O Senhor do meu destino
Há exatamente cinqüenta anos, antes de sair do Recife, onde residia há três anos e tinha uma coluna semanal no “Jornal do Commercio”, deixei um artigo intitulado “Aventuras de uma cabeça chata”, dizendo que estava me transferindo para o RJ, a fim de conseguir um bom emprego e um bom marido. Fazia oito dias que o Pres. Getúlio Vargas havia se suicidado, quando cheguei à Cidade Maravilhosa. Tinha o segundo grau completo, falava Inglês fluentemente e era boa em redação. Portanto, mesmo não sendo uma excelente datilógrafa, iria conseguir uma colocação na capital do país.
Minha amiga Solly já estava aqui há alguns meses, batalhando por uma colocação, e fui para o mesmo pensionato em que ela estava residindo, na Rua da Glória. Ficamos unidas na esperança de conseguir um emprego e passaram-se dois meses até que Deus nos deu essa alegria, quando já estávamos comendo biscoitos com laranja, porque não tínhamos mais dinheiro para comer fora, e o pensionato dava apenas almoço (aliás, muito ruim) sendo o jantar uma sopa magra de feijão preto com massinha, coisa que nós, detestávamos (ainda hoje) porque no Nordeste não se comia feijão preto.
Depois de dois meses arranjei emprego temporário no “Bank of America” (dos jesuítas), onde fiquei dois meses, até chegar dos USA a secretária americana. O gerente foi tão generoso que me deu um mês de gratificação, quando fui despedida, garantindo-me, assim, um mês para arranjar novo emprego. Solly também conseguiu um emprego e estivemos sempre unidas, até o casamento de cada uma.
Dias depois consegui colocação no escritório da firma de um judeu alemão, cuja fábrica ficava em Duque de Caxias (Marobras), perto de um bairro que estava nascendo com o nome de Jardim Primavera. O gerente disse que só assinaria minha carteira profissional depois de um mês de experiência, o que era normal, naquele tempo. Em meu cargo de secretária bilíngüe comecei a datilografar suas cartas em Inglês e como o alemão errava muito nesta língua, resolvi corrigir seus erros. Ele era tão honesto que aceitava minhas correções (O oposto havia acontecido com o chefe inglês na Singer do Recife, o qual me despediu porque eu corrigia seus erros de Português, recusando-me a datilografar novamente as cartas, conforme ele exigia. Sempre fui corajosa!)
Eu até gostava do alemão, mas o escritório era velho e sujo e sempre tive mania de limpeza. Então coloquei um anúncio no jornal de língua inglesa que circulava na cidade e numa sexta feira fui convidada a me tornar secretária do diretor da firma inglesa Mappin & Webb, cujo chefe (Mr. Scarles) me aprovou no teste e comecei a trabalhar na semana seguinte. Falei com o alemão, explicando o problema, ele quis assinar minha carteira naquela hora, dizendo que eu era muito eficiente, mas teimei em sair da firma, a qual me pagou honestamente duas semanas de trabalho. Louvado seja Deus!
Comecei a trabalhar na Mappin & Webb, uma loja muito chique, especializada na venda de jóias e pratarias. O escritório (particular) era limpo, com paredes de espelho, onde eu podia contemplar a juventude do meu rosto, a todo instante. Fiquei dois anos na Mappin e só deixei o emprego porque me casei com um alemão e fui morar no bairro Jardim Primavera, onde hoje funciona a Prefeitura de Caxias.
Não posso me queixar da vida que levei, durante 38 anos, naquele recanto pitoresco, e muitas vezes tenho me comparado com a Maria do Carmo da novela “Senhora do Destino”, pois quando lá chegamos - meu marido e eu - o bairro era quase um matagal, com alguns residentes alemães, crescendo muito, para se tornar o mais próspero e belo da cidade.
Na presidência do Rotary Clube, o Schultze conseguiu telefone e asfalto para muitas ruas do bairro, embora hoje, depois que ele morreu, um certo comerciante do mesmo, que chegou depois de nós e lá enriqueceu (ao contrário do casal Schultze), garante que foi o grande pioneiro a conseguir todos os melhoramentos do bairro. Sei disso porque quando Jardim Primavera completou 50 anos de fundação, houve uma festa enorme, com todos os pioneiros condecorados e ninguém se lembrou de mim (que vou preferir o galardão celestial), tendo eu sabido do caso através de um dos pioneiros (irmão do fundador, já falecido), que veio de Campinas, representando o irmão, e ficou indignado com o que me fizeram, tendo vindo a Teresópolis reclamar e me prestar solidariedade, quando aproveitei para dar um testemunho de minha fé em Cristo.
Depois de ter sido micro-empresária (na linha de cosméticos) por 36 anos em Jardim Primavera (que deve ser o bairro retratado na novela), vendi a firma e vim morar em Terê, dedicando-me à pesquisa religiosa e me tornando a pessoa mais feliz e realizada deste planeta.
Nunca enriqueci (como aconteceu com a heroína da novela), mas tenho razões excelentes para me sentir realizada: minha fé em Jesus Cristo, duas filhas e cinco netos lindos, uma boa aparência, saúde invejável, bons amigos, um trabalho gratificante e acesso diário à Internet, através da qual me comunico com metade do mundo, graças aos conhecimentos da língua inglesa.
Hoje, dia 01/09/04, louvo e glorifico o meu Deus por tão grande salvação, por tão bela família, por me permitir escrever assuntos bíblicos e por todos os amigos e irmãos na fé, que me garantem total ausência de solidão. E me glorio unicamente na cruz de Jesus Cristo, o Senhor do meu destino!
Mary Schultze, setembro, 2004.