases, para construir sobre a rocha. Após o Natal, quando eu tinha pouco dinheiro, disse ao corpo docente que precisava partir, porém, disseram-me que precisavam de mim. Assim, por não ter-me recusado a fazer o que Deus queria que eu fizesse, conquistei meu espaço na faculdade.
Capítulo 9
O chamado para as Índias
Voltemos à foto do homem negro e do coco, naquele livro de geografia na escola, quando as crianças zombaram de mim por ter dito que “aquilo era a coisa mais gostosa do mundo.” Por causa daquela experiência, minha atenção estava sempre voltada para as pessoas daquele lugar. Finalmente, a Voz que sempre me guiou em todos os momentos da minha vida disse-me que deveria amá-las e levar-lhes a Palavra da Vida.
Fiquei feliz ao retornar para o Seminário alguns anos depois. Lá, sendo um menino pobre, trabalhava para pagar meus estudos, como o único meio de concluir o curso. Certo dia, estávamos colocando breu e areia no telhado de uma construção de três andares. Eu puxava para cima areia, cascalho e o breu quente, que estava sendo derretido numa enorme caldeira por um homem negro dos trópicos. Ele era estudante e até aquele momento não o conhecia nem sabia de onde viera. Caminhei até a beira do telhado, pedindo mais breu. Olhei para baixo e vi o homem negro descendo apressadamente do dormitório, com os olhos arregalados, parecendo duas luas cheias. A caldeira da qual ele tomava conta estava pegando fogo e a fumaça se espalhava. Vi-o com um pequeno balde d’água e, sabendo o resultado de jogá-la no breu fervendo, desci pela corda e apenas um pouco d’água foi lançada no caldeirão, aumentando ainda mais a fervura. Depois, ele tentou jogar areia, para ver se o fogo baixava.
Corri ao ferro velho, consegui uma peça de ferro galvanizado, cobri o caldeirão e as chamas diminuíram. Afastei-me e fiz o primeiro contato com o homem negro. Descobri que ele era um missionário e a causa da sua agitação seria o recebimento de 25 centavos que alguém lhe dera e, enquanto ele permanecia ausente, o fogo tomava conta do caldeirão de breu. A última notícia que tive desse amigo - Alfred Taylor - foi que ainda estava trabalhando para juntar dinheiro e incentivando outras pessoas a fazer missões. Alguns anos depois, fui ao país dele como missionário e tivemos ótimos momentos pregando juntos.
O segundo homem negro com quem fiz amizade foi Peter Stoefel, da África. Ele também era seminarista e havia se convertido do paganismo ao cristianismo. Peter era um cristão cavalheiro e também proveniente da terra dos cocos, de onde contou histórias sobre um modo divertido de colher aquelas frutas. Os meninos jogavam pedras nos macacos, que fugiam para o alto dos coqueiros e, de lá, revidavam lançando os cocos nos agressores.
Peter falava de quando subia em árvores altas para fugir de leões e leopardos e de como eles costumavam tomar banho rolando na grama molhada de orvalho. Certa manhã, um enorme leão desceu a um pequeno córrego, a poucos metros de onde Peter estava. Meu amigo permaneceu imóvel, até que o animal começou a beber água, momento em que Peter aproveitou para correr e subir na árvore onde estava o seu cobertor, com o qual se cobriu para despistar o leão. Ele costumava dormir em redes armadas sobre as árvores, motivo pelo qual seu cobertor estava lá em cima.
Um dia, Peter estava com tanta saudade de casa que fugiu do Seminário e foi para Nova Iorque, a fim de embarcar para a África. Depois de caminhar muito, dormir em celeiros, Peter retornou ao Seminário para esperar a hora certa de voltar à sua terra. Ele nos contou que conseguiu um cobertor e pendurou-o numa árvore para dormir, da mesma forma como fazia na África e, na manhã seguinte, estava voltando para o Seminário.
As fotos do antigo livro de geografia, com o homem negro e os cocos, deixaram vívidas impressões na minha infância e agora meus contatos com dois cristãos dos trópicos, estudando para o ministério, davam-me uma idéia real sobre as almas perdidas em tais países. Naquele a época, ainda não sabia que passaria 15 anos na terra dos cocos, em busca de jóias negras para o reino dos Céus. De fato, encontrei muitas almas preciosas nas Índias.
Se nos deleitarmos no Senhor, Ele concederá os desejos do nosso coração. O preço de um coco pode parecer pequeno, mas Henry Ford e John Rockefeller não poderiam comprar o meu investimento daqueles 10 centavos, com toda a sua riqueza.
Querido amigo, porque não investir o preço de uma caixa de chocolates, de uma taça de sorvete, ou qualquer outra coisa que o seu apetite esteja desejando, no Reino dos Céus e começar a trabalhar com investimentos celestiais? Você quer ser um herói aos olhos de Deus? Quer vencer todos os seus apetites e desejos pelas coisas mundanas e semear no Espírito Santo?
A história do coco termina aqui. Minha oração é que ela possa abençoar o seu coração.
Missionário O. L. King