Heresias Antigas-Futuras

 

        Temos aqui uma idéia. Vamos voltar à era da igreja histórica, em cujo período de tempo certos assuntos parecem ter valor para o desenvolvimento da fé cristã.

        Vamos rever o primeiro século da igreja, entre os anos 100 e 600 d.C., em seguida o período medieval, seguido pelo período da Reforma, e assim por diante. Para obtermos bons resultados nesta tarefa, é importante que tenhamos uma boa compreensão do contexto cultural, no qual os cristãos de todas as eras praticaram sua fé. Além disso, precisamos estudar os Pais da Igreja, a fim de obtermos os insights que eles nos proveram. Por que? Porque os que estão promovendo a "reapresentação desse passado" acreditam que o Cristianismo atual será grandemente beneficiado, quando "se reinventar", a fim de poder efetivamente levar a mensagem do evangelho ao mundo pós-moderno. Quem achar que esta não é uma boa idéia poderá ser rotulado como "tradicionalista", ou seja, alguém cuja fé e prática são inflexíveis e fora do alcance da nossa cultura e da igreja em repentina mudança.

        Esta é a visão que a revista "Christianity Today" (CT) tem a respeito do que está acontecendo no Cristianismo evangélico. Na introdução do seu artigo principal de Fevereiro de 2008, com uma declaração na capa: "Segredos Perdidos da Igreja Antiga: Como os Evangélicos Estão Olhando Para o Passado, a fim de Se Moverem Para a Frente", o editor gerente jubilado, Mark Galli, escreve: "Vocês poderiam dizer que uma porção de editores da CT tem um interesse pessoal na história do assunto desta capa.  David Neff, Ted Olsen, Tim Morgan e eu temos feito uma coisa antiga-futura durante muitos anos, nas paróquias episcopais e/ou anglicanas. Mesmo que não tenha havido suficiente imersão nesse tópico, no tempo gasto, David Neff dirige o Robert E. Webber Center for an Ancient Evangelical Future  (Centro Robert E. Webber para um Antigo-Futuro Evangélico), fundado pelo pai do Movimento Antigo-Futuro".

        Reconhecendo as inclinações inerentes e históricas da revista, Galli observa que "a igreja antiga cativou a imaginação evangélica durante algum tempo [embora] não tenha sido, senão recentemente, que isto se tornou aceito no cenário evangélico.  E isso é para o bem." (Ênfase acrescentada). Sem dúvida esta é a opinião de Galli, com a qual, infelizmente, uma grande multidão de influentes líderes cristãos tem concordado.

        Robert E. Webber, falecido no ano passado, é sem dúvida "o pai do Movimento Antigo-Futuro" e seus muitos livros têm dado encorajamento e conteúdo para as reuniões de companheirismo da Igreja Emergente. Como professor do Wheaton College durante três décadas, ele também desempenhou um papel importante na influência e capitulação dessa instituição evangélica ao Ecumenismo, particularmente com o seu apoio ao Catolicismo Romano (Ver a TBC de julho 2002 de T.A. sobre a ECT em Wheaton). Webber escreveu em seu livro intitulado "Ancient-Future Faith: Rethinking Evangelism for PostModern World":  "Atualmente a sociedade ocidental se encontra na transição de um mundo moderno para um mundo pós-moderno... empurrando-nos em direção à aceitação de novos valores...  resultando numa completa cultura nova e levantando novas questões sobre a maneira pela qual um Cristianismo Bíblico deve ser compreendido e comunicado". (1). A solução para o Cristianismo tornar-se viável, nessa fase de transição defendida por Webber, é "reaver o contexto geralmente aceito da fé, que teve origem com os apóstolos e foi desenvolvido pelos Pais da Igreja, o qual tem sido entregue pela igreja em suas tradições litúrgicas e teológicas". (2). Essa moldura de fé dos Pais da Igreja, junto com as suas tradições "teológicas e litúrgicas", é primeiramente encontrada, segundo Webber, entre os anos 100 a 600 d.C., e foi essa a era da igreja que muitos preletores da Wheaton Theology Conference de 2007 defenderam, enfocando a "fé antiga para a igreja do futuro", dedicando-lhe elogios. A CT descreve o que aconteceu mo Billy Graham Center, no Cliff Barrows Auditorium, inclusive a condução da audiência pelas orações do "Gelasian Sacramentary Book of Sacraments of the Church of Rome" , um livro do século V da liturgia católica, contendo instruções do sacerdote para a celebração da Eucaristia e recomendando-o para os cultos de adoração nas igrejas protestantes de hoje.  Um dos preletores promoveu a "hermenêutica quádrupla medieval", a qual enfatiza a interpretação não literal da Bíblia e outras "notícias alegremente passadas" a essa multidão altamente receptiva de que a Liberty University até guardou o tempo litúrgico da Quaresma.  

         Em seguida, o autor do artigo pergunta: "Os católicos comandaram?" Nessa antiga fortaleza do Evangelicalismo, a resposta foi NÃO!

         Essa conferência do Wheaton College  foi exclusivamente para os evangélicos olharem para o passado, em busca de "ricos tesouros bíblicos, espirituais e teológicos a serem encontrados dentro da igreja primitiva, conforme supridos pelos Pais da Igreja primitiva."  (3).

        Será que os evangélicos precisam realmente prestar atenção aos Pais da Igreja? O professor universitário D. H. Williams, autor da obra "Evangelicals and Tradition"  substanciou: "Quanto ao recente surgimento do interesse dos evangélicos pela Patrística  (estudo dos Pais da Igreja), quem teria imaginado, uma década atrás, que um dos mais vibrantes e sérios campos do  estudo do cristão, no início do século 21, seria sobre os Pais da Igreja? Tem havido uma abertura de novas avenidas... (criadas) pela quase instantânea popularidade dos bispos e monges, mártires e apologistas, filósofos e historiadores, que primeiro delinearam uma cultura cristã, há 1.500 anos" (4).

         Embora esses desenvolvimentos possam parecer chocantemente novos para alguns e pareçam ter surgido da noite para o dia, a CT dá algum pano de fundo preparatório (N.T.: Ver Misticismo Evangélico do mesmo autor, traduzido por mim, no mês passado). O artigo cita Robert Weber, a  partir do seu controverso livro "Common Roots": "Meu argumento é que a era da igreja primitiva (100 a 500 d.C.) e, particularmente, o segundo século, contêm insights que os evangélicos precisam reaver)" (CT observa que, 25 anos depois, Weber se alegra, em seu livro "Younger Evangelicals", que esses (irmãos dos emergentes) "desejem mergulhar no passado e formar uma cultura que está conectada ao passado..."

         Quase uma década antes do "Common Roots", uma porção de líderes da Campus Crusade prosseguiu com a sua própria "retomada" das liturgias antigas, especialmente a Ortodoxia Oriental. Peter Gilquist, Jack Sparks, Jon Braun e outros abandonaram a Campus Crusade xxx para formar o que seria o precursor do atual Movimento Antigo-Futuro-Emergente.  Eles se voltaram para os escritos dos Pais da Igreja, "a fim de praticarem uma forma mais litúrgica de adoração do que a do antigo pano de fundo evangélico."  (5) Eles batizaram o seu movimento, The New Covenant Apostolic Order e mais tarde de Evangelical Ortodox Church.

         Em 1978, o quaker e editor conselheiro da CT, Richard Foster, escreveu "Celebração da Disciplina". Seu livro, que apresentou as técnicas católicas de meditações ocultistas aos evangélicos, vendeu mais de um milhão de exemplares e foi selecionado pela CT como um dos dez mais importantes do século 20. Mais tarde, Richard Foster formou a Renovaré, uma organização dedicada ao ensino da formação espiritual através das crenças e práticas dos místicos ortodoxos orientais e dos Pais do Deserto católicos romanos. Eugene Peterson (editor da CT), autor da popularíssima Bíblia parafraseada (The Message), foi o autor do Novo Testamento da Bíblia Renovaré de Formação Espiritual.

Estes desenvolvimentos são fundamentais para o fenômeno da atual Igreja Emergente, indicando que suas raízes se espalham para muito além de ser apenas uma inclinação da juventude evangélica.  Apoio mais recente (observado na TBC do mês passado) é a mudança de atitude dos evangélicos em relação ao Catolicismo Romano, promulgada no documento "Evangélicos e Católicos Juntos: A Missão Cristã do Terceiro Milênio" (ECT), um esforço de Chuck Colson e Richard Foster e Richard Neuhaus (editores da CT). Também conta o espantoso sucesso (graças aos evangélicos) do filme extremamente católico de Mel Gibson - A Paixão de Cristo. Será que existe aqui alguma coisa que seja para o bem, conforme declara a CT?

Vamos conferir pelas Escrituras e ser simplesmente razoáveis (Isaías 1:18). A busca do Antigo-Futuro para descobrir algumas gemas do Cristianismo clássico chega com um atraso de um século em relação ao século em que o Novo Testamento foi escrito. A crítica diferença deveria ser óbvia. Os escritores do Novo Testamento foram inspirados pelo Espírito Santo, quando escreveram a Palavra de Deus (2 Timóteo 3:16 e 2 Pedro 1:21,22). Qual dos escritores do ano 100 d.C. e dos anos seguintes pode garantir essa inspiração? NENHUM! Eles dizem que alguns desses autores foram discípulos ou viveram no tempo dos apóstolos. É verdade! Mas a proximidade dos apóstolos dificilmente pode ser uma garantia contra a heresia, nem se aproxima da inspiração. Além disso, muitos dos escritores do Novo Testamento repreendem e corrigem os erros que já estava entrando na igreja.

Lembrem-se do apóstolo Paulo admoestando os anciãos de Éfeso, aqueles que estavam sempre mais perto de Paulo do que os chamados Pais da Igreja: "Olhai, pois, por vós, e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue. Porque eu sei isto que, depois da minha partida, entrarão no meio de vós lobos cruéis, que não pouparão ao rebanho; e que de entre vós mesmos se levantarão homens que falarão coisas perversas, para atraírem os discípulos após si. Portanto, vigiai, lembrando-vos de que durante três anos, não cessei, noite e dia, de admoestar com lágrimas a cada um de vós".  (Atos 20:28-31)

Será que algum desses poderia dizer o mesmo que Paulo disse em Filipenses 4:9? - "O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso fazei; e o Deus de paz será convosco".  Podemos confiar totalmente nestas inspiradas palavras. Por outro lado, existem poucas pesquisas a respeito de homens como Orígenes, Irineu, Tertuliano, Clemente de Alexandria, Cipriano, Justino Mártir, Atanásio, João Crisóstomo, Cirilo de Alexandria, Agostinho [de Hipona] e outros, a fim de que se encontrem suas imperfeições, sem falar nas heresias. Por exemplo, Orígenes ensinava que Deus iria salvar todos os homens e que Maria foi virgem perpétua; Irineu acreditava que o pão e o vinho se transformavam literalmente no corpo e sangue de Cristo, após a consagração; também o criam João Crisóstomo e Cirilo de Alexandria; Atanásio ensinava a salvação através do batismo; Tertuliano apoiava as heresias montanistas e foi o promotor de uma classe clerical, o mesmo fazendo o seu discípulo Cipriano. Agostinho foi o principal arquiteto dos dogmas católicos, os quais incluem o Purgatório, a regeneração batismal, o batismo infantil, os pecados veniais e mortais, as orações aos mortos, a penitência pelos pecados, a absolvição dada por um sacerdote, a imaculada conceição de Maria, os apócrifos como Escritura, etc.

Isso não significa que esses homens fizessem tudo errado. Alguns deles foram fiéis a muitas doutrinas, tendo defendido a Escritura contra o desenvolvimento dos dogmas não bíblicos da Igreja Católica Romana.

Mesmo assim, eles são um campo minado. Então, por que ir em busca dos mesmos [quando temos a infalível Palavra de Deus inspirada?]? Muito piores são os Pais do Deserto e os místicos católicos: Antônio, o Grande, conhecido como o pai do monasticismo, é o mais reverenciado dos Pais do Deserto.  Conforme Atanásio, o Diabo fustigava Antonio, afligindo-o com a monotonia, preguiça e fantasia de mulheres, o que ele resolveu combater, tornando-se um eremita e isolando-se durante anos dentro de uma tumba. Ele se comunicava com o mundo exterior através de uma fresta, a qual o possibilitava a receber os alimentos e a dar conselhos espirituais. Supostamente, o Diabo, aborrecido com a sua santidade, aparecia e o fustigava impiedosamente.

Mais tarde, os místicos não foram menos bizarros. A freira beneditina Juliana de Norwick, uma entre os místicos favoritos dos fãs evangélicos, e das feministas "cristãs", acreditava na salvação universal, que Deus estava em todas as coisas, referia-se a Deus como "Pai/Mãe" e experimentava intensas visões do céu e do inferno.  Sua frase mais famosa tornou-se um mantra mental positivo: "Tudo vai dar certo. Tudo vai acabar bem, e de todas as maneiras tudo vai dar certo". Como Antonio, ela também se exilou numa cela  ligada à igreja, na qual uma janelinha provia acesso ao alimento e a visão do altar da igreja e da Eucaristia.

Será que esses eremitas e místicos realmente interessam aos evangélicos? A CT diz que sim!

Referindo-se aos evangélicos monásticos e ao "novo monasticismo", com uma inserção no artigo da capa, a CT observa como "um crescente número de evangélicos está se apaixonando com um novo amor pela tradição cristã, além dos livros e conversas, sendo que muitos agora usam velas no Advento. Milhares de práticas católicas associadas à quaresma..." A CT credita os Clássicos Devocionais de Richard Foster como sendo, possivelmente, o combustível para essa última tendência, observando que Brian McLaren, Tony Jones e uma porção de escritores da Igreja Emergente têm convocado os modelos monásticos como guias para o futuro. (6).

Como um ex-católico romano, fico alarmado com uma pessoa sobre quem a CT fala de uma experiência com os sinais e maravilhas que mudou sua vida protestante. Ele recebeu a Eucaristia (supostamente como o corpo e o sangue de Cristo sob as aparências de pão e vinho), quando estava no centro de um retiro católico: "Você pode crer que eu fiquei surpreso e cheio de alegria!... Jamais tive uma experiência igual àquela em toda a minha vida... Eu dialogava com outra tradição de adoração e certamente me sentia mais rico com a mesma".  (7). Milhares de cristãos bíblicos fiéis foram martirizados por terem recusado a dobrar-se num culto de adoração idólatra de negação do evangelho, que ele está promovendo ostensivamente. Robert Webber, por exemplo, escreve:

"O líder da Campus Crusade que se tornou sacerdote ortodoxo - Peter Gilquist, explica  a nova missão que ele e os que a ele se juntaram têm: "nosso desejo é transformar a América em ortodoxa". Como ex-conservadores evangélicos, eles acreditam que "se pudemos nos tornar ortodoxos, então a América também pode". Além do mais, devido à sua apologética e treinamento evangélico, afirmam: "...nós representamos um grande esforço para a evangelização ortodoxa... e sabemos que existem muitos outros como nós, que se tiverem tempo e persuasão, irão juntar-se às fileiras ortodoxas, do mesmo modo como o fizemos."  (8)

Isso vai passar logo? Não. Tudo faz parte das agendas co-relacionadas, as quais estão construindo a igreja apóstata dos últimos dias (Apocalipse 13:8). Suas ferramentas são o experimentalismo, o subjetivismo, o misticismo, o dominionismo, todos eles agressiva e obstinadamente subvertendo a Palavra de Deus. Eles estão intencionalmente (ou inadvertidamente) sendo usados pelo principal esquema de Satanás contra Deus e a humanidade: "É assim que Deus disse?" (Gênesis 3:1), enquanto minam a Sua Verdade.  Deus está agindo contra isso? Sim, conforme está evidenciado, no que está sendo apresentado e muito mais. Ele está enviando a "operação do erro a todos os que não creram a Verdade" (2 Tessalonicenses 2:10-12).

Precisamos, desesperadamente, dar atenção às palavras que Jesus fala em Apocalipse 2 e 3, as quais advertem as igrejas que professam pertencer-Lhe. À igreja de Laodicéia, que apresenta semelhança com a última igreja da era, antes de sua volta, Ele declara:  "Eu repreendo e castigo a todos quantos amo; sê pois zeloso, e arrepende-te. Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo. Ao que vencer lhe concederei que se assente comigo no meu trono; assim como eu venci, e me assentei com meu Pai no seu trono. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas" (Apocalipse 3:19-22).

 

Bibliografia:

 

1.      Robert E. Webber, Ancient-Future Faith: Rethinking Evangelicalism for a Postmodern World (Baker Academic, 1999), 15.

2.      Ibid., 17.

3.      Mark Galli, "Lost Secrets of the Ancient Church," Christianity Today, February 2008, 23.

4.      Ibid., 24.

5.      http://en.wikipedia.org/wiki/Evangelical_Orthodox_Church.

6.      Galli, Christianity, 28.

7.      Robert Webber, Signs and Wonders (Nashville, TN:Star Song Publishing Group, 1992), 5.

8.      Peter Gillquist, "Arrowhead Springs To Antioch:Odyssey To Orthodoxy," The Word, October 1987.

 

TBC Março 2008 - T. A. McMahon -"Ancient-Future Heresies".

Traduzido por Mary Schultze, 26/03/2008 -

www.cpr.org.br/Mary.htm