Psiquiatria da criança e do adolescente, tudo em um tratado

Um legado que reúne as chaves desta, tão interessante como às vezes desconhecida, ramo da Psiquiatria, graças ao trabalho de reconhecida especialista Maria Jesus Mardomingo. Uma carreira repleta de conhecimento, experiência e sentimentos. Nos conta em seu livro, olhando para a psiquiatria infantil e juvenil-a diretamente nos olhos

Quinta-feira 10.07.2014

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Segunda-feira 17.03.2014

Segunda-feira, 29.10.2012

Terça-feira, 30.10.2012

A Medicina é uma profissão vocacional, não é a única; uma profissão onde a experiência não é um grau. Maria Jesus Mardomingo é presidente de honra da Associação brasileira de Psiquiatria da Criança e do Adolescente e pioneira em criar uma Unidade de Psiquiatria infantil em Portugal.

Nossa entrevistada reúne vocação, experiência, conhecimento e algo mais que não se aprende na escola, nem na consulta: paixão em maiúsculas por sua profissão.

Todo esse coquetel está espremido em seu “Tratado de Psiquiatria da criança e do adolescente”, editado por Díaz de Santos; um livro de autor que encerra uma grande coerência. Um tratado dirigido aos médicos, psiquiatras infantis, neuropediatras, pediatras, psiquiatras gerais e que também pode ser lido, ao menos em algumas de suas partes, por qualquer pessoa interessada pelo tema.

Na primeira parte deste tratado, consiste de cinco, você explica o que é a psiquiatria infantil.

Analiso a singularidade desta disciplina; os problemas que suscita a investigação, a docência e a capacidade para transmitir estes conhecimentos e esta arte também para os futuros psiquiatras infantis. A bordo da atual crise da universidade e da educação em nosso país.

A parte científica é também fundamental, em seu tratado.

A segunda parte dedicada aos fundamentos neurobiológicos das doenças psiquiátricas, as últimas investigações e, sobretudo, os grandes avanços que houve na genética e epigenética.

Já conhecemos o genoma, conhecemos, também, muito do epigenoma e outros grandes projetos da genética de nossos dias, mas também de como se desenvolve o cérebro e o quão importante são os primeiros anos de vida, as experiências iniciais, a importância do estresse e de como o estresse pode ser fonte de doenças de todo o tipo, mas também psiquiátricas.

Conhecer os diferentes problemas para detectar cada caso e acertar com o diagnóstico são passos fundamentais.

Conhecer bem os transtornos psiquiátricos infantis como tal. Para isso, dedico a terceira parte do tratado. Começo com a depressão, transtornos de ansiedade, de conduta, a esquizofrenia, de alimentação, o autismo, o divórcio e a separação dos pais, os problemas de identidade sexual, um percurso por toda a psiquiatria infantil.

A avaliação e o diagnóstico são os seguintes passos. Se não há uma boa avaliação não vai diagnosticar bem, e se não for feito, o tratamento vai mal. A avaliação psiquiátrica, psicológica, e também tratamento, nesta quarta parte, as técnicas de imagem que tanto nos estão ensinando sobre o funcionamento do cérebro e da estrutura do cérebro.

Para terminar o tratado de bordo o tratamento medicamentoso, a psicoterapia, o que acontece em momentos de urgência e terminou com o último capítulo que o dedico à ética; os princípios éticos que devem nortear a prática médica em geral e a prática psiquiátrica em particular. Eu gostaria de colocar um decálogo de princípios éticos e dedico aos meus alunos para que o considerem quando querem.

Observamos o paradoxo de viver em uma sociedade mais “esclarecidas” da História, que convive com uma grande falta de comunicação pessoal e de laços afetivos. Podem ser duas causas de doenças?

Acreditamos que sim. É muito importante. Há muitos estudos que têm como objetivo avaliar em que medida as transformações sociais, ao longo do século XX, ocorreram de forma muito acelerada e suas consequências. Ver, a partir de meados do século XX, como essas grandes transformações sociais, se influenciam e em que medida a prevalência de doenças psiquiátricas, isto é, com que freqüência afetam a população.

A depressão é a praga atual?

Há muitos estudos que se centram na depressão em concreto. Impacto dos novos modos de vida em que começa a vida moderna, há 10.000 anos, quando começa a agricultura, mas depois há períodos de aceleração.

A vida mudou muito, muitas pessoas cujos avós foram agricultores, viviam em meios rurais pequenos, depois veio a industrialização, dos serviços, da informação, da informática e foi visto que a depressão tem aumentado muito desde a Primeira Guerra Mundial até aos nossos dias. Há uma correlação entre as taxas de depressão e produto interno bruto. Entre o desenvolvimento humano e depressão e que acima de tudo, é uma das chaves é a desigualdade.

À medida que um país se desenvolve taxa de depressão aumenta; as causas são as seguintes: a vida sedentária, a falta de atividade física; outra são as mudanças na alimentação, come-se de um modo diferente e de alimentos diferentes; uma terceira concentra-se nas alterações no sono, dorme muito menos, e outra é a menor exposição ao sol. Cada vez se trabalha mais em ambientes fechados e isso vê-se com maior intensidade nos países nórdicos que não têm sol. A quinta causa é a alteração nos valores. Passou de um mundo em que parece que predominavam valores intrínsecos aos valores extrínsecos. Os intrínsecos são ter um projeto pessoal, as relações de afeto e apoio mútuos, o contato social e dentro desse projeto pessoal, a dimensão altruísta de querer prestar um serviço à sociedade.

Os extrínsecos são o dinheiro, o sucesso e a aparência. Há um estudo que aborda especificamente a solidão. Um estudo sociológico expõe, desde os anos 80 até agora, quantos amigos íntimos temos que poder compartilhar algo muito pessoal que nos afeta.

Em 1982, a média dizia três amigos; a moda, o dado que mais se repete em uma distribuição, o número maior de sujeitos diziam que tinham 2; há quatro ou cinco anos, a média caiu para dois e a moda a zero.

Portanto, a maioria das pessoas a quem haviam perguntado diziam que não tinham a ninguém; nem um amigo íntimo com quem compartilhá-lo.

O uso de internet, que também tem mui grandes vantagens, se correlacionam com o sentimento de solidão e com o sentimento de desânimo. Ou seja, há uma substituição ingênua de comunicação pessoal através dos aparelhos.

Nós temos ido tão atrás como para ir já para a frente?

Acho que sim, e, além disso, o problema é que temos interiorizado que o que conta na vida é o dinheiro, o sucesso e a aparência e nos tornamos escravos de nós mesmos. Não precisamos de um tirano que nos faz trabalhar como escravos, mas que nós mesmos somos esse mesmo tirano porque temos crido.

O que temos avançado para detectar e tratar os problemas mentais?

Cada vez temos mais instrumentos de avaliação adequados. Ou seja, temos instrumentos que nos permitem diagnosticar uma depressão, ansiedade, esquizofrenia, TDAH; são escalas que foram muito bem estudadas e que sabemos que detectam esses problemas.

Mas junto a isso, foi avançando muito o julgamento clínico do médico; continua a ser a referência final, isso não é substituído por nada. Avançar também em docência para saber transmitir aos alunos e aos médicos mais jovens e não tão jovens é fundamental. Na avaliação temos avançado muito. Sabemos que para que uma criança se lhe faça diagnóstico de TDAH tem que cumprir alguns critérios, o médico deve conhecê-los, aplicá-los corretamente e aplicar a sua experiência no contato pessoal com os pacientes.

Dispomos de tratamentos farmacológicos que são altamente eficazes, o tratamento através da psicoterapia é tão importante como o farmacológico que, além disso, se complementam.

Diante tinha um tremendo erro: ou um ou outro; além disso, a psicoterapia atua pelos mesmos mecanismos cerebrais que atua o tratamento farmacológico. É química também. Produz efeitos químicos. Se tem avançado muito no tratamento de crianças através da educação e da formação dos pais.

Quanto à ética, eu acho que é a base da medicina. Temos os princípios hipocráticos que regem uma máxima fundamental. O primeiro, o bem do paciente e todo o resto está sujeita a isso. Essa chave como se aplica um tratamento: aquele em que o paciente vai se beneficia mais. Não só pela sua doença, mas também para as suas circunstâncias pessoais e familiares. Menos graves e que lhe produza menos estresse e que tudo isso se integre esse bem supremo que é o que nós fazemos médicos.

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